Diversos mitos sobre “encontrar um companheiro(a)” e o que é “ser casal” circulam entre as pessoas. Esses mitos podem ser encontrados, por exemplo, na mídia ou em provérbios populares, mas nem sempre correspondem à realidade e, algumas vezes, são conflitantes entre si. Essas ideias podem ser úteis para dar significado a fatos difíceis de serem explicados ou compreendidos, porém, algumas vezes se tornam crenças errôneas que prejudicam os relacionamentos. Vejamos alguns desses mitos e o que as pesquisas têm a dizer sobre eles.
Casais são “duas metades da laranja” ou “os opostos se atraem”?
Na cultura popular há duas ideias distintas sobre as características que cada um dos parceiros deve ter para alcançar um relacionamento feliz. Por um lado, há o ditado de que cada pessoa possui uma “cara metade” ou que um casal é como “duas metades da mesma laranja”, ou seja, somente quando encontramos a parte que nos falta, nos tornamos completos. De acordo com essa ideia, como os cônjuges são parte de um mesmo todo, quanto mais parecidos são os parceiros, mais feliz será o relacionamento. De outro lado, há a ideia de que “os opostos se atraem”, de que os parceiros devem ter características que complementem um ao outro. Embora haja pessoas que se posicionem ao lado de uma ou outra dessas ideias, quando estudamos a qualidade dos relacionamentos em relação às características de cada cônjuge vemos que as coisas não são tão simples.
De fato, algumas pesquisas sobre o tema mostram que há mais chances de que o relacionamento seja satisfatório quando as pessoas envolvidas têm características parecidas, como por exemplo: personalidade, crenças e valores. Um estudo realizado com 137 casais na Holanda, porém, demonstrou que essa situação pode variar de acordo com as circunstâncias em que o relacionamento iniciou. Nesse estudo, casais que já se conheciam antes do envolvimento amoroso tinham características mais parecidas entre si, sendo que essa similaridade estava associada com um relacionamento mais satisfatório. Porém, entre aqueles que não tinham conhecimento prévio das características do outro, e que se apaixonaram “à primeira vista”, os parceiros eram mais diversos entre si. Apesar disso, é interessante notar que esses últimos não apresentaram menor qualidade conjugal em relação aos primeiros, ou seja, o fato de os parceiros possuírem características semelhantes não esteve, necessariamente, associado a estar em um melhor relacionamento. Outros estudos também mostram que, em algumas circunstâncias, como em casais de meia idade que estão em relacionamentos longos, e em casais em que cada parceiro tem uma maneira diferente de perseguir seus objetivos (por exemplo, de maneira incisiva, entusiástica ou de forma atenta e cautelosa), as diferenças entre os cônjuges podem trazer benefícios.
Dessa forma, percebemos que tanto as similaridades como as diferenças podem servir como ferramentas em relacionamentos amorosos. As similaridades podem ser úteis para construir uma relação de intimidade, e para encontrar interesses e atividades em comum, que aproximam o casal. Já as diferenças podem auxiliar na divisão de tarefas entre os parceiros, contribuir para diversificar as estratégias de busca de objetivos e resolução de problemas quando necessário, e, de maneira geral, enriquecer o relacionamento.
Marido e mulher devem ser melhores amigos.
O casamento é fonte de toda a nossa felicidade.
Algumas pessoas acreditam que marido e mulher devem ser melhores amigos, e que a intimidade entre o casal cria uma espécie de conexão, em que é possível até mesmo adivinhar os gostos e os desejos do(a) companheiro(a). Por causa disso, um vínculo conjugal forte “aguenta tudo”, e permite que os parceiros compartilhem todos os aspectos de suas vidas. Afinal, é no casamento que encontramos nossa felicidade. Será que é assim mesmo?
