Por: Pietro Lamarca
Em um mercado moldado pelos reality shows, ser artista drag pode ser um grande desafio. Os padrões estabelecidos, os recortes de gênero exigidos e os estilos de performance cada vez mais reproduzidos acabam por ser fonte de frustração para artistas que não se encaixam nas caixas abertas por um público cada vez mais homogêneo em relação à arte transformista. Pensando nisso, o Grafia Drag traz uma entrevista com uma das maiores e mais bem-sucedidas artistas drags do cenário nacional – apresentadora, comunicadora, fomentadora cultural e performer – Ikaro Kadoshi, para mostrar que o caminho do sucesso não só pode, como deve, ser baseado na sua identidade.

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PL: Ikaro, é uma alegria sem tamanho poder mostrar uma parte da sua linda trajetória. Vamos lá no comecinho? Qual foi seu primeiro contato com a arte drag?
IK: É um prazer falar sobre a minha arte e as discussões que a permeiam há muito tempo. Meu primeiro contato com a arte drag foi aos 16 anos, com um RG falso – como todos os adolescentes faziam –, fui ao primeiro bar LGBTQIAPN+ que existiu na minha cidade, o Divina Ciência. Vi um show da drag da Amanda Di Poli – que já trazia uma arte diferenciada por ser, durante o dia, a drag queen do carro da pamonha. O show mexeu muito comigo, pois vim de uma vivência dolorosa e violenta que fez com que eu fosse um menino extremamente tímido, acanhado. Quando olhei aquela artista, vi nuances de liberdade que eu julgava inimagináveis. Naquela época, as drag queens eram a “cola” que mantinham a noite unida, apresentando pessoas, unindo quem não conseguia se enturmar.
PL: Quando você descobriu que precisava expressar-se por meio dessa arte? Existiu esse momento específico na sua vida?
IK: Daquele dia em diante, passei a ir semanalmente ao bar para conversar com as drag queens no camarim e acompanhar os processos. E ali conheci Romana Rose, e dividimos nosso amor por mitologia greco-romana, nos encontrávamos para falar sobre o assunto com frequência. Um dia, ela me disse: você vai ser drag queen e seu nome vai ser Ikaro, por causa da mitologia. A minha resposta foi defensiva, negativa, pois eu percebia como as drag queens eram tratadas na noite e socialmente,então, eu julgava o preço da arte muito alto. Um ano depois, já não podia mais conter minha vontade de estar naquele palco que eu tanto acompanhava. Em 1999, decidi que ia me montar. Após um ano de pesquisa e planejamento, no dia do meu aniversário, eu ganho a terceira edição de um concurso chamado Stars on Stage, produzido por Morgana Loren, e nasce Ikaro Kadoshi.
PL: Há anos, enfrentamos uma certa padronização de como uma drag queen deve parecer visualmente, e há um imaginário de performance no senso comum. Como foi o processo de descoberta da sua identidade artística, e como foi perceber que ela não correspondia ao esperado pelo mercado?
IK: Para muita gente que foi educada de uma maneira X, descobrir que existe um alfabeto de A a Z é desconstruir ou fazê-la admitir que o mundo é muito maior do que ela pensava. A arte tem o papel de trazer esses questionamentos ao status quo e de movimentar a alma para lugares diferentes. Quando comecei, o andrógino era visto como horror, trabalhava-se muito, mas só no halloween. Fui o primeiro a fazer música lenta, foi um impacto que gerou um misto de reações. Ser alguém que sai dos padrões é fazer o papel principal da arte: questionar. No meu caso, só o fato de ser uma drag queen de nome Ikaro já provoca um questionamento sobre gênero. Para mim, a arte drag é a mais liberta e infinita, e todos têm o direito de escolher a estética e o estilo que quiserem. O que não é um direito é diminuir a estética de um artista por não pertencer ao padrão vigente.
PL: Ser fiel à própria identidade artística pode trazer dificuldades no mercado drag, como aceitação, prospecção de trabalhos etc. Isso aconteceu com você? Ouviu muitos “nãos” antes da sua ascensão? Pode nos dar um exemplo marcante?
