Jornal da Universidade | Estudantes e pesquisadores indígenas transformam a cara da Universidade e demandam mais diálogo com as tradições dos povos originários

Educação | Trajetórias de indígenas na Universidade apontam a importância de se repensarem práticas e estruturas acadêmicas

*Foto: Primeira docente indígena da UFRGS, Rosani de Fátima Fernandes foi nesta semana nomeada como diretora de Políticas de Educação Escolar Indígena do MEC (Crédito: Pietro Scopel/JU)

Em 2004, Rosani de Fátima Fernandes, do povo Kaingang, morava numa aldeia em Marabá (Pará) quando decidiu começar seus estudos de pós-graduação. Para comunicar-se com sua futura orientadora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Rosani tinha que se locomover até a cidade para poder acessar a internet em um cybercafé. Sentada na cadeira em frente ao computador, esperava que a professora Jane Felipe Beltrão estivesse conectada. A comunicação acontecia por troca de e-mails, aos quais Rosani tinha que ler e responder rapidamente.

A orientadora já conhecia o trabalho que Rosani fazia na comunidade. Jane tinha visitado a aluna algumas vezes e topou orientá-la na construção de um projeto de pesquisa. Em 2007, Rosani ingressou no mestrado em Direito da UFPA por meio da reserva de vagas para indígenas. Em 2010, defendeu a dissertação e, sete anos depois, com a mesma orientadora, terminou o doutorado em Antropologia da UFPA.

Em 2024, Rosani ingressou na UFRGS como docente na Faculdade de Educação. Foi a primeira mulher indígena a ocupar essa posição na Universidade e diz que a relação com a orientadora foi a chave: “Ela foi a pessoa que fez toda essa costura, por isso que eu acho importante a gente ter do lado de dentro das universidades aliados e aliadas, que vão nos mostrando esses caminhos e que vão nos auxiliando a percorrer esses labirintos que são os caminhos burocráticos”.

Estudante e mãe na selva de pedras

Rejane Paféj Kanhgág, primeira mulher indígena da terra indígena Nonoai formada como psicóloga e mestra em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, lembra dos caminhos percorridos durante as aulas. Antes de começar a graduação, queria estudar Direito para trabalhar nas demarcações dos territórios indígenas do seu povo. No edital do processo seletivo para indígenas em que concorreu, porém, não havia vagas para esse curso. Ela decidiu, então, pela Psicologia.

“Eu não sabia o que uma psicóloga fazia. Foi mais ou menos assim: ‘Nossa, gostei desse nome e eu vou me inscrever nisso aqui!’. A gente ainda estava aprendendo a como ‘estar’ nesses espaços”, conta. “Acredito que, até o penúltimo ano, eu não compreendia o que era fazer psicologia, porque era uma psicologia muito hegemônica e que eu não me sentia parte desse espaço, pelo contrário, meus colegas não queriam fazer trabalhos comigo.”

A trajetória de Rejane na UFRGS teve altos e baixos, incluindo episódios de violência, mas também de resistência. No meio de uma aula na qual refletiam sobre doenças psíquicas, Rejane compartilhou os saberes que seu povo tinha a respeito da importância de escutar as vozes da floresta, da mata, dos animais como um “um sinônimo de saúde”, em contraste ao silêncio próprio da cidade, marcado pelo fato de “não escutar os outros”. A hoje psicóloga conta que a docente da disciplina julgou o comentário como “carente de comprovação científica”.

Rejane silenciou durante um tempo. No meio do seu percurso universitário, tornou-se mãe de Kafã. As dificuldades a levaram a voltar a sua comunidade e a interromper os estudos. Uma noite, em meio às conversas ao redor do fogo de chão, um dos velhos sábios da comunidade perguntou: “Por que você não está lá na selva de pedras, na universidade, falando de nós, levando o nosso povo?”. Ela respondeu que sentia que seus saberes e sua existência estavam sendo silenciados. No final da roda, ele se aproximou de Rejane e falou: “Volta lá e mostra para eles os nossos saberes”.

Foi isso que ela fez, decidida a levar a universidade para dentro da comunidade com o propósito de fazer uma pesquisa engajada com seu povo. Nesse dia nasceu o conceito proposto por ela de “psicologia das florestas”, uma saúde que faz justiça aos modos de “pensar, agir, ser e viver indígenas” e que foi tema do seu trabalho de conclusão de curso (TCC).

