Entrevista Brigitte Liberté

Por Lady Lazzarus

Brigitte Liberté compõe a cena drag de Belém do Pará, onde integra o coletivo NoiteSuja e coloca em prática o projeto Manas (En)Cena. No dia 03 de setembro, Lady Lazzarus entrevista a artista via e-mail. Entre os temas abordados estão as referências no processo de montação, o artivismo feminista através de laboratórios drag para mulheres e as lutas pelo protagonismo de mulheres na arte drag.

Brigitte Liberté Grafia Drag
Brigitte Liberté. Foto: Ana Paula Gomes.

***

Lady Lazzarus. Como nasceu Brigitte Liberté? Há quanto tempo você se monta e quais foram as suas fontes de inspiração para a criação da sua persona drag queen? 

Brigitte Liberté. Em 2016, tive meus primeiros contatos com a arte drag por vivenciar muito intensamente o processo de inserção na arte drag de uma grande amiga minha da faculdade, Ti Yara, mulher trans, artista da dança, cuja drag se chamava Aracna Swan (este processo se deu antes de sua transição de gênero). Passei admirar e me identificar com o exagero nas formas, nas maquiagens, as roupas extravagantes e principalmente, com as performances. Já sendo artista da dança, das artes cênicas, a questão performática das drags era o que mais me encantava, me imaginava, tal qual esta minha amiga, fazendo performances cheias de textões de teor político e dança. Apesar da identificação e interesse que começava a se instaurar, a falta de protagonismo feminino na arte da montação (especialmente de mulheres cis), me inibia de iniciar meu próprio processo, desta forma, enterrei a vontade de me montar, por mais um tempo. 

Em 2018, assisti pela primeira vez uma performance de Skyssimme, grande artista transmasculino da cena drag Amazônida. Na época, antes de sua transição de gênero, trazia à cena performances que abordavam questões referentes a vivências femininas na sociedade, violências, medos, lutas, etc. Conhecer seu trabalho, foi um divisor de águas na minha vida, pois eu entendi que era exatamente aquilo que eu queria. 

Daí para frente, comecei a pesquisar mais sobre mulheres no cenário drag, entender preconceitos e tabus que deveriam ser quebrados e principalmente, a importância da ocupação destes espaços, por mulheridades. Skyssimme me ajudou muito no início deste processo, me deu apoio e me influenciou a iniciar minha jornada como drag.

No dia 9 de julho de 2019, fiz a primeira edição do meu projeto artístico feminista Manas (En)Cena, que nasceu com o objetivo dar visibilidade e protagonismo para mulheres artistas da Amazônia. A primeira edição, tratou-se de um espetáculo em um teatro da Universidade Federal do Pará, que levou à cena apresentações de artistas mulheres de diversas áreas (teatro, dança, música, circo, drag), e neste dia, também tive meu debut, me montei e performei pela primeira vez, como drag Brigitte Liberté.

Minhas referências sempre foram as drags daqui da Amazônia paraense, a nossa regionalidade, territorialidade, as drags que usam textos e dança em suas performances. Sempre fui uma drag da música popular brasileira, músicas paraenses, dificilmente performo músicas estrangeiras, pois sinto que a minha maior potência permanece no que sai daqui de dentro, não no que vem de fora.

Lady Lazzarus. Sabemos que você é uma grande ativista e militante pelo espaço das mulheres dentro da arte transformista/drag. O que mais lhe move nessa luta? 

Brigitte Liberté. Costumo dizer que minha trajetória é movida por gritos decoloniais, principalmente de mulheres. Sem dúvida, o que sustenta o meu trabalho é o ativismo feminista e LGBTQIA+, a vontade de fazer com que a minha arte, transforme cada vez mais a sociedade em um mundo mais digno para corpos dissidentes viverem. Ao adentrar o cenário da arte drag e entender as questões de machismo e misoginia que refutam corpos com buceta destes espaços, me deparei aí, com mais uma grande luta que eu precisaria abraçar, a luta pelo direito de mulheres de se reconhecerem e se fazerem presentes e ativas nestes ambientes.

Lady Lazzarus. Tem um vídeo seu que gosto bastante, e que inclusive me contempla muito enquanto visão de uma expressão muito comum no Brasil. O vídeo se intitula “E homem que se veste de mulher?”. Você poderia explicar para as pessoas que nos leem qual a diferença entre DRAG e “HOMEM VESTIDO DE MULHER”?

