Uma conversa com Everton Barreto

Por: Luná Maldita

Everton Barreto é cabeleireiro e artista transformista há mais de 30 anos. Nessa conversa, o artista fala do seu encontro com o teatro na adolescência, passando pela estreia como Lady Cibele nas boates até chegar aos palcos dos teatros de Porto Alegre. Essa entrevista foi realizada em 1 de maio de 2023, na Casa de Cultura Mário Quintana, para a pesquisa “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas”.

Everton Barreto Lady Cibele Grafia Drag
Fonte: acervo do artista

(Luná Maldita) Fico muito feliz em ter essa oportunidade de trocar contigo. Obrigada pela disponibilidade. Pra começar, eu queria te ouvir sobre desde quando você nota o desejo de se montar artisticamente, tem algum momento específico?

(Everton Barreto) Na verdade, eu sempre tive vontade, desde criança, de fazer teatro, meu sonho era ser artista de teatro. […] Meus pais nunca me levaram para assistir uma peça infantil e eu sempre tive vontade. A partir do momento que eu me tornei um pouco mais independente, lá pelos 14 anos, eu ganhava uma mesada, pequena, mas ganhava. E toda vez que eu recebia essa mesada, eu ia ao Teatro de Câmara, ali na República, assistia espetáculos infantis que eu podia ir sozinho de tarde e aquilo se descortinou um mundo novo para mim, né, o palco, a luz… Foi lá que eu vi pela primeira vez um ator vestido de mulher, que era o falecido Fábio Neto. Ele fazia a madrasta da Cinderela. E aquilo me fascinou, aquela figura, aquele homem vestido de mulher, aquele homem fazendo uma mulher que parecia uma mulher realmente. Depois disso, eu fui trabalhar com um cabeleireiro chamado Mauro Bonato, ele fazia shows em boates gays como transformista e me levou pra assistir um show. […] Eu fiquei deslumbrado com aquela possibilidade de ser uma outra pessoa… que eu também me identificava. Assim, ao mesmo tempo que eu era um menino, eu achava que eu era uma menina, né? Tinha essa coisa dúbia na minha vida. E aí eu disse pra ele: “Ai, Mauro, eu queria tanto fazer um show também”. E ele disse: “Ué vamos ensaiar uma música”.

(Luná Maldita) A próxima pergunta era justamente isso, quando e como você se tornou artista transformista?

(Everton Barreto) Eu já estava com meus 19, 20 anos. E aí foi quando ele [Mauro Bonato] me fez a produção toda, eu me montei, fui pra uma boate sem saber o que que era o universo. Entrei, com a cara e a coragem, na boate do Dirnei Messias, que ficava ali na avenida Júlio de Castilhos, num concurso de dublagens. Foi lá que eu fiz minha primeira participação e ganhei o primeiro lugar, […] participando com as feras da noite, as quais eu não conhecia, que já eram as estrelas da noite. Tinham várias artistas muito conhecidas que já faziam espetáculos e a partir dali a minha carreira deslanchou e eu fui correndo atrás e fui fazendo. Foi assim.

Lady Cibele Boate Grafia Drag
Lady Cibele em seu primeiro concurso transformista. Fonte: Acervo do artista

(Luná Maldita) Em relação a isso, eu quero te perguntar como é que você percebe surgir o termo drag queen? Você lembra de alguma coisa sobre como esse termo foi chegando?

(Everton Barreto) As drags, as primeiras foram as americanas, né, que foi lá pelos anos 1980 mesmo, que houve um boom, e pra cá depois dos anos 1990 estourou. Inclusive, houve um evento aqui mesmo, na Casa de Cultura, onde estamos conversando agora, onde foi feito um outro trabalho pra a Ulbra, com a jornalista Juliana Bortoluzzi, que fez uma invasão drag. E como não haviam muitas ainda, elas me chamaram, chamaram a Dandara Rangel, a Gloria Crystal, que nós éramos as transformistas mais conhecidas da época. E nesse momento nós lançamos esse movimento drag e, em seguida, começaram a aparecer. Nessa noite, apareceu a primeira drag que eu vi em Porto Alegre, Esmirrah de Versatti, linda! […] A gente apareceu nos jornais, aparecemos na televisão, então foi uma coisa que… houve o boom.

(Luná Maldita) E você percebe algum traço mais geral de diferença entre as transformistas e as drags?

(Everton Barreto) Aaai a linguagem artística é bem diferente, porque, nós, transformistas, nós tentamos passar a ideia e a imagem de uma mulher de verdade, não essa imagem de exagerada. A gente fazia o menos, tinha que parecer mulher dentro do minimalismo e as drags são mais exuberantes, como o próprio nome diz, é um dragão mesmo, né? […] Tanto é que eu tenho dois filhos, um de 35 anos e o outro de 22, o de 35 anos não me acompanhou, mas o mais novo eu levava nas paradas gays, as quais eu apresentei muitas vezes, da terceira em diante eu participei da Parada Livre. E o meu filho ficava deslumbrado com as drags. Ele gostava mais das drags do que das transformistas e ele, pequenininho, diz assim: “Ai me leva para ver o palhaço bonito”. O palhaço bonito eram as drags (risos). Um amor, ele é muito fofo.

