Os desastres climáticos aumentaram cinco vezes nos últimos 50 anos, informa o relatório da OMM (Organização Meteorológica Mundial) em setembro deste ano. As enxurradas, enchentes, ondas de calor e secas só devem se tornar mais frequentes e extremas, segundo a publicação mais recente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, à medida que pouco é feito para impedir o avanço do aquecimento global. Ainda assim, seguem sendo exceções as cidades brasileiras que têm lideranças preocupadas com a emergência climática que se desenrola em todo o planeta.
Um grupo de quatro jovens ativistas, de diferentes partes do Brasil, no entanto, pretende mudar esse panorama no Brasil. Fundado a partir de um incômodo compartilhado, o projeto Clima de Eleição busca qualificar a discussão sobre a crise climática na política brasileira, qualificando em primeiro lugar os candidatos a postos públicos. Criado em meio às eleições municipais de 2020, mas em plena atividade na entressafra eleitoral, o grupo oferece desde cursos para os candidatos e representantes eleitos sobre a questão ambiental, até análises dos planos de governos de candidatos ao executivo.
No #EntrevistaHumanista, conversamos com João Cerqueira, um dos fundadores da iniciativa, sobre a jornada do Clima de Eleição e como os eleitores podem fazer uma escolha bem informada de seus representantes.
Como surgiu a ideia de criar o Clima de Eleição?
O Clima de Eleição começou com um grupo de amigos que já tinham engajamento com a agenda de mudanças climáticas, que se conheceram por causa do ativismo. A gente sentia uma grande dificuldade em debater e pautar essa agenda com as lideranças municipais, em especial do Legislativo Municipal.
Em grande parte das vereanças não há muito conhecimento sobre o assunto e eles não conseguem conectar os impactos que já estamos sentindo, de fenômenos climáticos extremos, com este grande fenômeno global.
Isso foi bem marcado ano passado aqui em Curitiba, onde eu moro. A gente está passando pela maior crise hídrica da nossa história e, dentro deste contexto, em que todas as pessoas na cidade estão sendo afetadas, as vereanças não estavam discutindo mudanças climáticas, totalmente desconectadas da realidade.
Então, aproveitando que era um ano de eleição, acreditamos que seria uma oportunidade de tentar melhorar como essa agenda é discutida e criamos o Clima de Eleição.
E como é a atuação do projeto?
No começo, uma das coisas que a gente fez foi disponibilizar um curso online gratuito sobre mudanças climáticas, com foco em candidaturas. E para que elas acessassem o nosso curso, elas tinham que se comprometer a continuar trabalhando conosco caso fossem eleitas.
Nesta primeira etapa do projeto não tínhamos financiador, fazíamos tudo com plataformas livres e tempo de trabalho não-remunerado. E chegamos em 400 candidaturas de 253 municípios, de 27 dos 33 partidos políticos, das quais 22 foram eleitas.

Como foi essa experiência com os candidatos? Imagino que lidando com partidos diferentes, há ideias diferentes sobre o papel do governo.
Atrair diferentes partidos foi um indicativo bem interessante para nós. Porque até então acreditávamos que não seria tão distribuído, que teríamos uma minoria de partidos mais à direita, mas a distribuição acabou sendo mais interessante. O que a gente faz no curso é tentar mostrar para qualquer liderança da administração pública o quanto a agenda climática é importante.
Não é necessariamente uma agenda ideológica, mas sim uma agenda de desenvolvimento. Uma agenda de futuro.
Não é necessariamente uma agenda ideológica, mas sim uma agenda de desenvolvimento. Uma agenda de futuro. E a partir da agenda climática conseguimos argumentos que vão atrair qualquer tipo de liderança. Podemos focar tanto na questão de justiça social, de direitos humanos, quanto no aspecto econômico, do quanto é mais interessante você adaptar as cidades para que elas não sofram tanto com fenômenos climáticos extremos quando eles acontecerem (e eles já estão acontecendo).
Então, acabou que descobrimos que é possível agregar valor a qualquer tipo de liderança. Claro que há algumas que não vão ter interesse nenhum nunca, mas nosso projeto conseguiu atrair partidos que nunca imaginamos.
