Vicente Van Goth: arte, ancestralidade e resistência na cena drag brasileira

Entrevista por Lorde Lazzarus

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS . Foto: Paulo Neobeck

(Lorde Lazzarus) Primeiramente, gostaria de dizer que é muito especial para mim fazer essa entrevista com você, uma vez que sou fã de sua pessoa e seu trabalho, e também por já termos dividido a bancada do júri do Concurso KING OF KINGS de 2023. Foi muito marcante conhecer você no Rio em 2018, no Bixcoito Dregui Festival, organizado por Miranda Lebrão (que hoje, já é RuGirl pela segunda vez, com o Global All Stars). Na ocasião, você fazia parte da “Exposição Viva” e homenageava Ney Matogrosso. Quais foram os pontos de partida para a criação de Vicente Van Goth? Quais são suas referências e influências?

(Vicente Van Gogh) Me aproximei da arte drag através de amigues que se montavam como queen, colaborando no figurino e maquiagem delus. Isso era 2015 ou 2016 e eu não conhecia nenhum drag king na época, ainda que já tivesse muita vontade de estar no palco performando masculinidade. Na época eu era muito fã de um rapper e idol de k-pop chamado G-Dragon e me inspirava nele para absolutamente tudo, inclusive vestir minhas primeiras roupas “masculinas” e cortar meu cabelo curto pela primeira vez, o que seria a semente para a compreensão da minha identidade não-binária e drag king. Também em 2015, em uma viagem ao Japão, assisti a um espetáculo do Takarazuka Revue, companhia teatral tradicional composta exclusivamente por mulheres. Ver as atrizes que interpretavam papéis masculinos foi uma experiência que me mudou e me disse que era possível realizar o que eu há tanto tempo desejava. No final de 2016 me apresentei como Vicente Van Goth pela primeira vez.

(Lorde Lazzarus) Em seus números artísticos e figurinos, é frequente a presença de signos e elementos de cultura asiática amarela (japonesa, como o Butô, e coreana, com as canções de k-pop). Como é trazer para o palco do transformismo a sua ancestralidade? Qual a importância, na sua visão, de pessoas como você ocuparem esse lugar na arte drag/transformista no Brasil?

(Vicente Van Gogh) Essa busca pelo contato com a ancestralidade veio mais de forma afetiva do que qualquer outra coisa. A figura masculina da qual eu era mais próximo na infância até o início da idade adulta foi meu avô japonês. Evocar essa ancestralidade é, acima de tudo, estar mais perto dele depois que ele faleceu. Minha experiência com masculinidade e afeto vem praticamente toda dele. 

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.

(Lorde Lazzarus) Neste ano você participou do Concurso DRAGSTAR, no Rio de Janeiro, que é o antigo RAINHA DE CINELÂNDIA, e que tem lugar no icônico teatro Rival, palco histórico do transformismo brasileiro. Acompanhando a competição, vi que você era um dos favoritos a vencer, mas ficou em terceiro lugar. Você concorda com a sua colocação na ranking do concurso? Você acha que sofreu, de alguma forma, preconceitos diversos por ser um artista AFAB transgênero?

(Vicente Van Gogh) O resultado é algo que escapa totalmente do nosso controle quanto artistas, posso falar apenas do trabalho que apresentei ao longo do concurso, do qual me orgulho muito. Apresentei performances consistentes e tive quase que exclusivamente críticas positivas das juradas. Talvez não fosse a hora de uma pessoa como eu vencer, mas com certeza não por falta de qualidade artística. Sim, sofri preconceito aberto e velado durante a temporada, cheguei a falar um pouco sobre isso nas minhas redes. 

(Lorde Lazzarus) Recentemente você debutou a sua persona drag queen, Zara Tustra. Zara Tustra, em suas palavras, é “o desgraçado feminino, [uma] mística sem deus”. Como se deu a criação dessa persona? Quais diferenças você destaca entre Vicente Van Goth e Zara Tustra?

(Vicente Van Gogh) A Zara se criou na pandemia, a partir de um processo psíquico muito doloroso. Fui tecendo o primeiro figurino dela para lidar com questões mentais e, mais tarde, físicas. Quando vi, havia ali essa persona que eu já tinha idealizado tantas vezes sem desembocar no concreto. Frente a tantos discursos vazios sobre o tal do “sagrado feminino”, o meu desgraçado feminino era real e habitava meu corpo. Para mim, tanto o Vicente quanto a Zara têm sua parcela de desgraçamento e de celebração, ambos calcados nos binarismos que nos são impostos durante nosso desenvolvimento.