(Luná Maldita) E como você percebe a relação com as drags das novas gerações?

(Everton Barreto) Eu ando um pouco afastada da boate, eu acho que… [pausa prolongada] A gente se sente um pouco que excluído, sabe? Pela idade. Dentro do próprio meio há um preconceito das drags com as transformistas e não vejo das transformistas com as drags. Mas eu também acho que isso é normal na sociedade em geral, né, o tal do que a gente chama agora de etarismo. Eu tenho sofrido alguns ataques de algumas drags no meio, por dizerem que eu já estou velha, que eu já estou passada, mas eu administro isso muito bem. […] Sigo a minha vida, ainda sou chamado, faço muitos eventos e vou levando uma vida normal, não tenho embate com elas. Acho uma lástima, né, porque nós sempre lutamos pela igualdade, pelo respeito e reconhecimento e dentro do meio há essa rixa. A prova está que Porto Alegre tem duas paradas gays, então não preciso te dizer mais nada, né.

(Luná Maldita) Se a gente tem esse território construído e estabelecido, no qual a gente transita e no qual a gente tem a oportunidade de se colocar, né, é porque vocês estiveram…

(Everton Barreto) Porque outros vieram abrindo portas, é o que eu digo. Quando eu sou atacado por essas mais novas, o que eu digo para elas: meu amor, tu não estavas…, tu não eras nem nascida e eu já andava de salto alto, batom, trabalhando nas boates e fugindo da polícia, simplesmente por estar vestido de mulher. Hoje vocês andam de unhas pintadas, de batom, barbas, de saias e não são agredidas fisicamente, nem corridas pela polícia. E eu respeito as que vieram antes de mim também. Como havia a Valéria Del Rio, que era uma travesti maravilhooosa! A Nataly Delon. Então tem muita história por trás, sabe, e eu nunca as desrespeitei por elas serem mais velhas, muito pelo contrário, eu sempre enalteci e respeitei essas pessoas. […] Eu acabei de completar 60 anos de idade e não tenho vontade de parar não, entendeu? Eu ainda vou seguir incomodando sim! Vou seguir botando meu salto alto e elas vão ter que me engolir, porque é a minha história e é a história da gente, entendeu? A história da gente… é a nossa história!

Lady Cibele Mixx Bar Grafia Drag
Lady Cibele no Mixx Bar. Foto: Douglas Ostruca

(Luná Maldita) Eu queria te ouvir um pouquinho sobre as suas expressões transformistas. Como você descreveria a Lady Cibele?

(Everton Barreto) Eu me batizei de Cibele, por causa de um conjunto vocal chamado Quarteto em Cy, que ainda existe. Uma das cantoras era Cybele. E esse nome, eu acho um nome feminino, delicado e eu me identificava muito com esse nome. Eu que me batizei, ninguém me batizou. O Lady veio depois que eu fiz essa participação, a primeira aparição na boate do Dirnei. Tinha um cara chamado Frei Rocha, era um ex-frei que tinha uma boate gay em Porto Alegre. E ele me chamou para apresentar um show na casa dele, eu fui. Os meus figurinos eram sempre clássicos, sempre me vesti mais de senhora, nunca fui garotinha, desde jovem eu sempre tive um comportamento mais clássico. Aí ele que me intitulou de Lady, porque ele achava que eu tinha uma postura muito fina, muito delicada, diferente daquelas transformistas da época, né? Então ficou Lady Cibele por causa do Frei Rocha. E não houve outra, nunca mudei de personalidade, nunca mudei de nome, mantenho esse nome há mais de 30 anos […]. Nessa época da boate do Frei Rocha, normalmente quem apresentava os shows eram os donos das casas noturnas, porque as transformistas não falavam no microfone.

(Luná Maldita) Era sempre dublagem?

(Everton Barreto) Sempre. E ele me entrevistou, eu desenvolvi muito bem o assunto, ele se encantou comigo e a partir daquele momento eu ganhei o axé de fala, como a gente diz, né. E ele já imediatamente me contratou para me tornar apresentadora dos shows da casa dele.

(Luná Maldita) Que legal! E isso foi quando, mais ou menos?

(Everton Barreto) Em 1993, 1994.

(Luná Maldita) Logo no começo também?

(Everton Barreto) Tudo no começo, tudo estourou rapidamente. […]A partir dali comecei a falar, falar, falar e virei a boneca Emília, na verdade, né (risos). Aí comecei de boate em boate. Tinha vezes que eu me apresentava em quatro boates numa noite. Saia de uma para outra e fugindo da polícia, porque não podia andar vestido de mulher, a gente só por estar de mulher já era barrado, já era revistado. Uma coisa horrorosa […].

