Andanças por pedagogias drag: um resumão da Dirce no Fazendo Gênero 13

persephone ephemera pepper (a.k.a. jeanne martins speckart)

Chegamos atrasadas, nem um pouco discretas, em uma sala apertadinha do CFH – UFSC, já cheia de gente, quase todas pesquisadoras cisgêneras da pós-graduação. Comum atrasar-se quando se é uma Drag Queen que divide o seu tempo com outro trabalho e o estudo, ainda mais com a dificuldade de locomover-se nessa ilha. Como esperado, eu era a única pessoa não-binária e a única a ali montada para falar sobre a potência da Arte Drag como estratégia e linguagem para a arte-educação e formação para artistas da cena.

O vídeo que estrela este post é uma comunicação oral que realizei na 13ª ed. do congresso Fazendo Gênero, em 30 de julho de 2024, em Florianópolis. Lá fui eu a fim de divulgar e resumir a dissertação Uma Andança Por Pedagogias Drag, meu trabalho de finalização do Mestrado em Artes Cênicas (dez/2023). A fala aconteceu no Seminário Temático “Pedagogias Feministas nas Artes da Cena: Ensino-aprendizado, artivismos e experiências estéticas, em suas reverberações políticas, sócio-culturais e ambientais”, com coordenação de Lúcia Regina Vieira Romano (UNESP) e Luciana Lyra (UERJ).

Feliz fui eu de estar acompanhada na ocasião de outras duas integrantes da Efêmera Haus e uma estudante de uma das minhas oficinas: Eros (que gravou o vídeo e também estava montada belíssima), Etérea (que estava à paisana e aparece no vídeo) e Nit Nitpicky (que chegou depois, escapando do trabalho um pouquinho).

O Resumo:

Na Dirce (apelido que dou para minha dissertação) registro peças de um quebra-cabeça e vestígios do que são (ou pelo menos eram) e do que podem vir a ser as pedagogias na Arte Drag e descrevo o processo de criação e recriação das oficinas de iniciação/experimentação que eu realizei em 2019, 2022 e 2023, no intuito de formar artistas de forma ética e crítica.

As oficinas são um estudo de caso que tomam protagonismo do texto, a partir da minha experiência como professora de Arte Drag. Descrevo os contextos, situações e alguns procedimentos reproduzidos ou criados por mim nas quatro oficinas relatadas

As principais materiais fontes são escritos acadêmicos sobre a Arte Drag que tocam o assunto da Pedagogia, matérias jornalísticas e relatos pessoais de artistas Drag publicados em formas diversas. Defendo uma reflexão coletiva a partir do direito de autodeterminação da Arte Drag, e a análise das práticas pedagógicas do meio em termos políticos atuais.

Capítulo 1. A força do leque de Crystal

Douglas Ostruca

Este é o primeiro capítulo da tese “Micropolítica das montações: um estudo das comunicações transversais em fabulações transformistas” (2024), desenvolvida como uma narrativa fabulatória no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisa acontece em meio aos trânsitos pelos territórios transformistas de Porto Alegre.

SINOPSE: Forçada a se mudar para a capital, professora Luná se enreda em meio à solidão e aos fantasmas que a habitam. Como saída, ela investe suas forças na pesquisa da cena transformista de Porto Alegre, sendo provocada a se transformar ao longo do processo a partir dos encontros com as artistas.

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A praça dos Açorianos, no Centro Histórico de Porto Alegre, é ocupada por uma multidão de pessoas. Apesar do vento gelado próprio ao inverno cortante, o sol do início da tarde aquece os corpos já agitados. O povo faz a festa, uma grande festa a céu aberto. Bandeiras coloridas se espalham por toda parte, algumas com as cores do arco-íris, outras com as cores azul, rosa e branco. Crianças correm para lá e para cá, deixando escapar risos soltos e gritos desarticulados. São tantas as variações de famílias presentes que a tradicional monocromática é apenas mais uma configuração em meio à multidão. Transformistas, drag queens, drag kings, drag monstras, pessoas travestis, homens e mulheres trans, não-bináries, bissexuais, bixas, pansexuais, intersexuais, assexuais e mais tantas outras ainda por vir formam uma multidão queer fervendo nas ruas da capital (Preciado, 2011).