(Lorde Lazzarus) Seu trabalho é muito prolífico. Além de drag king e drag queen, você também atua na arte burlesca e como figurinista. Por que a escolha pelo burlesco? Que artistas dessa vertente são fonte de inspiração para você? A arte da montação, da criação dos figurinos e do burlesco caminham junto com Vicente e Zara Tustra ou você se vê desenvolvendo algo diferente nesse espectro?

(Vicente Van Gogh) Tudo caminha junto pra mim. Escrita, figurino, performance. Ferramentas de se contar uma história e de celebrar a vida e a expressão do corpo. O burlesco surgiu na minha vida “por acaso” e foi uma comunidade que me acolheu como performer quando a cena drag sequer me enxergava. Tenho a alegria de dizer que minhas inspirações no burlesco são amigues e pessoas com quem dividi o palco.

Vicente Van Goth Grafia Drag
Vicente Van Goth – CONCURSO KING OF KINGS. Foto: Paulo Neobeck.

(Lorde Lazzarus) Como é a cena drag/transformista do Rio de Janeiro? Você a considera plural o suficiente (com toda a diversidade de corpos e artes possível)? Você se sente acolhido e valorizado por ela?

(Vicente Van Gogh) Sinto que precisei trabalhar como transformista por quase oito anos antes de ser verdadeiramente visto pela cena drag, o que só começou a ocorrer a partir do meu desempenho no DRAGSTAR. Inclusive, ainda que eu tenha sofrido preconceito por ser uma pessoa AFAB durante a temporada, conheci pessoas e artistas maravilhosas que me acolheram e demonstraram respeitar e valorizar meu trabalho. Sobre a pluralidade da cena, acredito que ela ocorra mais em potência do que na prática. São poucas as oportunidades de trabalho, então drags iniciantes acabam se lançando e se desenvolvendo através dos concursos. De certa forma, concursos tendem à padronização. Fazer um bom número drag e fazer um bom número para concurso são coisas diferentes, mas infelizmente grande parte dos performers drag não tem a oportunidade e a liberdade de se desenvolver como artistas fora das expectativas das competições.

(Lorde Lazzarus) Você tem vontade de se inscrever para participar do DRAG RACE BRASIL? Acha que seria possível que alguma pessoa AFAB seja selecionada para essa segunda temporada?

(Vicente Van Gogh) Tenho vontade, um dia. Possível é, mas bem pouco provável.

(Lorde Lazzarus) Vicente e Zara certamente têm planos grandiosos para os palcos onde podem se apresentar. Tem algum número em especial que você gostaria de explorar com cada um deles e aguarda por oportunidade? Poderia dar um spoiler do que seria para todo mundo que acompanha o GRAFIA DRAG? E onde seria um sonho poder se apresentar?

(Vicente Van Gogh) Tenho vontade de fazer um número com os dois juntos, mas ainda não faço ideia de como isso ocorreria. Nunca pensei sobre exatamente onde seria um sonho me apresentar, ainda que já tenha me apresentado em vários lugares dos sonhos (como o Teatro Rival, por exemplo). Mas seria incrível ser convidado para me performar no máximo de cidades possível, no Brasil e fora dele.

(Lorde Lazzarus) Que conselho você dá às pessoas AFAB que estão ingressando no mundo da montação, e que são desencorajadas constantemente com o machismo que ainda impera dentro e fora dos nossos espaços?

(Vicente Van Gogh) Vai ser difícil. Você vai ouvir merda no camarim e vai ser desvalorizade quando estiver no palco, tudo isso vai acontecer. Mas você também vai ter a oportunidade de transformar, pelo menos um pouco, a cena, ousando estar onde não queriam que você estivesse. Nós temos uma vivência única e, na maioria das vezes, somos pessoas multitalentosas que precisam dar conta de muitas habilidades para serem vistas. Ou seja, a cena só tem a ganhar com a nossa presença.

(Lorde Lazzarus) Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço. 

(Vicente Van Gogh) Queria convidar a todes a conhecer meu trabalho através dos meus perfis no Instagram (@vicentevangoth / @zaratustradrag) e assistindo a um show meu, se tiverem a oportunidade. Aguardo convites para performar, no RJ e em outros estados. Fortalecer a cena king não é só elogiar e seguir nas redes, é também convidar para performar em shows e festivais.