(Luná Maldita) Mesmo no pós-ditadura ainda tinha uma repressão política?

(Everton Barreto) Total! Total! […]

(Luná Maldita) Nossa, eu fico muito chocado de ouvir essas narrativas e ao mesmo tempo é muito louco, porque a gente tá vivendo agora o período de um levantamento desse conservadorismo que vocês vivenciaram e não imaginávamos que talvez pudéssemos vivenciar de novo, né […]. Eu gostaria de te ouvir sua relação pessoal com a sua persona artística. Existe alguma comunicação entre Everton e Lady Cibele?

(Everton Barreto) Eu acho que é o meu alter ego, né. É a mulher que eu gostaria de ser. Se eu fosse mulher, eu gostaria de ser a Lady Cibele. Não pensaria em ser de uma outra forma. Eu gostaria de ser a Lady Cibele, entendeu?

(Luná Maldita) Ela é esse espaço do se fosse, então? Onde você tem a possibilidade de fantasiar e criar a Lady Cibele?

(Everton Barreto) É o momento em que eu sou. Ali eu posso ser eu. Houve um período da minha época que eu, jovem também, nos anos 90, quando eu comecei a explodir, eu pensei em virar travesti. Cheguei a tomar hormônios. Mas, eu convivia com algumas travestis e percebi a barra pesada que é ser travesti, sabe, não é fácil, é um preconceito muito grande. […] E na verdade, no fundo, no fundo, eu acho que eu não tinha condições de ser travesti, nem financeira, nem psicológica, sabe? Mas cheguei a cogitar. A Cibele é o que eu projetei em mim, é a mulher que eu seria.

(Luná Maldita) E você percebe alguma transformação na sua maneira de se comunicar quando você está montado como Cibele? E quando você tá desmontado, como Everton?

(Everton Barreto) Ahh, desmontado eu sou bem tímido, bem tímido. E de Cibele, eu me coloco melhor. Eu sei me colocar melhor como Cibele. Engraçado, né? Não sei se é a maquiagem, que é a máscara que eu uso, também me ajuda a me proteger. Quanto eu tô de Cibele, o Everton sumiu. Então tem essa coisa aí que eu acho bem forte. […] Eu fui uma das primeiras a ir para as televisões para participar dos programas de debates, montadíssima. Tive embates ferrenhos com um padre da PUC. Não vou citar o nome dele, porque já é falecido […].

(Luná Maldita) Eu gostaria de te ouvir mais sobre sua relação com outras artistas transformistas. Tem alguma que te marcou muito durante a sua trajetória?

(Everton Barreto) O Mauro Antônio Bonato, que era a Karen, foi ele quem me abriu as portas. E de figuras que me inspiraram, claro, que a Rogéria. Rogéria, Astolfo Barroso Pinto, é ícone, né. Lorna Washington, Erick Barreto, que era uma exceleeeente transformista.

(Luná Maldita) Ele fazia a Carmen Miranda né?

(Everton Barreto) Exatamente. Fizemos alguns shows juntos em Porto Alegre. E aqui de Porto Alegre, as minhas amigas queridas, com as quais eu trabalhei, a minha turma que se formou, que é a falecida, Dandara Rangel, a Laurita Leão, a Maria Helena Castanha, Gloria Crystal, esse time que foi me dando força.

(Luná Maldita) Isso foi a partir do Zé Adão Barbosa, né, que também trabalhou com vocês?

(Everton Barreto) O Zé nos mostrou para a sociedade, nos tirou do gueto e levou pro teatro.

(Luná Maldita) Antes disso vocês já se conheciam?

(Everton Barreto) Já, dentro da boate. Depois teve o Gilberto Perim, que é diretor de cinema que também nos levou pro Festival de Cinema de Gramado e fez um curta chamado “Au revoir Shirley”, com a Rebecca McDonald. Um curta metragem maravilhoooso! Tá no YouTube. […].

(Luná Maldita) E em relação as casas noturnas. Quais que você acha hoje que dão mais espaço para as transformistas?

(Everton Barreto) Eu acho que o Vitraux é uma casa que se mantém de portas abertas. O Vitraux é uma casa não tem preconceito mesmo. É uma casa aberta pra drags, transformistas, travestis. Sempre foi assim, sempre houve espaço e abertura para todos os gêneros. Isso é muito legal. Uma outra coisa que eu vou te contar que eu acho que tu vai ficar passado. Eu sou duma época também, que a gente não podia entrar em boate gay montada. Houve um período que não podia, só para fazer show, faz o show e te desmonta. Não pode ficar travesti, boate gay não recebia travesti, tinha algumas aqui em Porto Alegre que não deixavam travesti entrar.

(Luná Maldita) Caramba, durante os anos 90?

