Brasil ocupa o 102º lugar no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, elaborado pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.
Bibiana C. Davila*
Um espectro ronda o jornalismo — o espectro do autoritarismo. É o que aponta o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2018, o mais recente levantamento divulgado pela organização internacional RSF (Repórteres Sem Fronteiras), que mostra como o ódio direcionado a jornalistas cresceu nos últimos anos.
Profissionais são impedidos de realizar o seu trabalho, perseguidos por suas reportagens, ameaçados por suas descobertas. Não que a caça aos jornalistas seja um fenômeno novo, mas os protagonistas da trama mudaram. Desta vez, o autoritarismo não emana de grandes ditadores, tomando o poder à força e subjugando o povo às suas vontades. Do resultado inconteste das urnas, em sistemas reconhecidamente democráticos, emergem líderes que não apenas rejeitam o jornalismo — eles o condenam como o verdadeiro mal na Terra.
Nesta quinta-feira, dia 11, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) anunciou que os jornalistas Kyaw Soe Oo e Wa Lone, de Myanmar, vão receber o Prêmio Guillermo Cano de Liberdade de Imprensa. Eles foram detidos pelo governo de seu país, em 12 de dezembro de 2017, quando trabalhavam para a agência Reuters investigando violações aos direitos humanos.
O portal Humanista tem acompanhado os desdobramentos desse fenômeno no Brasil – que é apenas o 102º país que mais respeita a liberdade de imprensa – e lançou na quarta, dia 10, o podcast #ConversaHumanista, que visa a estimular a educação para a apreensão de conteúdos jornalísticos.
Veja o relatório completo dos Repórteres Sem Fronteiras.
Democracia X qualidade da informação
Dados referentes aos últimos cinco anos indicam um grau consistente de 0.7 de correspondência entre liberdade de imprensa e democracia. Ou seja, qualquer ataque ao jornalismo é um ataque aos próprios regimes democráticos. O índice de democracia é calculado no âmbito do Democracy Index (infográfico abaixo), elaborado anualmente pela revista The Economist, que revela o índice de democracia para 167 países, a partir de mais de 60 indicadores diferentes. A escala varia de zero a dez, sendo que o zero corresponde a um regime plenamente autoritário e o 10 a um regime plenamente democrático.
Já o índice de liberdade de imprensa é calculado pela RSF, que avalia 180 países através de questionários e dados sobre violência contra profissionais da área. Os dados originais variam de zero a 100, com o zero correspondendo a censura total (sem nenhuma garantia de segurança aos jornalistas na região) e o 100 à liberdade completa (nenhuma ameaça aos repórteres).
Clique na imagem para interagir com o infográfico.
Liberdade de imprensa
Na maior parte dos países (61,5%), a liberdade de imprensa está em uma “situação sensível” ou “difícil”. Destas regiões, mais da metade têm regimes híbridos ou puramente autoritários; um terço têm democracias imperfeitas; e apenas a República de Maurícia, um país insular do Oceano Índico com cerca de 1.356.388 habitantes, é considerada uma democracia plena com liberdade de imprensa em situação “sensível”.
Da mesma forma, a grande maioria dos países (95,23%), em uma “situação boa” ou “relativamente boa” em relação à liberdade de imprensa, são considerados democracias plenas ou imperfeitas. Nos dados analisados, apenas Comores (outro conjunto de ilhas no Oceano Índico, com cerca de 806.153 habitantes) e Burkina Faso (no noroeste africano, com 15.757.000 habitantes) não se encaixam neste padrão. Sem surpresa, em todos os países considerados autoritários, a situação da liberdade de imprensa é considerada “grave”. Nações sem espaço para o jornalismo também são nações onde a democracia não tem vez.

*Trabalho originalmente produzido na disciplina de Ciberjornalismo II do curso de Jornalismo da Fabico/UFRGS, sob a orientação do professor Marcelo Träsel. Edição: redação Humanista, 2019/1.
FOTO: Engin Akyurt/pixabay






