NoiteSuja Santa Ceia: Benditas sejam as Themônias!

Matheus Aguiar¹

NoiteSuja Santa Ceia (2018). Fonte: Vimeo.

NoiteSuja é um coletivo de artistas criado em 2013 em Belém (Pará), pelos artistas Matheus Aguiar (S1mone) e Tristan Soledade. Além dos seus fundadores, colaboram ou já colaboraram com a NoiteSuja também Brigitte Liberté, Diel Bentes, Leonardo Botelho e Tarcisio Gabriel. A partir de um núcleo de produção cultural, o grupo já realizou dezenas de festas, espetáculos de teatro, festivais, performances coletivas e individuais, produções audiovisuais, ocupações de espaços públicos, exposições de arte, ensaios fotográficos, produções acadêmicas e inúmeras experiências artísticas na Amazônia paraense e em todo o Brasil, com e sem incentivos financeiros.

O grupo é formado por pessoas com identidades dissidentes, que tem a arte Drag (ou “a arte da montação”) como ponto de partida para suas manifestações, e nunca descansam de romper com tradições/preconceitos impregnados nesse gênero artístico. Procuram, em suas “festas-manifestos” (festas noturnas temáticas, com apresentações de artistas dissidentes de sexo e gênero) e demais propostas inter-relacionais, sobretudo, coletivizar o fazer Themônia, identidade artística genuinamente amazônica, nascida nas NoiteSujas e que se espalha por todo o mundo.

Quando o Facebook ainda era a rede social mais utilizada no Brasil, cada festa-manifesto tinha seu próprio texto poético (publicado, na época, junto a página de divulgação do evento no perfil do Feici) servindo de Bíblia para que o público pudesse montar o seu visual, e para que os artistas que subiriam no palco no dia do evento desenvolvessem a sua performance, editassem suas faixas de música, costurassem suas roupas ou as colassem com cola quente.

Em 2018, o Coletivo NoiteSuja realizou a “NoiteSuja Santa Ceia”, em uma véspera de Natal, na Boate Malícia (antiga boate gay, localizada no Reduto da prostituição em Belém). A fim de gerar imagens para divulgar a festa-manifesto, o grupo abriu um chamamento entre as artistas Themônias para que um ensaio fotográfico fosse realizado, no mês de outubro. É neste mês que religiosamente acontece, em Belém do Pará, o Círio de Nazaré, maior procissão católica do mundo, quando um mar de corpos se imprensa pelas ruas da cidade guiados pela imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Do chamamento feito pela NoiteSuja, quatorze artistas apareceram para o ensaio fotográfico, que aconteceu no bairro central Batista Campos, ao lado do Cemitério Soledade. Elas vinham de diversas regiões afastadas do centro, como o Conjunto Maguari e Pedreira. São elas: Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais. Na produção estavam Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez e Matheus Aguiar. Na época, o homem trans e Drag Themônia Dom Pine – mantido no centro das imagens – estava grávido de poucos meses. Sua presença prenhe aponta para uma mesa farta de vidas trans e travestis, não-binárias, pessoas racializadas, pessoas amazônicas, que celebram-se em comunhão.

Este ensaio visual, sobretudo, convida os olhares e as consciências a adentrarem por mais esta criação do Coletivo NoiteSuja com a presença das Themônias. Histórico entrosamento NoiteSuja–Themônias que resultou no trabalho artístico “Santa Ceia”. Trata-se de uma série fotográfica e uma videoarte feitas por muitas mãos, carregada em detalhes, cores, tecidos e pessoas. Além de uma fotografia “mãe”, repleta de manipulações digitais – inspirada na pintura de Leonardo da Vinci “A ultima ceia” (1495-1497) – o ensaio fotográfico também gerou um vídeo onde as Themônias repartem e comungam o pão (no caso, uma coxinha). No vídeo, são apresentadas as informações textuais que o público, na época, precisaria seguir para chegar até a festa, o sagrado ritual do encontro. 2018 marcou o ano da morte de Matheusa Passareli e Marielle Franco, a prisão de Lula e o prelúdio de um governo fascista. Este ensaio se constrói a partir das experiências e impressões vividas pelo autor do texto, Matheus Aguiar, integrante da NoiteSuja, e quem trabalhou em todas as etapas do nascimento destas imagens. Poucos dias antes de 2019, esses artistas fizeram a sua ultima ceia.

