Revisitando a transcriação de “Os Maias” para a televisão
Adriana Coca
A minissérie “Os Maias” (TV Globo/SIC, 2001) foi inspirada no romance homônimo do português Eça de Queiroz e, embora proponha fidelidade ao livro, vai além de uma adaptação literária para televisão e se constitui como um ato de transcriação (CAMPOS, 2013), uma tradução crítica e criativa. Adaptação e tradução ocupam caminhos teóricos distintos, nesse caso, especialmente, se convergem para reconstruir o texto literário para a televisão e, embora a proposta de Campos (2013) esteja centrada na tradução poética, suas orientações são precisas para se pensar, também, a tradução criativa no audiovisual.
É por isso que nesta reflexão me propus a ampliar os estudos sobre as questões da tradução criativa revisitando “Os Maias”, pois acredito que a produção é um trabalho de transposição literária para o audiovisual que trouxe frescor à criação de séries para a TV e sinaliza esteticamente o aparecimento de marcas estilísticas que, mais tarde, vão se sobressair na obra do diretor Luiz Fernando Carvalho, como por exemplo, as anamorfoses técnicas e cronotópicas (COCA, 2015; MACHADO, 2011) que, anos depois, foram exploradas com desenvoltura na microssérie “Capitu” (TV Globo/2008), sobre as quais já discorri em um post para o Blog Corporalidades, em 2017, em Anamorfoses Corporais Audiovisuais: o caso de Capitu.
“Os Maias” conta a história trágica de uma família lisboeta no século XIX e traz no bojo o retrato de uma aristocracia em decadência. A minissérie tem 44 capítulos, o que era usual para a época em que foi ar na TV Globo, no Brasil, e na Sociedade Independente de Comunicação – SIC, emissora privada aberta e generalista, em Portugal, coprodutora da obra. Se ainda não assistiu, vale a pena comprar o DVD, procurar alguns capítulos disponíveis no YouTube ou cenas pontuais no site Memória Globo ou acesse a plataforma digital da emissora, a Globoplay.
Assista o primeiro capítulo da minissérie – Os Maias
Patchwork
Maria Adelaide Amaral foi quem roteirizou “Os Maias” para TV, ela é portuguesa e teve durante toda a adolescência, antes de se mudar para o Brasil, um contato fundamental com a obra de Eça de Queiroz. Na transposição do texto literário para imagens em movimento, a autora, que também é dramaturga e escritora, trouxe outras referências do romancista, além do livro “Os Maias”, estão presentes na produção televisual, os textos “A Relíquia” e “A Capital”.
Além de outros livros do autor, foram consultados desenhos da época, ensaios, correspondências e anotações sobre projetos futuros, inspirações que asseguraram na história contada na TV toda a atmosfera do processo de criação de Eça de Queiroz. A exemplo da cena em que Pedro da Maia (Leonardo Vieira) e Maria Monforte (Simone Spoladore na juventude e Marília Pêra na maturidade) se encontram pela primeira vez, em uma arena de touros. Durante a investigação que Maria Adelaide fez na Biblioteca Nacional, em Portugal, ela se deparou com informações sobre textos inéditos mencionadas em um livro, entre elas, uma anotação de Eça de Queiroz sobre um romance que deveria começar com uma tourada. Logo, a inserção dessa cena, gravada na Praça de Touros Campo Pequeno, em Lisboa, à obra televisual é na verdade uma citação do próprio autor. Nesse trabalho criativo, falas de personagens de outras obras literárias de Eça também foram incorporadas ao roteiro, isso pode ser percebido nas elucubrações do amigo mais próximo do protagonista Carlos Eduardo da Maia (Fábio Assumpção), João da Ega (Selton Mello) (AMARAL, 2004). São aspectos que sinalizam como se concretiza a transcriação sugerida por Campos (2013), uma criação autônoma, reproposta, atualizada, mas que não dispensa a memória do texto de origem.
Mesmo assim, segundo Amaral (2004), só houve a sua intervenção nos momentos em que a teledramaturgia se impôs ao texto literário, por exemplo, quando a narrativa televisual tornou imperioso que a personagem Maria Monforte retornasse à história e fosse ela a portadora da trágica notícia que os amantes, prestes a se casarem, eram irmãos, pois no romance quem faz essa revelação é outra personagem, decisões como essa configuram como ocorre uma atualização ao texto original, ofertando ao telespectador “novos atos ficcionais” como pressupõe Campos (2013).