Brigitte Liberté. Sempre parto do princípio de que drag é sobre montação, experimentação pessoal, exploração de possibilidades estéticas, induzidas por motivações pessoais, por vontades de se descobrir de outras formas, de quebrar barreiras impostas pela sociedade e chegar a um estágio de realização pessoal, e isso, não tem nada a ver com gênero. Homem que se veste de mulher no intuito de fazer imitações e chacotas, como ocorre constantemente no carnaval, não passa de uma pessoa se utilizando de seus privilégios sociais, para ridicularizar grupos sociais minoritários e sendo massa de manobra para mais violência com estes grupos, especialmente mulheres trans e travestis, que permanecem sendo vistas como passíveis de humilhação, desprezo e que servem para fazer as pessoas rirem. 

Lady Lazzarus.  Você tem um projeto incrível na Amazônia, que é o MANAS (EN)CENA. Poderia falar um pouco mais sobre este projeto para nós e para as pessoas leitoras do GRAFIA? 

Brigitte Liberté. O Manas (En)Cena é um projeto artístico-cultural que tem como objetivo dar visibilidade à cena artística feminina, no estado do Pará. Teve sua primeira edição em julho de 2019, no Teatro Universitário Cláudio Barradas, em um espetáculo que reuniu trabalhos artísticos de várias mulheres de diversas áreas das artes, em uma noite cheia de artivismo feminista. Sua segunda edição, ocorreu em agosto de 2020, em formato de um show online com transmissão ao vivo de trabalhos em vídeo de várias artistas paraenses, a maioria deles, produzidos durante o isolamento social e com arrecadação solidária para o Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará. A terceira edição do Manas (En)Cena, intitulada Joga na Roda, foi um festival premiado pela lei Aldir Blanc Pará, ocorrido nos dias 06 e 07 de março de 2021, com transmissão ao vivo pelo YouTube, que além de exibição de videoperformaces de artistas mulheres paraenses, também contou com rodas de conversas sobre importantes temáticas que tangenciam o universo feminino. Premiado pelo edital FCP de Incentivo à Arte e Cultura, o Manas (En)Cena teve sua quarta edição, em novembro de 2022, em formato de show musical e performático, ocorrido no Espaço Cultural Apoena. E finalmente, o Manas (En)Cena alcançou sua quinta edição com o Laboratório Drag para Mulheres, com patrocínio da emenda parlamentar da deputada federal Vivi Reis, contou com cinco encontros, voltados exclusivamente para mulheres,  compostos por oficinas e vivências em áreas que tangenciam o universo da arte drag, sendo estas, história da montação, maquiagem e performance, sempre mediadas por discussões referentes a padronizações estéticas e comportamentais de corpos feminino na sociedade, tendo como conclusão, um espetáculo, que levou à cena, um pouco do trabalho que foi desenvolvido durante o laboratório, estrelando performances artísticas das mulheres participantes e apresentando a nova geração de mulheres drags da Amazônia. 

Lady Lazzarus. Para onde mais você gostaria que o MANAS (EN)CENA fosse? Onde mais você acha que é necessária essa desconstrução do que é a arte da montação? 

Brigitte Liberté. Ainda estou decidindo quais serão os formatos das próximas edições do Manas (En)Cena, sempre gosto de variar o conteúdo anual do projeto, afim de abranger cada vez mais linguagem artísticas e trazer novidades, também. Agora, falando especificamente sobre o Laboratório Drag para Mulheres, pretendo que este projeto tenha ainda muitos desdobramentos, acredito que a desconstrução da ideia estereotipada de que drag é um homem que se veste de mulher e toda carga machista, misógina, transfóbica, que vem junto, é necessária por todos os cantos do Brasil e do mundo, portanto, tenho buscado novas articulações para fazer uma nova edição do laboratório, aqui no Pará novamente, e para circular com ele, em outros estados do Brasil. Acredito na necessidade maior de discussões como estas serem levadas para estados do Sul e Sudeste, onde a cultura drag ainda bebe muito das referências norteamericanizadas que propagam competitividade nociva, machismo, misoginia, etc. 

Lady Lazzarus. Você já sofreu algum preconceito por ser uma mulher cis atuando como drag queen? O seu projeto MANAS (EN)CENA já sofreu algum tipo de preconceito em algum momento (ao longo das edições que você já fez)? 

