As fases e facetas de Christy Moon

Christy Moon

Comecei a fazer drag em 2018, aos 20 anos, indo para festas. No início o nome era Blanca, usava maquiagens de doações de amigas e quem me apresentou o mundo Drag foi a Methila Sparks (minha mãe drag). Hallyson que era o estilista da Methila, e hoje tem trabalhos com Lexa, Pocah, Lia Clark e RBD, passou a fazer os meus looks que a Karollainy, minha amiga de infância, desenhava para mim. Durante minha faculdade de fotografia, meus trabalhos geralmente tinham uma vertente voltada para assuntos de extrema importância social, o que resultou no meu TCC sobre Drag e Arte.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @renanjesus94. Figurino: @hallymachado

Para o TCC eu tinha a proposta de fazer releituras de famosas pinturas e fazer colagem digital, fotografando pessoas LGBTQIA+, juntando duas artes que são super desvalorizadas, pintura e fotografia. Conversei bastante com as meninas que aceitaram participar, falando que infelizmente eu não conseguiria pagar cachê, ou transporte, e não queria desvalorizar o trabalho delas. Todas toparam me ajudar, e foi uma experiência incrível! Eu acompanhava elas se maquiando no banheiro da minha faculdade, e foi um dos melhores momentos, a gente batia papo, trocava dicas  de maquiagem, e sou muito grato por elas compreenderem e  aceitarem  essa loucura.  Foi um trabalho árduo e difícil. Apresentei meu tcc montado, acompanhado de algumas amigas drags presentes, e ganhei nota máxima. Tenho muito orgulho desse projeto. 

No início da montação costumava usar peruca emprestada, sempre feminina, mas não me identificava tanto. Como eu tinha certo fascínio pela estética andrógina resolvi arriscar e acabou dando certo. Com isso, senti a necessidade de trocar meu nome drag de Blanca para Christy, por ser parecido com meu nome, assim minha drag passa a ser uma extensão de mim. Isso tudo ocorreu no início da Pandemia. O sobrenome Moon é porque sou apaixonado pela lua, e desde criança, eu ficava sentada no meu quintal de casa observando-a, durante horas. Como ela tem várias fases, trago isso para a estética da minha drag que também tem fases (feminina, andrógina, street…). 

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto:@gusttavogelik. Figurino: @halllymachado

No período da pandemia eu fazia lives no Instagram, participei de competições de lipsync online. Eu tinha uma câmera fotográfica e junto com meu irmão Renan, formado em Artes, criei vários trabalhos audiovisuais. Fazia alguns vídeos em casa, saía montada pelas ruas, museus, shoppings, ônibus, tudo para gravar clipes e fazer sessão de fotos. Era cansativo, mas muito satisfatório. Arriscado? Sim, mas também uma necessidade porque sempre gostei de expandir o drag para além das casas noturnas, indo para o cotidiano das pessoas. Sempre busquei aperfeiçoar minha arte, mostrando às pessoas minha identidade, tanto como pessoa, quanto em drag. 

Houve um período em que dei uma pausa, pois era uma montação quase diária, isso me desgastou. Foi até bom, assim me entendi como gênero fluído e passei a  compreender mais sobre minha arte. Cheguei a ser criticada pelas pessoas do meio por não usar peruca em drag, por questões financeiras. Mas isso nunca me abalou, só fortaleceu! Afinal, foi seguindo dentro da minha proposta que fui entrevistada pela Pheno TV para falar sobre minha trajetória como pessoa queer e drag.

Facetas de Christy Moon
Christy Moon. Foto: @paimgb. Figurino: @hallymachado

Somente em 2023 é que comecei a participar de concursos presenciais, pois antes era só online devido à Pandemia. O primeiro deles foi o DRAGSTAR, famoso e tradicional concurso drag da noite carioca que acontece no Teatro Rival. Todo mês eu apresentava um look diferente assinado pelo Hallyson, com croquis desenhados digitalmente pelo Luke, um seguidor do Instagram que fechou parceria comigo. Também levava fashion vídeos e photoshoots feitos pelos meus amigos fotógrafos Gustavo Gonçalves e Gabriel Paim, foi assim que ganhei seguidores, fãs e conheci outras grandes drags. No concurso, infelizmente não cheguei na final, mas ganhei visibilidade, respeito e com a consciência de que entreguei ótimas performances de sensualidade, sentimentais, libras, e mostrando toda essa sensibilidade que gosto de levar para o palco.

Número “Azul da Cor do Mar” de Christy Moon no concurso The Queens

O segundo concurso que participei foi o tradicional ‘’Queens: O concurso’’, que estava voltando após um hiato, que ocorria todos os domingos durante um mês na Boate Substation em Copacabana. Aprendi muito participando desses concursos, além de fazer várias amizades. Drags que eu sempre via nas baladas e na internet, hoje em dia, eu converso com elas, e tenho alguma proximidade. Estou realizado com tudo o que conquistei até aqui, páginas de Drag Race e outras do meio estão compartilhando minhas fotos e entrevistas, além dos concursos online que seguem aparecendo.

