Não é absurdo acreditar que vai levar 300 anos para alcançarmos a igualdade entre mulheres e homens, como projetou Antonio Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Podemos até dizer que é óbvio, pois a desigualdade de gênero, que guia a sociedade e manobra com a economia, a política, a educação, a cultura, a saúde, a segurança e as oportunidades, começou há milênios.
Não é de hoje e não é novidade. Segue igual. Mais um Dia Internacional das Mulheres, menos cuidado: todas as formas de violência contra a mulher aumentaram no Brasil em 2022, segundo pesquisa Datafolha realizada a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O que também não é novidade é a data celebrativa ser o dia em que recebemos flores que não duram até o dia seguinte. Na verdade, logo murcham, já que muitas das rosas compradas aos montes são distribuídas em locais de trabalho, onde uma mulher foi assediada por hora em 2022. E os números pioram quando falamos de casa, rua e transporte público: pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela que uma mulher foi assediada por segundo e 35 foram agredidas física ou verbalmente por minuto.
Nos jornais e nas redes sociais, o mês de março e, especificamente, a semana do dia 8, são reservados a conteúdos que falam das nossas lutas e conquistas. De repente, existimos e somos gente. Coisa que até esquecemos pelas duplas e triplas jornadas e pela sobrecarga de trabalho e de estudo.
De repente, estamos falando da baixa representativa no poder Legislativo, da ausência em cargos de poder, das donas de negócios, da escolaridade, da equidade salarial, no reconhecimento dos pioneirismos e dos direitos que ainda precisamos alcançar. Dentro das redações, quem ainda faz a maioria destes conteúdos são as mulheres. Mais um trabalho na agenda: cobrir o dia em sua homenagem. O Humanista não fica atrás como apontamos no último editorial e este ano não é diferente – começamos a semana tentando entender, por exemplo, por que a maioria dos métodos contraceptivos ainda são destinados apenas para mulheres.
Até alertamos sobre a necessidade dos homens entrarem na discussão para desfazer trejeitos, concepções e opiniões machistas para que possamos avançar nesta luta, mas ainda lhes falta a sensibilidade de pensar no outro – ou na outra – enquanto alguém que não precisa ter nome. Ainda no último editorial, ressaltamos que os discursos de repúdio à violência contra mulher precisam lembrar da mãe, da irmã, da esposa e da amiga para que eles entendam que estamos falando de um ser humano.
Tudo isso porque falta cuidado, o substantivo masculino pouco usado pelos homens, reflete o agir com preocupação, o dedicar-se a alguém e o ter zelo, segundo o dicionário. É pensar em como as nossas ações afetam quem está ao nosso redor, próximas e distantes, conhecidas ou desconhecidas. É pensar em si, no coletivo e no bem público. Talvez se houvesse mais cuidado com as mulheres, a declaração de Guterres não teria causado um silêncio constrangedor. Talvez os noticiários seriam diferentes e esse editorial não nos lembraria do cansaço.
Os números de assédio, agressão, estupro e feminícidio também não seriam absurdos e revoltantes. O ideal é que as pesquisas e as estatísticas não precisassem ser feitas, que histórias de violência não gerassem gatilhos e medos. O Dia Internacional das Mulheres seria para falar de coisas boas, não para lembrar que estamos morrendo. Se ainda resistimos e continuamos ocupando os espaços é porque cuidamos uma das outras – e de todo mundo.
Só um dia no ano para lembrar que somos pessoas não basta. A revolução que precisamos, por paz e dignidade, é diária, nos 365 ou 366 quando é bissexto. É preciso ter mais cuidado!




