Humanista

jornalismo e direitos humanos

Déficit de alfabetização aumenta na pandemia; entenda causas e consequências

Segundo levantamento da ONG Todos Pela Educação, número de crianças brasileiras de 6 e 7 anos que não sabem ler e escrever cresceu 66% de 2019 para 2021

A pandemia de covid-19, cujo primeiro caso no Brasil foi registrado em março de 2020, gerou impactos negativos em diversas áreas no país ao longo dos últimos dois anos, e na educação infantil não foi diferente. A nota técnica Impactos da pandemia na alfabetização de crianças, produzida pela ONG Todos Pela Educação com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) de 2012 a 2021, compara os dados e revela uma realidade preocupante: entre 2019 e 2021, o número de crianças de 6 e 7 anos de idade que, segundo seus responsáveis, não sabiam ler e escrever aumentou em 66,3%.

Na volta às aulas, em março, o Humanista ouviu um especialista em educação que avalia que o impacto da pandemia pode levar cinco anos para ser superado, e, ainda em 2019, o portal foi atrás de respostas para os mais de 11 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais que havia no país àquela altura. Agora, o foco é na busca por causas, consequências e soluções para o déficit de aprendizagem entre as crianças.

Os dados da Pnad contínua comparados  pela Todos pela Educação mostram que, assim como em outros âmbitos, a pandemia foi um período de perpetuação de desigualdades sociais no país. Os percentuais de crianças pretas e pardas de 6 e 7 anos de idade que não sabiam ler e escrever passaram de 28,8% e 28,2% em 2019 para 47,4% e 44,5% em 2021; entre as crianças brancas o aumento foi de 20,3% para 35,1%. Já entre as crianças mais pobres, o percentual das que não haviam sido alfabetizadas aumentou de 33,6% para 51,0% entre 2019 e 2021; dentre as crianças mais ricas, o crescimento foi de 11,4% para 16,6%.

Maria Regina Maluf, professora titular da PUCSP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pesquisadora no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação, na área de Psicologia da Educação, afirma ser perceptível que um alto percentual de crianças não aprendeu a ler e escrever como poderiam ter aprendido. “Mesmo um olhar superficial sobre as consequências desta pandemia leva-nos a reconhecer perdas de aprendizagem decorrentes da ausência de uma escola presencial, que é fundamental sobretudo para as crianças e mais ainda para as que estão no início da alfabetização”, observa.

As adversidades educacionais durante a pandemia

O processo de alfabetização, que já pode ser desafiador tanto para o professor quanto para o aluno quando realizado presencialmente, teve seu grau de dificuldade aumentado pelo cenário de ensino à distância. A falta de acesso a computadores e à internet estável, a inexperiência de escolas que sempre operaram de forma presencial para instituir as aulas online, e as limitações inerentes ao formato digital, especialmente para crianças menores, contribuíram para esse cenário.

“A pandemia afetou todos os estudantes, de todos os níveis. No entanto, o impacto sobre os estudantes em fase de alfabetização foi mais forte. A aprendizagem da leitura e escrita demanda mediações sociais e pedagógicas mais intensas e isso não era possível no ensino remoto”, explica Jefferson Mainardes, professor associado do Departamento de Educação da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa) e do Programa de Pós-Graduação em Educação e editor da Revista Práxis Educativa e da Revista de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Política Educativa. 

O pedagogo afirma, também, que muitas crianças tiveram acesso limitado ao ensino remoto devido à condição financeira de suas famílias. Dina Maria Vieira Pinho, professora dos anos iniciais no Colégio Brigadeiro Newton Braga há 26 anos e pesquisadora do grupo de pesquisa Linguagem, Cognição Humana e Processos Educacionais, da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), relata uma experiência similar. “Muitos estudantes não tinham acesso a uma internet de boa qualidade. As escolas não estavam preparadas para essa demanda”, diz.

“A grande maioria de nossas escolas não dispunha sequer de sinal de internet, nem de equipamento. A grande maioria das famílias brasileiras não estava preparada. O equipamento mais comum era o celular, muitas vezes compartilhado por membros da família. O celular não é suficiente para participação efetiva em aulas de alfabetização”, diz Maria Regina.

Ademais, segundo Dina, as crianças, ainda jovens demais para navegar as aulas online e as atividades sozinhas, ficaram dependentes da presença de responsáveis, o que interferiu nesse processo. “Um dos maiores desafios foi a mediação dos adultos, que era ao mesmo tempo necessária e desafiadora”, explica a professora. “Entramos nas casas, participamos da rotina, interferimos nessa rotina.”

O papel do poder público

Enfrentar esses obstáculos não foi uma tarefa fácil para os educadores, e o cenário do Brasil, em que, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 40 milhões de brasileiros não têm acesso à internet, não era favorável. Maria Regina acredita que houve um esforço por parte das secretarias municipais e estaduais de educação, mas este não foi suficiente para compensar a carência dos alunos e de suas famílias.

“Muitas secretarias de alfabetização, tanto municipais quanto estaduais, ampliaram seus recursos informáticos e também enviaram para as famílias as lições em papel impresso; inclusive trataram de preparar os professores de suas escolas”, relata. “Mas é fácil concluir que embora relevantes esses recursos emergenciais não foram suficientes. A consequência foi um enorme atraso, de ao menos 2 anos, na aprendizagem de um alto percentual de crianças.”

Para Jefferson, houve uma lacuna no lugar do auxílio que as escolas deveriam ter recebido durante a pandemia. “De modo geral, as redes de ensino foram pouco apoiadas, uma vez que não houve uma ação coordenada pelo Ministério da Educação. Cada rede de ensino precisou enfrentar os desafios da pandemia em um contexto de caos, abandono e improvisação”, conta. Para ele, o retorno às aulas presenciais traz alento e esperança de melhoras.

As consequências do atraso na alfabetização

A alfabetização é necessária para o desenvolvimento sociocognitivo das crianças e para que seja possível, inclusive, que outras disciplinas sejam compreendidas. Com o atraso dessa aprendizagem, de acordo com o levantamento do Todos Pela Educação, o número de crianças de 6 e 7 anos afetadas chega a 2,4 milhões em 2021. Em 2019, o número era de 1,4 milhão.

Esse aumento significativo de crianças que ainda não foram alfabetizadas, segundo Jefferson, gera uma situação dificultosa no retorno à modalidade presencial de ensino. “Os professores e professoras terão alunos com níveis muito distintos de aprendizagem, de situação emocional e social”, considera. “Há necessidade de um diagnóstico da situação de cada aluno e o planejamento de tarefas apropriadas para cada um.”

Dina acredita ser tarefa das escolas se debruçar sobre o fato de que o atraso na alfabetização fará com que as crianças afetadas tenham maior dificuldade para aprender a ler e escrever. “A alfabetização mobiliza diferentes dimensões do sujeito. Aprender não se restringe aos aspectos cognitivos, é complexo, como tudo o que se relaciona aos seres humanos. Lidaremos com as consequências da pandemia por algum tempo, e não só nas classes de alfabetização”, afirma a professora.

No entanto, segundo Maria Regina, apesar da situação atual, é possível recuperar o tempo perdido. “Podemos, sim, recuperar a aprendizagem, especialmente no que diz respeito à alfabetização. Isso exigirá um enorme esforço, a partir de agora, no início de 2022”, assegura. “As neurociências e a psicologia da educação demonstram que todas as crianças são capazes de aprender a ler e a escrever. Só precisam de um bom ensino. Então essa deverá ser tarefa dos cursos de formação de professores, das secretarias de educação, das escolas”, complementa.

O apoio familiar e as perspectivas para o futuro

Com o aumento do analfabetismo entre crianças de 6 e 7 anos, é esperado que muitas famílias se sintam angustiadas. Quanto a isso, Dina afirma que é necessário que os familiares tenham paciência. “É preciso tentar entender a atipicidade do momento em que seu filho ou sua filha estava iniciando seu processo de alfabetização formal”, diz. “A escola também precisa acolher esses pais e responsáveis e repensar seu currículo. Voltamos presencialmente à escola, mas não podemos desconsiderar o que vivemos durante a pandemia, que, aliás, ainda está aí.”

Jefferson relembra que, em um cenário de desigualdades sociais, há famílias para as quais não é possível prestar o tipo de ajuda necessário para a alfabetização, e a escola tem um papel importante nesse cenário. “O apoio da família é essencial. Os pais podem auxiliar as crianças em tarefas, podem ler com elas, estimulá-las, apoiá-las”, explica. “Infelizmente, nem todas as famílias poderão auxiliar as crianças. A escola é essencial nesse processo de garantir a todos o direito à educação e à aprendizagem”, complementa.

“Não cabe às famílias alfabetizar, e sim à escola, pois essa é a missão das escolas”, esclarece Maria Regina, que reforça o que foi dito por Jefferson. “Sabemos que algumas famílias vivem em situação extremamente vulnerável, social e economicamente. Há famílias que não frequentaram uma boa escola e não aprenderam a ler. Cabe às escolas oferecer cursos de aprendizagem da leitura e escrita para essas famílias.”

Além disso, Maria Regina acredita que, para que o analfabetismo não sofra um aumento entre os brasileiros, especialmente dentre os jovens, é preciso começar com as crianças. “Elas se recuperam, sim. Elas sabem que na vida atual é preciso aprender a ler para viver melhor”, diz. “A boa educação começa pela alfabetização; sem alfabetização, não haverá caminho para as demais aprendizagens nas escolas.”

1 comentário em “Déficit de alfabetização aumenta na pandemia; entenda causas e consequências”

  1. A alfabetização é a base de tudo, pois é através desse processo na vida do aluno que favorecerá seu futuro tanto na área profissional como sua vida real. As escolas devem priorizar um projeto específico chamado ACPAI- AÇÃO COMPLEMENTAR PEDAGÓGICA PARA OS ANOS INICIAIS, no sentido de favorecer e instigar o aluno a buscar e se apropriar de uma aprendizagem centrada no seu esforço, seu interesse e com a mediação do professor, alcançar o objetivo principal da alfabetização: o ato de ler e escrever para a vida, pois são os maiores instrumentos para a construção do ser humano. OBS: PROJETO ACPAI- Criado por mim Maria Rosinete.

    Responder

Deixe um comentário

Page Reader Press Enter to Read Page Content Out Loud Press Enter to Pause or Restart Reading Page Content Out Loud Press Enter to Stop Reading Page Content Out Loud Screen Reader Support