Juliano Bentes (Luna Skyyssime)
Cultura Clubber
Pode-se entrecruzar a cultura dos clubes em Belém com a cultura clubber americana, ocorrida no final dos anos 1970, mas a verdade é que esses espaços de socialização existiam muito antes. A entrada de vez nessa era se daria desde o Lapinha, passando para espaços mais específicos como o Camaleão, mas o auge se encontra nos anos 1990, com a chegada e tomada oficial do termo drag na cidade, que já veio com o peso da cultura clubber americana e, passando pelo Sudeste, com o bate cabelo de Márcia Pantera. É impossível falar de drag na cidade de Belém nos anos 1990 sem falar de Liz Babeth Taylor e a Banda Bagaço, que realizavam shows de comédia, parodiando aberturas de novelas, cenas de filmes e de espetáculos. De tom político acentuado, Babeth foi a a precursora de grande parte das artistas que vieram a seguir.
Em Belém, as boates de referência seriam a Go Fish, Lux, Doctor House, R4 Point, Vênus, Rainbow, Mystical, Malícia, Stand-by, Amnésia, entre tantas e tantas outras. Belém viveu um grande momento de sociabilidade LGBTI+ e de grande mercado para as drags. Sendo seus shows a principal atração da maioria desses espaços.
O termo drag/clubber chega em Belém com os cabelos coloridos, performances grotescas e grandes, lentes, sangue, fogo, estruturas em geral, causando grande impacto nas transformistas da época, sendo as maiores representantes desse período: Liz Babeth Taylor, Shaula Vegas, Shantara Gomes e Dana Internética. A unificação desses dois públicos – as novas drags e as transformistas antigas – ocorreria em decorrência dos concursos de Miss e de Beleza. Esses concursos costumam acontecer nos espaços dessas boates determinando sua lotação, e reunindo uma grande quantidade de gente a fim de torcer pelas competidoras. Esses concursos tornaram-se grandes referências e o cartão de visita da comunidade LGBTI+ paraense, sendo um dos principais momentos de socialização ainda hoje.
Como podemos ver, a estética do grotesco sempre esteve por aí; em Belém, existiam alguns artistas dedicados a essa estética como Shaula Vegas, Dana Internética, etc., posteriormente Sid Manequim, Júnior Ribeens, entre outros.
A Festa Noite Suja e as Themônias em Belém
Em meados de 2014, Matheus Aguiar – Artista, Designer e ex produtor da Produtora Bafônica – e Maruzo Costa – Artista, Drag e DJ – decidiram iniciar uma festa chamada Noite Suja, com referência à banda Truque Sujo de Cláudia Wonder. As referências dos artistas variavam entre temas macabros, queer, trash e grotesco em geral. Assim, lançaram o primeiro evento, “Baile à Montação”, que foi realizado no dia 12 de dezembro de 2014, onde a ideia era ser um Halloween fora de época e teria uma batalha de dublagem. O público não foi tão numeroso mas a grande maioria seguiu a proposta da festa e assim foi cunhado o teor do evento em todas as próximas edições: montação.
Nas batalhas eram coroadas as rainhas, até o presente momento temos um total de 08 rainhas Noite Suja, que são – em ordem cronológica – Uhura BQueer, Pandora Rivera Raia, Flores Astrais, Gigi Híbrida Bolero, Leid (que substituiu Luisa Akan após o seu “impeachment”), A.K.A. Della, Skyyssime e Safira Clausberg. As batalhas eram a característica do evento, mas a última eleita por dublagem foi Gigi, pois os produtores perceberam que essas batalhas provocavam certa competitividade nas participantes, então foi feita uma “batalha de close” para a escolha da quinta rainha; a sexta e a sétima, A.K.A. Della e Luna, foram eleitas por conjunto da obra, e a oitava, Safira Clausberg, foi eleita através da gincana Sereia do Asfalto, na prova de quem ficava mais tempo embaixo da água.
O Noite Suja criou um tipo de festa marginal voltado à montação que se disseminou em muitos outros eventos na cidade, como a Viada Cultural, a Pyrygotyk, a Obscenna, a decaDANCE, a Karma Cool, a Maniva, a Iconic, entre outras, a grande maioria adotando essa estética urbana e voltada para a montação que posteriormente provocou a autodenominação das artistas enquanto themônias.