Brigitte Liberté. Preconceitos, situações desconfortáveis, medos e inseguranças, são basicamente acessórios a mais, que mulheres drags são obrigadas a carregar. Mãos bobas pelo corpo, pessoas perguntando se sou “mulher de verdade”, pessoas tentando diminuir meu fazer, dizendo que é mais fácil ou até mesmo, nem me considerando drag, são algumas das situações às quais já fui submetida. Até onde eu sei, nunca fui atacada diretamente pelo meu projeto, até porque o Manas (En)Cena sempre esteve bastante protegido pela minha bolha de relações, que fortalecem o rolê.

Lady Lazzarus. A comunidade LGBT também pode ser uma grande opressora das mulheres artistas. Na sua visão, experiência e vivência, por que isso acontece?

Brigitte Liberté. Muitos homens gays ainda sustentam e fortalecem a ideia de que são o centro da comunidade LGBTQIA+ e desta forma seguem propagando machismo e misoginia. É sempre importante lembrar que homens gays não deixam de ser homens, portanto não estão isentos de surfar nos privilégios masculinos e falocêntricos e se somar na opressão de mulheres e outros corpos sexo-dissidentes minoritários, o que enfraquece sobremaneira a ideia de comunidade.

Lady Lazzarus. Você é uma artista da dança que recentemente defendeu sua dissertação de mestrado. Como foi essa experiência para você enquanto mulher, artista e pessoa LGBT? A Academia é mais ou menos receptiva às contribuições de pessoas como você?

Brigitte Liberté. Infelizmente não pude vivenciar o ambiente acadêmico do mestrado como gostaria, por conta da pandemia, fiz o curso todo de forma virtual e sem muita interação e troca com a turma, por conta de toda frustração que carreguei de não ter sido como eu gostaria. Mas do que pude vivenciar, por ser um curso de artes, um Mestrado em Dança, onde a maioria das pessoas são LGBTQIA+, já se torna um ambiente mais tranquilo e agradável de estar, nunca sofri algum tipo de violência de gênero, por exemplo. Minhas questões com a academia, são mais sobre academicismo latente, embates metodológicos, linguagem acessível, que são minhas maiores lutas neste espaço, pois para mim não faz sentido produzir algo que não seja sobre e para as minhas, que parta das minhas semelhantes, do meu movimento cotidiano, das pessoas que constroem política e cultura junto comigo. Descontruir a academia como esse lugar de distanciamento e hierarquia, é uma árdua tarefa, mas de uma maneira geral, consegui dar minhas contribuições sobre isso, na minha dissertação, sem embates tão grandes.

Lady Lazzarus. Quais conselhos você dá para as mulheres que estão iniciando na arte da montação? Você acha que teremos alguma mulher ou pessoa AFAB numa próxima temporada do DRAG RACE BRASIL, por exemplo? 

Brigitte Liberté. Sempre digo que é necessário entender que não é um lugar fácil para nossos corpos adentrarem, que vários obstáculos de colocam no caminho e nos empurram para trás. Entretanto, saliento que é uma das experimentações mais bonitas que corpos como os nossos, que durante a vida inteira, foram colocados em caixas normativas de padronizações estética, podem experimentar. Então digo que se deve começar, sentir vontade e buscar artifícios para dar o pontapé inicial, que ele vai nos levar aos próximos passos. Importante também é buscar rede de apoio, descobrir próximo a você pessoas que podem te abraçar, te acolher e realmente te impulsionar nessa trajetória. Ter apoio e incentivo, principalmente se for de outras mulheres, é uma das coisas mais valiosas que se pode conseguir. É sobre saber que o caminho pode sim ser bastante tortuoso e sempre buscar se proteger, mas lembrar que o lado bom dessa trajetória, todas as possibilidades, realizações, o autoconhecimento e autoestima oriundos dali, podem ser muito mais fortes e superiores a qualquer desavença do caminho e nos tornar mais fortes ainda. Eu sempre digo que a gente tem medo, mas maior do que o nosso medo é o medo deles, de que a gente não tenha mais medo.

Lady Lazzarus. Se quiser deixar algum comentário, convite ou conselho a todas as pessoas que leem e prestigiam o GRAFIA DRAG, deixamos esse espaço. 