(Everton Barreto) Durante os anos 90. […] Acontece que daí começaram a abrir outras casas que foram dando uma pequena abertura para as travestis, ai elas já podiam frequentar e algumas vezes eu ia vestida de mulher sem fazer show.

(Luná Maldita) Que absurdo! Inacreditável…É uma coisa muito esquisita né, porque ao invés da gente se articular…

(Everton Barreto) Na mesma luta. Não, ai não, olha a fulana ali, não vou ficar perto dela, ela é muito afeminada. […] Mas o que mais me deixa triste é entre os gays, tu entendeu? Entre os gays. “Ah, eu não vou sair com fulana, porque fulana chama muita atenção, a fulana é muito afetada”. Uma gay falando da outra?

(Luná Maldita) É uma pena, né, porque isso enfraquece a gente como coletivo. E deixa eu te perguntar ainda sobre esses diferentes espaços casas noturnas, teatro e cinema. Você já teve experiência em todos eles?

(Everton Barreto) Sim. […] Apesar de que muitos atores ainda consideram o trabalho do ator transformista como uma arte menor, sendo que o teatro, nos primórdios, as mulheres… os papéis femininos eram executados, feitos por homens. Mas ainda há preconceito, tanto que numa premiação do Troféu Açorianos, onde a falecida Dandara Rangel recebeu o troféu de melhor atriz coadjuvante, houve um manifesto [pausa] horrível de um certo grupo teatral aí… de preconceito mesmo, entendeu? […]. O historiador Luis Francisco Wasilewski conta essa história perfeitamente bem. Ele tem todos os fatos, ele sabe muito bem. Ele era, inclusive um dos jurados na época. Ele comprou uma briga, uma briga com os outros jurados para poder dar o prêmio pra Dandara. Então, dentro da classe teatral também tem esse preconceito […].

(Luná Maldita) Caramba, é o preconceito explícito entre os próprios artistas! Ainda em relação a essa questão do trabalho, você comenta que você começou a fazer transformismo em paralelo a sua carreira como cabeleireiro.

(Everton Barreto) Exatamente.

(Luná Maldita) Então você sempre teve essas duas profissões em paralelo?

(Everton Barreto) Sim, porque o cabeleireiro é quem sustentava a Cibele, no começo, e depois eu tive um momento que a Cibele começou a se sustentar, porque daí surgiram muitos trabalhos. Aí eu fazia muitos jantares e viajava! […] Imagina, numa cidade do interior, uma travesti, que eu era chamada de travesti, fazendo um show no jantar de dia dos pais. Isso não vai acontecer mais, infelizmente, a gente sabe que não vai.

(Luná Maldita) E…, recentemente você tem investido mais na sua profissão como cabeleireiro?

(Everton Barreto) Sim. E no teatro, porque as boates… [silêncio] aaai, esse horário de fazer show às 03h da manhã, 04h, eu não tenho mais interesse. […] Eu sou do tempo que eu dublava ópera, fiz “Madame Butterfly” numa boate. Quer dizer, era uma outra coisa, as pessoas vibravam, esperavam aquilo para ver a arte mesmo, a arte do transformismo.

(Luná Maldita) […] Everton, muito obrigada pelo seu tempo, pela sua confiança em compartilhar sua história. Eu me sinto honrado pelo privilégio de te ouvir.

(Everton Barreto) Ahh, querido, obrigado. Eu quero te dar um abraço! Porque é importante. Eu queria muito esse encontro viu, porque eu acho importante a gente ter essa troca, né, porque eu não sei quanto tempo eu ainda tenho. Na verdade, tenho 60 anos, daqui para frente a gente sabe que eu tenho mais passado que futuro, então acho legal poder compartilhar, né? Saber que isso vai ficar de alguma forma…

Revista Canvas entrevista Grafia Drag

(Tradução)*

(Canvas) Tudo bem, Grafia, obrigado por compartilhar suas histórias e insights conosco. Adoraríamos ouvir sobre o projeto de vocês.

(Grafia Drag) O projeto Grafia Drag surgiu como uma atividade de extensão na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Começamos a escrever textos sobre nossas experiências como artistas drag e, em outubro de 2023, completamos 2 anos, com quase 50 textos publicados. Hoje em dia, essa atividade de extensão se tornou um coletivo de artistas drag latinas. Iniciamos um podcast e, também, fizemos algumas rodas de conversa pública sobre a arte drag. Este projeto é significativo porque nos permite produzir conhecimento a partir de nossas próprias experiências. Dessa forma, não somos mais objetos de estudo, nos tornamos agentes que produzem e compartilham saberes sobre a cena da arte drag que estamos construindo. Além disso, este projeto coletivo ajuda os artistas a criar relações, gerando uma rede que nos fortalece, já que nos apoiamos mutuamente. Por fim, Grafia Drag mostra como a arte drag é múltipla e possui diferentes expressões, o que é uma forma de descentralizar as referências sobre a arte drag.

