A livraria Loganberry Books (Cleveland, Estados Unidos) realizou, em 2017, uma ação para ilustrar a desigualdade de gênero na indústria editorial, virando os livros de autores homens e deixando visíveis nas estantes apenas as lombadas das obras escritas por mulheres. De acordo com o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população brasileira é composta por 51,5% de mulheres e 48,5% de homens, representando, em números absolutos, por volta de 6 milhões de mulheres a mais no país. Ainda assim, a disparidade de gênero é evidente em diversas áreas, como na cultura. Essa disparidade se reflete, por exemplo, nas obras selecionadas como leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul): autoras mulheres correspondem a menos de um quarto do total de autores das leituras obrigatórias desde 2003.

A UFRGS, maior instituição de ensino superior do estado, realiza anualmente o concurso vestibular para admissão de alunos. Em 2024, a prova acontece no próximo final de semana, nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro. Em cada edital, é publicada uma lista de Leituras Obrigatórias para a prova de Literatura em Língua Portuguesa. Essa seleção consiste em doze obras, que devem ser lidas na íntegra, além de uma listagem básica de outros tópicos e autores também abordados pela prova. De acordo com o regulamento vigente desde 2007, a cada edição são incluídas quatro novas obras à lista, o que significa que cada obra é lida para três concursos consecutivos, sendo então substituída.
As obras selecionadas para o Vestibular 2025 já foram divulgadas. Confira a lista abaixo:

O livro O avesso da pele, de Jeferson Tenório, que aborda racismo e outras questões sociais e foi censurado por escolas em 2024, integra a seleção de leituras do vestibular 2025 da UFRGS, exemplificando a relevância desses editais para o debate democrático e o acesso à cultura. Ao serem incluídas aos conteúdos e às bibliotecas das escolas, as leituras obrigatórias impactam o ensino público e privado.
Para a reportagem, as listas de leitura foram coletadas no site oficial da Comissão Permanente de Seleção da UFRGS (COPERSE), na seção de edições anteriores. Apesar de estarem disponíveis documentos dos concursos desde 1997, as listas de leitura constam desde 2003. Os anos 2003/2004 apresentaram uma mesma lista, de dez obras, e 2005/2006 também (antes do regulamento atual, de 2007). Por isso, essas listas foram computadas somente uma vez cada. O vestibular 2021 não foi realizado, em razão da pandemia de covid-19. Devido ao vestibular 2025 ainda não ter ocorrido, optou-se por não adicionar suas obras à base de dados, para evitar que eventuais alterações na lista ou cancelamento da prova invalidem as conclusões. Assim, a base foi construída a partir de dezenove anos de dados, que consistem em ano do vestibular, título da obra, ano da obra, gênero da obra, autor, país do autor, estado do autor (quando brasileiro) e gênero do autor, resultando nas análises a seguir.

Foi constatado que 78% dos autores são de nacionalidade brasileira ou naturalizados no Brasil. O foco da prova, de acordo com os editais, é literatura em língua portuguesa e literatura brasileira. Três livros foram escritos originalmente em outros idiomas: Cem anos de solidão, romance do colombiano Gabriel García Márquez, 1967; Hamlet, peça do inglês Shakespeare, 1623; e Lisístrata, do grego Aristófanes, aproximadamente 400 AC.

Quase um terço (31%) dos autores brasileiros são do Rio Grande do Sul. O sudeste é a região de origem do maior número de autores, com 17 autores (38%). A região norte é representada por apenas um autor, Milton Hatoum, do Amazonas, e não há nenhum do centro-oeste.


Quanto ao gênero das obras, 96% das publicações editoriais (ou seja, sem considerar os álbuns de música) são de ficção. Os únicos títulos de não-ficção são Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, 1960 (categoria Autobiografia); A terra dos mil povos, de Kaká Werá, 1998 (História); e os sermões selecionados de Pe. Antônio Vieira. Romance é o gênero mais comum, com 40 obras, enquanto todos os outros gêneros juntos somam 43 títulos.


As obras selecionadas para o vestibular foram lançadas majoritariamente no século XX, sendo 60% delas dessa época, predominantemente das décadas de 60, 70 e 80. A obra mais antiga é Lisístrata, do autor Aristófanes, de aproximadamente 400 AC. O segundo livro mais antigo é de quase dois mil anos depois, do fim do século XVI: Os Lusíadas, do autor Luís Vaz de Camões, de 1572. Também há somente uma obra do século XVII, a peça Hamlet, escrita por Shakespeare, de 1623.
A UFRGS, como maior universidade federal do estado, também promove o maior concurso vestibular do RS. As leituras obrigatórias impactam o ensino público e privado por serem adicionadas pelas escolas ao seu conteúdo e às suas bibliotecas. Quanto mais diversa a seleção, mais ela reforça o caráter inclusivo da universidade pública e sua importância para o contexto democrático do Brasil.
Reportagem elaborada para a disciplina de Ciberjornalismo III, do curso de Jornalismo da FABICO/UFRGS, no semestre 2024/1, sob orientação do professor Marcelo Träsel.