Tradução crítica e criativa
Para Haroldo de Campos (2013) traduzir é recriar um novo texto que desconstrói o original para reconstruí-lo e, assim, “traduz a tradição, reinventando-a” (p. 39, grifo do autor). Segundo ele, só dessa maneira contornamos a impossibilidade de traduzir textos criativos, quando “A apropriação da historicidade do texto-fonte pensada como uma construção de uma tradição viva é um ato até certo ponto usurpatório, que se rege pelas necessidades do presente da criação” (CAMPOS, 2013, p. 39), como fez Maria Adelaide Amaral. Nessas contingências, a tradução poética repensa os conceitos de fidelidade e liberdade. “Em vez da ‘fidelidade’ entendida como literalidade servil em função da restituição do sentido, agora a fidelidade estará, antes, numa ‘redoação da forma’” (2013, p. 103), que ele nomeia de transcriação.
Sobre a redoação da forma ou transcriação em “Os Maias”, a autora teve um aliado à altura do seu processo de (re)criação, o diretor Luiz Fernando Carvalho, que soube traduzir e recontar em imagens a dor das personagens. Destaco alguns momentos pontuais, como os longos silêncios que invadem a cena de abertura, guiada por um plano-sequência que parece interminável e acompanha o retorno de Carlos Eduardo da Maia à casa do avô, Dom Afonso (Walmor Chagas), um suspense, um sobressalto que sinaliza o que virá pela frente nos próximos capítulos. Nesse mesmo capítulo de estreia, outra cena revela um raro momento de descontração entre Dom Afonso e seu fiel amigo Vilaça (Ewerton de Castro), que brincam com a premonição de que as paredes do casarão dos Maias (O Ramalhete) escondem fatalidades inevitáveis. Essa cena, em especial, se constrói como uma espécie de anamorfose cronotópica (MACHADO, 2011; COCA, 2018), pois, ao abrir a porta da sala empoeirada e ocupada por móveis cobertos com lençóis, Carlos Eduardo revive suas memórias como se as observasse por dentro. É mais que um mero flashback, como costumamos ver compondo a ficção de TV, é como se passado e presente estivessem contracenando. Em outro capítulo, Carlos Eduardo lê um livro em sua poltrona e é captado por meio de um longo plano de câmera em travelling, o enxergamos através de um vidro que deixa sua imagem distorcida em uma anamorfose técnica (MACHADO, 2011; COCA, 2018), que pode ser traduzida como um indício de que aquela aparente tranquilidade não é bem o que está por trás da sua história de vida. Já a cena do cortejo fúnebre de Dom Afonso é captada sob um véu negro de renda, uma imagem que reforça o manto de desgraças que cobre a família Maia (COCA, 2020).
Encerro esse post com essas observações, outras relações mais detalhadas e com aprofundamento teórico podem ser lidas no capítulo de livro A transcriação de Os Maias para a televisão, disponível no acervo virtual da biblioteca da Universidade Fernando Pessoa do Porto, em Portugal.
Boa leitura!
Referências
AMARAL, Maria Adelaide. Depoimento. In: Os Maias. [DVD] Direção de Carvalho, Luiz Fernando. Rio de Janeiro: TV Globo, 2004.
CAMPOS, Haroldo. Da tradução como criação e como crítica. In: NÓBREGA, Thelma M.; TÁPIA, Marcelo (orgs.). Haroldo de Campos:Transcriação. São Paulo: Perspectiva, 2013.
COCA, Adriana. A transcriação de Os Maias para televisão. In: Souza, Jorge Pedro (org.) Jornalismo e Estudos Mediáticos. Memória III. Porto: Editora da Universidade Fernando Pessoa, 2020.
_____________. Cartografias da teledramaturgia brasileira: entre rupturas de sentidos e processos de telerrecriação. São Paulo: Labrador, 2018.
_____________. Tecendo Rupturas: o processo da recriação televisual de Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Tríbia, 2015.
MACHADO, Arlindo. Anamorfoses cronotópicas ou a quarta dimensão da imagem In PARENTE, André (org.). Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Trad. Rogério Luz et al. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2011.
Como citar este texto
COCA, Adriana Pierre. Revisitando a transcriação de “Os Maias” para a televisão”. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/revisitando-a-transcriacao-de-os-maias-para-a-televisao. Acesso em: 14 mar. 2022.
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