Em novembro de 2025, o Banco Central do Brasil (BC) decretou a liquidação do Banco Master devido a suspeitas de fraude na comercialização de fundos e supervalorização de ativos. Segundo a Agência Senado, o caso Master é considerado o maior rombo da história do sistema bancário brasileiro, estimado em valor superior a R$ 50 bilhões. Apesar dos números, a instituição representava 0,57% do ativo total do Sistema Financeiro Nacional, segundo o Banco Central do Brasil. Para além das consequências financeiras e questões políticas e jurídicas que permeiam o acontecimento, o cenário evidencia as possíveis fragilidades operacionais e limites estruturais dos mecanismos de controle e fiscalização do país.
No centro desse debate estão agentes importantes, como o BC, que deve regular e supervisionar as instituições financeiras, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que deve fazer o mesmo com os produtos comercializados pelas instituições, e o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que presta seguro aos clientes da instituição que entrou em liquidação, intervenção ou falência, garantindo um depósito de até R$ 250 mil/ano por CPF ou CNPJ, com limite de 4 anos ressarcidos. Mesmo com tantos agentes responsáveis por regular e fiscalizar as relações financeiras, as fraudes do Banco Master passaram aparentemente despercebidas.
Há suspeitas de que o Banco teria criado ou usado créditos inexistentes (títulos falsos) para inflar artificialmente seu patrimônio e mascarar prejuízos, principalmente a comercialização de Certificado de Depósito Bancário (CDB), o que configura como possível gestão fraudulenta de instituição financeira. Também existem indícios de que o Master teria feito investimentos e operaçṍes com empresas sem capacidade financeira real e que teria usado laranjas para esconder a origem e destino do dinheiro. Algumas fases das investigações também apontam para suspeita de lavagem de dinheiro para ocultação da fonte ilícita da renda.
Para o especialista em corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro Fabiano Angélico, os números chamavam a atenção havia algum tempo: “Já se dizia que o banco crescia demais e oferecia condições vantajosas demais. Então, sim, já existiam sinais.”
Distorções eram atrativo
A percepção de que havia algo fora do padrão não se restringia aos especialistas. No mercado, investidores também identificavam as distorções, ainda que nem todos interpretassem isso como um motivo para recuar. Um investidor ouvido pela reportagem sob anonimato, com experiência prévia em banco e atuação no mercado financeiro, afirma que os retornos elevados foram justamente o fator de atração: “Como todo mundo, eu entrei no Master por causa do rendimento. Chegava a 12%, 14% ao ano, e depois foi muito além disso. Teve um momento em que pagava 30%, 33% ao ano. Isso não existe em um cenário normal”, afirmou.
Dois pontos são destacados por Fabiano como condições que permitiram o suposto crime contra o sistema financeiro: corrupção e narrativa de inovação. A velocidade das inovações financeiras, especialmente com o avanço das fintechs, exige atualização constante das normas e dos mecanismos de fiscalização, e o atraso neste ramo é um risco. “A inovação é muito bonita no marketing, mas isso, sem um tipo de controle, significa dinheiro rodando. Dinheiro saindo do ponto A e indo para o ponto B. Isso, para quem é criminoso, para quem é bandido, para quem vende drogas e recebe uma grana suja, é ótimo. Porque ele justifica como criptomoeda ou fundo, por exemplo. E, se a CVM não está olhando, pronto, lavou dinheiro”, explica Fabiano.
Para o professor de Economia da FGV-Law e de Regulação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Cleveland Prates, o problema não está especificamente nas fintechs: “É natural que, quando você queira gerar mais concorrência no mercado, você tenha regras e regulações menos pesadas para facilitar a entrada de novos players. Claro que, se começa a virar um problema, você tem que fazer o ajuste na regulação”.
Na análise de Cleveland, um dos problemas centrais está na falta de investimento público na CVM, o que prejudica diretamente a sua competência regulatória. “Ao longo dos anos, a CVM foi deixada de lado. Ela não recebeu os investimentos que deveria. Nós tivemos um crescimento muito grande da quantidade de fundos, inovações e assim por diante, só que não preparamos um órgão tão importante para fazer uma fiscalização mais forte sobre isso”, complementa.
Segundo o relatório de gestão de 2025, a CVM informou ao governo federal a necessidade de somar 544 vagas de inspetor federal do mercado de capitais aos 452 servidores totais do órgão. Na época, a CVM era responsável pela fiscalização de pouco mais de 91 mil fundos de investimentos, que somavam R$ 16,7 trilhões em ativos negociados no mercado financeiro.
Outra falha é a falta de coordenação de trabalho entre os órgãos fiscalizadores: “Faltou integração entre os reguladores. Banco Central, CVM e entidades de autorregulação deveriam atuar de forma mais articulada para identificar esses problemas a tempo”, acrescenta o professor da FGV.
Oportunidade rara
Se o mercado financeiro poderia ter previsto eventuais suspeitas nas ofertas vantajosas dos produtos do Banco Master, por que os investidores não recuaram? Parte dessa resposta está no papel do FGC. O principal produto do Master era o CDB, assegurado pelo FGC até o teto de R$ 250 mil em investimentos, o que incentivou a aquisição do produto pelos investidores do mercado. Para o investidor ouvido pelo Humanista, esse fator foi decisivo. “Em nenhum momento eu me desesperei. Eu sabia que estava dentro do limite garantido pelo FGC”, diz.
