Do Diálogo à Psicoterapia

dodialogoHistoricamente, aprendemos a recorrer a pessoas para adquirirmos informações. A prática cultural de buscar alguém mais “experiente”, por exemplo, é algo que foi passado através das gerações devido à sua praticidade e utilidade. Durante a nossa criação, em diversas circunstâncias nossos familiares nos indicaram o nome, a posição e a função de um determinado objeto. As crianças normalmente ouvem de seus pais certas “regras” sobre como o mundo funciona e o que se deve fazer diante de um contexto X ou Y. O que temos aqui é o efeito que uma conversa pode ter sobre o comportamento.
Existem diversos transtornos mentais e problemas psicológicos que podem nos levar ao tratamento, sendo que todos eles envolvem um sofrimento significativo. Nestas horas, recorrer a amigos e familiares pode não ser suficiente ou ser benéfico apenas a curto prazo. Isto acontece porque muitas das pessoas que confiamos estão sob o efeito da desejabilidade social, ou seja, estão suscetíveis a falar aquilo que elas sabem que queremos ouvir, o que nem sempre nos ajuda a descobrir a causa de nossos problemas. É importante mantermos amizades e estarmos próximos daqueles que amamos, entretanto, às vezes precisamos conhecer melhor nossos problemas.

O que é a Psicoterapia?
Diferente de uma conversa com uma pessoa próxima, a psicoterapia não funciona apenas como um aconselhamento. O terapeuta está menos suscetível à desejabilidade social e, portanto, não busca falar algo para o paciente apenas “se sentir melhor”. O terapeuta também não busca resolver os problemas do paciente por ele. O que ocorre na psicoterapia é diferente.
No Brasil, a psicoterapia é praticada por Psicólogos Clínicos e Psiquiatras. Ela pode ser classificada como um tratamento com base em uma teoria psicológica do desenvolvimento e do comportamento humano. Existem várias abordagens de psicoterapia: comportamental; psicanalítica/psicodinâmica; humanista; cognitivo-comportamental; dentre outras. Cada uma delas é baseada em um modelo teórico que busca explicar questões como: Por que o indivíduo se comporta? Quais são as causas do comportamento? O que é sofrimento? Como modificamos o comportamento? E o que é um comportamento saudável/não-saudável? Para responder cada uma destas questões, os pesquisadores interessados na psicoterapia utilizam de métodos científicos de investigação.

Como ela é investigada?
No início das psicoterapias a única maneira de saber se um tratamento funcionava era através da observação clínica. Conforme o tratamento acontecia, o psicoterapeuta observava as reações do paciente e os sinais de melhora. Tudo que era observado deveria ser escrito e divulgado a outros terapeutas para que estes compreendessem o que acontecia no tratamento e contribuíssem com suas observações.
Com o passar do tempo, os estudos mudaram. Um psicólogo e teórico da personalidade chamado Hans Eysenck publicou, em 1952, um artigo que afirmava que o efeito dos tratamentos psicoterápicos da época não era melhor do que a passagem do tempo. Ou seja, o passar do tempo foi considerado mais terapêutico do que a terapia. Muitos pesquisadores duvidaram dos resultados de Eysenck e decidiram estudar o efeito das psicoterapias através de métodos mais rigorosos de investigação.
Alguns dos novos métodos empregados foram os Estudos de Dose-Efeito, os Ensaios Clínicos Randomizados e os Estudos de Processo da psicoterapia. Nos estudos de Dose-Efeito, os pesquisadores se perguntavam, por exemplo, quantas sessões de uma psicoterapia X eram necessárias para que houvesse melhoras nos sintomas de depressão.
O que se sabe atualmente, considerando revisões sobre o tema, é que quanto maior o número de sessões, maior a chance de melhora. Nos Ensaios Clínicos-Randomizados, os pesquisadores comparam a eficácia da psicoterapia com outros tipos de tratamento ou com pacientes em uma lista de espera. Nestes estudos, é possível verificar que diversos tipos de psicoterapia são mais eficazes do que listas de espera e também se pode mensurar qual abordagem de psicoterapia é mais eficaz para um transtorno específico. Já os Estudos de Processo avaliam todo o andamento da psicoterapia para saber quais são os principais fatores que levam à melhora de um determinado sintoma ou transtorno. É possível verificar os efeitos do comportamento do terapeuta sobre o paciente e vice-versa. Estudos de processo revelam o que é efetivo no tratamento e mostram, por exemplo, que apesar de existirem diversas abordagens de psicoterapia, terapeutas com muita experiência tendem a agir de maneira semelhante no tratamento.
Ao contrário do que Eysenck divulgou, as psicoterapias são eficazes e efetivas para uma série de transtornos. Muitas das psicoterapias são consideradas tratamentos baseados em evidência, o que quer dizer que estas são eficazes enquanto tratamentos psicológicos. Existem grupos de pesquisadores como a Sociedade pela Pesquisa em Psicoterapia (do inglês, Society for Psychotherapy Research) que estão interessados na divulgação e no reconhecimento da psicoterapia como um tratamento necessário para a saúde mental.

Além do Diálogo
Recorrer a pessoas importantes em um momento de sofrimento á algo que aprendemos ao longo de nosso desenvolvimento. Ao buscarmos psicoterapia estamos entrando em um processo de terapia com objetivos e tarefas que são criadas através do vínculo do terapeuta com seu paciente. Este vínculo não está preso a julgamentos morais sobre o que é certo ou errado, mas está ligado a perspectivas éticas que consideram o que é psicologicamente saudável ou não saudável para o paciente em tratamento. As teorias utilizadas pelo psicoterapeuta fazem com que ele tenha mais facilidade em identificar, em conjunto com o paciente, as causas dos problemas deste. As técnicas e intervenções utilizadas ao longo do tratamento são baseadas em uma ampla gama de estudos que mostra o quanto elas podem ser efetivas para os diversos transtornos mentais conhecidos.
Por fim, conversas podem ser agradáveis e fazem parte de nossas relações sociais. No entanto, quando estamos em um sofrimento significativo, aconselhamentos e trocas de informações podem não nos auxiliar. Nestes momentos, podemos recorrer ao tratamento psicoterápico para que possamos conhecer a origem de nosso desconforto e construir, em conjunto com o terapeuta, objetivos que nos levem à autonomia e à saúde mental.

Texto por: Gibson Weydmann