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NoiteSuja Santa Ceia

E quando estavam reunidos em celebração, como uma família, repartiram o alimento e a bebida. Então, comeu-se o corpo.
O corpo que padece nas esquinas pela madrugada, farto do apedrejamento e cheio de resistência. Corpo político.
E beberam o sangue, o mesmo que está nas mãos dos que nos apedrejam, nos silenciam, nos tiram o direito de ser.
Sangue sagrado.
Cearam e se fartaram.
Celebraram a vida.

Coletivo NoiteSuja, 2018.
NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série/imagem mãe), Fotografia com manipulação digital, 90 ×58cm, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Lembro de andar pelo centro da cidade de Belém (PA) carregando pesadas sacolas, cheias de maçãs, uvas, pêras e mangas. Recordo de um grande tecido marrom aveludado, encontrado por acaso em uma caçamba de lixo, em frente a uma sinagoga, pela maquiadora e modelo Isabella Pamplona. Talvez tivesse sido usada originalmente em uma parokhet, cortina que ornamenta a Arca desses espaços judaicos de culto e encontro. Era novembro de 2018 quando me encontrei com Diel Bentes (Leid), Danyllo Bemerguy (Rudá Urbana) e Lucas Paixão (Luka Cortez) no Pérola Eventos, espaço de recepções ao lado do Parque Soledade, cemitério centenário onde não mais se enterram mortos. Esses quatro artistas e produtores somaram forças para que imagens santas fossem paridas. O clique da câmera, como comumente acontece nas criações do Coletivo NoiteSuja, não foi feito por um só dedo. Diel cedeu o espaço da família de seu marido e as Themônias, atendendo a um chamamento do Coletivo, o adentraram, trazendo cada uma sua própria Amazônia, seu sotaque, seu coração. Muitas de nós, alcunhadas hoje por Themônias, nos criamos em cidades interioranas do Pará, onde brincamos de pira na rua e nos banhamos nos igarapés até os dedos enrugarem – Cametá, Capitão Poço, Nova Esperança do Piriá, Castanhal, Barcarena… As suas diferentes águas nos cortam e sangramos. Não há problema em sermos diferentes, pois nos sentimos iguais nas diferenças. Ao desaguarmos no mesmo rio, depois de viajar igarapés, forças estranhas nos mantém flutuando juntas, em sagração.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (série), Fotografia digital, 4356 × 2904 px, Belém (PA). Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Acima do tecido marrom, posicionamos os elementos da mesa. Uma pequena estátua em gesso de cigano, comprada em uma casa de umbanda. Uma “S1moninha”, uma boneca da S1mone de cabelos vermelhos e barba, o meu eu Themônia. Um Maneki-neko (ou gato das boas-vindas) japonês, dourado, com seu incansável movimento de unhar. Um pilão de madeira e cestas de cipó. Taças, velas e plantas. E a catuaba, ela mesma! Uma birita de vinho e fermentado de maçã e catuaba, onipresente nos encontros do Coletivo, entre as que bebericam. Bebida canônica. Pergunto a Danyllo, Themônia que trabalhou no projeto, qual a lembrança mais chamuscada daquele dia. Rudá (seu nome Drag) responde que a grande novidade “foi juntar todo aquele rolê Drag num rolê que não era festa”. Na NoiteSuja, também chamamos esses eventos de festas-manifesto. “Era uma produção fotográfica. Bem diferente do que rolava. E a Flores Astrais comendo olhos foi tudo pra mim”. Um dos elementos presentes na “Santa Ceia” são os olhos enervados, que boiam sobre o sangue nas taças.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px, Full HD, Belém (PA), 2018. Foto: Coletivo NoiteSuja, 2018.

