Uma breve linha do tempo
Atualizado até 13/04/2020
Prof. Ng Haig They
(Departamento Interdisciplinar/CECLIMAR/UFRGS)
O mundo tem sido assolado desde dezembro de 2019 por uma pandemia de impactos catastróficos que tem ceifado inúmeras vidas humanas, colapsado sistemas de saúde e economias de diversos países. Mas o que sabemos objetivamente até agora sobre a COVID-19?
Primeiramente, é importante a distinção entre o agente causador da doença, o vírus [1], que possui um nome comprido e complicado: Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2, ou mais simplificadamente SARS-CoV-2 e a doença causada por ele, que é a Coronavirus Disease 2019 (COVID-19). No uso popular temos nos referido a ele simplesmente como coronavírus, mas existem vários tipos de coronavírus e este é apenas um deles. Aliás, o nome SARS-CoV-2 foi dado justamente porque ele é bastante parecido com o vírus causador da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa ou Severe Acute Respiratory Syndrome), o SARS-CoV, que causou uma pandemia entre 2002 e 2003. Também possui relação com outra síndrome respiratória, a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio ou Middle East Respiratory Syndrome), causada por outro tipo de coronavírus, o MERS-CoV. Este vírus foi inicialmente detectado em 2012 e causou grandes surtos principalmente em 2014 e 2015, tendo casos detectados até o presente momento (Tabela 1).
Tabela 1: Comparativo entre 3 doenças causadas por coronavírus e principais dados epidemiológicos em termos globais.
| Vírus | Doença | Pandemia | Principais países afetados | Infectados | Óbitos |
| SARS-CoV | SARS1 | 2002-2003 | China, Singapura, Vietnam, Canadá | 8.422 | 916 |
| MERS-CoV | MERS2 | 2012-atual | Oriente Médio (principalmente Arábia Saudita), Ásia (Coreia) e Estados Unidos | 2.229 | 791 |
| SARS-CoV-2 | COVID-193 | 2019-presente | China, Europa (Itália e Espanha) e Estados Unidos | 1.133.758 | 62.784 |
1 – https://www.who.int/csr/sars/en/WHOconsensus.pdf
2 – https://www.who.int/csr/disease/coronavirus_infections/risk-assessment-august-2018.pdf?ua=1&ua=1&ua=1. Dados atualizados até agosto de 2018.
3 – https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200412-sitrep-83-covid-19.pdf?sfvrsn=697ce98d_4. Data de acesso: 13/04/2020.
No final de 2019 foi detectado um surto na Província chinesa de Wuhan, muito provavelmente associado ao comércio de animais vivos em um mercado público. Inicialmente, algumas pessoas começaram a apresentar quadros respiratórios de causa desconhecida que foram tratados como gripes, sendo posteriormente associados à exposição prévia ao mercado. Este foi fechado em 30 de dezembro após um alerta epidemiológico da autoridade sanitária local. Em 7 de janeiro de 2020, o vírus foi isolado e identificado como um novo tipo de coronavírus, tendo seu genoma sequenciado pela primeira vez em um trabalho publicado ainda em 9 de janeiro. Neste ponto, a doença espalhava-se atingindo principalmente pessoas idosas e com histórico de comorbidades (doenças prévias ou concomitantes), sendo o primeiro óbito registrado em 11 de janeiro na China.
A doença não tardou em tomar proporções mundiais, uma vez que no continente Americano, o primeiro caso foi registrado nos Estados Unidos em 21 de janeiro, sendo o paciente um homem que havia estado em Wuhan[2]. Na Europa os primeiros casos foram confirmados em 24 de janeiro[3]. No dia seguinte[4] foi confirmado na Austrália o primeiro caso, um paciente que havia tido contato prévio com uma pessoa infectada em Wuhan.