Uma figura esguia, com ar fantasmagórico, vaga entre as pessoas. Ela passa em silêncio, observando curiosa os mínimos detalhes como quem tem fome de alegria. Os olhos escuros são aumentados pelos óculos de aros grossos, dando a ver dois buracos negros que atraem para si o mundo. Embora seu desejo seja olhar sem ser olhada, sua estranheza peculiar inevitavelmente chama a atenção das pessoas. A saia preta de veludo e a camisa social compõem uma vestimenta elegante, contrastando com os gestos desengonçados que mostram um despertencimento difícil de camuflar. Luná veio para a capital fugida de seu passado, o qual, apesar de seu desejo, persiste no corpo, reforçando a rigidez. Para sentir-se à vontade consigo mesma em meio à multidão, ela compra um latão de cerveja da primeira vendedora ambulante que vê.

O caminhão de som se dirige lentamente em direção à orla do lago Guaíba. Luná acompanha o mundaréu de gente que se organiza atrás do veículo. A música Rajadão (2020) da Pabllo Vittar toca em toda a potência e o povo canta junto em voz alta. “A previsão do tempo diz que o céu fechou / O poder da vitória vai curar a dor / O temporal agora vai cair em mim / A chuva da vitória vai reinar no fim…”. O volume da música é reduzido gradualmente. Ao ver a transformista Gloria Crystal subir no carro de som, Luná não se contém, um sorriso se esboça flexibilizando os traços rijos de seu rosto. Em sua memória é viva a lembrança da dublagem que Gloria fez da música Fortissimo (Rita Pavone, 1966) há mais de 10 anos, em São Borja. A rememoração alegre lhe traz um frescor em meio ao gélido breu generalizado em seu corpo.

Gloria Crystal na Parada de Luta de Porto Alegre (17/07/2022). Foto: Luná Maldita.

Gloria Crystal assume o microfone: “Boa tarde, Porto Alegreeee”. O povo responde; não satisfeita, a artista insiste: “Eu quero mais forte! Boa tarde, Porto Alegreeeee!”. Em uníssono, as múltiplas vozes revoam, estremecendo o chão. A artista prossegue: “Me sinto honrada por apresentar mais uma edição da Parada de Luta de Porto Alegre. Ainda me lembro da primeira que aconteceu lá em 2007. É uma alegria imensa fazer parte disso. Esse é um momento importante pra gente botar a cara no sol e dizer a que viemos. Eu quero ver todo mundo vibrando comigo! Entendido?!”. A multidão responde “sim” aos berros, expressando excitação.

À medida que a cerveja entra, a tensão no corpo de Luná se dissipa. Ela se permite um momento de diversão, inspirada pela extroversão de Gloria, que brinca com as palavras usando o chiste como estratégia de discurso. De cima do caminhão, a artista dança alegre e interage com o público agitado. “O improviso é outro elemento perceptível na comunicação, é aí que as conexões de ideias mais estranhas acontecem”, depreende Luná. Interrompendo sua divagação, alguém grita seu nome. Assustada, ela olha na direção de onde vem a interpelação. “Mia!”, responde Luná colocando a mão sobre o peito. Mia usa um vestido curto até as coxas, a cintura é sobreposta pelo espartilho preto. Ela é acompanhada por Tiffany Plazza, que está de vestido vermelho com transparência e uma coroa em tecido da mesma cor. “Que susto, achei que fosse algum estudante da faculdade”, complementa Luná aliviada. “Ai amiga, você ainda está com essa mania? Não vai me dizer que é por isso que está com esse look de professora do século XIX”, responde Mia, debochada. Tiffany ri do comentário.