A maioria das coloridas roupas, panos e santos sudários foram levados por Gigi Híbrida, Themônia carnavalesca do bairro da Pedreira. Os adereços de cabeça são de Leonardo Botelho. Produtor da NoiteSuja e figurinista, Botelho ajudou a iluminar feito auréolas os picumãs (“perucas”, no pajubá) das artistas. Correria. Abre mala. Maquia. Ajeita o que errou. Themoniza mais. Decide que o erro é acerto. Espera alguém que se atrasou. Cola com “cola Themônia”² os cílios de papel. “Tu diz que gruda?”, Shayra brinca. Começo o ensaio pedindo que ainda não se comam as frutas da mesa, com o desejo de guardá-las para uma cena de comilança.

Mas ah! Benditas sejam as Themônias! Mordiscaram a cena! O fruto proibido sempre nos foi tentador. Alice, na história Alice no País das Maravilhas (1951), também não obedeceu e avançou nas guloseimas da mesa farta. E não apenas comidas, mas também cogumelos alucinógenos. Cliques de câmera. Posicionamos as quatorze modelos na grande mesa. Clique, clique. Mudávamos as posições. Alguém ia no banheiro. Muita conversa durante a “Santa Ceia”. Será que foi essa algazarra toda com Jesus? “Gente, silêncio!”, pedimos algumas vezes. Conversar muito (hablar, hierogritar) é o que fazem Themônias quando se reúnem. “É um kikiki, kákáká”. Quase ao final do ensaio, filmamos o material que seria a videoarte, usado na divulgação do evento “NoiteSuja Santa Ceia” na rede social Facebook. Na foto, Shayra Brotero segura um beck (cigarro de cannabis). No vídeo, Perséfone de Milo acende – babilônico fogo – o bong. Flores Astrais traga. Bateu a liga! O homem grávido no centro da imagem tem chifres. Exibe a prenhe barriga defronte a suculenta mesa. Consagra e reparte seu pão (coxinha). Entre as Themônias, se reza o provérbio: seu filho crescerá abençoado. Tristan Soledade me contou: “Quando foi que a gente fez um ensaio fotográfico, sabe? Quando que a gente sentiu essa importância de artista? Quando isso aconteceu? Com um mínimo investimento que fosse. O espírito era de ‘vamos aproveitar, porque a gente não tem isso sempre! Esse conforto pra se montar!”.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920, px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

 

2018 foi um ano extremamente difícil para pessoas sexo-dissidentes no Brasil. Os assassinatos de Matheusa Passareli e Marielle Franco esquartejaram, alvejaram e queimaram nossas almas. Também nesse ano, Lula foi preso injustamente, enquanto um governo pautado na necropolítica se aproximava, consentido por 49 milhões de brasileiros que apertaram “17” (espadas contra nosso peito) e “confirma” em urnas eletrônicas. Cada um deve contar sua própria versão e aversão deste 2018 pré coronavirus. As quatorze artistas que fizeram das tripas coração para a construção dessa imagem (Shayra Brotero, Pandora Rivera Raia, Isabella Pamplona, Amoras Signoreth, Monique Lafon, Gigi Híbrida, Tristan Soledade, Dom Pine, Bunny das Coxinhas, La Falleg Condessa, Mikaela Anaiv, Skyyssime, Perséfone de Milo e Flores Astrais) podem contar dos Brasís que só elas sentiram. Brasil em brasa. Como também os produtores que trabalharam na coxia desse ensaio fotográfico (Diel Bentes, Danyllo Bemerguy, Luka Cortez, e eu, que escrevo essas linhas). “A gente tava feliz com a importância daquele momento, nós que estávamos em cena ali”, me contou Tristan Soledade em uma conversa através de áudios de WhatsApp. “Sabíamos que o cansaço que a gente tava sentindo seria por algo maior. É um cansaço que não tava nem perto do que estaria por vir nos próximos anos”.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920. px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Não foi fácil realizar essas imagens num contexto tão frágil. Lembro do dia 28 de outubro de 2018, um mês antes do ensaio acontecer. Na noite daquele domingo, sentei em uma roda de manas, em sua maioria pessoas trans e travestis. Sob uma luz fraquinha, lembro das suas feições. Dos nossos medos compartilhados, e do sentimento de que anos trevosos se aproximavam. Pouco antes, a cantora Pabllo Vittar havia lançado seu álbum “Não Para Não”, que escutávamos piamente. Lembro dos versos daquelas canções, gritados por uma amiga trans. E do silêncio da nossa roda. De repente, alguém começou a chorar copiosamente. Choro de morte, de velório. Nos abraçamos. Dali um mês, duas pessoas presentes naquela roda fúnebre participaram das imagens da “Santa Ceia”. Ensaio não. Ritual.