(Canvas) Ótimo, agradecemos por compartilhar isso conosco. Antes de pedirmos que você compartilhe mais de seus insights, poderia tirar um momento para se apresentar e contar como chegou onde está hoje para os nossos leitores?

(Grafia Drag) Somos um coletivo de artistas drag brasileiros interessades em compartilhar nossas experiências e produzir conhecimento crítico sobre isso. Atualmente, este coletivo é composto por Anubis Blackwood, Gilmar Montargil, Jandiro Koch, Juana Profunda, Kam Middle Space, Lorde Lazzarus, Luná Maldita, Mia The Witch, Pietro Lamarca, Tiffany Plazza. Além dos textos sobre a cena da arte drag publicados no site Grafia Drag, o coletivo também possui um perfil no Instagram onde postamos trechos de nossos textos. Recentemente, lançamos um podcast buscando alcançar um público mais amplo e difundir nossas ideias em outros meios. Além disso, realizamos duas rodas de conversa públicas com as artistas mais experientes em Porto Alegre, um grupo com cerca de 40 anos de carreira (Gloria Crystal, Lady Cibele, Laurita Leão e Maria Helena Castanha). Estamos muito orgulhosos dessas atividades porque podemos mostrar que a arte drag é complexa e tem sido feita há muito tempo e em muitos estilos. Os participantes do coletivo são de todo o país, então também trazemos visibilidade para diferentes aspectos da cena da arte drag brasileira. Descrevemos o Grafia Drag como um território aberto, já que qualquer artista pode publicar seus textos conosco e, até mesmo, fazer parte do grupo.

(Canvas) Há algum livro, vídeo ou outro conteúdo que você sinta que impactou significativamente seu pensamento?

(Grafia Drag) Sim, o Grafia Drag nasceu no contexto acadêmico, então somos influenciades por estudiosos/as/es como Letícia Nascimento, Dodi Leal, João Silvério Trevisan, Judith Butler, Paul Beatriz Preciado, Gilles Deleuze, Felix Guattari e Diana Taylor. Esses estudiosos/as/es nos ajudam a mostrar que a arte drag é complexa e possui suas lógicas e estratégias de comunicação. A arte drag não é apenas entretenimento, mas, também, uma forma de vida. Através desse caminho, aprendemos a deslocar nossas inseguranças e a ir além de nossos medos. Acreditamos que a arte drag pode ser uma forma de produzir outro mundo de possíveis, afirmando o potencial da fantasia de reencantar a realidade contra movimentos políticos conservadores.

(Canvas) Como podemos ajudar melhor a promover um ambiente forte e solidário para artistas e criativos?

(Grafia Drag) Entendemos que a criatividade é a capacidade de expressar nossos desejos e sonhos, algo que as crianças sabem fazer muito bem como fazer. No entanto, ao longo de nossa jornada de crescimento, somos normalizados e incentivados a investir em um plano de carreira, de modo que a criatividade só é bem-vinda se estiver orientada para o mercado. Portanto, acreditamos que apoiar um ecossistema criativo envolve criar sistemas educacionais onde as habilidades criativas das crianças possam ser desenvolvidas. Entre os artistas drag, é comum ouvir que, quando crianças, brincavam cantando, atuando e vestindo as roupas dos pais para expressar sua criatividade. Isso mostra que essas pessoas aprenderam a dar expressão ao devir-criança que está envolvido na expressão criativa.

Entrevista Ikaro Kadoshi

Por: Pietro Lamarca

Em um mercado moldado pelos reality shows, ser artista drag pode ser um grande desafio. Os padrões estabelecidos, os recortes de gênero exigidos e os estilos de performance cada vez mais reproduzidos acabam por ser fonte de frustração para artistas que não se encaixam nas caixas abertas por um público cada vez mais homogêneo em relação à arte transformista. Pensando nisso, o Grafia Drag traz uma entrevista com uma das maiores e mais bem-sucedidas artistas drags do cenário nacional – apresentadora, comunicadora, fomentadora cultural e performer – Ikaro Kadoshi, para mostrar que o caminho do sucesso não só pode, como deve, ser baseado na sua identidade. 

Entrevista Ikaro Kadoshi
Ikaro Kadoshi. Fonte: Instagram do artista.

***

PL: Ikaro, é uma alegria sem tamanho poder mostrar uma parte da sua linda trajetória. Vamos lá no comecinho? Qual foi seu primeiro contato com a arte drag?