É importante ter em mente que um casal é formado por duas pessoas que têm características, gostos, expectativas e pensamentos diferentes uma da outra. Embora parte de uma união, é fundamental que cada membro do casal mantenha aspectos de sua individualidade. Isso quer dizer que é impossível adivinhar o que outra pessoa pensa e deseja – e, por isso mesmo, não parece sensato acreditar que outra pessoa possa magicamente saber o que queremos, o que nos magoa e o que esperamos que essa pessoa faça. Além disso, casais que compartilham absolutamente tudo, abdicando de sua individualidade, correm o risco de sobrecarregar o relacionamento. Preservar as individualidades e os contatos sociais, como os amigos, pode ser uma boa forma de evitar que isso aconteça. Uma pesquisa realizada por Allen Barton e colegas, na Universidade da Georgia, Estados Unidos, traz resultados interessantes nesse sentido. Os pesquisadores entrevistaram 492 pessoas casadas, que responderam a perguntas sobre satisfação no casamento, saúde financeira, integração social e densidade populacional do local onde moravam. Os resultados mostraram que, para casais pouco integrados socialmente, os problemas financeiros e a urbanização tinham um impacto negativo na satisfação com o relacionamento. Porém, para casais com maior integração na comunidade, esses efeitos eram atenuados ou até mesmo inexistentes.
Assim,os relacionamentos amorosos são uma parte importante, mas apenas uma parte, de nossas vidas. Esquecer de outras relações e de outros aspectos de nossas vidas que nos fazem ser quem nós somos pode ser tão prejudicial para a vida de casal quanto adotar uma postura egoísta e descomprometida com o relacionamento.
Casais felizes não brigam.
Se duas pessoas se amam, escolhem viver juntas e querem o bem uma da outra, faz sentido que elas vivam em harmonia, sem brigas e desentendimentos, certo?
Errado!Como vimos acima, um casal é composto por dois indivíduos que constroem uma determinada maneira de se relacionar e um espaço de convivência em comum. Nesse contexto, as características e interesses individuais dos parceiros – que são formados por preferências pessoais, valores, experiências prévias com a família e amigos, entre outros – algumas vezes entram em conflito e acabam gerando desentendimentos. Por isso, dizemos que os conflitos são inerentes às relações humanas, incluindo o relacionamento de casal. Mas, se os conflitos são normais e esperados nos relacionamentos, por que alguns casais brigam tanto que acabam se separando, e outros conseguem contornar as desavenças?
O impacto dos conflitos no relacionamento depende de alguns fatores, como os temas de desentendimento – alguns conflitos são mais sensíveis e difíceis de resolver do que outros –, da intensidade das brigas, da frequência com que ocorrem e, principalmente, da maneira como são resolvidas as desavenças do dia-a-dia. De maneira geral, as pesquisas mostram que a forma mais efetiva de resolver os conflitos é negociando e tentando chegar a um acordo que atenda minimamente às necessidades de ambos os cônjuges. Em contrapartida, evitar temas sensíveis aos conflitos, guardando os sentimentos para si mesmo ou esperando que o tempo resolva os problemas não faz com que eles desapareçam, e sim retornem com mais intensidade em outro momento. Entretanto, as coisas não são tão simples. Uma pesquisa conduzida por James McNulty e Michelle Russell, que acompanhou 207 casais americanos durante oito meses, constatou que a negociação foi resolutiva a curto prazo. Porém, quando os problemas conjugais eram mais sérios, formas mais diretas e confrontativas de resolver os conflitos mostraram ser benéficas para o relacionamento a longo prazo. Assim, apesar da importância de aprender a negociar, é importante ter flexibilidade e contar com um amplo leque de alternativas ao resolver os problemas.
Analisando tudo isso, percebemos que os mitos que circulam sobre como se formam e como devem ser os relacionamentos podem nos levar a procurar por algo que não existe, como o parceiro ideal, ou a ter expectativas exageradas ou equivocadas sobre a relação de casal. Relativizar essas ideias é um passo importante para encarar as situações do dia-a-dia de casal de forma mais realista e ter um relacionamento mais saudável.
Marina Zanella Delatorre
Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
