No final do ano de 2021, recebi uma mensagem no Instagram de uma drag queen chamada Victoria Blossom, me convidando para participar de sua competição de drag online, SuperQueen. No início pensei “uma drag queen iniciante como eu, que mal tem figurinos e nunca performou em público terá condições de já participar de uma competição?”. Resolvi então consultar amigos que me fizeram olhar para essa oportunidade de outra forma: e se essa competição me ajudasse a ter essa evolução que eu precisava? Por que esperar me sentir pronta ao invés de usar essa oportunidade como um mecanismo para evoluir?
Por ter começado a fazer drag na pandemia, sem shows e eventos para ir, acabei sem muita motivação de me desafiar, afinal, meu grande sonho sempre foi performar em público e a vida de criar conteúdos para o Instagram e para o YouTube estava monótona e desmotivante para mim. Resolvi, então, participar da competição com essa motivação: independente do meu nível perto das minhas competidoras, eu entrei para me desafiar e aprender. Cada desafio que viesse eu sabia que seria trabalhoso para mim, porque meu armário drag era muito limitado e, para realmente entregar algum trabalho que eu me orgulhasse, eu teria que criar peças e figurinos novos sozinha, algo que eu não estava tão habituada a fazer, ainda mais em um curto período de tempo.

Foto: Ptera Dactyla
Para a minha surpresa, a experiência no SuperQueen não só me ajudou a construir meu armário drag que eu tanto queria, mas também me fez descobrir uma verdadeira paixão pelo processo de fazer os meus looks. Desde então, esse processo me motivou a aceitar mais desafios que vieram pela frente, inclusive outras competições. Acabei descobrindo também novas possibilidades para trabalhar no meu desenvolvimento e versatilidade como artista. Em toda competição se encontra desafios que serão mais fáceis ou mais difíceis, dependendo das habilidades de cada artista, assim como desafios que nos tiram da nossa zona de conforto de diversas maneiras, como, por exemplo, a necessidade de trazer referências, estéticas ou práticas , que não aplicaríamos em nossa arte se não fosse por aquele desafio, naquela competição específica. Então, o mais importante é: como trazer esses elementos que fogem da nossa zona de conforto sem perder a nossa essência diferencial? É esse meu principal foco quando participo de competições porque, afinal, em uma competição é preciso agradar, principalmente, aos jurados com os mais variados gostos e opiniões.

Foto: Carla Menna Barreto
Isso não significa que eu acredite que participar de competições é a melhor ou única maneira de evoluir a própria arte. Cada drag possui sua trajetória e seus objetivos. O que eu busco nesse texto é trazer um olhar diferente para nossos objetivos dentro de competições, um olhar a partir de uma perspectiva que não seja de ganhar ou de perder, mas de evolução e de aprendizado. Nem sempre o que é requisitado em determinada competição precisa ser realmente aplicado no nosso trabalho, é sempre saudável analisarmos nossos próprios objetivos para saber que críticas levar em consideração e quais não te interessam fora da competição. Por isso, acho perfeita a famosa frase dos Boulet Brothers (donos do reality show de competição de drag alternativo, “The Boulet Brothers Dragula”) que é dita antes dos jurados falarem suas críticas:
“Nós não estamos aqui para julgar seu drag. Drag é arte e arte é subjetiva. O que nós vamos julgar é seu drag em relação a essa competição e aos desafios que lhes são dados”
Boulet Brothers.
Pra mim, isso quer dizer que uma vitória não significa alcançar a perfeição, assim como uma derrota não significa que existem apenas erros numa montação. Como uma drag queen que ainda é iniciante, gosto de pensar que minha maior competição é sempre comigo mesma, pois o meu verdadeiro objetivo ao me inscrever numa competição é me superar e sentir cada vez mais orgulho do meu trabalho. Quando olho para a drag que eu era quando comecei a participar do SuperQueens, minha primeira competição e olho para a drag que sou hoje e para o trabalho que apresentei no concurso The Queens, do Vitraux, última competição que participei, me sinto uma verdadeira vencedora em toda essa trajetória.
Como citar este texto
PLAZZA, Tiffany. Para sair da zona de conforto: uma boa competição. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/uma-boa-competicao . Acesso em: 14. Fev. 2023.

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