NoiteSuja Santa Ceia Grafia Drag
Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja, 2018.

Diel, na época um ativo produtor do Coletivo, foi quem iniciou a edição da imagem, logo após o fim dos trabalhos no Pérola Eventos. Digitalmente, removeu o fundo, aplicou o céu celestial e a textura de pergaminho nas bordas. Em seguida me enviou os arquivos, e dei continuidade ao trabalho de tipografia. Com pincéis, tinta e caneta nanquim, desenhei a próprio punho o título “Santa Ceia” e as informações para a festa. Escaneei e tratei em programas de edição.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (cartaz), Fotografia com manipulação digital, 29,7 x 42 cm, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

Na época, eu estava sem internet em casa. Viviam roubando os cabeamentos dos postes, ou porque não conseguimos pagar naquele mês, não me lembro ao certo. Escolhi músicas que já estavam no meu computador para compor a trilha sonora do vídeo “Santa Ceia”. Decidi por uma música de Alice Coltrane, compositora norte-americana, que ouço quando desejo entrar em estados de transe e foco, geralmente para produzir. E o vídeo finaliza com uma versão acelerada de Tom Zé, esse nordestino que dá vários nós no nosso raciocínio. Gosto de começar pela música, e com ela evoco as imagens, os cortes, as sobreposições. Artista faz mágica. Na época, uma amiga havia me emprestado o DVD do filme “O Livro de Cabeceira” (1996), que assisti no meio de todo esse processo e que mexeu comigo.

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Coletivo NoiteSuja, Santa Ceia (filme), Vídeo digital, 1 min., 1080 x 1920 px Full HD, Belém (PA), 2018. Fonte: Coletivo NoiteSuja.

As imagens ficaram prontas e a divulgação começou no Facebook e Instagram: “Convocamos as bruxas, bichas, drag kings, criaturas da mata, alienígenas e toda Belém pra nossa ‘Santa Ceia’ deste sábado (22/12), na Boate Malicia. Uma noite de trocas e partilhas, drag shows, discotecagem e muita grelhação até de manhã. Vem mana!”.

REFERÊNCIAS

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia. Belém, 7 dez. 2018. Facebook: noitesuja. Disponível em: https://www.facebook.com/events/127755988117075/. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOITESUJA. NoiteSuja Santa Ceia (2018). Vimeo, 11 out. 2019. Disponível em: https://vimeo.com/365870073. Acesso em: 9 jun. 2024.

NOTAS

¹ Graduando em Licenciatura em Artes Visuais no Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI. Em 2024, integrou o Grupo de Estudos Memórias das Artes Visuais: Arte e Política do Prof. John Fletcher (FAV/PPGPATRI/UFPA). É artista visual, autor, quadrinhista e produtor cultural. Membro-fundador do Coletivo NoiteSuja (2013). E-mail: matheusaguiarrrrr@gmail.com.

² “Cola Themônia” é um nome alternativo para a cola permanente, originalmente utilizada para trabalhos artísticos sobre madeira, papelão, acrílico e outras superfícies. Em Belém (PA), seja pela força da precariedade ou pela alta aderência a pele, o produto foi amplamente utilizado na maquiagem, para dependurar cílios, pedrinhas brilhantes e outros acessórios no rosto e em todo o corpo. É, até hoje, item indispensável no estojo de maquiagem de muitos artistas que já passaram pelos palcos da NoiteSuja. Durante os eventos do coletivo, não raro ouvimos uma artista perguntar para a outra: “Ei mana, tu tem cola Themônia pra emprestar?”.