Além disso, ele aponta que a própria dinâmica do mercado abriu espaço para ganhos adicionais. Durante a crise, com a chamada marcação a mercado, mecanismo que ajusta o valor dos títulos conforme as taxas de juros, ele ampliou os lucros: “Quando os juros mudaram, o valor dos CDBs disparou. Em alguns momentos, tive ganhos muito expressivos”, afirma. “Era uma assimetria clara, alto rendimento com risco praticamente zero, se você respeitasse o limite do FGC.” Era, na prática, uma oportunidade rara.
O investidor estima que os ganhos totais, considerando diferentes operações, chegaram a patamares muito superiores aos de aplicações tradicionais: “No fim, esses investimentos deram algo entre 30% e 37%. Num cenário normal, seria pouco mais de 10%.” Na visão do entrevistado, que preferiu se manter anônimo para preservar seu sigilo bancário, o caso Master foi uma oportunidade extremamente rentável e incomum para quem soube aproveitar– o FGC já devolveu a ele todo o dinheiro investido, incluindo os rendimentos muito acima dos praticados pelo restante do mercado.
Se os investidores individuais percebiam os sinais de gestão temerária por parte do Banco Master, os profissionais da “Faria Lima” tinham a obrigação profissional de os apontar. Em boletim enviado em novembro de 2025, logo que ocorreu a liquidação, a especialista em renda fixa da Nord Research, Marília Fontes, chamou a atenção para este aspecto do caso: “Esses R$ 60 bilhões em CDBs e depósitos do Master não surgiram do nada. Foram agressivamente vendidos pelas maiores corretoras do país, muitas vezes com destaque excessivo nas plataformas e recomendações pouco alinhadas ao risco real da instituição. As comissões eram gordas, a remuneração parecia irresistível, e o investidor – sem saber – financiava uma estrutura que agora desmorona.”
Há problemas no funcionamento do FGC
Atualmente, as instituições financeiras contribuem com o Fundo de maneira igualitária, ou seja, sem contar na balança quanto risco cada uma traz aos investidores e ao mercado. A garantia pode, em determinados contextos, incentivar instituições a assumirem riscos mais elevados, transferindo parte do impacto ao sistema como um todo. Para o professor Cleveland Prates, esse é um tópico fundamental a ser debatido.
“A instituição contribui com o Fundo, sim. Qualquer banco contribui, mas não na proporção que deveria contribuir, dado o risco que ele gera ao Fundo Garantidor”, diz ele. “Então, se tivéssemos o índice de Basileia consolidado também dentro do FGC, qualquer instituição que tenha mais risco teria que aportar também mais recursos. É uma forma de você desincentivar esse tipo de conduta oportunista”.
Na mesma linha, para o Coordenador da Comissão Permanente de Ética e Compliance da Federasul, Marcos Fraga, os operadores do mercado financeiro deveriam seguir um conjunto de práticas e controles internos, para garantir que uma empresa siga as leis, regulamentos, normas éticas e internas. “No compliance, é fundamental definir qual é o apetite e o limite de risco. Isso vale tanto para quem regula quanto para quem opera no mercado”, explica Marcos.
Além da falta de clareza, Prates chama atenção para potenciais conflitos de interesse. “O assessor deveria estar pensando na carteira do cliente, mas muitas vezes também é remunerado por quem cria o produto. Isso incentiva a venda de ativos que nem sempre são os mais adequados ao investidor”, salienta. Para o professor, a relação entre assessores e instituições financeiras precisa ser repensada, com maior ênfase em transparência e alinhamento de interesses.
Confiança como ativo central
O caso põe em xeque um elemento estruturante do sistema financeiro: a confiança. Diferentemente de outros setores, o mercado financeiro opera a partir de expectativas. O dinheiro depositado hoje depende da crença de que estará disponível amanhã e que as regras do jogo serão respeitadas. Quando essa confiança é abalada, mesmo instituições sólidas podem ser afetadas por um ambiente de desconfiança generalizada, elevando custos, retraindo investimentos e reduzindo a eficiência do sistema como um todo.
Para Prates, reconstruir e preservar essa confiança passa por um conjunto de fatores. Primeiro, do lado do investidor, é necessário maior compreensão dos riscos envolvidos. “As pessoas precisam entender, antes de tudo, quais são as garantias que têm. E também que maior retorno implica maior risco, isso é definitivo em economia”, afirma o professor.
Promessas de ganhos elevados com baixo risco, segundo ele, devem ser encaradas com cautela: “Se alguém oferece rentabilidade muito acima da média, com total segurança, isso não fecha”. Segundo, do lado institucional, o desafio é fortalecer a base técnica do sistema regulatório e reduzir interferências externas. “O sistema financeiro, mais do que outros setores, precisa de decisões técnicas. Não pode ficar sujeito a interesses políticos”, defende o professor.