As fases e facetas de Christy Moon

Christy Moon

Comecei a fazer drag em 2018, aos 20 anos, indo para festas. No início o nome era Blanca, usava maquiagens de doações de amigas e quem me apresentou o mundo Drag foi a Methila Sparks (minha mãe drag). Hallyson que era o estilista da Methila, e hoje tem trabalhos com Lexa, Pocah, Lia Clark e RBD, passou a fazer os meus looks que a Karollainy, minha amiga de infância, desenhava para mim. Durante minha faculdade de fotografia, meus trabalhos geralmente tinham uma vertente voltada para assuntos de extrema importância social, o que resultou no meu TCC sobre Drag e Arte.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @renanjesus94. Figurino: @hallymachado

Para o TCC eu tinha a proposta de fazer releituras de famosas pinturas e fazer colagem digital, fotografando pessoas LGBTQIA+, juntando duas artes que são super desvalorizadas, pintura e fotografia. Conversei bastante com as meninas que aceitaram participar, falando que infelizmente eu não conseguiria pagar cachê, ou transporte, e não queria desvalorizar o trabalho delas. Todas toparam me ajudar, e foi uma experiência incrível! Eu acompanhava elas se maquiando no banheiro da minha faculdade, e foi um dos melhores momentos, a gente batia papo, trocava dicas  de maquiagem, e sou muito grato por elas compreenderem e  aceitarem  essa loucura.  Foi um trabalho árduo e difícil. Apresentei meu tcc montado, acompanhado de algumas amigas drags presentes, e ganhei nota máxima. Tenho muito orgulho desse projeto. 

No início da montação costumava usar peruca emprestada, sempre feminina, mas não me identificava tanto. Como eu tinha certo fascínio pela estética andrógina resolvi arriscar e acabou dando certo. Com isso, senti a necessidade de trocar meu nome drag de Blanca para Christy, por ser parecido com meu nome, assim minha drag passa a ser uma extensão de mim. Isso tudo ocorreu no início da Pandemia. O sobrenome Moon é porque sou apaixonado pela lua, e desde criança, eu ficava sentada no meu quintal de casa observando-a, durante horas. Como ela tem várias fases, trago isso para a estética da minha drag que também tem fases (feminina, andrógina, street…). 

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto:@gusttavogelik. Figurino: @halllymachado

No período da pandemia eu fazia lives no Instagram, participei de competições de lipsync online. Eu tinha uma câmera fotográfica e junto com meu irmão Renan, formado em Artes, criei vários trabalhos audiovisuais. Fazia alguns vídeos em casa, saía montada pelas ruas, museus, shoppings, ônibus, tudo para gravar clipes e fazer sessão de fotos. Era cansativo, mas muito satisfatório. Arriscado? Sim, mas também uma necessidade porque sempre gostei de expandir o drag para além das casas noturnas, indo para o cotidiano das pessoas. Sempre busquei aperfeiçoar minha arte, mostrando às pessoas minha identidade, tanto como pessoa, quanto em drag. 

Houve um período em que dei uma pausa, pois era uma montação quase diária, isso me desgastou. Foi até bom, assim me entendi como gênero fluído e passei a  compreender mais sobre minha arte. Cheguei a ser criticada pelas pessoas do meio por não usar peruca em drag, por questões financeiras. Mas isso nunca me abalou, só fortaleceu! Afinal, foi seguindo dentro da minha proposta que fui entrevistada pela Pheno TV para falar sobre minha trajetória como pessoa queer e drag.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @paimgb. Figurino: @hallymachado

Somente em 2023 é que comecei a participar de concursos presenciais, pois antes era só online devido à Pandemia. O primeiro deles foi o DRAGSTAR, famoso e tradicional concurso drag da noite carioca que acontece no Teatro Rival. Todo mês eu apresentava um look diferente assinado pelo Hallyson, com croquis desenhados digitalmente pelo Luke, um seguidor do Instagram que fechou parceria comigo. Também levava fashion vídeos e photoshoots feitos pelos meus amigos fotógrafos Gustavo Gonçalves e Gabriel Paim, foi assim que ganhei seguidores, fãs e conheci outras grandes drags. No concurso, infelizmente não cheguei na final, mas ganhei visibilidade, respeito e com a consciência de que entreguei ótimas performances de sensualidade, sentimentais, libras, e mostrando toda essa sensibilidade que gosto de levar para o palco.

Número “Azul da Cor do Mar” de Christy Moon no concurso The Queens

O segundo concurso que participei foi o tradicional ‘’Queens: O concurso’’, que estava voltando após um hiato, que ocorria todos os domingos durante um mês na Boate Substation em Copacabana. Aprendi muito participando desses concursos, além de fazer várias amizades. Drags que eu sempre via nas baladas e na internet, hoje em dia, eu converso com elas, e tenho alguma proximidade. Estou realizado com tudo o que conquistei até aqui, páginas de Drag Race e outras do meio estão compartilhando minhas fotos e entrevistas, além dos concursos online que seguem aparecendo.

Não vou parar por aqui! Assim como a lua tem suas fases, há muitas outras facetas da Christy Moon ainda por vir.

Como citar este texto

MOON, Christy. As fases e facetas de Christy Moon. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/as-fases-e-facetas-de-christy-moon/>. Acesso em: 27. Nov. 2023.