Da cultura clubber às Themônias em Belém

Juliano Bentes (Luna Skyyssime)

Cultura Clubber

Pode-se entrecruzar a cultura dos clubes em Belém com a cultura clubber americana, ocorrida no final dos anos 1970, mas a verdade é que esses espaços de socialização existiam muito antes. A entrada de vez nessa era se daria desde o Lapinha, passando para espaços mais específicos como o Camaleão, mas o auge se encontra nos anos 1990, com a chegada e tomada oficial do termo drag na cidade, que já veio com o peso da cultura clubber americana e, passando pelo Sudeste, com o bate cabelo de Márcia Pantera. É impossível falar de drag na cidade de Belém nos anos 1990 sem falar de Liz Babeth Taylor e a Banda Bagaço, que realizavam shows de comédia, parodiando aberturas de novelas, cenas de filmes e de espetáculos. De tom político acentuado, Babeth foi a a precursora de grande parte das artistas que vieram a seguir.

Em Belém, as boates de referência seriam a Go Fish, Lux, Doctor House, R4 Point, Vênus, Rainbow, Mystical, Malícia, Stand-by, Amnésia, entre tantas e tantas outras. Belém viveu um grande momento de sociabilidade LGBTI+ e de grande mercado para as drags. Sendo seus shows a principal atração da maioria desses espaços.

O termo drag/clubber chega em Belém com os cabelos coloridos, performances grotescas e grandes, lentes, sangue, fogo, estruturas em geral, causando grande impacto nas transformistas da época, sendo as maiores representantes desse período: Liz Babeth Taylor, Shaula Vegas, Shantara Gomes e Dana Internética. A unificação desses dois públicos – as novas drags e as transformistas antigas – ocorreria em decorrência dos concursos de Miss e de Beleza. Esses concursos costumam acontecer nos espaços dessas boates determinando sua lotação, e reunindo uma grande quantidade de gente a fim de torcer pelas competidoras. Esses concursos tornaram-se grandes referências e o cartão de visita da comunidade LGBTI+ paraense, sendo um dos principais momentos de socialização ainda hoje.

Como podemos ver, a estética do grotesco sempre esteve por aí; em Belém, existiam alguns artistas dedicados a essa estética como Shaula Vegas, Dana Internética, etc., posteriormente Sid Manequim, Júnior Ribeens, entre outros.

A Festa Noite Suja e as Themônias em Belém

Em meados de 2014, Matheus Aguiar – Artista, Designer e ex produtor da Produtora Bafônica – e Maruzo Costa – Artista, Drag e DJ – decidiram iniciar uma festa chamada Noite Suja, com referência à banda Truque Sujo de Cláudia Wonder. As referências dos artistas variavam entre temas macabros, queer, trash e grotesco em geral. Assim, lançaram o primeiro evento, “Baile à Montação”, que foi realizado no dia 12 de dezembro de 2014, onde a ideia era ser um Halloween fora de época e teria uma batalha de dublagem. O público não foi tão numeroso mas a grande maioria seguiu a proposta da festa e assim foi cunhado o teor do evento em todas as próximas edições: montação.

Nas batalhas eram coroadas as rainhas, até o presente momento temos um total de 08 rainhas Noite Suja, que são – em ordem cronológica – Uhura BQueer, Pandora Rivera Raia, Flores Astrais, Gigi Híbrida Bolero, Leid (que substituiu Luisa Akan após o seu “impeachment”), A.K.A. Della, Skyyssime e Safira Clausberg. As batalhas eram a característica do evento, mas a última eleita por dublagem foi Gigi, pois os produtores perceberam que essas batalhas provocavam certa competitividade nas participantes, então foi feita uma “batalha de close” para a escolha da quinta rainha; a sexta e a sétima, A.K.A. Della e Luna, foram eleitas por conjunto da obra, e a oitava, Safira Clausberg, foi eleita através da gincana Sereia do Asfalto, na prova de quem ficava mais tempo embaixo da água.

O Noite Suja criou um tipo de festa marginal voltado à montação que se disseminou em muitos outros eventos na cidade, como a Viada Cultural, a Pyrygotyk, a Obscenna, a decaDANCE, a Karma Cool, a Maniva, a Iconic, entre outras, a grande maioria adotando essa estética urbana e voltada para a montação que posteriormente provocou a autodenominação das artistas enquanto themônias.