IK: É um prazer falar sobre a minha arte e as discussões que a permeiam há muito tempo. Meu primeiro contato com a arte drag foi aos 16 anos, com um RG falso – como todos os adolescentes faziam –, fui ao primeiro bar LGBTQIAPN+ que existiu na minha cidade, o Divina Ciência. Vi um show da drag da Amanda Di Poli – que já trazia uma arte diferenciada por ser, durante o dia, a drag queen do carro da pamonha. O show mexeu muito comigo, pois vim de uma vivência dolorosa e violenta que fez com que eu fosse um menino extremamente tímido, acanhado. Quando olhei aquela artista, vi nuances de liberdade que eu julgava inimagináveis. Naquela época, as drag queens eram a “cola” que mantinham a noite unida, apresentando pessoas, unindo quem não conseguia se enturmar.

PL: Quando você descobriu que precisava expressar-se por meio dessa arte? Existiu esse momento específico na sua vida? 

IK: Daquele dia em diante, passei a ir semanalmente ao bar para conversar com as drag queens no camarim e acompanhar os processos. E ali conheci Romana Rose, e dividimos nosso amor por mitologia greco-romana, nos encontrávamos para falar sobre o assunto com frequência. Um dia, ela me disse: você vai ser drag queen e seu nome vai ser Ikaro, por causa da mitologia. A minha resposta foi defensiva, negativa, pois eu percebia como as drag queens eram tratadas na noite e socialmente,então, eu  julgava o preço da arte muito alto. Um ano depois, já não podia mais conter minha vontade de estar naquele palco que eu tanto acompanhava. Em 1999, decidi que ia me montar. Após um ano de pesquisa e planejamento, no dia do meu aniversário, eu ganho a terceira edição de um concurso chamado Stars on Stage, produzido por Morgana Loren, e nasce Ikaro Kadoshi.

PL: Há anos, enfrentamos uma certa padronização de como uma drag queen deve parecer visualmente, e há um imaginário de performance no senso comum. Como foi o processo de descoberta da sua identidade artística, e como foi perceber que ela não correspondia ao esperado pelo mercado? 

IK: Para muita gente que foi educada de uma maneira X, descobrir que existe um alfabeto de A a Z é desconstruir ou fazê-la admitir que o mundo é muito maior do que ela pensava. A arte tem o papel de trazer esses questionamentos ao status quo e de movimentar a alma para lugares diferentes. Quando comecei, o andrógino era visto como horror, trabalhava-se muito, mas só no halloween. Fui o primeiro a fazer música lenta, foi um impacto que gerou um misto de reações. Ser alguém que sai dos padrões é fazer o papel principal da arte: questionar. No meu caso, só o fato de ser uma drag queen de nome Ikaro já provoca um questionamento sobre gênero. Para mim, a arte drag é a mais liberta e infinita, e todos têm o direito de escolher a estética e o estilo que quiserem. O que não é um direito é diminuir a estética de um artista por não pertencer ao padrão vigente.

PL: Ser fiel à própria identidade artística pode trazer dificuldades no mercado drag, como aceitação, prospecção de trabalhos etc. Isso aconteceu com você? Ouviu muitos “nãos” antes da sua ascensão? Pode nos dar um exemplo marcante?

IK: Já vivi várias situações. Um bom exemplo foi em uma participação em um concurso, em que entreguei meu CD com a minha música para o DJ, e ele questionou sobre ela ser lenta, que era “estranho” “coragem”. Mas o mais marcante de todos foi quando uma drag residente de uma casa onde eu faria shows virou para o diretor artístico e disse, na minha frente: “Essa drag vai ganhar o mesmo cachê que eu? Careca? Ela não tem esse direito”. Ouvi muitos nãos, muitas vezes a gente questiona se vale a pena, se nossa arte é compreensível, se é “errada”. O segredo foi acreditar em mim quando ninguém mais acreditou, e seguir o meu fazer com toda a verdade que habita dentro de mim.

PL: Em algum momento da sua carreira, você pensou em adotar uma identidade que “venderia mais”? Como foi a sua inserção na cena paulistana?

IK: Cheguei em SP em 2002, mas já frequentava a Parada desde 1999. Eu tive sorte, acho, pois cheguei em uma cena muito plural, muito diversa. Então, não só não passou pela minha cabeça, como não faria sentido para mim, pois deixaria de ser eu. No final das contas, debate-se tanto a estética drag e esquece-se do debate sobre a estrutura do mercado, sobre a marginalização do artista.  

PL: O Drag Brunch Brasil é um projeto que reúne e fomenta diversos tipos de arte drag, tornando-se referência de evento da cena nacional. Para além deste projeto, você já trabalhou de modo coletivo com outros artistas? Como foi? 

IK: A arte drag, pela premissa da sua formação, é uma arte coletiva. Já fiz muitos shows com várias drag queens que ficavam em cartaz por meses. Hoje, com o Drag Brunch, tenho o prazer de reunir uma pluralidade de artistas, para um público que muitas vezes nem tem noção do quanto arte drag pode ser diversa. Isso proporciona trocas muito ricas entre os próprios artistas e deles com o público.

PL: Ikaro Kadoshi é referência de performance de dublagem que emociona, que traz o drama e a interpretação à flor da pele. Como foi o processo de descoberta dos seus pontos fortes e o caminho para transformá-los em potência?

