Em 1975, um grupo de estudantes de comunicação decidiu preservar a memória de Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura militar. Enfrentando a censura da época, instalaram uma placa com o nome de Herzog no Diretório Acadêmico da Comunicação (Dacom) e deixaram um recado de que o incidente não seria esquecido. Poucos dias depois, um agente militar arrancou a homenagem da parede, e a cerimônia de inauguração foi cancelada pela direção da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico).
Passados cinquenta anos, alguns daqueles estudantes retornaram aos mesmos corredores com o mesmo propósito: relembrar que ainda estamos aqui. Para a nova geração, o encontro com esses ex-alunos é eletrizante. Relembra a força que um grupo de jovens pode ter frente ao autoritarismo. Os estudantes de jornalismo estiveram na linha de frente, encararam o que foi preciso e não se deixaram abalar pelo que parecia muito maior que eles.

No evento de inauguração dessa nova placa, realizado nesta terça-feira (8), o professor, pesquisador e jornalista Eduardo Meditsch compartilhou como, em 1975, foi até o centro de Porto Alegre para encomendar a placa. Mesmo com medo, decidiu seguir com a ideia até o fim e pendurar a homenagem nas paredes da Fabico. A jornalista Márcia Turcato também relembrou a tensão do período, contando como ficou diante do Dacom segurando a chave, tentando impedir a entrada do militar que retiraria a homenagem. Os relatos trazem a lembrança do medo, além dos sinais de coragem.
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é desafiadora. Para quem ingressa por ações afirmativas, vem de uma escola pública e divide os compromissos da luta pela sobrevivência enquanto corre em busca do diploma, os obstáculos são ainda maiores. Para essas pessoas, já é rotina lutar para estar em um espaço, mesmo sem sentir-se pertencente a este local.
Da mesma forma, é preciso ser corajoso para fazer parte e defender o ensino público. Para afirmar o próprio direito de estar naquele espaço de formação enquanto jornalista, que ainda é tão elitizado e restrito a uma pequena parcela da população. Desde a pandemia, com o afastamento dos estudantes da universidade, tornou-se ainda mais difícil olhar para essas batalhas e se sentir vitorioso. Celebrar a memória de Vladimir Herzog e dos estudantes nos faz lembrar do que realmente importa, o motivo pelo qual não devemos baixar a guarda.
A universidade pública é um espaço de luta, de resistência e de coragem. A placa com o nome do Vlado, como era conhecido, carrega consigo os estudantes do passado, do presente e os do futuro na defesa da democracia. O que queremos é garantir o nosso direito de informar, arriscar e protestar. Em tempos tão difíceis, muitas vezes obscurecidos por fantasmas do passado, estar nesse lugar, de tão difícil acesso e permanência, é aterrorizante.
Que sejamos corajosos como Vladimir, Eduardo, Márcia e tantos outros. Que nunca deixemos de lembrar, a quem ousar questionar: continuaremos aqui, cada vez mais fortes e vigilantes, para que nunca mais aconteça.