A escrita como faca

Se habitar a faculdade é difícil, o processo de escrever um trabalho acadêmico pode ser bem complexo. Como utilizar uma linguagem acadêmica e manter um lugar de fala? Como entrar no impessoal da escrita se os saberes são localizados e nascidos da experiência?

Edson Ribeiro, Kaingang da aldeia indígena da Guarita, em Tenente Portela, narrou essas vivências no seu TCC em Saúde Coletiva da UFRGS. O trabalho apresenta dez cartas trocadas entre Edson e seu orientador, Dário Frederico Pasche, por um período de três meses, mostrando tanto a trajetória individual do discente como as dificuldades e tarefas pendentes da universidade para acolher os estudantes indígenas. Como explica Edson: “Meu testemunho era importante tanto do ponto de vista pedagógico como do ponto de vista político”.

Para o sanitarista, existe um “choque cultural” quando os indígenas chegam à universidade: eles enfrentam dificuldades de entender os códigos próprios do mundo universitário, de saber quando e como falar, como usar o vocabulário acadêmico, além de se adaptar ao próprio ritmo da instituição para organizar as leituras e ser aprovados nas disciplinas. Edson também teve de ficar longe dos seus dois filhos durante a faculdade.

Na escrita do TCC, todos esses caminhos são devorados numa narrativa que se apropria da linguagem acadêmica para mostrar as marcas da sua resistência: “Essa experiência de estar estudando na UFRGS, não só para mim, mas para todos os estudantes indígenas, fortalece cada vez mais o aprendizado e está nos tornando uma pessoa, um cidadão que tem voz e sabe seus direitos”.

Rejane também aponta as diferenças entre a linguagem acadêmica e a linguagem usual dos povos indígenas.

“A linguagem da academia é uma linguagem muito hegemônica. E a minha linguagem é uma linguagem simples, onde o meu povo tem que me ouvir, onde o meu povo tem que me compreender. Tive de aprender a falar como uma forma de arma. Tive de aprender a escrita como uma forma de deixar um legado, deixar um registro”Rejane Paféj Kanhgág

Para Rejane, a importância do acompanhamento durante a escrita não veio só da orientadora, Rosane Azevedo Neves da Silva, mas também de outros colegas e da sua própria comunidade. Lembra muito da companhia de Clementine, uma antropóloga que se sentava com ela para conversar e escrever; assim como do monitor Rafael Filter, com quem construiu uma relação de confiança e carinho mútuo. Em caminhadas após as aulas, Rafael e Rejane compartilhavam reflexões acadêmicas e sobre a vida.

Caminhos por vir

De acordo com o último Censo da Educação Superior, o Brasil tem 46.410 estudantes indígenas matriculados em cursos de graduação no país. Destes, 19.767 estão em instituições públicas de ensino. Rosani destaca que, embora a universidade seja um espaço ocupado hoje por estudantes indígenas, o futuro ainda precisa ser construído. Os avanços conseguiram aumentar o número de estudantes, bolsistas e até docentes indígenas, mas “a gente não conseguiu romper a estrutura curricular hegemônica das universidades. A gente não conseguiu estabelecer um diálogo com as tradições orais, com as tradições coletivas, étnicas e políticas desses integrantes de coletivos étnicos no Brasil”.

Se os estudantes indígenas conseguiram ocupar tais lugares a partir de resistência e luta, também foi porque uma extensa rede de apoio e afeto acompanhou seus percursos. Amigos, colegas e aconselhadores na faculdade, filhos, sábios e ancestrais na própria comunidade, todos eles fazem parte da constituição de uma nova universidade, cada vez mais plural, construída com e desde os territórios indígenas.

Uma das demandas do movimento indígena na Universidade era a criação de uma casa do estudante específica, onde os estudantes pudessem estar na Universidade, sem se desligar dos modos de vida de suas comunidades. Em 2022, foi criada a Casa do Estudante Indígena no Câmpus Saúde (Fotos: Flávio Dutra/Arquivo JU)

Artigo publicado pelo Jornal da Universidade em 05 de fevereiro de 2025 | Reportagens. Link original da publicação: https://www.ufrgs.br/jornal/estudantes-e-pesquisadores-indigenas-transformam-a-cara-da-universidade-e-demandam-mais-dialogo-com-as-tradicoes-dos-povos-originarios/