Brigitte Liberté. Gostaria de agradecer este espaço, fico muito feliz com a identificação e interesse com o meu trabalho e também quero parabenizar por este trabalho tão necessário que o Grafia Drag vem fazendo, buscando abrir diálogos urgentes sobre gênero, montação e afins.

Aproveito para indicar que se pesquise e conheça mais sobre o cenário da arte drag aqui da Amazônia, que ainda é tão desvalorizado em perspectiva nacional, mas que tem construído ao longo dos anos, um movimento potente de montação, a partir do trabalho do Coletivo NoiteSuja que deu origem ao movimento das Themônias, onde buscamos descontruir com padrões estereotipados e normativos do fazer drag, colocando em evidência nossos aspectos de regionalidade, identidade, norteados sempre pelas nossas relações de afeto.

Da cultura clubber às Themônias em Belém

Juliano Bentes (Luna Skyyssime)

Cultura Clubber

Pode-se entrecruzar a cultura dos clubes em Belém com a cultura clubber americana, ocorrida no final dos anos 1970, mas a verdade é que esses espaços de socialização existiam muito antes. A entrada de vez nessa era se daria desde o Lapinha, passando para espaços mais específicos como o Camaleão, mas o auge se encontra nos anos 1990, com a chegada e tomada oficial do termo drag na cidade, que já veio com o peso da cultura clubber americana e, passando pelo Sudeste, com o bate cabelo de Márcia Pantera. É impossível falar de drag na cidade de Belém nos anos 1990 sem falar de Liz Babeth Taylor e a Banda Bagaço, que realizavam shows de comédia, parodiando aberturas de novelas, cenas de filmes e de espetáculos. De tom político acentuado, Babeth foi a a precursora de grande parte das artistas que vieram a seguir.

Em Belém, as boates de referência seriam a Go Fish, Lux, Doctor House, R4 Point, Vênus, Rainbow, Mystical, Malícia, Stand-by, Amnésia, entre tantas e tantas outras. Belém viveu um grande momento de sociabilidade LGBTI+ e de grande mercado para as drags. Sendo seus shows a principal atração da maioria desses espaços.

O termo drag/clubber chega em Belém com os cabelos coloridos, performances grotescas e grandes, lentes, sangue, fogo, estruturas em geral, causando grande impacto nas transformistas da época, sendo as maiores representantes desse período: Liz Babeth Taylor, Shaula Vegas, Shantara Gomes e Dana Internética. A unificação desses dois públicos – as novas drags e as transformistas antigas – ocorreria em decorrência dos concursos de Miss e de Beleza. Esses concursos costumam acontecer nos espaços dessas boates determinando sua lotação, e reunindo uma grande quantidade de gente a fim de torcer pelas competidoras. Esses concursos tornaram-se grandes referências e o cartão de visita da comunidade LGBTI+ paraense, sendo um dos principais momentos de socialização ainda hoje.

Como podemos ver, a estética do grotesco sempre esteve por aí; em Belém, existiam alguns artistas dedicados a essa estética como Shaula Vegas, Dana Internética, etc., posteriormente Sid Manequim, Júnior Ribeens, entre outros.

A Festa Noite Suja e as Themônias em Belém

Em meados de 2014, Matheus Aguiar – Artista, Designer e ex produtor da Produtora Bafônica – e Maruzo Costa – Artista, Drag e DJ – decidiram iniciar uma festa chamada Noite Suja, com referência à banda Truque Sujo de Cláudia Wonder. As referências dos artistas variavam entre temas macabros, queer, trash e grotesco em geral. Assim, lançaram o primeiro evento, “Baile à Montação”, que foi realizado no dia 12 de dezembro de 2014, onde a ideia era ser um Halloween fora de época e teria uma batalha de dublagem. O público não foi tão numeroso mas a grande maioria seguiu a proposta da festa e assim foi cunhado o teor do evento em todas as próximas edições: montação.

Nas batalhas eram coroadas as rainhas, até o presente momento temos um total de 08 rainhas Noite Suja, que são – em ordem cronológica – Uhura BQueer, Pandora Rivera Raia, Flores Astrais, Gigi Híbrida Bolero, Leid (que substituiu Luisa Akan após o seu “impeachment”), A.K.A. Della, Skyyssime e Safira Clausberg. As batalhas eram a característica do evento, mas a última eleita por dublagem foi Gigi, pois os produtores perceberam que essas batalhas provocavam certa competitividade nas participantes, então foi feita uma “batalha de close” para a escolha da quinta rainha; a sexta e a sétima, A.K.A. Della e Luna, foram eleitas por conjunto da obra, e a oitava, Safira Clausberg, foi eleita através da gincana Sereia do Asfalto, na prova de quem ficava mais tempo embaixo da água.

