O Calabouço de Cassandra: percursos e processos do ofício drag queen

Em 1998 nasce a drag queen Cassandra Calabouço, um acontecimento na vida de Nilton Júnior, artista que dá corpo à essa expressão artística. Em busca de conhecer a trajetória do artista, realizamos uma entrevista no dia 5 de maio de 2023, na Casa de Cultura Mário Quintana. Nesse encontro, conversamos sobre o percurso artístico da drag queen, considerando seus processos de criação, as transformações produzidas em sua vida pessoal, além das delícias e dos desafios dessa profissão.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Pedro Karg

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(Luná Maldita) Pra começar, eu quero te perguntar como você prefere que eu te chame em termos de nome?

(Cassandra Calabouço) Eu realmente estou muito acostumado às pessoas que me conhecem como drag me chamarem de Cassandra, eu estando de peruca ou não. Então fique bem à vontade, por mim, pode me chamar de Cassandra. Mesmo eu estando sem peruca [risos].

(Luná Maldita) Combinado. Cassandra, desde quando vem o seu desejo de se montar? Você percebe, algum momento em que se manifesta esse desejo?

(Cassandra Calabouço) Olha, essa pergunta não é nova pra mim [risos], muitas pessoas já me fizeram e eu mesmo já me fiz. A resposta inicial que eu encontro, de uma consciência, de um desejo dessa figura da drag, isso teve a sua aparição na minha vida ali nos anos 90, depois que eu assisti ao filme Priscilla Rainha do Deserto. E quando eu estava numa boate, passei pela experiência de ver três drag queens, enooormes, muito coloridas, lindas, eu nunca vou esquecer. Eu ainda tenho essa mesma sensação cada vez que estou frente a uma drag, é algo que mexe comigo de muitas maneiras. Mas eu não acho que foi aí que eu comecei a ter esse desejo de me montar, acho que eu comecei a ter esse desejo desde a minha mais tenra infância. Eu sempre curti me vestir e flertar no universo do que a gente considera vestuário feminino, sempre gostei de figurinos, a coisa da arte sempre esteve presente para mim. (…) Nas roupas da minha mãe, nas roupas das minhas irmãs, que era onde eu comecei a brincar, onde eu comecei sozinho a… [silêncio], eu vou usar a palavra me montar, mas entenda bem que eu era uma criança e eu não tinha a menor noção, mas lá eu acho que foi onde surgiu.

(Luná Maldita) No ato de brincar?

(Cassandra Calabouço) É, a coisa da drag, pra mim, ela surgiu mesmo como uma brincadeira.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Pedro Karg.

(Luná Maldita) E esse show que você falou, que te tocou de uma maneira intensa, foi aqui em Porto Alegre? Você lembra de quem era o show?

(Cassandra Calabouço) Não foi um show, na época não havia espaço pra performance, elas estavam circulando, estavam dando close na rave, que era o DJ Eduardo Herreira que promovia. Essa rave estava acontecendo no Armazém do Cais do Porto e apareceram três entidades, as três muito influenciadas pela estética e pela visualidade do filme Priscilla, com perucas enormes de flores, plataformas imensas, bem diferente do que hoje a gente vê. Mas, naquela época foi isso, era como se eu tivesse vendo ao vivo aquilo que eu já tinha visto no cinema. E uma dessas artistas era um grande amigo de adolescência, que eu nem sabia que se montava de drag, era a Charlene Voluntaire.

(Luná Maldita) A Charlene? Que legal! Admiro bastante o trabalho dela também. [Pausa] Bom, a próxima questão é como e quando você passa a se reconhecer como uma artista drag queen, como foi esse processo?

(Cassandra Calabouço) O que deu esse gatilho pra mim de [estalo de dedos], “sou uma artista drag, sou uma drag queen”, foi quando eu comecei a trabalhar com isso, quando eu comecei a ser remunerado por isso. Porque isso vem pra mim de um lugar de desfrute, de deleite, eu experimentava muuuito a Cassandra, eu brincava muito com essa figura fora da norma, tem a ver com o meu outing e a minha sexualidade. Eu fui muito reprimido, tive uma infância e uma adolescência muito religiosa. Eu não queria ser gay, eu tinha medo, eu achava que eu ia pro inferno, eu acreditava em Deus e diabo [risos]. E eu não queria, eu achava que era errado, sabe? Eu rezava pra não ser gay. E aí, quando eu consigo assumir que eu sou gay e começo a conviver com outros gays, que foi na dança, eu achei que eu poderia ser mais livre. Não sofria mais bullying, mas eu sofria um julgamento muito grande, porque o meu corpo era muito queer, eu era muito afeminado e isso nos anos 1990, na companhia de dança que eu fazia parte, era proibido. Eu fui ensinado, eu fui orientado, eu fui cobrado a me comportar como um heterossexual em cena. Então, a Cassandra surgiu pra mim como uma possibilidade de explorar um corpo que ninguém queria ver. E aí eu vi que podia (…) fazer com gana aquilo que ninguém queria ver que eu era, entende? Era mais do que uma liberdade, era também um lugar de fantasia. Eu brincava com a Cassandra com muita frequência, com muita frequência, mas somente no meu círculo de amigos. (…) Em 1998 surge uma possibilidade de trabalho, eu fui fazer parte do casting de uma casa noturna em Cachoeirinha e começo a trabalhar toda sexta e sábado como drag queen. Era Século XV a boate, foi aí que eu me entendi como artista drag queen. Eu já me apresentava como artista bailarino e a partir de 1998, quando eu publico isso pro mundo, tiro isso da minha zona de conforto, de uma rede de proteção só dos amigos ali no meu núcleo mais próximo, quando eu começo a trabalhar mesmo com isso, fazer para o público em geral, daí eu considero que é o nascimento da Cassandra.

(Luná Maldita) E como você descreve a Cassandra Calabouço?

(Cassandra Calabouço) Eu já tive experiência como ator de teatro adulto e teatro infantil, e danço, esse ano completa 30 anos que eu danço. Então, também na dança já interpretei personagens. No que a Cassandra difere desses personagens? Eu acho que outros personagens que eu fiz e outras experiências que eu tive não eram drag, não chegaram nesse lugar. Porque realmente acho que a Cassandra é feita a partir de uma parte de mim e essa parte não está presente quando eu estou em outras coisas, é só quando estou na Cassandra.

(Luná Maldita) E quais características seriam essa parte?

(Cassandra Calabouço) A caracterização, a minha aparência, a Cassandra ela está presente na minha montaria, ela depende disso, ela depende muito do encontro com o outro. Não é a mesma coisa se eu me montar e ficar em casa só eu. Eu não tenho a experiência da Cassandra se me montar pra ficar em casa tomando um vinho, eu posso ter que me montar pra ficar em casa e gravar um vídeo, é a Cassandra, eu acesso esse lugar. Acho que eu exerço com a Cassandra um lugar onde eu extravaso, ainda hoje, coisas que eu não consigo extravasar quando estou, por exemplo, dançando como um bailarino. Eu atuando como bailarino é maravilhoso, eu amo dançar, mas, é diferente, é diferente.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Foto: Giovanni Ceconello.

