[Esta crítica pode conter spoiler]
Um mundo cor de rosa, amizades perfeitas e muita diversão: é assim que as coisas funcionam na Barbielândia. No novo filme dirigido por Greta Gerwig e estrelado por Margot Robbie, Barbies e Kens (e o Allan) vivem em harmonia em seu mundinho de delírios até que uma das bonecas começa a sentir coisas estranhas – passa a acordar cansada, seu café da manhã queima e seus pés deixam de ser perfeitamente projetados para o uso de sapatos de salto alto.
A personagem de Margot Robbie é meticulosamente construída para representar a “primeira Barbie que vem à nossa cabeça” quando pensamos na boneca: loira, alta e magra. A aparência perfeita, no entanto, contrasta com uma personalidade que passa a se tornar humanamente falha. O Humanista assistiu e analisa a obra polêmica, que tem sido criticada por muita gente que sequer foi ao cinema assisti-la. Há ponderações técnicas e de enquadramento ideológico, certamente, mas problemáticas de gênero aparecem de forma ousada e original.
Para descobrir o quê (ou quem) está causando a crise no seu modo de vida, Barbie embarca em sua jornada até o mundo real na companhia não tão bem quista do seu namorado Ken. Chegando em Venice Beach, na Califórnia (EUA), a boneca descobre que as cores sem graça são a menor das diferenças entre o seu mundo e o nosso, dos seres humanos não-perfeitos.
Através de um roteiro muito original, as problemáticas de gênero são exploradas de forma ácida e inteligente. Se na Barbielândia as Barbies podiam se sentir seguras, felizes e confiantes em suas próprias peles, o mundo real parece fazer de tudo para que esses pilares sejam incessantemente atacados. A percepção sobre o patriarcado põe tudo o que Barbie conhecia em jogo.
Ken, por outro lado, ama o mundo real. Diferente da Barbielândia, os homens, por lá, são protagonistas: vangloriados, ocupam todos os locais de poder e, praticamente, moldam a sociedade com os seus gostos. Mas engana-se quem acha que a Barbielândia e o mundo real são opostos – na Barbielândia os homens são apenas secundários em um lugar seguro. No mundo real, Barbies e não-Barbies têm seus corpos invadidos, seus pensamentos invalidados e suas conquistas menosprezadas.
Uma dessas mulheres do mundo real é Gloria. De origem latina, a personagem interpretada por America Ferrera é a responsável pelos comportamentos defeituosos de Barbie. Além de ser o motivo da mudança no modo de agir da boneca, a personagem também serviu para despertar um pensamento nas várias mulheres de 20 e poucos anos (e nessas, me incluo) que foram audiência do filme: o de que nós e nossas mães já fomos apenas meninas que não se preocupavam com tudo o que ser mulher exige.
Em um enredo que ri da cara da Mattel, empresa que criou a Barbie, o longa-metragem não se propõe a ser um guia prático do feminismo liberal. O propósito é escancarar uma realidade que existe e que não vai mudar com uma produção multimilionária e, sabendo disso, debochar dela.
Reflexo dessa ousadia são as inúmeras críticas que julgam o filme como bobo, superficial e “anti-homens”. E as mulheres que, empolgadas por um filme que celebra o feminino, foram assisti-lo de rosa, acabaram sendo ridicularizadas por, supostamente, estarem sendo infantis – a mesma percepção não é verdadeira se estivermos falando do público de fãs de filmes de super-heróis, que, coincidentemente, são homens.
A originalidade da obra é amarrada pelos cenários, figurinos e fotografia. Para além do que aconteceu dentro da sala de cinema, a campanha de marketing, que ganhou vida própria, também serve como sinal de um público que anseia por produções verdadeiramente pensadas para ele – ou, se formos colocar da forma correta, para elas.






