Alunos de inclusão: aumenta o desafio

Rene Almeida

Oito horas da manhã e os alunos da turma 312 já estão acomodados na sala 11 da Escola Estadual Gentil Viegas Cardoso. As 22 crianças do 3º ano do Ensino Fundamental, com média de oito anos, acomodam-se em duplas. A primeira tarefa do dia é um ditado. Mas antes que ele comece, um fato chama atenção. É o primeiro dia de um aluno com Síndrome de Down.

Depois de se acomodar na classe, o menino percebe a saída da mãe, que o acompanhava. No mesmo instante, o menino levanta-se e corre em direção à porta. Após o fato se repetir duas ou três vezes, com a mãe e a professora tentando convencê-lo a permanecer na sala, o menino teve de ser retirado para passar por um processo de adaptação.

Essa situação parece não ser novidade. Em 22 anos de profissão, a professora Denise Tavares, 54, afirma que nunca recebeu orientação sobre como lidar com alunos com algum tipo de deficiência. Tudo o que sabe, aprendeu com a experiência cotidiana.

 

Segundo Denise, já houve cursos de orientação para lidar com alunos especiais, mas em horários de aula, o que impossibilita a participação das professoras.

Depois das primeiras atividades, a professora leva todos em fila ao banheiro. Neste momento, um menino começa a chorar sem motivo aparente. Trata-se de um aluno depressivo e que precisa de atenção redobrada. No retorno, as crianças vão à biblioteca. É hora de exercitar a leitura em grupo.

 

Prepara para lidar com as diferenças

Lidar com crianças especiais requer um suporte diferente tanto do Estado quanto da escola. A coordenadora de projetos do Movimento Todos Pela Educação, Thaiane Pereira, afirma que é preciso criar políticas inclusivas para alunos com deficiências físicas e cognitivas. Para ela, é importante a percepção de que nem todos são iguais. Mais do que adaptar a estrutura física, é preciso orientar os profissionais da escola. “Precisamos preparar os professores para lidar com a diversidade. Dar uma formação para que eles saibam como fazer e essas crianças não acabem ficando mais excluídas ou se sentindo desconfortáveis.”

Patrícia Camini, professora do curso de pedagogia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e especialista em alfabetização, entende a reclamação de Denise. Para ela, o Estado acaba deixando as professoras solitárias na tarefa de alfabetizar alunos que não têm as mesmas condições físicas e cognitivas dos demais.

 

Respostas

Em nota enviada ao Humanista, a Seduc (Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul) afirma que as escolas podem colocar até três alunos com “necessidades educacionais especiais” por turma. A lotação máxima dos anos iniciais do Ensino Fundamental deve ser de 20 alunos por sala (a média da Gentil é 28, segundo o Ideb). Os diretores são proibidos de negar a matrícula de alunos com deficiência.

Ainda segundo a nota, a Seduc esclarece que promove cursos de formação como Libras, letramento para sujeitos com autismo e com deficiência visual. A secretaria garante que os encontros são realizados fora do horário de aula dos professores.

 


Introdução


Os pais: mais do que levar à escola, é preciso incentivar


Reprovação nos anos iniciais: diferentes pontos de vista


Contexto social: a escola além do currículo


Ora aliado, ora vilão: celular é motivo de polêmica


FOTO: Rene Almeida/Humanista

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