E qual o foco do projeto agora, em um ano sem eleições?
Estamos trabalhando bastante com as candidaturas que foram eleitas e abrimos um curso para as pessoas já eleitas. Basicamente adaptamos nosso curso da eleição e abrimos ele para gabinetes. A ideia de capacitar os gabinetes é trazer essas pessoas para essa rede que temos agora, chamada “Mandatos-C: Aliança de Lideranças do Legislativo pela Ação Climática”. Esta comunidade que criamos, tem encontros mensais, e a gente apoia diretamente as equipes dos gabinetes neste processo de construção de políticas públicas para as mudanças climáticas. Queremos garantir que o que está no material do curso não é só teórico, queremos que se torne política de fato na ponta.
Este ano é somente um projeto piloto, apenas com as lideranças do Legislativo Municipal, mas nosso objetivo ano que vem é trazer de volta o curso nas eleições e a no final do pleito que esta rede se expanda para o nível estadual e federal. Queremos ter bancadas climáticas em todo país. É o grande objetivo de 2022.
Uma preocupação dos eleitores é o que é somente discurso e o que são iniciativas que fazem alguma diferença. O que haveria em uma cartilha para o eleitor na hora de falar com o seu representante ou mesmo na hora de decidir em quem votar, em relação às mudanças climáticas?
Durante o período eleitoral é muito fácil assinar uma carta-compromisso, que não tem garantia nenhuma de que isso vai se tornar de fato uma política pública. É muito mais uma ação eleitoral do que um comprometimento com a agenda. E por isso que optamos pelo curso. Divulgamos apenas as candidaturas que concluíram o curso com no mínimo 75% de aproveitamento. Ou seja: a gente precisava que elas provassem para nós que estavam dedicadas, para poder compartilhar com os eleitores que votariam nessas pessoas.
Mas para além disso, é complicado, porque não temos como saber, principalmente nas candidaturas do Legislativo, quais são as propostas reais delas. Elas não precisam registrar nenhum documento no Superior Tribunal Eleitoral, ao contrário das candidaturas ao Executivo, que segundo a lei tem que ter um plano de governo oficial.
O que a gente entende que é importante é de fato pesquisar e tentar conhecer qual é o plano de fundo dessa pessoa. Se ela já ocupou algum cargo público alguma vez, como foi o desempenho dela, que tipos de grupos favoreceu, como se posicionou em votações de políticas públicas que têm alguma relação com a agenda climática ou a agenda de justiça climática. Então exige uma pesquisa muito maior.
Para além disso, também é importante dar uma olhada no partido, porque, querendo ou não, a maior parte dos partidos têm algum tipo de posicionamento ideológico, que pode dar uma pista de como essa pessoa vai se comportar e como ela vai representar esse partido quando for eleita. Não necessariamente existe essa fidelidade partidária das lideranças quando elas são eleitas, mas é um dos caminhos.
E por fim é preciso entender também quem está financiando a campanha. Quais são os interesses dessas pessoas e grupos. Por que muitas vezes a pessoa pode ter um discurso muito bonito, mas quem financia a campanha são representantes de setores que têm a ganhar com o desmonte de políticas de proteção, de garantia de direitos.
E como as pessoas podem ajudar o Clima de Eleição?
Então, temos as nossas redes sociais. As pessoas podem seguir, nos apoiar, sempre temos chamados abertos para apoiar mobilizações. O curso de gabinetes, por exemplo, a gente pede que as pessoas marquem as vereanças de suas cidades lá, para que elas saibam que ele existe e possam acessar. Nosso financiamento é a partir de fundações, então não pedimos recursos das pessoas e também não cobramos por nada do que fazemos.
Um segundo passo seria que as pessoas, e não necessariamente através do nosso projeto, mas que elas se dediquem mais a participar da vida pública. Tanto como eleitores, mas também com candidaturas e no resto do tempo, além do período eleitoral. As eleições são uma parte pequena da cidadania. Se tivermos pessoas mais engajadas acompanhando todo esse processo, a qualidade das políticas públicas só tende a melhorar.




