Os acampamentos em frente aos quartéis pareciam ser apenas mais uma das bizarrices que o bolsonarismo conseguiu produzir – uma dessas investidas que, embora sempre carreguem alguma periculosidade, serviam mais para abastecer a internet de memes do que de fato atentar contra a democracia. Não eram. Passado um ano dos eventos do 8 de janeiro, há talvez uma conclusão positiva advinda de todo o transtorno causado: o ataque violento deixou às claras do que a extrema-direita é feita e o que ela é capaz de fazer.
Porém, esse saldo positivo é ínfimo – e o Humanista explicou que o processo de responsabilização dos articuladores do atentado ainda tem um longo caminho pela frente. Como exposto na peça explicativa, 66 pessoas seguem presas por participarem dos atos. Destas, apenas 25 são identificadas como financiadoras do movimento golpista. As investigações mais recentes apontam para dezenas de outros suspeitos de contribuir financeiramente com a iniciativa de golpe.
Entretanto, os grandes instrumentalizadores da horda verde-amarela que causou mais de 12 milhões de reais em prejuízos ao Governo Federal até agora não enfrentaram a justiça. Entre os indiciados pelo relatório da CPMI dos Atos Golpistas estão o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (classificado como “mentor moral” do 08/01); os ex-ministros general Braga Netto, Anderson Torres, general Augusto Heleno, general Luiz Eduardo Ramos e o general Paulo Sérgio Nogueira; além dos comandantes da Marinha e do Exército, almirante Almir Garnier Santos e general Freire Gomes, respectivamente.

A declaração do presidente Lula de que “aqueles que financiaram, planejaram e executaram a tentativa de golpe devem ser exemplarmente punidos” inspira certa confiança de que os pedidos por desconsiderar uma anistia aos golpistas, tão ouvidos nas ruas quando da vitória do presidente em 2022, serão atendidos. Uma confiança parcial, pois é difícil acreditar que membros da alta cúpula do escalão militar enfrentarão as consequências de suas ações dado o histórico de nosso país em relevar os crimes cometidos pelas suas forças armadas.
Na segunda-feira (8), a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos, Liz Throssell, recomendou que os envolvidos com a intentona da extrema-direita sejam penalizados segundo as normas internacionais dos direitos humanos.
O Humanista, sendo um veículo comprometido com os direitos humanos, firma a posição de que sonegar o direito de escolha de mais de metade do eleitorado através do terror e da força bruta é uma violação aos direitos políticos do povo brasileiro como um todo.
O ato Democracia Inabalada realizado no Congresso Nacional contou com presenças importantes de autoridades dos três poderes. A solenidade contou com 14 dos 27 governadores estaduais – o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, compareceu ao evento. Senadores e deputados de partidos da oposição, parte integral do bem-estar democrático do país, faltaram em quantidade notória, principalmente correligionários de Bolsonaro do PL.
Rememorar o grave ataque à democracia brasileira é um gesto importante de solidificação da mesma, mas é importante lembrar que democracia não é apenas um sinônimo de eleição direta. As largas desigualdades que assolam o país são uma ameaça ao processo democrático somente por existirem. O aprofundamento da democracia brasileira passa necessariamente pela superação de nossa histórica exclusão social, racial, política e econômica. Em um período de vertigens que balançam as estruturas da sociedade, o Humanista seguirá vigilante quanto à garantia dos direitos humanos e o exercício da cidadania.