IK: Meu caminho foi experimentar. Eu fiz todo tipo de show, e é um processo que demanda muita autoconsciência, autoanálise, autocrítica e pé no chão, ainda mais hoje, que a internet traz tanto críticas como elogios vazios. O frio na barriga é vital, porque ele faz a gente dar nosso melhor, se ele acabar, acabou a arte, a motivação, o desafio. No fim das contas, Ikaro fez-se dramático, teatral e forte porque em cima de um palco eu só quero lembrar que estamos vivos, que precisamos viver todas as emoções, para entender o que é passar por essa existência.

PL: Hoje, ainda que o mercado da arte drag esteja muito mais diverso do que foi há algumas décadas, ainda temos alguns gargalos, como o preconceito com algumas formas de expressão, até mesmo com o gênero dos artistas. Como você percebe a aceitação de drags “fora do padrão” hoje, em relação ao início da sua carreira? Quais seriam boas alternativas para uma cena drag mais inclusiva e rentável? 

IK: Tenho uma leve sensação – talvez até um pouco saudosista – de que antes da internet, havia uma pluralidade artística um pouco maior, no sentido do fazer artístico. Hoje, graças a Deus, temos uma diversidade de corpos maior também. Mas é uma questão difícil, pois para melhorar o cenário, é preciso mudar a educação. É preciso que seja ensinado que arte drag é uma das mais belas e difíceis artes que existem. E isso é desde o público consumidor até o mercado contratante. Os espaços de trabalho estão cada vez mais escassos, e para onde vão esses artistas? A comunidade que ama a arte drag fomenta trabalhos também, por mais simples que sejam? É uma resposta complexa quando nos deparamos com a realidade.

PL: Como grande exemplo de artista drag queen que alçou voos inimagináveis, como apresentar as Olimpíadas, painéis em eventos geek e programas em grandes serviços de streaming, qual é o seu conselho para artistas que temem ser “muito diferentes” para o mercado transformista, sejam iniciantes ou com muitos anos de carreira?

IK: Se você quer viver da arte drag, sua arte e seu corpo são uma empresa. Então, qual é o seu planejamento? Já colocou as suas metas no papel? O que é preciso estudar para atingir as suas metas? O que você precisa adquirir de expertise para oferecer um trabalho de qualidade do seu estilo/estética? O resumo para mim de fazer drag é isso: estudar, estudar e agregar conhecimento. E nunca esquecer que esse processo é preciso ser feito com paciência, resiliência e amor à arte.

Pietro Lamarca e Ikaro Kadoshi. Foto: Mônica Lachman

Saturna: um retorno da ópera às composições drag

Essa entrevista, concedida por Saturna ao Grafia Drag, foi realizada via e-mail no dia 06 de junho de 2022. As questões abordam desde as inspirações para a composição da drag queen, passando pelas transformações percebidas no corpo a partir das montações, até o retorno da ópera às composições drag na vivência da artista.

***

Saturna da ópera às composição drag
Arquivo pessoal da artista
Fonte: @saturnaqueen

(Grafia Drag) Desde quando vem seu desejo de se montar? Quando e como você começou?

(Saturna) Primeiramente, quero agradecer o convite de colaborar com vocês aqui no Grafia Drag, é um prazer enorme. Bom, eu sempre fui uma criança muito artística e performática! Durante minha infância, eu sempre amei cantar e nas festas de final de ano da minha família, eu sempre preparava algumas músicas para apresentar para a família. Com o passar dos anos fui me descobrindo como artista e fui exposto a várias maneiras de expressão correlacionadas ao canto, então durante a pandemia, me permiti experimentar mais com maquiagem e tudo aquilo que envolve a montação! E foi assim que a Saturna nasceu no meu quarto, em Bagé, em agosto de 2020.

(Grafia Drag) Como surgiu o nome Saturna Queen?

(Saturna) Eu sou uma drag queen capricorniana! Me sinto muito ligada a Saturno – planeta regente de capricórnio. Sou uma pessoa que preza muito pelo tempo das coisas, acredito que tudo acontece na hora certa em nossa vida, e Saturno é o Deus do Tempo! Haha Também valorizo muito os processos da vida, não apenas o resultado, sabe? E isso também é muito do meu signo. O “Queen” veio apenas por uma comodidade de user do instagram, assim me identifico mais apenas como Saturna.

(Grafia Drag) Quais são suas inspirações para compor suas performances e onde você costuma se apresentar? 

(Saturna) Minhas inspirações e referências são muito diversas! Sou apaixonada por grandes divas Pop como Lady Gaga, Britney Spears, rainhas do Jazz como Ella Fitzgerald, Etta James… Além de obviamente várias “Primas Donnas” da Ópera! Maria Callas é um ícone que mora no meu coração. Costumo me apresentar desde em Recitais Líricos e Teatros como na noite também! Tudo muda conforme o repertório e a proposta, alguns lugares que já tive a oportunidade de cantar: Theatro São Pedro, Instituto Ling, Teatro da SCAR, Workroom Bar, In.fame bar, Bibah POA, Vitraux… e entre outros.