(Luná Maldita) Eu queria entender um pouquinho melhor como você percebe essa parte, esse território. Que forças que têm esse lugar que você acessa? Como que ela se caracteriza?

(Cassandra Calabouço) Ai, é difícil Luná! Que maravilha, eu adoro pergunta difícil, que forças são essas Luná? É uma força de… capacidade, eu tenho a impressão de que eu posso, me dá a sensação de…, por mais medo que eu tenha, é sempre um medo meu consciente. Se eu estou na persona, se deixo a onda me levar, eu faço. A coisa é a energia da Cassandra, eu acho a Cassandra, por exemplo, ela é mais ágil que eu, acho que o meu raciocínio, quando eu estou montado, ele é mais…, as minhas sinapses nervosas são diferentes. Eu acesso um lugar de improviso, de presença com a drag que eu não tenho desmontado. (…) É um estado de cena, é um estado de presença, de atuação? Mas não é exatamente uma atuação, é uma possibilidade de vivência. Eu não acho que a Cassandra esteja interpretando, não me sinto assim, que ela está vivendo uma coisa falsa. Não, ela existe, a Cassandra existe, ela tem uma vida e tem coisas que só acontecem quando eu estou daquele jeito, quando é naquele papel e que nesse daqui não funciona pra mim, é lá que eu vivo assim. É algo que eu acesso, quase como uma sintonia fina, sabe?

(Luná Maldita) Eu gosto muito de trocar sobre isso, porque pra mim também passa um pouco por aí, sinto que a Luná é um estado que compõe o corpo e que embora seja diferente de Douglas também faz parte desse corpo. Pra mim também não é uma atuação, mas um estado de corpo que pode estar mais ou menos presente dependendo das circunstâncias. [Pausa] Bom, a próxima questão é sobre as relações entre diferentes gerações de artistas, como é isso pra você?

(Cassandra Calabouço) No meio drag, eu procuro ter boas relações, procuro reverenciar e aprender de todas as formas possíveis com pessoas que vieram antes de mim, com as pessoas que lá na época eu nem sabia, mas elas estavam sendo sim uma referência pra mim. As pessoas que abriram as portas, o Lauro Ramalho, o João Carlos Castanha, a Gloria Crystal, são artistas muito fodas, muito fodas, pelo tanto que fizeram e que ainda fazem, são muito fodas. Então eu procuro tratar bem, com o respeito que eles merecem. Se foi difícil pra mim, o que dirá eles, os preconceitos que eu enfrentei e que porventura ainda enfrento por fazer essa escolha artística são muitos. A gente, como homem gay, não sei tu, mas eu sofri bastante assim, de pessoas que não entendiam, tipo, levavam a coisa pra outros lugares, sexualizavam demais. (…) Eu posso dizer que eu vi a mudança acontecer, Luná, eu vi direitinho, tudo! Desde quando era muito feio ser drag, até agora que é tipo, “uau! É drag, ai que legal!”, eu vi isso acontecer. E das novas gerações, eu procuro relevar algumas coisas.

(Luná Maldita) Você tem alguma percepção de um período onde essa transição acontece mais ou menos?

(Cassandra Calabouço) Uhum, de 2015 pra cá, quando RuPaul populariza. Antes disso, não, a partir de 2012, 2013, aí a coisa já começou a melhorar, mas ainda assim não era tanto. E aí com Pabllo Vittar, muito mais, Glória Groove, muito mais.

(Luná Maldita) Cassandra, a próxima pergunta é como você percebe a sua relação pessoal com a sua persona artística. Existe alguma comunicação entre esses lugares?

(Cassandra Calabouço) Existe muita comunicação, existe. Pra minha saúde mental eu gosto de exercitar a Cassandra como objeto artístico, porque daí quando eu recebo alguma crítica, fica pra persona. A gente que é drag, é o nosso corpo, é a nossa pele que está ali [batidas no corpo], é a gente que recebe o tapa, é a gente que ouve a coisa ruim. (…) Eu preciso de um lugar seguro pra conseguir me relacionar com o meu trabalho artístico, porque eu já sou o meu trabalho artístico. E aí, se eu não me afasto um pouquinho, é muito difícil, por exemplo, lidar com crítica. (…) Então, eu delimitei alguns espaços e com o tempo isso vai ficando mais elaborado, cada vez eu consigo determinar mais, isso é meu, do Nilton, isso é da Cassandra, também tem as coisas que são nossas [risos], que a gente partilha. (…) É uma associação e uma desassociação que eu vou lidando, eu acho muito difícil, Luná, essa coisa de entender o que é meu e o que é da Cassandra. É o meu gosto, são as minhas…, imagina! (…) Tudo o que a Cassandra está falando, toda a construção do discurso, eu estou por trás, ou eu vivi, ou eu estou pensando no que eu quero dizer. O formato de exibição é a Cassandra que dá, mas às vezes tem isso, eu que pensei, eu que elaborei, eu que desejei aquilo. Mas e daí, é o Nilton ou é a Cassandra?

(Luná Maldita) Acho que no final das contas talvez seja até impossível localizar modo definitivo, em aula você já comentou que a persona se transforma e a gente também se transforma nesse processo. Então, nessa relação, acho que essa negociação, essa zona intermediária vai se transformando…

(Cassandra Calabouço) Isso, isso. Eles mudam ao longo do tempo, exatamente. E eu acho que muito, pelo seguinte, quando a gente se monta, eu acho que eu nunca volto igual, eu sempre aprendo alguma coisa que muda em mim. E aí, a próxima da Cassandra, já não vai ser o mesmo eu que vai dar lugar pra ela, porque ela também vai ter vivido.

O Calabouço de Cassandra
Cassandra Calabouço. Fonte: Acervo pessoal da artista.

(Luná Maldita) E você percebe alguma transformação no seu modo de se comunicar quando está montado?

(Cassandra Calabouço) Ah, com certeza, com certeza. Eu acho que eu fico mais rápido, eu improviso melhor. A Cassandra fala. O Nilton bailarino, por exemplo, aprendeu a falar em cena a partir da experiência da Cassandra. A minha capacidade de improviso, de humor, ela vem muito mais do feeling que é a Cassandra que me exercita, é o que eu aprendo com ela. (…) Tem coisas que às vezes eu nem acredito que eu disse, que eu fiz, e digo e faço sim, porque pra mim a drag tem esse lugar da potência. É engraçado porque é como se a Cassandra não tivesse filtro, tem muito filtro, mas eu tenho um zilhão de vezes mais. Então, essa experiência com a Cassandra sem filtro, que é com muito filtro, ela, pra mim, é absolutamente libertária. Tipo assim, “meu, eu não acredito que eu fiz isso, eu fiz isso? Eu falei isso?”. Eu falei…, e acabo rindo, achando graça de mim, eu fico feliz com as coisas que eu consigo fazer com a Cassandra. É pra mim um lugar de prazer, um lugar de liberdade, de exercício criativo, no melhor sentido da palavra, CRIAÇÃO. Criação em tempo real, porque tem isso do improviso.

