UFRGS e a Covid-19

Estrutura para realização do teste de covid-19 transforma o ICBS

< Voltar
Sumário
Foto: Flávio Dutra/JU

Alunos, técnicos e professores modificam seu cotidiano como pesquisadores para executar uma prestação de serviço à sociedade

Por Felipe Ewald/Jornal da Universidade

Doutoranda em Ciências Veterinárias, Daniela Puhl me recebe vestida à paisana no Laboratório de Virologia no terceiro andar do Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS). Digo à paisana porque é a única que não está coberta da cabeça aos pés como seus colegas – ela estava de saída para um intervalo quando bati com os nós dos dedos na porta de madeira escura e pesada.

Ali eles passam os dias de prontidão para receber as amostras coletadas de pacientes e profissionais da saúde na região metropolitana de Porto Alegre. Depois disso, procedem à extração de RNA do material para prepará-lo para a etapa subsequente do processo de testagem para covid-19 – serviço que vem sendo realizado por cerca de 80 voluntários no ICBS desde o dia 16 de abril.

Habitué no laboratório, Daniela me explica que nenhuma das salas está como era antes: “Tivemos que nós mesmas desmontar armários, arrastar mesas e equipamentos para permitir o fluxo de amostras”. Diferentes também são as pessoas que circulam por ali nestes dias. “O mais bacana é que tem voluntários que não trabalham nem com vírus nem com bichos, trabalham com plantas, mas têm noção de biossegurança, pipetagem, necessárias para o processo de preparo de amostras e extração do RNA pra fazer o teste molecular. Também estão aprendendo coisas novas e buscando aperfeiçoar suas técnicas de trabalho”, conta com a intensidade que, adivinho, parece ser característica sua, enquanto agita a cabeça e os cabelos lisos presos em rabo de cavalo vão de um lado para o outro.

Instituto de Ciências Básicas da Saúde realiza testes de diagnóstico de coronavírus para instituições da rede pública de saúde (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Apesar de se tratar de uma ação voluntária, a doutoranda me diz assertiva que estão trabalhando muitas horas a mais, seja no processamento das amostras, seja em casa – “e nada desse esforço é voltado para nossas pesquisas”. Ela garante que dedica todo o tempo para pesquisar os protocolos, padronizar reagentes que possam baratear ou tornar mais prático o processo – para fazer uma extração de RNA em menos tempo e com mais confiabilidade. Isso também porque o material pode chegar com características diferentes e exigir adaptações.

“Tem vezes que saímos tarde, porque algumas amostras têm urgência – são de pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Ocasionalmente, também viemos nos finais de semana pra processar algumas amostras pra que isso seja feito dentro das 48-72 horas após a coleta e não haja degradação do material”, assevera.

Ainda que esse ritmo intenso e os horários desregulados possam fazer parte da rotina de muitos pesquisadores que têm experimentos em laboratório, a realização fabril de testes em série, assegura Daniela, não constitui a lógica da academia, a qual, em linhas gerais, se propõe a fornecer respostas para dúvidas que surgem do cotidiano.

“Estamos fazendo repetidamente o mesmo processo – ainda que, claro, busquemos aperfeiçoá-lo. Mas com isso estamos colocando em prática todo o nosso conhecimento como profissionais que somos.”

Daniela Puhl
Contendo o pesquisador em si

A desenvoltura de Daniela é própria do perfil das pessoas que vou conhecendo ao circular pelas diferentes etapas do processo e que está muito ligado à característica da pesquisa científica.

Diretora do ICBS e coordenadora da iniciativa, a professora Ilma Brum da Silva conta que isso foi um pouco difícil no começo, mas que os voluntários se adaptaram rápido. “Desde o início deixamos muito claro: agora precisamos mudar o pensamento. Vamos organizar uma ação conjunta em que cada equipe tem sua função e precisamos, do recebimento da amostra até o resultado, que essas equipes funcionem em sincronia. Então não é hora de ficar pensando se vai botar 5 ou 10 microlitros no protocolo. Precisamos pegar o protocolo e executar. É claro que validamos todos os protocolos antes de iniciar os testes, fazemos algumas adaptações, mas no momento em que temos os resultados estabelecemos o que deve ser seguido”, enfatiza.

Na sala ao lado do Laboratório de Virologia, escuto algo parecido de Bruno Becker, técnico de laboratório na Faculdade de Veterinária e doutor na área de reprodução animal. Ele comenta que se, numa situação de pesquisa, encontra um problema, discute com o orientador e realiza as modificações ele mesmo.