(Grafia Drag) Você participa de alguma Casa drag? Como são suas relações com outras drags?

(Saturna) Não participo! Minh jornada com a arte drag até o atual momento tem sido muito individual e pessoal. Procuro sempre manter uma relação de amizade com todas artistas que convivem no mesmo meio que eu em POA, sempre estou aberta a conhecer novas maneiras de se fazer drag e aprender com as manas.

(Grafia Drag) Você percebe diferenças quando está montado como Saturna e quando está desmontado enquanto Gonzalo? Essas posições se comunicam entre si?

(Saturna) Definitivamente! Eu sempre digo que o Gonzalo e a Saturna não são dois seres que coexistem em um mesmo corpo, eu sou a Saturna e o Gonzalo o tempo inteiro. A questão é, quando estou montada de Saturna, sinto como se eu fosse uma versão 2.0 e melhorada de tudo aquilo que eu não percebo no Gonzalo desmontado. Me sinto mais bonita, confiante, sinto que até canto melhor! É uma experiência de gênero para mim.

(Grafia Drag) Fazer drag produz deslocamentos no seu modo de estar no mundo?

(Saturna) Com certeza, como falei anteriormente, a arte drag para mim é uma experiência de gênero. Com isso quero dizer que, quanto mais me percebo enquanto Drag Queen mais tenho descoberto sobre mim mesmo. Cada montação, cada show, entendo mais e mais como gosto de ser percebido pelas pessoas.

(Grafia Drag) Você já se sentiu capaz de fazer coisas montado que não faria desmontado?

(Saturna) Acho que montado ou não, eu ainda sou uma pessoa muito “cara de pau”, sabe? Hahaha Sempre fui de dar a cara a tapa para tudo, então com a Saturna parece que agora eu tenho ainda mais poder em tudo que eu faço! Não sou uma pessoa introvertida e nunca fui, mas a montação insere em nós mesmos uma força interior que nos torna ainda mais capazes de qualquer coisa.

Saturna da ópera às composição drag
Arquivo pessoal da artista
Fonte: @saturnaqueen

(Grafia Drag) Na sua vivência o que veio primeiro a montação drag ou o interesse pelo canto? Como esses universos se cruzaram?

(Saturna) O interesse pelo canto! Esses universos se encontraram a partir do momento que eu percebi que a minha persona artística no palco era uma persona feminina. No começo da minha drag, eu jamais pensava em cantar, até então eu estava apenas brincando com maquiagem e preocupado em entender essa feminilidade em mim. Até que chegou um momento que resolvi gravar uma prova da faculdade em que eu precisava cantar, completamente montada. Naquele dia eu percebi que o que eu sentia falta no meu canto, eu tinha encontrado ali, expressando o meu feminino no meu ato de cantar, isso fala muito sobre minha essência artística.

(Grafia Drag) Além de Saturna, você já transitou por outras expressões drag? Quando você cantou desmontado no FEMUSC, havia ali uma outra composição drag ou você se colocou como Gonzalo mesmo?

(Saturna) Até o atual momento não e me sinto muito realizado onde minha Drag está hoje, me identifico muito com minha estética e minha performance. Era o Gonzalo mesmo e foi caótico! Eu tive vários momentos de destaque no FEMUSC como Saturna, estes foram incríveis, mas ainda sim houveram momentos que eu precisei representar o Gonzalo e para mim foi bem difícil subir no palco novamente como Gonzalo, considerando que atualmente não pretendo desenvolver carreira de Cantor Lírico como Gonzalo.

(Grafia Drag) Como você percebe a relação com as drags e transformistas de outras gerações? Você usa ou já usou a nominação transformista?

(Saturna) Eu acredito que é essencial conhecermos nossa história e aprender com as artistas que vieram antes da minha geração. A arte do transformismo é milenar e principalmente se você busca se apropriar desta arte e vivência-lá, é importantíssimo observar que o que você faz hoje não é nada de novo, e sim apenas uma reeleitura de expressões que existem há muito tempo. Eu nunca usei o termo transformismo.

(Grafia Drag) Além das perguntas feitas, existe mais alguma coisa que você gostaria de comentar?

(Saturna) Quero elogiar o trabalho de vocês em representar a arte drag com tanta profundidade a partir do trabalho que vocês tem desenvolvido em conjunto com várias drags da comunidade! Aproveito para agradecer também a oportunidade novamente e deixar uma frase de alguém que já conhecemos bem, que faz muito sentido para o meu viver artístico: “O ato mais poderoso que você pode fazer é se tornar a imagem da sua própria imaginação.” – RuPaul. ?