(Luná Maldita) Cassandra, você já participou de algum grupo de drags?

(Cassandra Calabouço) Já, chamava “Teatro de Loucas”, foi ali entre 2006 e 2008, talvez, eu acho que foram três anos e foram anos muito legais. Eu trabalhei com Mad Blush, com a Blush na época e sua ex-namorada Swan, que era ex-namorado já da Blush, éramos sempre nós três e a gente chamava outras drags pra fazer parte de especiais. A gente tinha um processo criativo muito legal, super colaborativo, a gente produzia um especial por mês e apresentávamos no Venezianos. Era o TV Luxo, onde aconteciam coisas gravadas antes que a gente passava lá no telão e ainda fazíamos um esquete na hora, ao vivo, os especiais. (…) Foi um período lindo. Hoje eu vejo a riqueza disso tudo que a gente fez, pensando nossa, que legal.

(Luná Maldita) E além trabalhar com transformismo, você tem outra profissão?

(Cassandra Calabouço) Na verdade, eu sou uma pessoa de muitas atividades profissionais, além da drag, sou bailarino, esse ano fecho 30 anos, 5 a mais do que como drag. A minha formação é em biblioteconomia, então, eu trabalhei como bibliotecário, como bailarino e drag queen. E, também, desde 2001 eu atuo como massoterapeuta. (…) Já tive diferentes momentos na minha vida, onde a Cassandra sempre teve uma importância muito grande para mim, mas isso nunca foi meu sustento. Eu investi em figurino, eu investi em muita coisa. (…) Até 2015 eu nunca vivi de arte, foi em 2015 que eu decidi sair do meu emprego formal e olhar pra drag, o que é que eu podia fazer com isso? De 2015 até março de 2020, eu trabalhei como drag, eu me sustentava dos meus trabalhos artísticos. Eu trabalhava muito, num final de semana, dois, três eventos. E aí vem a pandemia e muda tudo, muda tudo…

(Luná Maldita) Uma coisa que eu fiquei aqui me perguntando é se essa autonomia financeira da Cassandra aconteceu no mesmo momento em que surge o Pimp my Drag.

(Cassandra Calabouço) Exatamente, daí eu largo o emprego formal como bibliotecário e ofereço um workshop que tem três alunos na primeira turma. Veja bem, não é o Pimp que me sustenta, o Pimp demorou até engrenar, o que me garantia eram os eventos e eu não fazia muito casas noturnas, era mais evento do que casa noturna, porque casa noturna tu depende do cachê que a casa tem a oferecer. E aí a minha oportunidade de ganho mais interessante era em eventos, em casamento, em formatura.

(Luná Maldita) Vamos pra última pergunta então. Você tem em mente alguns espaços que do seu ponto de vista tem dado mais visibilidade pra arte drag?

(Cassandra Calabouço) Ahhh, com certeza. O Vitraux, é inegável o trabalho de resistência secular [risos], eles estão lá desde o século passado, desde o final de 1990. Acho que vão completar 40 anos, ou já tem, o Vitraux em primeiro lugar. A Workroom, numa segunda posição, bem mais nova, com seis anos, mas eu acho que o trabalho que vem sendo feito lá dá essa constância que é muito importante pra gente como artista. No meu processo artístico, eu me descubro quando começo a performar com regularidade, eu sei quem eu sou, eu começo a pensar: O que eu quero? O que é que funciona para mim? Eu poder manter uma apresentação por mês na Workroom faz toda a diferença pra mim. Mas eu também já trabalhei durante muito tempo com o Blush, nas festas da Off Centre. Trabalhei de 2006 até 2008, com o Teatro de Loucas, foi muito importante também, porque era onde eu tinha oportunidade de trabalhar todo sábado. O Vitraux também foi um espaço que já me ofereceu muita oportunidade de trabalho, hoje, não mais. Então, eu procuro cavar outros espaços, construir novas oportunidades onde eu possa me apresentar, porque eu adoraria voltar a me sustentar com meu trabalho artístico, é muito gratificante, mas no momento o que eu quero ainda é produzir, eu quero me apresentar, eu tenho essa sede, eu tenho esse desejo de me comunicar com o público. E enquanto eu não virar produtor de conteúdo no Tik Tok, o meu jeito de me comunicar com o público é na cena.

(Luná Maldita) Cassandra, essas eram as perguntas. Te agradeço muito pela oportunidade de te ouvir, de trocar contigo, de aprender contigo. Eu entendo que é nas relações que a gente se constrói, sabe? Então, tem sido muito precioso vivenciar essas relações. Obrigada.

Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQIAPN+

Entrevista por: Douglas Ostruca

Além de atuar como transformista há mais de 36 anos, Gloria Crystal é funcionária pública e participa ativamente na política. Em 2023 assumiu o cargo de chefe da SJCDH (Divisão de Diversidade e de Combate à Intolerância da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos). Em 2022, recebeu do Governo do Rio Grande do Sul, a Medalha Simões Lopes Neto, como forma de reconhecimento pelas suas contribuições para a cultura e para a sociedade de modo mais amplo.  Trazemos a seguir alguns trechos de uma conversa com a artista que aconteceu no dia 24 de julho de 2021, através da plataforma Jitsi. Entre os assuntos em destaque estão questões relativas ao movimento LGBTQIAPN+ e a cena transformista, tendo em vista aspetos da trajetória pessoal de Crystal nesses âmbitos.

Gloria Crystal
Foto: Gerson Roldo

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(Douglas) Gloria, para mim é um prazer estar trocando contigo, sinto que o encontro com esse espaço do transformismo é também um gesto de reavivar e criar outras memórias. Fico muito feliz pela oportunidade.

(Gloria) Também fico feliz, conte comigo pra compartilhar um pouquinho da minha história e da história de uma população.

(Douglas) Gloria, pra começar, você pode falar um pouco sobre sua atuação no movimento LGBTQIA+?

(Gloria) Acho que pra mim tudo aconteceu, assim, por curiosidade, curiosidades que me levaram longe. Entrei pra política, fui uma das primeiras travestis a conquistar um cargo público no Brasil dentro de uma gestão, principalmente em Porto Alegre. Fiquei duas vezes como diretora de inclusão social na Bienal do Mercosul, como trans, negra e periférica. Pra algumas pessoas isso pode ser porra nenhuma, mas acho que isso não é uma luta minha, uma conquista minha, mas de uma população como um todo.