Não vou parar por aqui! Assim como a lua tem suas fases, há muitas outras facetas da Christy Moon ainda por vir.

Como citar este texto

MOON, Christy. As fases e facetas de Christy Moon. Grafia Drag. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/grafiadrag/as-fases-e-facetas-de-christy-moon/>. Acesso em: 27. Nov. 2023.

Para sair da zona de conforto: uma boa competição

Tiffany Plazza

No final do ano de 2021, recebi uma mensagem no Instagram de uma drag queen chamada Victoria Blossom, me convidando para participar de sua competição de drag online, SuperQueen. No início pensei “uma drag queen iniciante como eu, que mal tem figurinos e nunca performou em público terá condições de já participar de uma competição?”. Resolvi então consultar amigos que me fizeram olhar para essa oportunidade de outra forma: e se essa competição me ajudasse a ter essa evolução que eu precisava? Por que esperar me sentir pronta ao invés de usar essa oportunidade como um mecanismo para evoluir? 

Por ter começado a fazer drag na pandemia, sem shows e eventos para ir, acabei sem muita motivação de me desafiar, afinal, meu grande sonho sempre foi performar em público e a vida de criar conteúdos para o Instagram e para o YouTube estava monótona e desmotivante para mim.  Resolvi, então, participar da competição com essa motivação: independente do meu nível perto das minhas competidoras, eu entrei para me desafiar e aprender. Cada desafio que viesse eu sabia que seria trabalhoso para mim, porque meu armário drag era muito limitado e, para realmente entregar algum trabalho que eu me orgulhasse, eu teria que criar peças e figurinos novos sozinha, algo que eu não estava tão habituada a fazer, ainda mais em um curto período de tempo.  

uma boa competição Tiffany Plazza Vitraux
Tiffany Plazza no concurso The Queens 2023 do Vitraux.
Foto: Ptera Dactyla

Para a minha surpresa, a experiência no SuperQueen não só me ajudou a construir meu armário drag que eu tanto queria, mas também me fez descobrir uma verdadeira paixão pelo processo de fazer os meus looks. Desde então, esse processo me motivou a aceitar mais desafios que vieram pela frente, inclusive outras  competições. Acabei descobrindo também novas possibilidades para trabalhar no meu desenvolvimento e versatilidade como artista. Em toda competição se encontra desafios que serão mais fáceis ou mais difíceis, dependendo das habilidades de cada artista, assim como desafios que nos tiram da nossa zona de conforto de diversas  maneiras, como, por exemplo, a necessidade de trazer referências, estéticas ou práticas , que não aplicaríamos em nossa arte se não fosse por aquele desafio, naquela competição específica. Então, o mais importante é: como trazer esses elementos que fogem da nossa zona de conforto sem perder a nossa essência diferencial? É esse meu principal foco quando participo de competições porque, afinal, em uma competição é preciso agradar, principalmente, aos jurados com os mais variados gostos e opiniões. 

uma boa competição Tiffany Plazza Workroom
Scarlet Bloom, Myah Michelle, Tiffany Plazza e Ptera Dactyla no concurso “Copa do mundo das Drags” da Workroom.
Foto: Carla Menna Barreto

Isso não significa que eu acredite que participar de competições é a melhor ou única maneira de evoluir a própria arte. Cada drag possui sua trajetória e seus  objetivos. O que eu busco nesse texto é trazer um olhar diferente para nossos objetivos dentro de competições, um olhar a partir de uma perspectiva que não seja de ganhar ou de perder, mas de evolução e de aprendizado. Nem sempre o que é requisitado  em determinada competição precisa ser  realmente aplicado no nosso trabalho, é sempre saudável analisarmos nossos próprios objetivos para saber que críticas levar em consideração e quais não te interessam fora da competição. Por isso, acho perfeita a famosa frase dos Boulet Brothers (donos do reality show de competição de drag alternativo, “The Boulet Brothers Dragula”) que é dita antes dos jurados falarem suas críticas: 

“Nós não estamos aqui para julgar seu drag. Drag é arte e arte é subjetiva. O que nós vamos julgar é seu drag em relação a essa competição e aos desafios que lhes são dados” 

Boulet Brothers.

Pra mim, isso quer dizer que uma vitória não significa alcançar a perfeição, assim como uma derrota não significa que existem apenas erros numa montação. Como uma drag queen que ainda é iniciante, gosto de pensar que minha maior competição é sempre comigo mesma, pois o meu verdadeiro objetivo ao me inscrever numa competição é me superar e sentir cada vez mais orgulho do meu trabalho.  Quando  olho para a drag que eu era quando comecei a participar do SuperQueens, minha primeira competição e olho para a drag que sou hoje e para o trabalho que apresentei no concurso The Queens, do Vitraux, última competição que participei,  me sinto uma verdadeira vencedora em toda essa trajetória. 

Como citar este texto

PLAZZA, Tiffany. Para sair da zona de conforto: uma boa competição. 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/grafiadrag/uma-boa-competicao . Acesso em: 14. Fev. 2023.