Filme vencedor do BAFTA e indicado a três categorias do Oscar em 2021 aborda a violência contra a mulher na classe média alta.
Bruna Jacobovski / #CríticaHumanista
O ano de 2021 é atípico nas premiações cinematográficas em razão da maior diversidade entre os indicados. Como o Humanista já destacou, é a primeira vez em 93 anos que duas mulheres estão concorrendo na categoria de melhor direção do Oscar, além de Chloé Zhao com Nomadland – sobre o qual já publicamos uma crítica -, Emerald Fennell, diretora de Bela Vingança (em inglês, Promising Young Woman), também foi indicada. O longa-metragem, que recebeu o prêmio de melhor filme britânico no BAFTA (British Academy Film Awards) deste ano, concorre também a outras duas categorias no Oscar: melhor roteiro original e melhor atriz para Carey Mulligan.
O marco histórico conquistado pelas indicações na maior premiação do cinema mundial já seria motivo suficiente para o filme estar no #CríticaHumanista, entretanto, o tema central é o ponto que precisa ser abordado e discutido: a cultura do estupro.
O filme já inicia com uma cena de “embrulhar o estômago”, uma mulher aparentemente bêbada e sozinha em uma festa é arrastada para o apartamento de um “cavalheiro” que viu a situação em que ela se encontrava e resolveu ajudá-la. Mas não demora muito para nos surpreendermos com a inteligência e as motivações da personagem Cassandra Thomas, interpretada por Carey Mulligan. Cassie, como é apelidada, é atendente em uma cafeteria e ex-estudante de medicina, curso que resolveu abandonar após um trauma em sua vida.
Durante a 1h50min de suspense, a personagem vive uma vida dupla, entre uma jovem doce e vulnerável e uma mulher forte e determinada a se vingar. No começo sua vingança era dar uma lição em homens que se intitulavam como “caras legais”, mas abusavam de mulheres inconscientes em bares e festas. Entretanto, ao longo da narrativa, personagens que fizeram parte de seu passado traumatizante cruzam seu caminho, o que faz Cassie traçar planos de vingança específicos para eles, mudando o rumo da história e prendendo a atenção do telespectador.
Além da cultura do estupro abordada do início ao fim, com frases como “temos que dar aos homens o benefício da dúvida” e “mulheres assim estão pedindo”, o filme também destaca a objetivação feminina e o machismo empregnado na sociedade, principalmente na classe média alta. A obra que marca a estreia de Fennell é bem direta em seus objetivos e recheada com um humor ácido. A diretora não poupa e nem tenta suavizar as cenas de abuso sexual, por outro lado, desafia o público a confrontar alguns conceitos que geralmente não são abordados por convenção social – exemplo disso, é que em nenhum momento os personagens conseguem pronunciar a palavra estupro, sempre se referem como algo que aconteceu no passado.
Infelizmente, esse tema ainda precisa ser abordado, pois os dados estão cada vez mais alarmantes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020, a cada oito minutos uma ocorrência de estupro é registrada no país; foram 66.123 casos em 2019 e 85,7% das vítimas eram do sexo feminino. Além disso, cerca de 1.326 casos de feminicídios foram registrados no ano retrasado, uma alta de 7% em relação a 2018. Atualmente, o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de feminicídio da OMS (Organização Mundial da Saúde), com uma taxa de 4,8 homicídios de mulheres a cada 100 mil. Na pandemia os casos agravaram ainda mais. Só em 2020 foram registradas 105.821 denúncias de violência contra a mulher pelo Ligue 180 e pelo Disque 100.
O espírito de vingança e de culpa carregado por Cassie, com certeza é o sentimento de muitas mulheres pelo mundo afora. Destaque para a atuação precisa de Carey Mulligan que soube ser enigmática como a obra exigia, mas também cativou o público a ponto de apoiar suas motivações. Vale lembrar que Carey já foi premiada no BAFTA pela sua atuação em Educação (2009) e concorre na categoria de melhor atriz no Oscar 2021. A direção de fotografia também é cuidadosa, principalmente em relação a vida dupla da personagem, com cores mais vibrantes (um toque de anos 2000) em seus momentos mais leves, que por sinal são poucos, e tons mais sóbrios para os momentos de suspense e vingança, representados também por meio do figurino dos personagens.
Para completar a série de “castigos” que Cassie tinha como missão, ela precisava dar uma lição no maior responsável por todo o trauma do seu passado. Por isso, os 30min finais são o clímax da história, com reviravoltas e cenas fortes e delicadas. Apesar de o filme não terminar como imaginamos, a direção acerta no tom da mensagem que desejava passar, pois não havia outro final possível, Cassie cumpre sua “missão” e se liberta da culpa que carregou durante sete anos. Por outro lado, o longa-metragem escancara o quanto a cultura do estupro afeta a vítima e as pessoas do seu ciclo social, pois gera traumas irreparáveis, e isso não pode mais ser aceitável na nossa sociedade, assim como o machismo e a objetificação da mulher.
A estreia do filme nos cinemas brasileiros, que já foi adiada algumas vezes devido a pandemia da covid-19, está prevista para 13 de maio.
FOTO DE CAPA: divulgação