“Aqui tem uma equipe atuando. A lógica é seguir o protocolo, padronizar procedimentos e reportar problemas – eventualmente a gente sugere soluções. Nesse sentido, trata-se de um trabalho estritamente técnico. Quem faz pesquisa está acostumado a se virar e contornar as situações que aparecem. Isso às vezes gera alguns atritos, porque tem pessoas que têm uma proatividade muito forte, só que aqui não é o lugar. No geral, o pessoal tem conseguido se segurar e modificar sua postura para respeitar as etapas.”

Bruno Becker

Habituado com os equipamentos e as rotinas em seu trabalho – “ainda que não com viés de diagnóstico”, sublinha –, Bruno é voluntário na etapa em que as amostras são processadas nos termocicladores – máquinas que elevam e reduzem a temperatura e onde, em interação com os reagentes, o RNA do vírus fica luminescente, o que possibilita sua detecção. Este é o teste PCR, que verifica se a pessoa tem o vírus ativo – diferente do teste rápido, que detecta se o indivíduo já teve o vírus e criou anticorpos. Quem me explicou a diferença foi o professor Marcelo Lazzaron Lamers, também coordenador da iniciativa do ICBS, que, ao me conduzir pelas diferentes etapas, saudava quase todos os voluntários pelo nome e ia peculiarmente abrindo as portas de madeira, empurrando-as pela fechadura superior, que fica a dois terços da altura da folha direita – ele, que é um homem magro e alto, precisa esticar o braço para alcançar aquele ponto, tal é a envergadura da abertura.

O recinto onde estão os equipamentos originalmente abrigava um laboratório de ensino. Os cerca de 30 microscópios se encontram cobertos por capas e enfileirados sobre mesas encostadas no fundo da sala junto às janelas.

Laboratório de ensino do ICBS foi adaptado para o uso de termocicladores que realizam o teste RT-PCR (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Essa transformação do espaço de ensino e pesquisa em local de prestação de serviços foi, segundo Ilma, um grande desafio. “No momento em que a situação de pandemia foi decretada e chegou mais próxima a nossa realidade, pensamos que podíamos mobilizar nossa infraestrutura para a realização de testes, que era a maior necessidade daquele momento. Isso é uma coisa que a gente sabe fazer. Na verdade, muitas das técnicas utilizadas são as mesmas que usamos diariamente na pesquisa. O que não tínhamos experiência era com a prestação de serviço nesses moldes”, comenta.

Na sala da direção do ICBS, as paredes têm acabamento com madeira escura até a meia altura, e logo acima está, em três faces do recinto, uma galeria de retratos dos antigos diretores. O espaço é amplo e tem um número grande de cadeiras armazenadas em três carreiras, formando como que uma plateia a nos assistir enquanto conversamos junto à longa mesa de reuniões. Sentada na ponta com uma postura confiante, Ilma me explica que a primeira medida tomada foi verificar se teriam voluntárias para trabalhar numa ação conjunta, além de equipamentos suficientes. “Nossa ideia era fazer uma estrutura que tivesse uma boa capacidade de ação. Rapidamente tivemos a resposta da nossa comunidade interna em relação aos equipamentos – vários laboratórios cederam aparelhos, especialmente os termocicladores que fazem o teste. O que nos falta até hoje é o extrator automático de RNA – já conseguimos o recurso, mas estamos em busca de um fornecedor que possa nos entregar em curto espaço de tempo, sendo que também há uma possibilidade de doação. Automatizando essa etapa do processo aumenta muito a capacidade de realização dos testes.”

Um contraste de vestimentas

Retrocedo no processo e me dirijo ao primeiro andar. Sigo por dentro do prédio num longo corredor um tanto escuro – a luminosidade mais intensa vem apenas da porta aberta na outra ponta. Logo me deparo com um cartaz que demarca uma área com risco de infecção.

Aproximo-me da porta por onde entra o dia e me recebe, toda paramentada com macacão, máscara dupla e luvas, a professora do departamento de Ciências Morfológicas Tatiana Luft. Emoldurados de branco, seus olhos me contam animados que se voluntariou imediatamente para participar da iniciativa, pois recentemente voltou do pós-doutorado e estava ansiosa para retomar as atividades na Universidade.

Como não trabalha com PCR, colocou-se à disposição para atuar no que fosse necessário. Então foi designada para a etapa inicial do processo, no recebimento das amostras trazidas pelas prefeituras da região metropolitana.

Tatiana faz questão de enfatizar que a iniciativa foi muito bem pensada por Ilma e Marcelo, que fizeram a organização e a logística. “O projeto foi visionário, porque entendeu que a pandemia iria se alongar”, diz orgulhosa.

