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As explosões de Oliver: o transcorpo e a reterritorialização de sentidos

Oliver é um menino polonês de 21 anos que tem um blog na internet. Ele escreve sobre sua vida, sobre seus gostos, a relação com seus pais, posta incontáveis selfies e responde a perguntas. Até aí, tudo bem típico. Mas quem vê as fotos de Oliver jamais imagina que ele, na verdade, nasceu com o sexo feminino. Basta ler rapidamente algum de seus posts para perceber que ele faz questão de usar o blog (http://loadingoliver.tumblr.com) para documentar sua transformação. Com uma naturalidade admirável, ele descreve detalhadamente seu processo de transexualização – e, sem pudor, desconstrói tabus.

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Ao transformar-se e passar por reconfigurações de sentido, é possível dizer, à luz da Semiótica da Cultura, que Oliver provocou explosões de sentido em seu corpo. Para Iuri Lótman (1999), a explosão se caracteriza no momento em que ocorre grande imprevisibilidade no sistema semiótico, através da interrupção e/ou rompimento nas semioses em vários níveis e sob diferentes ritmos e intensidades, o que leva à desestabilização e ao aparecimento da novidade. Oliver pode representar, nesse sentido, um transcorpo – aquele corpo que foi modificado a partir da experimentação do fenômeno da transexualidade. É justamente na passagem do corpo para esse transcorpo que se materializam as rupturas de sentido.

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Nesse âmbito, podem-se observar reterritorializações de sentido em dois domínios fundamentais: o físico e o social. O domínio físico compreende as alterações geradas a partir das transformações ocorridas no corpo, como, por exemplo, a explosão caracterizada pela transformação de uma vagina em um pênis ou pela retirada das mamas – que Oliver mostra com todos os pormenores em suas fotos. Já o domínio social abarca as rupturas de sentido provocadas pela reconfiguração desse sujeito-transcorpo em relação a si mesmo e em relação à sociedade que o circunda, na qual predomina o padrão de identidade heteronormativa. Oliver detalha as modificações de identidade e de comportamento vividas em seu ambiente social, além de descrever o relacionamento com seus pais antes e depois de iniciar a terapia hormonal.

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O mais interessante em relação à iniciativa de Oliver é observar a naturalidade com que ele explora os temas. Nada é proibido. Fala abertamente sobre sua sexualidade, sobre suas transformações corporais, sobre cirurgia de redesignação sexual. Em meio a isso tudo, fala também do cotidiano, de seus gostos, viagens e aspirações. E assim, como não poderia deixar de ser, consegue fazer com que o fato de ser transexual tenha o mesmo grau de importância que tem o fato de ele gostar de viajar, ou o fato de se interessar por design. A incrível naturalidade com que Oliver fala de si mesmo mostra que é possível que os tabus que rondam a experiência transexual já não precisem ser tabus. E consegue, então, mostrar-se absolutamente natural – assim como foi a sua própria explosão.

TEXTO

Mariana Somariva

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