(Gloria) Hoje, eu continuo acolhendo, continuo dando a cara a tapa como qualquer outra militante, isso é uma coisa que tá na alma, no sangue, é uma coisa que tu não deixa. Sinto, às vezes, que a minha parte enquanto militante eu já fiz, por exemplo, eu trabalho num lugar onde convivo com a população como um todo, população que se encontra em situação de vulnerabilidade. Essa não é a realidade de todas as trans no Brasil, não é a realidade de todos LGBTs que às vezes também não tem oportunidade de emprego.

(Gloria) Na política, se tu é de esquerda tu é comunista, se tu é de direita tu é fascista. Tanta gente que fala em democracia, mas tu não pode exercer a palavra. Quando a gente fala do vírus HIV, teve uma luta que não foi partidária, nem partido de esquerda, nem de direita, foram as travestis que tiveram que ir no palácio Guanabara pedir por medicação, não só pelas travestis, mas também pros gays. Quem ganhou muito com isso foi a população gay. O que me incomoda é a falta de memória, parece que o importante é só sair na rua de mão dada com o namorado. Aí é complicado. Com toda essa luta que a gente fez, nós trans ainda passamos por preconceitos. Isso é uma coisa que ainda existe entre nós.

(Douglas) Acho importante esse ponto que você toca Gloria, porque às vezes a gente não reconhece os preconceitos na nossa própria comunidade LGBTQIAPN+, isso precisa ser discutido pra que a gente possa avançar. Também compartilho desse seu estranhamento com as novas gerações, uma coisa que percebo é que acabamos dando mais visibilidade para personalidades americanas e deixamos de conhecer as histórias das pessoas que fazem parte e construíram nossos próprios territórios de vida.  

(Gloria) Depende da gente também fazer com que alguma coisa mude. Eu acho que a primeira coisa é se politizar mais, ficamos muito nas redes sociais e não aproveitamos coisas saudáveis e trocas onde possamos compartilhar ensinamentos, sinto um pouco falta disso. A gente não consegue de forma alguma avançar se não for unido. É como se você estivesse concentrado num QG e fosse pra guerra, no momento em que você está concentrado você está te armando, está te preparando psicologicamente. Por exemplo, a gente tem em Porto Alegre duas Paradas LGBTs, o que é um absurdo, como a gente vai querer união se a gente não se une nem como movimento social pra realizar um evento único, político-cultural. Eu vejo que a gente está perdendo tempo sem querer trocar com outras pessoas e, ao mesmo tempo, em algum momento a gente pode ser chamado pra essa guerra e aí a gente não vai ter armas para se defender. Aí o que acontece, colocam lá um presidente homofóbico, a gente não sabe o que vai acontecer daqui para frente, a gente só sabe que quem é mais vulnerável está perdendo espaço.

(Gloria) Então, quando a gente fala de movimento social, de política pública, de querer avanço no Brasil que é completamente machista, sexista, homofóbico, transfóbico, as conversas, as trocas são extremamente necessárias, porque são armas que a gente tem. E aí independe da idade da pessoa, independe da geração que a pessoa veio, acho que cada uma tem alguma coisa pra acrescentar a outra, entendeu? Eu acho que complementa, a minha experiência pode te trazer alguma coisa de boa e a tua experiência de vida também pode me trazer alguma coisa.

(Douglas) Também acredito nesses encontros, acho que as conversas são um espaço de construção de subjetividade, onde a gente tem a oportunidade de se construir. Gloria, quanto ao transformismo, pra mim essa não é uma cena que já foi, algo anterior ao drag, acho que o transformismo permanece em acontecimento. Eu aposto no transformismo como espaço de conexão, talvez existam aí caminhos para ir além dessas dificuldades de articulação que estávamos falando. Em relação a isso, como você percebe o transformismo?

(Gloria) Na verdade, lá pelos anos 80, era tudo muito tava lá, o palco tava, as boates estavam lá. Tinha que ter três coisas primordiais para tu se destacar, talento, coragem e visual. Porque não adianta você ter talento e não ter coragem pra isso, em uma época em que todo mundo tava muito dentro do armário e o preconceito entre as tribos era maior ainda. Quem fazia show não era da tribo das gays, sabe. Travesti pouco entrava em boate, entrava e as pessoas ficavam com medo, os próprios gays. É bem complicado isso, mas ao mesmo tempo era um espaço bem aberto, bem democrático.

(Gloria) O transformismo é um ato político, artístico, político-cultural. Eu, durante muito tempo, trabalhei em dois lugares. Foi o trabalho da noite, com espetáculos, que me ajudou a sobreviver, e hoje, de vez em quando, é o que me alimenta na hora do aperto, porque todo mundo tem seus apertos. Naquela época era contraditório, entendeu, era contraditório, muitas pessoas chegavam, eu chegava de menininho me produzia na boate que fazia show, tirava a maquiagem e ia embora, se saísse produzida era presa. Aí era complicado, lá a gente limpava a delegacia, transava com pessoas que a gente não queria, era muito complicado, muito difícil. Tu tinha que gostar mesmo, eu tinha que continuar no armário, como muitas continuavam.

(Douglas) É um absurdo que as pessoas sejam presas e violentadas por se expressarem publicamente fora das normas heterossexuais!

(Douglas) Ainda sobre a cena transformista dos anos 1980, naquela participação que você fez no evento Poa in Drag de 2021, você chegou a comentar que no início participava mais da cena que acontecia no gueto e, em algum momento, você teve a oportunidade de fazer shows e espetáculos para a alta sociedade de Porto Alegre, como foi isso?

(Gloria) Você perguntou como é que foi a transição de quando eu saí do gueto. Eu conheci uma pessoa na época, já pelo início dos anos 90, ele começou a me levar pra festas, desfiles, enfim, pra participar de coisas fora gueto. Foi muito bom, Miltinho Talaveira, a gente se vê até hoje. Ele era uma pessoa que me levava, ele levava o novo. Como eu, muitas outras se projetaram na época, como a Carla que era uma travesti maravilhosa, ela era bem voltada ao público familiar, era muito difícil agradar esse povo, era muito complicado. Eu ia fazer festa, jantar de associações conhecidas, eu chegava nos lugares e os maridos ficavam apavorados, mas aí quando eu ia pro camarim eles iam lá me tentiar, entendeu.

Foto: Acervo Alex Cascalho

(Douglas) E como foi que Gloria Crystal aconteceu, como você foi levada até os palcos?

(Gloria) Eu ia muito numa boate que se chamava L’entourage. Era eu e uma turminha, na época, Rebecca McDonald, que foi uma grande artista, Dandara Rangel. A gente não era nada, assim, eu era Miguel, a Dandara era a Jair, o Ronaldo era Rebecca, aliás a Rebecca era o Ronaldo, enfim. Então a gente ficava dançando num canto. Tinha um produtor que os shows eram maravilhosos, ele viu a gente cantando e dublando as músicas, bichinhas né, num canto, as menos bichas não ficavam perto da gente, olha o preconceito desde da época.  Aí, aquele cara chegou e disse assim: tu lembra muito uma amiga minha que é atriz, ela se chama Gloria Cristal. Então ele me chamou para fazer um show, inspirada na figura dela. Enfim, eu achei que era bobagem aquilo, e daqui a pouco eu me dei conta que ele já estava vendo eu cantando lá embaixo, dublando lá embaixo há tempo. Aí comecei a ensaiar Rita Pavoni com ele e ele me lançou num sábado lotadíssimo, que era noite nobre na casa, eu arrasei, foi muito bom!

(Gloria) Partiu dali e eu comecei a fazer show. Participei de um concurso, que na época os concursos eram ótimos. Festival internacional da canção, que era todo o Rio Grande do Sul, e ali eu fiquei conhecida. Aí eu comecei a viajar, sair para fazer festas. Dali pro teatro foi um pulo. Parece um pulo, mas não é não, foram décadas (risos). Então, hoje, eu convivo com essa sociedade como um todo, com teatro, com cinema, eu sempre brinco que a Gloria Crystal não é uma travesti e não é uma transformista, ela é uma instituição (risos).

(Douglas) Ainda na conversa que você participou no Poa in Drag, você mencionou o espetáculo Mulheres do Pau-Brasil como sendo o espetáculo onde você foi da noite para o teatro, né? Como foi essa adaptação das performances feitas em casas noturnas para os palcos dos teatros?

(Gloria) A gente já fazia nas boates shows montados, com diretores, tipo Gaiola das loucas. Era assim, estilo diretor que montava um show pra fulana, pra ciclana, pra várias atrizes, várias transformistas. E aquilo ali ficava semanas em cartaz. Eu lembro que na época o Zé Adão Barbosa, que é meu diretor até hoje, viu vários espetáculos em boates e chamou essas pessoas, dentre elas eu estava junto, que eu sou muito talentosa. Aloka! (Risos). Aí ele montou um espetáculo chamado Mulheres do Pau-Brasil, só que ele não queria fazer aquilo dentro de uma boate, ele queria fazer no teatro. Então, ele levou pro teatro, foi o espetáculo que mais bombou, entende? A partir dali o teatro se abriu pro transformismo, pras travestis. Às vezes eu tenho saudade disso, eu acho que era tudo muito, tudo muito, intenso. Tudo muito bom. Me sinto saudosa às vezes, sabe. Sinto falta das meninas que caíram no meio da batalha.

(Gloria) Na época eu era totalmente transformista, eu ia de neguinho e saia de neguinha, né. Mas eu gostava, comecei a fazer teatro ali. O Lauro Ramalho já fazia teatro, o Everton Barreto. Já o Castanha fez o caminho inverso, ele saiu do teatro pra dentro das boates. Ficamos 10 anos em cartaz com um espetáculo que se chamava O Bordel Das Irmãs Metralha. Mas claro que tem muita diferença. Um show de boate tu não dá texto, tu dubla, pouco texto tu dá. O teatro é texto, texto, texto, texto e texto. Ahh, mas é muito gostoso, porque a gente não faz só pra gay, a gente faz pra um público como um todo.

(Gloria) Eu tô há 10 anos dentro do projeto Porto Verão Alegre. Sempre entro com um espetáculo dentro do projeto, isso é muito bom. Trabalho já há 36 anos como transformista. Hoje eu participo de um grupo, uma companhia de teatro que se chama Companhia Ridícula de Teatro. Eu, o Lauro Ramalho, Everton Barreto e João Carlos Castanha. A gente tá com o espetáculo Rainhas da Noite há 2 anos, ele fala da nossa carreira, são números solos.

(Douglas) Gloria, como você percebeu a chegada da cena drag no Brasil?

(Gloria). Começou ali justamente com RuPaul, por volta dos anos 2000, isso trouxe uma nova imagem, né, de drag. Eu não era drag, eu era transformista. Tenho um amigo meu que mora em Londres que se chama Eduardo Herrera que é DJ, na época ele tinha um contato na Warner, que era a gravadora da RuPaul. Ele comentou que o CD dela seria lançado no mundo inteiro e em alguns lugares teria covers de RuPaul, ele me convidou pra fazer um desses covers. Eu achava que não tinha nada a ver, mas ele me produziu, aí eu comecei. Em Porto Alegre eu fui uma das primeiras a interpretar RuPaul, eu tinha quase dois metros de altura com uma peruca loira, as pessoas compraram aquela ideia. Foi bem legal, porque a gente fez um trabalho que trouxe ao mesmo tempo um novo movimento.

Foto: Acervo pessoal de Gloria

(Douglas) Você comentou agora pouco que Gloria é uma instituição. Sobre isso, como você percebe essa expressão transformista, a Gloria surgiu como uma persona transformista e depois foi se transformando? Como você entende essa separação entre a Gloria do cotidiano, no âmbito pessoal, e a Gloria instituição?

(Gloria) Ahh, legal a pergunta! Na verdade, assim ó, tudo foi um crescimento, eu continuo sendo Miguel, que também é meu nome, eu continuo sendo ele. Eu acho que toda essa mudança, a transição de transformista para trans, eu não me considero trans, eu sou uma louca, eu continuo sendo eu, não sei explicar isso. Colocar seios, mudar o rosto, enfim, na época eu lembro que comecei a fazer essas mudanças pra ficar com rosto mais feminino, pra poder fazer show, isso se exigia muito. Às vezes se estava no palco e as pessoas falavam: olha lá aquela cara de cavalo. Então era melhor você atualizar o rosto. E aí eu comecei todos esses procedimentos.

(Gloria) Mas eu nunca deixei de ser a pessoa que eu sou até hoje, eu olho pra trás no meio dessa história toda, a minha essência sempre foi a mesma, eu sempre fui Miguel. Uma pessoa que tem que batalhar, eu sou por mim mesma e não tem o que fazer. Eu transformei o meu corpo, essa transição teve um motivo, não que eu quisesse hoje ser uma mulher, eu não quero ser mulher, também não quero ser trans. Mas, como aquilo que me dava dinheiro poderia me dar mais, se eu mudasse a minha identidade de gênero, digamos assim, eu tive que optar por isso, e fiz isso.