O Noite Suja criou um tipo de festa marginal voltado à montação que se disseminou em muitos outros eventos na cidade, como a Viada Cultural, a Pyrygotyk, a Obscenna, a decaDANCE, a Karma Cool, a Maniva, a Iconic, entre outras, a grande maioria adotando essa estética urbana e voltada para a montação que posteriormente provocou a autodenominação das artistas enquanto themônias.

O grupo cultural que desenvolveu o movimento é formado, em grande parte, por pessoas que já desenvolviam trabalhos artísticos antes – teatro, desenho, pintura, dança, canto, etc. – e que acabaram descobrindo suas identidades Themônia em convergência com suas expressões artísticas anteriores. Esse grupo criou laços afetivos fortes e possui características estéticas muito diversas, mas que trilham no mesmo formato. Raymond Williams exemplifica: “existem grupos culturais (…) que têm em comum um corpo de práticas, ou um ethos que os distinguem, ao invés de princípios ou objetivos definidos em um manifesto” (WILLIAMS, 1999).

As themônias se manifestam bastante através da montação nos seus corpos em fuga de padrões. É impossível falar de um grupo cultural sem falar das relações entre os indivíduos que o compõem, ainda mais dentro do meio LGBTI+, onde essas relações ocorrem com grande fluidez e são fundamentais para entender as nuances das construções de cada artista. Para analisar essas relações Raymond Williams (op cit) pontua:

“Há uma preocupação em não diminuir a importância de ninguém. Isto poderia ser realmente uma aproximação grosseira com alguns próprios modos de julgamento humano (…). O verdadeiro ponto é ver a importância do grupo cultural para além da simples apresentação empírica e da autodefinição como um grupo de amigos” (WILLIAMS, 1999)

Se o movimento se identifica e se trata como família, as Haus – conceito apropriado das Haus dos DragBalls dos anos 1980 – seriam como os nichos familiares. No movimento das Themônias podemos exemplificar algumas Haus: a Haus of Soledade, composta por Tristan Soledade, S1mone e La Falleg Condessa; a Haus of Tão, composta por Xirley Tão, Flores Astrais, Dângela do Curió e Jamburana; a Haus of Carão, composta por Skyyssime, Perséfone de Milo, Yndjáh Báh, Rubi da Bike, Demétria de Milo, Aurora, Bacuríndia, Coytada, MaiT Yvanna, Cruela de Milo, Brigitte Liberté, etc.; a Haus of Híbrida, composta por Gigi Híbrida, Monique Lafon, Mikaela, Aurora Blondie, Condessa de Devonshire; entre tantas e tantas outras Haus.

Apesar de todas serem parte da mesma família, as Haus funcionam através de um sistema de cuidado mútuo, troca de maquiagens, indumentária compartilhada e, principalmente, troca de afeto e preocupação com o bem-estar do outro.

Além das Haus temos de levar em consideração as relações românticas entre os indivíduos, os casais de grande relevância dentro do contexto do movimento foram: Tristan Soledade e S1mone; Fabritney A.K.A. Della e Lady Milady; Flores Astrais e Alexia Turner; La Falleg Condessa e Cassandra F Jones; Perséfone de Milo e Shayra Brotero; Xirley Tão e Milla Milambe; Gigi Híbrida Bolero e Monique Lafon; Skyyssime e Rubi da Bike; Bunny e Luka Cortez. Essas são algumas das relações românticas de tom formal, porém informalmente existe uma gama bem maior de cruzamentos de relações, desde beijos aleatórios nas festas até longos meses de “fica”, sem, de fato, formalizar.

De forma geral, esse texto se conclui, mas não busca ter um aspecto irretorquível, porque fechar hermeticamente algo seria o contrário de tudo que fora pesquisado. Como pontua Cecília Salles (1998), é uma obra inacabada, porque a Themônia é a sua própria obra, não é apenas uma performance, não é apenas uma montação, é ela inteira, é o conjunto de performances, montações e atravessamentos, ela é o processo. Assim, termina-se porque precisa terminar, mas se segue, com tom de inacabada mesmo, em processo, levantando luzes para outras tantas mais emborcaduras que a qual esse texto possa encaminhar.