Interrompe em nossa conversa a chegada de material, e ela me deixa para analisar a integridade das amostras e registrar a entrada no sistema GAL (Gerenciador de Ambiente Laboratorial), do Ministério da Saúde. Enquanto isso, corro de volta pelo extenso corredor, passo pela catraca e retorno ao mesmo ponto pelo lado de fora. Chego sem fôlego para, do lado de fora, descobrir que o material recebido vem de Gravataí.

ICBS tem nova rotina desde que as atividades de análise laboratorial substituíram o ensino e a pesquisa que normalmente ocupam o edifício. Ocupado por pessoas quase sempre paramentadas, uma lavanderia foi instalada para que roupas possivelmente contaminadas não saiam para a rua (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Quem me conta é Mateus Ramos Pereira, responsável pela entrega. Ele tem 23 anos e é estudante de Enfermagem na Uniritter, no câmpus FAPA, e estagiário na vigilância epidemiológica do município de Gravataí. Veste camiseta, bermuda e tênis e traz de proteção apenas uma máscara comum descartável e uma luva cirúrgica na mão direita. Comento com ele sobre o contraste com os paramentos das pessoas da recepção; responde, despreocupado, que não manuseia o material, apenas transporta. O que o faz temeroso, por outro lado, é o fato de entrar diariamente em hospitais e pronto atendimentos para buscar as amostras. “Tenho receio”, confessa, “de ter a doença e passar pra minha família. Em casa, procuro só ficar no meu quarto.”

Antes de ser desviado para essa função pela pandemia, se ocupava do registro de notificações de violência interpessoal e autoprovocada do município. Na verdade, segue responsável por essa atividade. “Não consigo mais acompanhar da mesma forma; tem muita coisa parada ainda do mês passado. Fica bastante trabalho acumulado.” E isso, ele me conta, acontece na maioria dos setores da saúde, pois os servidores estão às voltas com a covid-19.

Aumentam as testagens

Mateus diz que vem aumentando a quantidade de amostras que traz ali desde o início do funcionamento da iniciativa no ICBS: antes eram cerca de quatro, agora já têm vindo dez por dia. Isso por conta da mudança de protocolo. Se anteriormente pegava material só do hospital, passou também a recolher nas Unidades de Pronto Atendimento e no Serviço de Atenção Especializada (SAE).

De volta ao terceiro andar, percorro novamente a linha amarela traçada no chão que marca a área “limpa” – no perímetro com risco de infecção, ela é vermelha e seu traçado vem do elevador de acessibilidade recém-inaugurado, por onde o pessoal da recepção traz as amostras, até o laboratório de virologia, um percurso curto.

Na sala dos termocicladores, Bruno Becker, apenas de jaleco e máscara de pano, me revela que, por um lado, sim, a baixa quantidade inicial de testes gera certa frustração.

“A gente esperava estar aqui batendo cabeça de tanto teste. Por outro lado, justamente porque a gente está lidando com várias equipes e vários protocolos, o fato de termos poucas amostras tem ajudado a dar oportunidade de correção de falhas no processo que, se houvesse uma demanda maior, seria muito mais complicado. A gente sabe que a tendência agora é aumentar. Então esse período de adaptação foi bem interessante, porque houve vários pontos que se previam funcionar bem durante o planejamento, mas que na prática não funcionaram. Dá pra dizer que essa etapa-piloto foi bem útil.”

Bruno Becker

O aumento na última semana é confirmado por Ilma. Deu-se, ela explica, por conta da descentralização das unidades sentinelas, que podem solicitar testes. Agora também são pedidos em Unidades de Pronto Atendimento e Unidades Básicas de Saúde. “Passou de uma média de 10 por dia para cerca de 30”, contabiliza. Além disso, a formalização de um convênio com a prefeitura de Porto Alegre está em tramitação. “As equipes estão treinadas e prontas pro aumento de demanda.”

“Até agora”, comenta Bruno, “analisamos em um mês praticamente o mesmo montante que poderíamos analisar em um dia e meio. Estamos aqui prontos pro que aparecer. A perspectiva é de que vá longe.”

Ilma confidencia que foi uma grata surpresa ver a mobilização das pessoas, o entusiasmo, o desprendimento, já que muitos são servidores e alunos de graduação, mestrado e doutorado que vêm por sua vontade de trabalhar. “Isso me deixa muito satisfeita, porque essa é a resposta que nós podemos dar pra sociedade. Temos capacidade técnica e de pessoal pra responder a demandas inesperadas como esta da pandemia do coronavírus”, conclui.

A partir da sala da direção do ICBS, Ilma Brum e Marcelo Lamers coordenam todo o esforço que envolve uma série de procedimentos, protocolos, voluntários, equipamentos e insumos para a realização dos testes (Fotos: Flávio Dutra/JU)

Tags: