O ano é 2022, mas para quem faz jornalismo no Brasil o cenário é similar a 1968. Ao final da década de 60, após o decreto do Ato Institucional nº 5, teve início o período mais repressivo da ditadura militar brasileira, com censura aos veículos de comunicação e tortura aos opositores. Passados 37 anos desde o término do regime, os profissionais da imprensa continuam sendo alvo de atos violentos e perseguições por agentes oficiais do governo. Em abril, mês em que se comemora o Dia do Jornalista, o deputado Eduardo Bolsonaro debochou, mais uma vez, de uma tortura sofrida por uma profissional da imprensa.
Desde o início do mandato do atual presidente, os ataques aos jornalistas em redes sociais e em declarações oficiais foram constantes. Segundo dados da organização Repórteres sem Fronteiras (RSF), entre janeiro e junho de 2021, Jair Bolsonaro atacou a imprensa 87 vezes, número 74% maior do que o referente às ofensas do segundo semestre do ano anterior. Enquanto isso, no mesmo período, os filhos do chefe de Estado, o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro, insultaram a imprensa, respectivamente, 83 e 85 vezes. O RSF também constatou que 80% desses ataques são realizados pelo Twitter. Em abril de 2021, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou que o atual presidente da república é a autoridade que mais bloqueia usuários no Twitter, entre eles, os jornalistas são a principal categoria.
No último domingo (03), Miriam Leitão, apresentadora da GloboNews e colunista do jornal O Globo, foi vítima de mais um ataque. A jornalista foi insultada pelo deputado Eduardo Bolsonaro que debochou, em uma publicação no Twitter, do episódio de tortura sofrido por ela durante a ditadura militar. A ofensa teve início quando Míriam compartilhou uma coluna de sua autoria, na qual afirma que o presidente Jair Bolsonaro é inimigo da democracia. Em resposta à publicação da jornalista, Eduardo Bolsonaro disse ter “pena da cobra”, referindo-se ao animal utilizado durante a tortura da qual Miriam Leitão foi vítima. Em seus relatos, a jornalista contou que foi presa e torturada durante a ditadura, período em que estava grávida. Ela foi colocada nua, frente a soldados e agentes de repressão, em uma sala escura com uma cobra.
É simbólico que o caso de ataque a uma mulher e jornalista, por parte do deputado, tenha ocorrido poucos dias após a data que marcou 58 anos do golpe militar, 31 de março. Atos violentos como o cometido contra Miriam são recorrentes entre os integrantes da família que exalta, explicitamente, um dos períodos mais sombrios da história do Brasil, e que ocupa espaços de poder no Executivo e Legislativo brasileiro. O triste episódio traz à tona o questionamento: até quando sofreremos ataques diretos aos princípios básicos dos direitos humanos e da democracia, sem consequências significativas para os agressores?
Em 2018, o mesmo deputado disse que bastaria um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF) e defendeu a possibilidade de um “novo AI-5” no ano seguinte. Durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, o atual presidente dedicou seu voto ao comandante Brilhante Ustra, um dos responsáveis pela tortura da ex-presidente. Da mesma forma, neste 31 de março, Bolsonaro novamente enalteceu o regime militar. Os casos contabilizam as diversas vezes em que os posicionamentos do presidente e de sua família foram inimigos do Estado Democrático de Direito.
Coincidentemente, uma semana após a data que marca o início do período de repressão, nos aproximamos do Dia do Jornalista (07/04). Criado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a data presta homenagem ao médico e jornalista Giovanni Battista Libero Badaró, assassinado no dia 22 de novembro de 1830, em São Paulo. Giovanni lutava pela independência do Brasil. Em memória ao jornalista, o dia 7 foi escolhido para homenagear todos os profissionais da imprensa que buscam o compromisso com a informação e a democracia.
Apesar da data, o Humanista lamenta o fato de não estarmos em condições de celebrar. Pela agressão sofrida, prestamos solidariedade à Miriam Leitão e a todos os colegas que já sofreram ataques e perseguições pelo exercício do jornalismo. Infelizmente, neste 7 de abril, não há nada a comemorar.