Desconcertada, Luná muda de assunto: “Estou fazendo a pesquisa de campo para aquele estudo que comentei contigo”. “A senhora está sempre trabalhando né gata, mesmo na diversão ela não para! Você precisa relaxar um pouco”, diz Mia. Tiffany atravessa a conversa: “Eu fui chamada pra performar na última noite do In.fame, quer ir com a gente?”, convida a drag. “Como assim última noite?!”, responde Luná, surpresa. “Você não soube? Eles vão se mudar de cidade, estão fechando”, explica Tiffany. “Poxa, gosto daquele espaço, é um dos mais acessíveis que conheci”, responde Luná, chateada. “É uma notícia triste mesmo, mas essa vai ser a primeira performance da Tiffany em um bar, então é motivo pra comemorar também!”, comenta Mia estalando os dedos no ar. Luná concorda em encontrar Mia e Tiffany no In.fame, elas se despedem. Luná compra outra cerveja e continua a caminhada, observando tudo com a mirada ferina.

Em meio à multidão, algumas pessoas batem leques no ritmo da música. “Que coisa lindaaaa!”, comenta Gloria conectada ao instante. “Parem a música um momento, quero ouvir o som desses leques batendo com força”, pede a artista. Aos poucos, o povo ergue seus braços múltiplos e, em uníssono, o som de mil leques ressoa pelas ruas de Porto Alegre. TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ- TRÁ… Sobre o carro de som, Crystal ergue seu próprio leque amarelo somando-se à multidão. Tamanha é a força desse ato que uma rajada de vento faz a coroa de cabelos vermelhos de Crystal esvoaçar, ela fecha os olhos por um instante e dá uma gargalhada dizendo: “Essa é a força do leque! Essa é a nossa força, meu povo!”. A multidão grita, aplaudindo a artista. O cortejo continua.

Já na Orla do Guaíba, Gloria desce do carro. Luná corre desengonçada para alcançar a artista, ela a cumprimenta ofegante: “Olá, Gloria”. “Eu mesma, a própria. Contigo correndo desse jeito, achei que era arrastão. Aloooka!”, responde Crystal gargalhando em alto astral. Luná deixa escapar um riso, desconcertada. “Meu nome é Luná, sou professora substituta na UFRGS, estou pesquisando o transformismo aqui em Porto Alegre. Entre outros artistas, conversei com João Carlos Castanha, Lauro Ramalho, Zé Adão Barbosa e Charles Machado. Adoraria conversar sobre o tema contigo também”. “Mas olha só, uma acadêmica entre nós”, diz Gloria zombeteira, e prossegue: “Legal seu interesse, mas agora eu não consigo, preciso ir pro palco, podemos conversar em outro momento? Farei um show no Mixx Bar no início do mês que vem, aparece lá que a gente toma uma cerveja”. “Maravilha! Estarei lá, muito obrigada, Gloria, é um prazer te conhecer”, responde Luná em tom formal. A artista se vai e no rosto da professora aflora um sorriso, algo raro dado o seu momento de vida.

Um turbilhão de ideias atropela Luná, seus pensamentos maquinam acelerados. A visão embaça, a atenção volta para si mesma e ela não enxerga o que se passa ao redor. Alguém abre um leque com força ali por perto, o som ecoa os mil leques que há pouco batiam em conjunto. O corpo de Luná é percorrido por um arrepio. “Quem diria, um inofensivo leque usado cotidianamente para abanar, torna-se uma tecnologia política nas mãos dessa multidão…”, diz ela em voz baixa. Com o celular em mãos, a professora manda uma mensagem para si mesma no Whastapp: “Quais são as diferentes montações com as quais o leque já se conectou? Que outras funções o leque assume ao variar a montação?”.

REFERÊNCIAS

PRECIADO, Paul Beatriz. Multidões queer: Notas para uma política dos “anormais”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, SC, v. 19, n. 1, p. 11–20, 2011.

Drags feministas? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo

Mia The Witch

Há dois anos, realizei uma pesquisa acadêmica no curso de Relações Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para a disciplina de Laboratório de Pesquisa I, ministrada pela professora Elisangela Lasta, que tinha como objetivo compreender se existem implicações entre a arte drag e reivindicações feministas na percepção do feminismo. Para isso, coletei dados de 400 mulheres brasileiras, feministas e não-feministas, através de questionário disponibilizado na internet, conferindo 95% de grau de confiança e 4,9% de margem de erro nos resultados.  