* Esse texto é um fragmento do livro “Ekoaverá: um estudo sobre a terriorialidade nos processos identitários das drags demônias” (Juliano Bentes, 2020).

Insurgência drag: montações de Nazinha na Festa da Chiquita

Maí Yandara

A primeira vez que tive a percepção do universo drag foi em 2004. Eu tinha  13  anos.  Era  o  Círio  de  Nazaré,  uma  das  maiores  manifestações religiosas  do  Brasil, que toma as ruas de Belém  do  Pará, minha cidade natal, todo mês de outubro. 

Há  pouco,  tinha mudado  para  o edifício Gualo, em frente à Praça da República, importante ponto do coração da capital. Da janela do apartamento, no 13º andar, eu  tinha  a  visão  completa  do  Theatro  da  Paz, que se coloca imponente sobre a praça. 

Entre os  ritos  do  Círio, há a trasladação – cortejo noturno que leva Nossa Senhora de Nazaré até a Igreja da Matriz, de onde, na manhã seguinte, dá início à procissão.

A trasladação é  marcada por um paradoxo tremendo que acontece na Praça da República: a “Festa da Chiquita”, que ocorre entre a frente do teatro e um boteco conhecido como Bar do Parque.

A  “Chiquita” – como  é  também  chamada  a  celebração –  é  reconhecida  pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) como uma das expressões pagãs do conjunto de eventos culturais que ocorrem no período e mobiliza a comunidade LGBTQI+ de Belém.

Idealizada e criada pelo sociólogo carioca, Luís Bandeira, na década de 70, a festa ganhou outra dinâmica a partir de 1990, quando passou a ser coordenada pelo cantor e produtor cultural Elói Iglesias, transformando-a em uma festividade voltada para um público mais alternativo. Desde 2020, tornou-se patrimônio cultural imaterial do Pará.

Tradicionalmente, essa festividade começa assim que a procissão noturna de Nossa Senhora passa a caminho da Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.

Naquela época, insurgência era uma palavra que não constava no meu vocabulário.  Mas,  pensando  bem,  foi  essa  sensação  de  estranhamento provocada pelos insurgentes que aparelhou a minha mente para aquilo que se modela nos trajetos artísticos das drags.

No caso da Chiquita, a festa tem caráter de homenagem e exercício de fé. A presença gay, desde o princípio, trazia em sua essência a defesa do direito de apropriação do simbólico manifesto nas formas de reverenciar a Virgem de Nazaré, um dos maiores símbolos femininos da Igreja Católica.

Termos como “Naza”, “Nazinha” e “Nazica”  demonstram a intimidade espiritual e o estreitamento do convívio com a Nossa Senhora, unindo o profano e o sagrado.

No clima festivo de abertura da “Festa da Chiquita”, Iglesias se monta de Virgem de Nazaré, contemplando uma das homenagens feitas pela comunidade LGBTQI+ à Nossa Senhora de Nazaré.

“Existe uma ditadura da fé, as pessoas acham que LGBT não pode ter fé, que a festa não pode ser uma homenagem. Todo ano as pessoas querem enfraquecer, já diminuíram o palco, já diminuíram o horário“.

Explica Iglesias em reportagem ao G1.

Desse  modo,  a  “Chiquita”  é  uma  insurgência  ao  conservadorismo religioso e resiste desde 1978. No Dossiê de Tombamento, quando foi incluída pelo Iphan no “Inventário Nacional de Referências Culturais” com celebração à festividade de Nazaré, consta que a “Festa da Chiquita” tem “um caráter de resistência, de contestação, de busca de espaço e reconhecimento social pelos homossexuais”.

Dessa experiência de subversão do sagrado e da expansão do conteúdo cultural da festividade religiosa, por agregar o “profano” mundo drag, duas  coisas  ficaram  retidas  na  minha  mente.

A de que o corpo drag, do modo como percebido, presentifica um estado de insurgência, incorporando um ato político, e que o estar drag é exercício do ser artista, de modo que a montação pode ser considerada um gesto insurgente e desviante das normatividades de sexo, gênero e dos limites entre as linguagens artítiscas.