Foto:@wanaleixodesign
O grupo cultural que desenvolveu o movimento é formado, em grande parte, por pessoas que já desenvolviam trabalhos artísticos antes – teatro, desenho, pintura, dança, canto, etc. – e que acabaram descobrindo suas identidades Themônia em convergência com suas expressões artísticas anteriores. Esse grupo criou laços afetivos fortes e possui características estéticas muito diversas, mas que trilham no mesmo formato. Raymond Williams exemplifica: “existem grupos culturais (…) que têm em comum um corpo de práticas, ou um ethos que os distinguem, ao invés de princípios ou objetivos definidos em um manifesto” (WILLIAMS, 1999).
As themônias se manifestam bastante através da montação nos seus corpos em fuga de padrões. É impossível falar de um grupo cultural sem falar das relações entre os indivíduos que o compõem, ainda mais dentro do meio LGBTI+, onde essas relações ocorrem com grande fluidez e são fundamentais para entender as nuances das construções de cada artista. Para analisar essas relações Raymond Williams (op cit) pontua:
“Há uma preocupação em não diminuir a importância de ninguém. Isto poderia ser realmente uma aproximação grosseira com alguns próprios modos de julgamento humano (…). O verdadeiro ponto é ver a importância do grupo cultural para além da simples apresentação empírica e da autodefinição como um grupo de amigos” (WILLIAMS, 1999)
Se o movimento se identifica e se trata como família, as Haus – conceito apropriado das Haus dos DragBalls dos anos 1980 – seriam como os nichos familiares. No movimento das Themônias podemos exemplificar algumas Haus: a Haus of Soledade, composta por Tristan Soledade, S1mone e La Falleg Condessa; a Haus of Tão, composta por Xirley Tão, Flores Astrais, Dângela do Curió e Jamburana; a Haus of Carão, composta por Skyyssime, Perséfone de Milo, Yndjáh Báh, Rubi da Bike, Demétria de Milo, Aurora, Bacuríndia, Coytada, MaiT Yvanna, Cruela de Milo, Brigitte Liberté, etc.; a Haus of Híbrida, composta por Gigi Híbrida, Monique Lafon, Mikaela, Aurora Blondie, Condessa de Devonshire; entre tantas e tantas outras Haus.
Apesar de todas serem parte da mesma família, as Haus funcionam através de um sistema de cuidado mútuo, troca de maquiagens, indumentária compartilhada e, principalmente, troca de afeto e preocupação com o bem-estar do outro.
Além das Haus temos de levar em consideração as relações românticas entre os indivíduos, os casais de grande relevância dentro do contexto do movimento foram: Tristan Soledade e S1mone; Fabritney A.K.A. Della e Lady Milady; Flores Astrais e Alexia Turner; La Falleg Condessa e Cassandra F Jones; Perséfone de Milo e Shayra Brotero; Xirley Tão e Milla Milambe; Gigi Híbrida Bolero e Monique Lafon; Skyyssime e Rubi da Bike; Bunny e Luka Cortez. Essas são algumas das relações românticas de tom formal, porém informalmente existe uma gama bem maior de cruzamentos de relações, desde beijos aleatórios nas festas até longos meses de “fica”, sem, de fato, formalizar.
De forma geral, esse texto se conclui, mas não busca ter um aspecto irretorquível, porque fechar hermeticamente algo seria o contrário de tudo que fora pesquisado. Como pontua Cecília Salles (1998), é uma obra inacabada, porque a Themônia é a sua própria obra, não é apenas uma performance, não é apenas uma montação, é ela inteira, é o conjunto de performances, montações e atravessamentos, ela é o processo. Assim, termina-se porque precisa terminar, mas se segue, com tom de inacabada mesmo, em processo, levantando luzes para outras tantas mais emborcaduras que a qual esse texto possa encaminhar.
* Esse texto é um fragmento do livro “Ekoaverá: um estudo sobre a terriorialidade nos processos identitários das drags demônias” (Juliano Bentes, 2020).

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