Para elaborar o questionário que fundamentou minha análise, tomei ciência sobre reinvindicações da pauta feminista e os cruzei com atos constituintes da performatividade drag, buscando entender a visão das mulheres sobre tais atos. Dentre os assuntos abordados nas perguntas estão o uso drag de ferramentas como corset e espuma para criar uma ilusão de corpo feminino, a estereotipação de identidades femininas como recurso humorístico de queens comediantes e a performatização de sensualidade de artistas drags.

Através da análise desses dados, consegui compreender que as mulheres feministas não encontram grandes problemas dentro das práticas drags vistas como formadoras dessa performatividade. O uso de ferramentas artificiais em busca da ilusão de beleza hegemônica feminina, de estereótipos caricatos e o explorar da sensualidade não são práticas consideradas pelas feministas como, respectivamente, opressivas, desrespeitosas e nem acreditam que contribuam para o objetificação de corpos femininos. A maioria das feministas não considera que o uso de signos atribuídos socialmente à beleza hegemônica da mulher, feito por drag queens, representa um problema ao movimento feminista, não fazendo diferença a elas a utilização destes pelas drags. 

Contudo, mesmo achando que a estereotipação de corpos e vivências femininas não sejam problemáticas, as feministas acreditam que seja possível constituir expressões drag sem fazer uso dessas ferramentas. Sob sua visão, a mescla de signos entre ambos os gêneros seria uma forma mais interessante para a construção drag, evitando personas essencialmente femininas. Além disso, as feministas acreditam que a expressão drag pode contribuir com o movimento feminista por ser entendida como quebra de estereótipos de gênero, não a reprodução deles. 

Mia The Witch Drag feminista
Mia The Witch
Fonte: Arquivo pessoal

Por outro lado, as mulheres que participaram da pesquisa tecem algumas críticas aos artistas drags. Consideram alguns termos da cultura drag, como fish*, misóginos. Acreditam também que celebridades drag poderiam se posicionar mais acerca de assuntos feministas. Outro problema visto por elas é a resistência em aceitar mulheres, cis ou trans, como artistas drag, uma vez que é uma expressão artística dominantemente masculina e gay. O que entraria em conflito com a causa feminista, segundo elas, são estes fatores que vão além de simplesmente a montação drag, tais como o vocabulário que a comunidade utiliza, como e para que usam sua visibilidade e quem consideram aptos a performar a arte drag. 

Apesar dessa pesquisa já ter completado dois anos de elaboração, ainda se faz importante pensarmos a respeito dos limites entre a expressão drag e as reivindicações feministas. Principalmente quando se detecta, através desse estudo, que o feminismo não estaria simplesmente contra a existência de drag queens como se ouve em conversas informais, sem nenhum embasamento científico. Afirmar isso não é apenas um erro pelo fato de feministas não serem contra, como também porque acreditam que as drags podem ter um papel colaborativo nesse movimento. Há a possibilidade do diálogo entre o movimento e a arte para que ambos se fortaleçam. 

Particularmente, falando sobre minha experiência enquanto uma drag queen não-binária, acredito que a arte drag perpetua ainda muita misoginia estrutural quando, por exemplo, exclui mulheres da possibilidade de serem artistas drags. Ou pior ainda, quando “toleram”, mas acreditam ser “mais fácil” para elas. Se formos recuperar a história da luta feminista, vamos ver que mulheres sempre foram impedidas de acessar os mesmos postos e atingir as mesmas oportunidades que os homens. Essa reprodução valorativa não pode acontecer dentro da cultura drag, pois esvaziaria-se a essência da arte que nasceu para ser uma forma de ruptura dos papéis de gênero. Mesmo sendo uma pesquisa realizada em 2021, vemos que ela ainda é uma pesquisa atual quando a comunidade drag ainda vive em uma realidade parecida com a apontada pelas feministas nesse estudo. É preciso que, coletivamente, dêmos passos adiante e façamos, como artistas que somos, as mudanças sociais que nossa arte promove –  ou, pelo menos, que se propõe na teoria.

*Fish, do inglês, peixe. Faz referência ao cheiro de uma vagina. Usa-se quando uma drag está extremamente feminina.

Como citar este texto

WITCH, Mia The. Drag feministas? Reflexões acerca dos limites entre a arte e o ativismo. Grafia Drag. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/drag-feminista/. Acesso em: 27 Mar. 2023.