Foto: Acervo pessoal de Gloria

(Gloria) É claro que tu paga um preço, tu paga um preço, eu não, porque eu sou uma pessoa conhecida, eu sou uma pessoa bem-vinda em qualquer lugar, graças a Deus. Qualquer lugar que eu entrar as pessoas sabem quem eu sou, então eu tenho isso, é legal dá aquele up [movimento do rosto pra cima]. Nesse sentido valeu super a pena, porque todo artista é exibido quer aparecer e eu, como artista, é óbvio que sempre quis e quero, até hoje, aparecer. Então, se eu vou a algum lugar, eu gosto de ser notada, gosto de tirar foto, isso é o carinho verdadeiro. Mas, por exemplo, na sua vida particular você perde muito, tu perde, para ter alguém do teu lado, é complicado, porque as pessoas olham e pensam, é uma trans, então tem que ter um macho do lado. Não é assim, para mim não funciona desse jeito, ter que casar, assim, ah é muito complicado…

(Gloria) Eu moro com uns amigos e aqui todo mundo me chama de Gloria, eu sou a Gloria, mas eu sei quem eu sou nesse universo, entendeu? Eu sei quem eu sou, é comum de repente tu vestir um personagem e… Não que eu vista hoje em dia, eu não, na minha intimidade não, as pessoas que me conhecem e vem me conhecendo elas já, ahh é a Gloria, com o tempo as pessoas percebem como é que funciona isso, que eu não estou 24 horas por dia produzida, sabe? Por isso, antes de falar contigo eu disse, olha não vou me produzir, até para que tu conheça e saiba como é que funciona a coisa da minha cabeça, pra tu poder contar essa história com um pouco mais de verdade, né?

(Gloria) A minha história é única, não é de todas as outras guerreiras da época, porque cada uma pensava de uma maneira, umas viravam travesti porque tavam afim de virar mesmo. Eu virei travesti porque queria ganhar um pouco mais de dinheiro, como eu te disse, em relação à shows, não a programas, nunca fiz, nunca tive talento pra isso. Aloka! (risos). São essas coisas assim, tu perde, por um lado, e ganha, por outro. Mas essa não é a realidade de todas as trans no Brasil né.

(Douglas) Me chama a atenção que não é só você que fala sobre esse espaço do transformismo como um lugar onde as fronteiras entre expressão artística e identidade são fluidas, a própria Rogéria também falava isso né.

(Gloria) Eu e Rogéria éramos amigas, eu ia pro Rio e ficava na casa dela, já viajei com ela pra fazer o Gatos e Leopardos, estivemos um bom tempo juntas. Ela era uma pessoa assim, quando ela falava da tradicional família brasileira, eu aprendi muito com isso, é o valor de estar inserida e ser vista com carinho e não de maneira marginal. Ela separava muito Astolfo, era como eu assim, eu sei quem eu sou. Mas aquela fantasia que as pessoas fazem em relação a mim, isso é problema delas, não meu. Eu já não me preocupo mais com isso.

(Douglas) Sobre isso que você falou, que nem sempre é tudo muito claro e bem demarcado como as vezes parece. Isso me atravessa de algum modo, é também o que me atrai para o transformismo. Eu tenho me afirmado estrategicamente como uma bixa não-binária, mas, ao mesmo tempo, eu sinto que é tão mais do que isso, sabe? Tenho impressão que no transformismo existe espaço pra ir além das delimitações identitárias, encontrar coisas sobre nós que nem imaginamos ainda, sabe?

(Gloria) Eu vou te dizer uma coisa, o que é muito legal, que nos diferencia das outras pessoas, e eu acho que as pessoas deveriam ser mais assim, um pouco mais curiosas. A curiosidade, ela te tira do lugar comum, né, a curiosidade faz com que tu saia da tua zona de conforto. É muito fácil a gente ficar na nossa zona de conforto e não ousar. Eu acho que a partir do momento que tu sai da tua zona de conforto e começa a ousar, tu começa a crescer como pessoa, tu começa a crescer espiritualmente, tu começa a ver o que que tu quer. Então, são coisas que acontecem se tu conseguir sair da tua zona de conforto.

Gloria Crystal no Mixx Bar em 06/09/2022
Foto: Douglas Ostruca

(Gloria) Às vezes as pessoas me perguntam como é envelhecer, pra mim, a grande luta é que minha cabeça não acompanha meu corpo, entendeu. Porque vai indo, a tua idade vai aumentando e tu vai puxando aquilo que tá caindo, eu já puxei muito não sei mais de onde vou puxar (risos). Mas tem um momento que o teu corpo não acompanha mais a tua cabeça. Eu tenho uma cabeça muito louca. Às vezes eu acho que eu tenho 18, 19, 20, 21 anos, e continuo sendo completamente contraditória. Eu contradigo muitas coisas que eu digo e faço, falo de uma maneira e faço de outra completamente diferente. Eu estou sempre saindo da minha zona de conforto, eu não me acomodei. Eu vejo pessoas da minha idade, da minha geração, eu digo: ai bixa, como tu tá velha que horror. Aliás eu pouco converso com bixa velha. Velha que eu falo é no sentido assim, tu pode ter 20 anos e ser velho, entendeu. E tu pode ter 56 anos e tu não ser velha, você é ativa, está querendo produzir. As pessoas cansam muito rápido, então a coisa mais maravilhosa que tem para mim é viver, né, é viver. É fazer alguma coisa, sair da tua zona de conforto, ousar, crescer, aprender, escutar, ouvir, falar. Eu acho que tudo isso faz parte da vida da gente, isso é um conteúdo que a gente leva em primeiro lugar e que acrescenta para ti como pessoa.

(Douglas) É inspirador te ouvir Gloria, através da sua fala e da sua história da pra perceber sua força de vida, isso é algo que me toca, acho necessário afirmar a vida e parece que você faz isso, você afirma a vida. Muito obrigada por compartilhar parte da sua história, foi um prazer estar com você e aprender contigo.

(Gloria) Ahh, brigada, as vezes é bom escutar essas coisas. Eu acho que, acho não, eu tenho certeza, que a única maneira da gente aprender é conversando, lendo, interagindo. Ganhei minha tarde, porque eu tô passando conhecimento, isso é muito bom, nem todo mundo tá interessado em escutar. Às vezes eu tenho essa pretensão de querer deixar algo para uma geração, mas tem um momento que tu cuida e tem um momento que tu quer ser cuidada, eu tô numa fase da minha vida que eu quero ser cuidada por amigos. Eu levanto às 5 horas para fazer meu tik tok, vou trabalhar feliz da vida, pego um bom ônibus lotado, linda, bem cheirosa, vou trabalhar empoderada. Isso é o que me faz feliz no momento.

Como citar este texto

CRYSTAL, Gloria. Gloria Crystal: uma conversa sobre o transformismo e o movimento LGBTQUIAPN+. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/gloria-crystal/>. Acesso em: 10. Jun. 2023.

*Entrevista publicada anteriormente na edição de maio de 2023 da Revista Parêntese (Grupo Matinal Jornalismo), com curadoria de Jandiro Koch e edição de Nathallia Protazio.

Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta

Anubis Blackwood

Elke Maravilha uma vez disse: 

“Eu não me contento em ser bonita, isso muita gente é. Uma vez um homem me perguntou: ‘Por que tanto?’ e eu respondi: ‘Por que tão pouco?'”. 

Elke Maravilha

Eu não poderia concordar mais com essa afirmação de uma das minhas musas… por que somos tão podados e limitados pela forma que nos expressamos? Ou, pior que isso: por que passamos tanto tempo considerando essa maneira de pensar ao invés de nos deixar confortáveis com quem somos? Comigo não demorou muito até perceber que o usual, o quadrado, não me pertenceria e que para eu deitar minha cabeça no travesseiro, tranquila, precisaria ignorar tudo o que me foi dito sobre quem eu deveria ser até então.  

Anubis lugar de revolta
Anubis.
Foto: PHJUNIORG

Se descobrir uma artista drag aos 16 anos, foi libertador, mas também foi um teste para tudo que estaria por vir. Eu havia acabado de conhecer conceitos feministas, ativismo LGBTI+, nunca tinha feito parte de companhia de teatro e não tinha nenhuma certeza concreta sobre como me identificava. Eu era bissexual, pansexual? E sobre identidade de gênero? Eu era não-binária? Que tipo de artista eu era? Passava horas pensando nisso tudo, pois na época sentia que ser uma menina cisgênero que mal sabia sobre sua sexualidade não era o suficiente para ser como RuPaul, Dimmy Kieer e Vera Verão, ainda mais por se tratar de 2015, onde ao procurar ‘drag queen mulher’ no Google apareciam poucos resultados que de fato me levassem a compreender e me relacionar com o que estava vivendo internamente. 

Eu procurei tanto, e tudo que me aparecia eram termos como ‘faux queen’, e ao pesquisar mais via que a palavra ‘faux’ significava ‘falsa’ …mas o que eu sentia era tão verdadeiro! Eu podia não compreender muito quem eu era, mas o que tinha certeza é que eu não me encaixava nesses termos excludentes. Ao passar o tempo treinando a arte, via que as similaridades que buscava entre Dimmy e Vera eram muito maiores que as diferenças. Parei de procurar por imagens de ‘sucesso’ semelhantes a mim, e comecei a traçar meu futuro da forma que achava certo. 

Assim compreendi que, sim, ao decorrer do tempo teriam muitos questionamentos em volta da minha identidade enquanto mulher cisgênero, que essas questões viriam interna e externamente, mas por mais complexo que fosse para uma jovem se entender e se identificar no meio desse turbilhão de ideias, esse, era o caminho que me dava uma razão para viver. 

O tempo muda, e com ele os modos como nos entendemos, mas ainda sinto que a arte drag me salva… a diferença é que, hoje, eu racionalizo o motivo de me salvar. A sociedade misógina do jeito que é pode ser muito agressiva para uma mulher em formação, e para mim não foi diferente. O direito de ir e vir é colocado em cheque, até mesmo os mínimos detalhes do que se faz.  Tudo isso pode ainda piorar, dependendo da roupa que se usa e do que se fala. 

Ser relembrada, todos os dias que certas coisas não são tão possíveis, simplesmente por se ser mulher, deixa qualquer uma de nós desgostosa. Ora, então como poderia eu, com uma mente artística tão livre, me contentar com essas limitações? Mas também, como poderia eu, tão jovem, sozinha, ir contra um monstro tão grande desses? 

Anubis lugar de revolta
Anubis
Foto: PHJUNIORG

Agora entendo que Anubis Blackwood surgiu de um lugar de revolta,  ela foi meu próprio mecanismo para me tornar mais forte e inatingível. Ela veio me levar para um lugar fantástico onde é possível me sentir completa, absoluta e assumidamente eu. Onde não sou rotulada, onde crio minhas próprias regras, onde tenho minha deusa pessoal para me auxiliar quando a realidade sufocante faz com que sinta que não sou artista ou alguém o suficiente. 

Eu tentei por muitos anos não pensar na Anna Clara enquanto reinada por Anubis, mas em algum momento entendi que por mais que minha drag fosse minha armadura, meu porto seguro, existiam motivações e referências que vinham de mim, um indivíduo cheio de inseguranças e cicatrizes. Ao entender esse elo, essa junção de seres e quereres que sou, consegui aos poucos achar amor próprio, auto compreensão e entender que Anubis, Anna Clara e todas mais que virão são uma só. Por esse fator busco hoje inspiração nessas cicatrizes encontradas em mim num todo, e o que antes entendia como rótulo hoje entendo como identidade. 

Apesar das expectativas, minhas performances não são e nunca serão iguais às performances feitas por artistas drag de outros recortes sociais. Isso porque o nosso ‘eu’ não é igual e muitas vezes sequer é parecido: nossa vivência é diferente e assim nos molda enquanto artistas. O assédio, a violência contra a mulher, a invisibilidade de pessoas bissexuais e demais problemáticas que me atingem são questões que influenciarão diretamente cada escolha de música, de figurino, de mensagem. 

É óbvio que a motivação vai além do fato da arte drag ser para mim terapêutica, reabeliante e cicatrizante, afinal, estamos falando de uma das artes mais vivazes que poderíamos imaginar. Idealizar um projeto inteiramente seu e que será instalado em você mesme, no seu corpo, é revolucionário! O processo de criação, de autodescobrimento é, no mínimo, excitante, e traz uma sensação de graça, desenfadamento na vida que só acontece no ato de se montar. 

Anubis processo criação
Anubis
Foto: Bernardo Pfaff

E quando mostramos ao mundo o que secretamente preparamos por dias, meses, anos? Ah, nesse momento o feeling é exatamente o que Gloria Groove diz em ‘Gloriosa’: “no caminho até o bar, o mundo para pra ver a rainha passar”. Se todos param mesmo, aí eu não sei, já que frequentemente o brilho do alter ego é tão forte que chega a cegar, mas acreditar que por algumas horas nosso magnetismo é capaz de mudar a energia de um ambiente inteiro, causar alternâncias na respiração de quem nos olha, trazer um pouco de fantasia, utopia para quem nos assiste é divino, e depois de tantos anos fazendo isso diria que chega a se tornar sagrado. 

O fato é que todo mundo busca fazer algo que dê sentido a essa louca jornada, algo que nos dê a impressão que fizemos nossa parte no fim do dia, e ao decorrer do tempo compreendi que por mais que nem sempre me deem palco, cachê ou condições para exercer minha função, ainda assim encontro afago e autossatisfação ao causar esse impacto em quem está disponível para  senti-lo. 

Encontrei no meu caminho pedras, mas também encontrei alívio, reparação, mil e uma versões de mim, e posso dizer que vi beleza até nos piores momentos. Bem-aventurados são aqueles que não aceitam o que é atribuído a si de primeira, que procuram formas de se redescobrir a cada dia, que vasculham cada fração do ‘eu’ em busca de se compreender, e logo ser feliz ao se afirmar no mundo.  

