Ariel Lopes
A importância da mulher na conjuntura democrática já não pode ser ignorada. O comportamento do voto feminino é, inclusive, tema de análise. Segundo a socióloga e fundadora do Instituto Patricia Galvão, Fátima Pacheco Jordão, as mulheres são a grande maioria – cerca de 70% – entre os eleitores que deixam a escolha de candidatos para mais tarde. É o voto delas, então, aquele a ser conquistado na batalha eleitoral, explica a socióloga. “O processo de comunicação política se baseia através de diferenças políticas, ideológicas, mas no momento de busca do eleitorado é muito mais com propostas e programas. Quanto mais perto das eleições mais se falam nos problemas cotidianos porque, nessa fase, as mulheres são o principal alvo”, afirma.
#EleNão e o protagonismo feminino
Oitenta e seis anos após conquistar o direito ao voto, as mulheres continuam impulsionando suas vozes para marcar posições e interesses. A eleição de 2018 é a prova disso: protagonizado por mulheres, o movimento #EleNão, contra a candidatura do presidenciável Jair Messias Bolsonaro, do PSL, nasceu na internet e ganhou as ruas do Brasil e do mundo. Apartidária, a campanha vinha em repúdio ao projeto de governo do candidato e suas declarações consideradas discurso de ódio contra mulheres, negros e LGBTQ+.
O #EleNão se tornou viral. Em uma eleição marcada pelo constante uso de robôs para impulsionar candidatos, o movimento cresceu no uso orgânico da hashtag, pelo trabalho e esforço pessoal de todas e todos que adotaram a campanha para si. A movimentação chamou a atenção e foi divulgada por personalidades nacionais e internacionais, jornais e publicações de todo o mundo. O grupo oficial do movimento no Facebook, Mulheres Unidas Contra Bolsonaro, chegou a reunir mais de quatro milhões de membros. Desde sua fundação, no entanto, o grupo enfrentou alguns problemas. Foram feitas uma série de invasões feitas por apoiadores de Bolsonaro.
Contudo, nada foi capaz de calar a voz daquelas mulheres. No final de setembro (29/9), um ato unificado rompeu barreiras internacionais e juntou milhões de pessoas para protestar contra a possível eleição de Bolsonaro. A campanha foi decisiva para que o candidato não fosse eleito presidente da República ainda no primeiro turno (Bolsonaro ganhou 46% dos votos válidos): um lembrete da importância da voz feminina para o cenário eleitoral.
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A comoção gerada pelo movimento foi tamanha que, já em campanha para o segundo turno, Bolsonaro tentou se livrar dos rótulos preconceituosos reforçados pelo #EleNão, usando principalmente a figura da esposa e da única filha mulher no seu programa eleitoral. No entanto, o movimento continuou ativo durante as três semanas de campanha eleitoral que antecederam a votação definitiva.
O #EleNão não alcançou o resultado esperado nas urnas: Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República na votação em segundo turno (28/10), com 55,1% dos votos válidos. No entanto, cumpriu o propósito de incentivar a união feminina e fazer o mundo lembrar que as mulheres, suas vozes e seus votos vieram para ficar e resistir.
Leia mais:
1ª Parte: Representatividade Importa
2ª Parte: Sim, elas podem!
FOTO DE CAPA: Alexandre Garcia