Na América Latina e no continente africano a pandemia chegou mais tardiamente, sendo os primeiros casos registrados no mesmo dia, em 25 de fevereiro[5]. O primeiro caso latino-americano foi registrado no Brasil sendo um homem de 61 anos recém chegado da Itália, o mesmo local de origem do primeiro paciente registrado na África[6].
Em 19 de março a China informou seu primeiro dia sem nenhum caso de transmissão local, o que foi atribuído às severas medidas de isolamento social adotadas desde janeiro. Desde então observa-se uma relativa estabilização do número total de infectados e mortos na China.
No restante do mundo, no entanto, temos visto a escalada da pandemia. A Itália[7] tornou-se o novo epicentro em 13 de março[8], tendo ultrapassado em 19 de março o número de mortos da China. Em 26 de março[9] os Estados Unidos foram apontados como um novo epicentro da pandemia, ficando atrás apenas da China e da Itália em número de casos4. No Brasil, o Ministério da Saúde declarou a transmissão comunitária[10] em 20 de março após o primeiro óbito registrado em 17 de março de um paciente que não tinha histórico de viagem ao exterior.
Até 31 de março o status atual é de quase 1,2 milhão afetados e quase 63 mil mortes (Tabela 1). Uma linha do tempo (timeline) dos principais eventos relacionados ao início da pandemia pode ser visualizada na Figura 1.

Se você deseja saber como construir uma linha do tempo como a da Figura 1, acesse a postagem realizada pelo autor no site: https://www.ufrgs.br/user/covid-19/
Qual a provável origem da doença?
Os coronavírus tem em comum a origem zoonótica (a partir de animais), sendo comumente presentes em morcegos ou roedores. Os vírus MERS-CoV e SARS-CoV encontrados primariamente em morcegos foram transmitidos aos humanos por intermediários como camelos e civetas (um tipo de mamífero carnívoro), respectivamente. No caso do SARS-CoV-2, acredita-se que o intermediário tenha sido o pangolim (outro tipo de mamífero) vendidos de maneira ilegal nos mercados chineses. Mais sobre a origem natural do coronavírus podem ser encontradas na postagem: “Evidências científicas para a origem natural do novo coronavírus“.
PARA SE MANTER ATUALIZADO:
Dados globais: Relatórios diários da Organização Mundial da Saúde: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/situation-reports
Dados do Brasil: Balanços do Ministério da Saúde:
Dados do RS: Balanços da Secretária Estadual da Saúde
http://ti.saude.rs.gov.br/covid19/
PARA SABER MAIS, ACESSE
Fonte: Rabi FA, Zoubi MSA, Kasasbeh GA, Salameh DM, AL-Nasser AD (2020) SARS-CoV-2 and Coronavirus Disease 2019: What we know so far. Pathogens 9, 231 doi:10.3390/pathogens9030231.
[1] https://www.ufrgs.br/microbiologando/voce-sabe-o-que-e-um-virus/
[2] https://www.nytimes.com/article/coronavirus-timeline.html
[3] https://www.eurosurveillance.org/content/10.2807/1560-7917.ES.2020.25.9.2000178
[4] https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200125-sitrep-5-2019-ncov.pdf?sfvrsn=429b143d_8
[5] https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46435-brasil-confirma-primeiro-caso-de-novo-coronavirus
[6] https://www.afro.who.int/news/second-covid-19-case-confirmed-africa
[7] https://edition.cnn.com/2020/03/19/europe/italy-death-toll-intl/index.html
[8] https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200314-sitrep-54-covid-19.pdf?sfvrsn=dcd46351_8
[9] https://www.nytimes.com/2020/03/26/health/usa-coronavirus-cases.html
[10] https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46568-ministerio-da-saude-declara-transmissao-comunitaria-nacional
[11] https://www.ufrgs.br/coronaviruslitoral/covid-19-origem-e-disseminacao/


O Instituto de Virologia de Wuhan mantém o maior banco de vírus da Ásia, e fica difícil crer que o surgimento do novo coronavírus tenha origem na feira local…