IK: Já vivi várias situações. Um bom exemplo foi em uma participação em um concurso, em que entreguei meu CD com a minha música para o DJ, e ele questionou sobre ela ser lenta, que era “estranho” “coragem”. Mas o mais marcante de todos foi quando uma drag residente de uma casa onde eu faria shows virou para o diretor artístico e disse, na minha frente: “Essa drag vai ganhar o mesmo cachê que eu? Careca? Ela não tem esse direito”. Ouvi muitos nãos, muitas vezes a gente questiona se vale a pena, se nossa arte é compreensível, se é “errada”. O segredo foi acreditar em mim quando ninguém mais acreditou, e seguir o meu fazer com toda a verdade que habita dentro de mim.
PL: Em algum momento da sua carreira, você pensou em adotar uma identidade que “venderia mais”? Como foi a sua inserção na cena paulistana?
IK: Cheguei em SP em 2002, mas já frequentava a Parada desde 1999. Eu tive sorte, acho, pois cheguei em uma cena muito plural, muito diversa. Então, não só não passou pela minha cabeça, como não faria sentido para mim, pois deixaria de ser eu. No final das contas, debate-se tanto a estética drag e esquece-se do debate sobre a estrutura do mercado, sobre a marginalização do artista.
PL: O Drag Brunch Brasil é um projeto que reúne e fomenta diversos tipos de arte drag, tornando-se referência de evento da cena nacional. Para além deste projeto, você já trabalhou de modo coletivo com outros artistas? Como foi?
IK: A arte drag, pela premissa da sua formação, é uma arte coletiva. Já fiz muitos shows com várias drag queens que ficavam em cartaz por meses. Hoje, com o Drag Brunch, tenho o prazer de reunir uma pluralidade de artistas, para um público que muitas vezes nem tem noção do quanto arte drag pode ser diversa. Isso proporciona trocas muito ricas entre os próprios artistas e deles com o público.
PL: Ikaro Kadoshi é referência de performance de dublagem que emociona, que traz o drama e a interpretação à flor da pele. Como foi o processo de descoberta dos seus pontos fortes e o caminho para transformá-los em potência?
IK: Meu caminho foi experimentar. Eu fiz todo tipo de show, e é um processo que demanda muita autoconsciência, autoanálise, autocrítica e pé no chão, ainda mais hoje, que a internet traz tanto críticas como elogios vazios. O frio na barriga é vital, porque ele faz a gente dar nosso melhor, se ele acabar, acabou a arte, a motivação, o desafio. No fim das contas, Ikaro fez-se dramático, teatral e forte porque em cima de um palco eu só quero lembrar que estamos vivos, que precisamos viver todas as emoções, para entender o que é passar por essa existência.
PL: Hoje, ainda que o mercado da arte drag esteja muito mais diverso do que foi há algumas décadas, ainda temos alguns gargalos, como o preconceito com algumas formas de expressão, até mesmo com o gênero dos artistas. Como você percebe a aceitação de drags “fora do padrão” hoje, em relação ao início da sua carreira? Quais seriam boas alternativas para uma cena drag mais inclusiva e rentável?
IK: Tenho uma leve sensação – talvez até um pouco saudosista – de que antes da internet, havia uma pluralidade artística um pouco maior, no sentido do fazer artístico. Hoje, graças a Deus, temos uma diversidade de corpos maior também. Mas é uma questão difícil, pois para melhorar o cenário, é preciso mudar a educação. É preciso que seja ensinado que arte drag é uma das mais belas e difíceis artes que existem. E isso é desde o público consumidor até o mercado contratante. Os espaços de trabalho estão cada vez mais escassos, e para onde vão esses artistas? A comunidade que ama a arte drag fomenta trabalhos também, por mais simples que sejam? É uma resposta complexa quando nos deparamos com a realidade.
PL: Como grande exemplo de artista drag queen que alçou voos inimagináveis, como apresentar as Olimpíadas, painéis em eventos geek e programas em grandes serviços de streaming, qual é o seu conselho para artistas que temem ser “muito diferentes” para o mercado transformista, sejam iniciantes ou com muitos anos de carreira?
IK: Se você quer viver da arte drag, sua arte e seu corpo são uma empresa. Então, qual é o seu planejamento? Já colocou as suas metas no papel? O que é preciso estudar para atingir as suas metas? O que você precisa adquirir de expertise para oferecer um trabalho de qualidade do seu estilo/estética? O resumo para mim de fazer drag é isso: estudar, estudar e agregar conhecimento. E nunca esquecer que esse processo é preciso ser feito com paciência, resiliência e amor à arte.