O grupo cultural que desenvolveu o movimento é formado, em grande parte, por pessoas que já desenvolviam trabalhos artísticos antes – teatro, desenho, pintura, dança, canto, etc. – e que acabaram descobrindo suas identidades Themônia em convergência com suas expressões artísticas anteriores. Esse grupo criou laços afetivos fortes e possui características estéticas muito diversas, mas que trilham no mesmo formato. Raymond Williams exemplifica: “existem grupos culturais (…) que têm em comum um corpo de práticas, ou um ethos que os distinguem, ao invés de princípios ou objetivos definidos em um manifesto” (WILLIAMS, 1999).

As themônias se manifestam bastante através da montação nos seus corpos em fuga de padrões. É impossível falar de um grupo cultural sem falar das relações entre os indivíduos que o compõem, ainda mais dentro do meio LGBTI+, onde essas relações ocorrem com grande fluidez e são fundamentais para entender as nuances das construções de cada artista. Para analisar essas relações Raymond Williams (op cit) pontua:

“Há uma preocupação em não diminuir a importância de ninguém. Isto poderia ser realmente uma aproximação grosseira com alguns próprios modos de julgamento humano (…). O verdadeiro ponto é ver a importância do grupo cultural para além da simples apresentação empírica e da autodefinição como um grupo de amigos” (WILLIAMS, 1999)

Se o movimento se identifica e se trata como família, as Haus – conceito apropriado das Haus dos DragBalls dos anos 1980 – seriam como os nichos familiares. No movimento das Themônias podemos exemplificar algumas Haus: a Haus of Soledade, composta por Tristan Soledade, S1mone e La Falleg Condessa; a Haus of Tão, composta por Xirley Tão, Flores Astrais, Dângela do Curió e Jamburana; a Haus of Carão, composta por Skyyssime, Perséfone de Milo, Yndjáh Báh, Rubi da Bike, Demétria de Milo, Aurora, Bacuríndia, Coytada, MaiT Yvanna, Cruela de Milo, Brigitte Liberté, etc.; a Haus of Híbrida, composta por Gigi Híbrida, Monique Lafon, Mikaela, Aurora Blondie, Condessa de Devonshire; entre tantas e tantas outras Haus.

Apesar de todas serem parte da mesma família, as Haus funcionam através de um sistema de cuidado mútuo, troca de maquiagens, indumentária compartilhada e, principalmente, troca de afeto e preocupação com o bem-estar do outro.

Além das Haus temos de levar em consideração as relações românticas entre os indivíduos, os casais de grande relevância dentro do contexto do movimento foram: Tristan Soledade e S1mone; Fabritney A.K.A. Della e Lady Milady; Flores Astrais e Alexia Turner; La Falleg Condessa e Cassandra F Jones; Perséfone de Milo e Shayra Brotero; Xirley Tão e Milla Milambe; Gigi Híbrida Bolero e Monique Lafon; Skyyssime e Rubi da Bike; Bunny e Luka Cortez. Essas são algumas das relações românticas de tom formal, porém informalmente existe uma gama bem maior de cruzamentos de relações, desde beijos aleatórios nas festas até longos meses de “fica”, sem, de fato, formalizar.

De forma geral, esse texto se conclui, mas não busca ter um aspecto irretorquível, porque fechar hermeticamente algo seria o contrário de tudo que fora pesquisado. Como pontua Cecília Salles (1998), é uma obra inacabada, porque a Themônia é a sua própria obra, não é apenas uma performance, não é apenas uma montação, é ela inteira, é o conjunto de performances, montações e atravessamentos, ela é o processo. Assim, termina-se porque precisa terminar, mas se segue, com tom de inacabada mesmo, em processo, levantando luzes para outras tantas mais emborcaduras que a qual esse texto possa encaminhar.

* Esse texto é um fragmento do livro “Ekoaverá: um estudo sobre a terriorialidade nos processos identitários das drags demônias” (Juliano Bentes, 2020).