JU | Artigo | A experiência de recomeçar após as enchentes: pedagogia das águas, escutas e narrativas de estudantes do PPG Educação

Artigo | Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou e Luciana Gruppelli Loponte, da Faculdade de Educação, refletem sobre o processo de acolhimento realizado junto aos integrantes do PPG

*Por Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou e Luciana Gruppelli Loponte
*Ilustração: Bárbara Lopes Nobre de Souza/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Recomeçar, depois de uma tragédia como a que vivemos em maio de 2024 com as enchentes no Rio Grande do Sul, é movimento sinuoso e complexo. A tragédia não acaba com o fim das chuvas ou com o baixar das águas. Há um tempo mais extenso, que se desdobra com a dor, o medo de uma nova catástrofe a cada chuvarada, os vestígios da destruição, o cheiro que exala nas casas, ruas e bairros inteiros inundados, a tristeza inconsolável diante das perdas materiais, mas também da dissipação das memórias evocadas em objetos perdidos, tudo isso e muito mais continua e continuará repercutindo na vida de muitos e muitas. A experiência dramática da tragédia nos exige perceber o que sobra e o que é possível reconstruir, tendo como princípio o grande ensinamento que o momento nos trouxe: a reconstrução será uma tarefa coletiva.

Muitos e muitas de nós, que fazemos parte da UFRGS, de diferentes formas e distintas intensidades, sofremos os impactos da tragédia. Por vezes, tivemos a possibilidade e acompanhamos, apoiamos ou participamos diretamente de muitas ações de solidariedade, de forma mais ampla, coletiva ou individual, ou como universidade. Paradoxalmente, em meio a tantas impossibilidades e incapacidades de reagir aos colapsos de toda ordem, tivemos a experiência de retomar o próprio sentido de sermos e nos percebermos como uma comunidade, a UFRGS.

O Programa de Pós-graduação em Educação (PPGEdu), como coletivo, acompanhou desde o primeiro dia os desdobramentos da enchente, articulou redes de informações para apoiar os mais atingidos e prestar-lhes os apoios necessários. Os movimentos de escuta e cuidado estenderam-se ao momento em que o coletivo do Programa sondou as possibilidades para a retomada de suas atividades. Foi preciso pensar e formular recomeços plurais, sensíveis aos desafios até então sem precedentes, como a retomada do Curso para estudantes que perderam suas casas e tudo o mais, ou aqueles/as impossibilitados/as de circular e deslocar-se, atingidos pelos medos, sofrimentos emocionais e ansiedades que paralisavam as vidas. Esses movimentos possibilitaram compreender o sentido da educação, o educativo tecido no cuidado com o outro e consigo.

Nos primeiros dias de junho, foi instaurado um grupo de trabalho – GT de Propostas para Enfrentamento dos impactos da enchente. O GT, composto de forma paritária (Magali Mendes de Menezes, Maria Stephanou, Máximo Lamela Adó, Luciana Gruppelli Loponte, Ricardo Thofehrn Coelho, Gabriel Tamanchieviz Argenton, Aida Cunha Batista e Edson Mendes), teve o objetivo de realizar um levantamento de dados sobre a situação dos estudantes do PPGEDU em relação à tragédia climática vivida no Rio Grande do Sul e formular propostas à retomada das atividades.

O GT engajou-se em uma busca atenta para que pudesse alcançar, escutar e acolher o maior número possível de estudantes vinculados ao PPGEdu. Foi preciso constituir uma rede de comunicação ativa, e a participação de todos os integrantes do coletivo do Programa foi fundamental: coordenação, orientadores/as, representantes e colegas discentes, grupos de mídias sociais, redes de pesquisa. Em um curto espaço de tempo, pôde computar 231 estudantes respondentes ao instrumento que buscou acolher as narrativas e os sentimentos, listar os impactos e as repercussões, fazer perceber o interesse da universidade pela situação e condição vivida pelos estudantes no contexto da enchente. Em um período de doze dias, 105 mestrandos e 126 doutorandos enviaram suas respostas e reflexões.

As respostas ultrapassaram qualquer caráter burocrático. Muitos/as insistiram em dizer que não existe o “ser afetado/a indiretamente”, não há curva para a dor. A quase impossibilidade de estar indiferente ao sofrimento de tantos e tantas foi expressa em cada resposta.

Assim, as narrativas textuais ou visuais sensibilizaram de tal modo que nos pusemos a sonhar com um re-começo, repleto de reconhecimento, aquele que se funda no conhecer novamente quem são nossos estudantes e como vivem. Reconhecemos, assim, estudantes que vivem em situações dramáticas do ponto vista social, aqueles/as cuja bolsa de estudos (cada vez mais escassa em nosso Programa) foi a única fonte de renda da família durante a enchente. Estudantes ou famílias cujo trabalho precarizado foi suspenso durante a tragédia que atingiu, de forma intensa, a população mais vulnerável.

Também tivemos a oportunidade de reconhecer um grupo muito expressivo de estudantes que se engajaram em ações solidárias diversas (contabilizamos 52 espaços de inserção social e educativa testemunhadas pelos estudantes). As respostas, contudo, apontam que a empatia e o voluntariado diante da dramaticidade do momento não podem substituir o poder público e sua (ir)responsabilidade em cuidar das pessoas e proteger a vida em todas as suas formas.

Não é possível ocupar um lugar de mero espectador diante da paisagem, como se fosse atemporal e etérea. Os estudantes afirmam que os tempos vividos também foram de profundos aprendizados. Foi possível nos conhecermos e nos olharmos de perto. Mas qual é o espaço na Universidade para que um Programa de Pós-graduação em Educação possa construir e partilhar seus aprendizados com a escuta daquilo que atingiu a todos e todas?

A experiência de atenção ao que nossos estudantes têm a dizer sobre o vivido nos mostrou que sem escuta não produziremos novos modos de ser-estar no mundo e na universidade. A pedagogia das águas nos ensinou que se nós, como coletivo, não formos capazes de criar espaços para acolher, cuidar, escutar, continuaremos a normalizar as tragédias e a interromper e retomar nossos calendários como se a vida em suspensão fosse um mero episódio acidental.


Magali Mendes de Menezes é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).
Maria Stephanou é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).
Luciana Gruppelli Loponte é professora da Faculdade de Educação (UFRGS).

Fonte: JU/Secom UFRGS – https://www.ufrgs.br/jornal/a-experiencia-de-recomecar-apos-as-enchentes-pedagogia-das-aguas-escutas-e-narrativas-de-estudantes-do-ppg-educacao/