Filme vencedor do Globo de Ouro rendeu ainda a estatueta de melhor direção a Chloé Zhao, segunda mulher a vencê-lo na história da premiação.
Stéfani Fontanive / #CríticaHumanista
Após as polêmicas sobre a falta de representatividade em seu júri e o escândalo de corrupção, o Globo de Ouro surpreendeu ao revelar suas indicações com a presença de três mulheres concorrendo a categoria de melhor direção: Emerald Fennell por Bela Vingança, Regina King por Uma noite em Miami… e Chloé Zhao por Nomadland, ganhador da categoria de melhor filme. E mais: Zhao se tornou a segunda mulher na história da premiação a receber a estatueta de direção – a primeira foi Barbra Streisand, por Yentl, em 1984.
O reconhecimento pelo Globo de Ouro já seria motivo suficiente para “Nomadland” estar no #CríticaHumanista. Outro é a própria temática do filme, cujo enredo aborda as crises do capitalismo e as suas consequências para as pessoas.
Favorito ao principal prêmio do Oscar (também marcado pela falta de representatividade, como o Humanista já destacou), o filme é inspirado no livro-reportagem com o mesmo nome da jornalista Jessica Bruder. A tradução literal de seu título seria “terra dos nômades”, e conta a história de quem são esses novos nômades: pessoas que estão sem casa após a crise econômica de 2008, que passaram a morar em trailers em busca de trabalhos temporários em diferentes cidades.
O longa apresenta a personagem Fern, uma viúva de 61 anos que perdeu tudo após o fechamento da fábrica em que trabalhava. Com atuação impecável de Francis McDormand — tão boa quanto seu trabalho em Fargo, que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz —, com apenas um olhar ela nos faz sentir suas dores, seus orgulhos e seus problemas.
Misturando personagens fictícios com personagens e histórias reais – considerando que parte dos coadjuvantes são as pessoas que fizeram parte do livro, como Linda May, Swankie e Bob Wells, e outras que a produção encontrou durante as gravações do filme em 2018, que interpretam versões deles mesmos – são essas histórias verdadeiras que guiam e dão emoção ao filme: pessoas doentes que largaram tudo para aproveitar o pouco tempo de vida, que perderam familiares e amigos e perceberam que o trabalho não é tudo, outras que não tiveram outra opção além de trabalhar, da forma que conseguem, considerando que a aposentadoria que recebem não é o suficiente para viverem.
A produção contou, de acordo com o Adorocinema, com uma equipe de cerca de 30 pessoas, que viveram em vans durante o período de gravação, para aprender sobre esse estilo de vida e o representar melhor ao gravar. E eles conseguiram. Ao apresentar os lados positivos, mas também os negativos, a obra mostra com a fidelidade que uma ficção pode ter essa realidade que nos parece tão distante — mas pode estar tão perto.
Quem decidiu viver em vans não tinha muitas opções: não recebia auxílio do governo, não conseguia empregos fixos e precisava sobreviver. Há, durante o filme, várias pessoas convidando Fern para viver com eles, de forma até condescendente, como se não aceitassem que a decisão de morar em uma van fosse uma possibilidade de vida. Ao residir de favor com alguém, Fern perderia sua independência, sua autonomia e até, de certa maneira, seu poder de escolha. Ela estaria presa às opiniões, julgamentos e forma de vida alheios. Na van, apesar das precariedades, ela é livre — na medida que o sistema capitalista permite — para tomar suas próprias decisões. Ela decide aonde ir, o que é, entretanto, muitas vezes baseado em onde ela encontrará emprego; ela decide o que fazer na cidade; ela arruma e personaliza a van do seu jeito. “É a minha casa”, ela diz em um trecho. Ao ver essa cena, nós sentimos que realmente é a sua casa, o apego que ela tem por esse espaço que pode chamar de “dela”, e McDormand transmite no olhar a dor, o apego e o orgulho por esse lar.
Viver como nômades ainda tem outro benefício: conhecer o país. A direção de fotografia do filme é cuidadosa, sempre em tons mais amarronzados e apagados, mostra imagens lindas de paisagens estadunidenses. Um exemplo é uma cena no deserto, em que a personagem quase se perde passeando pela areia, há diversos trilhos e caminhos. Também há uma cena em que ela está sozinha próximo a uma cachoeira. A sensação em ambas as cenas é de liberdade. Ao mesmo tempo, há cenas dela comemorando o ano novo sozinha, ou esperando para lavar a roupa, em que a liberdade se confunde com a solidão. Durante a 1h50min de filme, a solidão e a liberdade se misturam constantemente, mostrando os pontos positivos, mas também as dificuldades dessa realidade.
Há uma cena no filme em que a tela fica dividida, em um canto há uma casa padrão e no outro a van, em um claro comparativo às duas formas de se viver. Ambas são lares, ambas são estilos de vida, com suas partes boas e ruins, alegrias e tristezas, facilidades e dificuldades. Fern está próxima da van, mostrando sua escolha. Há uma independência, uma liberdade e um orgulho — não no sentido negativo — dessa escolha, ela não depende de ninguém, além dela mesma.
Com cenas gravadas com câmeras paradas mostrando momentos simples do cotidiano – como Fern lendo ao esperar suas roupas na lavanderia – o ritmo do filme é lento e contemplativo; entramos aos poucos na narrativa e conhecemos os personagens gradativamente. O ritmo combina com a história, já que aparentemente não acontecem muitas coisas, é apenas a rotina de um nômade. Mas, ao parar para analisar as camadas do filme, percebemos os desafios dessa realidade e os sentimentos de quem optou por ela.
A diretora acerta no tom e na mensagem do filme ao não glamourizar a experiência dos nômades, não a retratando apenas como uma grande jornada de autoconhecimento e, em simultâneo, não os culpabiliza por se encontrarem nessa realidade, não há um julgamento moral presente e, apesar de não haver esse julgamento, há a responsabilização de um estado omisso que não se preocupa com essas pessoas: não há um bom plano de aposentadoria e não as auxilia em períodos de doença. A obra mostra, com maestria, os efeitos do capitalismo e suas crises na população.
FOTO DE CAPA: divulgação




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