Afinal, Elke tinha razão, pois nessa revolução estética que é cada montação, as ideias vão surgindo de simples questionamentos como: Por que não? Por que tão pouco? E eu, não conformada, aceito com alegria cada desafio que a mente e o mundo quiser me dar, e no meio de tanta alienação e incerteza: eu vou é me jogar!

Como citar este texto

BLACKWOOD, Anubis. Por que tão pouco? Arte drag como lugar de revolta. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/por-que-tao-pouco-arte-drag-como-lugar-de-revolta/ . Acesso em: 10. Abr. 2023.

A arte drag queen para além dos padrões de feminilidade

Grottesca

Precisei desconstruir muitos conceitos até me reconhecer como uma drag queen. Quando descobri minha persona, Grottesca, percebi que sempre a tive dentro de mim. Isso porque, mesmo antes de conhecer a arte drag eu já queria fazer algo além do cover de Marilyn Manson,  artista que influenciou bastante minha expressão artística. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Me lembro da primeira vez  que tive contato com mulheres fazendo drag, foi através de um grupo no Facebook onde elas estavam divulgando suas artes. Até então, me parece que essas  páginas dedicadas a reality shows eram usadas mais exclusivamente por homens gays cis. 

Entre tantas questões que surgem das minhas vivências como drag e como  mulher cis, enfrentei muita intolerância e preconceito fora e dentro da comunidade LGBTQIA+. Além disso, quando se é asiático, esperam de você uma submissão, um comportamento generalizado e reprimido que precisa atender as necessidades de quem colocou esses rótulos em cima de toda uma etnia. 

Também me recordo do momento em que surgiram as declarações da RuPaul sobre mulheres trans e cis não serem legítimas ao fazer drag. Essas afirmações foram ainda mais fortes  por terem sido feitas por uma pessoa que representava a comunidade LGBTQIA+. Falas como essa partem de um lugar de quem não entende a dor de ser uma mulher numa sociedade extremamente patriarcal e machista, tampouco a força que precisamos ter em muitas áreas da nossa vida para lidar com tudo ao mesmo tempo. 

Os ataques foram totalmente gratuitos, os comentários misóginos eram relacionados com nossas partes íntimas, além do argumento de que teríamos “vantagem” por ter partes do corpo que não precisavam utilizar enchimentos ou serem escondidos. Essas afirmações ignoram totalmente corpos trans e desrespeitam toda a luta e sacrifício feitos por essas pessoas para que a comunidade LGBTQIA+ esteja onde está hoje. Felizmente, depois dessas polêmicas o reality show RuPaul’s Drag Race acabou abrindo portas para pessoas trans e mulheres cis participarem, porém elas foram  por muito tempo rechaçadas e tratadas como piada nesse espaço. 

Parece que havia uma obsessão em exigir feminilidade das mulheres cis e trans como se esse fosse um pré-quesito para serem aceitas nesse meio.  Minha drag  representa um lado alternativo  relacionado com a subcultura gótica, a qual também não é uma performance de feminino dentro dos padrões estabelecidos socialmente. Nós, as drags alternativas, recorremos aos nossos próprios espaços e comunidades como forma de encorajamento e apoio do que consideramos belo, profundo e cheio de significado. Trabalhamos  com os horrores de modo mais visceral e contamos  de forma lúdica tudo aquilo que a sociedade fecha os olhos. Além disso, também produzimos performances com experiências de vida que são intensas e introspectivas.

Considerando a historicidade de submissão de mulheres na sociedade, quando falamos em performar feminilidade estamos tentando alcançar o maior número possível de mulheres espalhadas no país . É quando em nossas performances celebramos a multiplicidade de corpos e expressões de gêneros que dançamos uma sinfonia de celebração da vida em suas infinitas possibilidades. Por isso pergunto, por que limitar nossa  visão a apenas uma forma ou outra? É pensando nisso que nunca compreendi as padronizações em uma arte que desestabiliza os padrões sociais e que desafia as expectativas que a sociedade espera de indivíduos LGBTQIA+.

Em relação a isso, existem muitas variações de feminilidades. Em minha vivência como mulher cis e asiática, saliento que temos também outras referências para a arte  drag. Na cultura do Japão, a performance da feminilidade aparece no famoso “Kabuki”, criado por uma mulher chamada Okuni que representava tanto papéis femininos quanto masculinos, com encenações sobre a vida cotidiana de forma cômica. 

drag queen
Grottesca
Fonte: Arquivo pessoal

Meu avô também praticou essa arte.  Em minha percepção como artista, eu não pensava em atrelar essa cultura à minha identidade drag, porém, vejo o quão necessário isso se tornou pra mim com o passar dos anos. Isso porque é uma forma de empoderamento pessoal e de me sentir mais autoconfiante em representar algo que me traz orgulho e me conecta com a cultura dos meus familiares.

Quando fui convidada para participar de um concurso online durante a pandemia, chamado Balbúrdia, essa experiência mudou tudo para mim e pude explorar muitas outras facetas da Grottesca, a qual mesmo após três anos de vida ainda tinha zonas de conforto enraizadas. Toda essa interação me fez desmontar a compreensão  de que a personalidade drag precisa ser pautada em um padrão enrijecido para ser válida, muito pelo contrário. Com isso, os meus processos criativos mudaram a ponto de poder me divertir em contar histórias com terror e humor ácido. A experiência nesse  concurso também me levou a criar Ghaspar, meu alter ego  Drag King, o qual me permite  explorar mais esse lado das masculinidades que até então era um território desconhecido. 

No momento em que compreendi que poderia ser uma representatividade apenas sendo eu mesma, a visão que tinha de arte mudou totalmente. Passei a entender que a arte  não pode ser medida ou classificada, cada expressão tem sua particularidade, seu brilho e é justamente isso que as faz únicas e belas. Não acredito que a arte tenha sido criada unicamente para um tipo de pessoa ou para destruir, mas para expressar aquilo que não podia ser dito em momentos de censura. 

A arte drag nos faz entrar em contato com nossa criatividade e com um mundo introspectivo. Embora no Brasil a cena local seja pouco valorizada, nos fortalecemos como comunidade quando levantamos nossa bandeira repleta de lutas e vivências, representando toda a nossa existência que não será apagada por intolerantes e conservadores. 

Quando grupos de minorias discriminam outras minorias, estão dando um tiro no nosso próprio pé. É exatamente isso o que o conservadorismo quer, nossa desarticulação, já que assim é mais fácil para nos demonizar e deslegitimar qualquer luta e liberdade que temos conquistado.

“As trevas que habitam em mim, saúdam vocês.” 

                                                          Grottesca.