Ciência e (in)segurança pública

#OmbudsmanHumanista concentra análise em reportagem que retrata as incertezas na ciência no Brasil e em podcast que debate segurança pública.

*Carla Dutra

Qual o futuro da ciência em nosso país? Em reportagem publicada no Humanista em 3 de outubro, Vitória Pacheco aborda o temor de pesquisadores em relação à interrupção de seus trabalhos. Em meio aos cortes de bolsas e contingenciamentos impostos pelo governo federal, a estudante acompanhou a rotina de pesquisadores no Rio Grande do Sul.

Decidi abrir minha análise por esse texto porque, há poucos dias, um paciente de 62 anos que tinha linfoma em fase terminal e tomava morfina todo dia recebeu alta após ser submetido a um tratamento inédito na América Latina. Segundo os médicos, ele deixou o hospital livre dos sintomas do câncer graças a um método 100% brasileiro baseado em uma técnica de terapia genética descoberta no Exterior. O trabalho é de pesquisadores da USP, apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq).

Mostrar os impactos da interrupção de pesquisas é fundamental para sensibilizar parte da população que não compreende o que faz um pesquisador e a importância desse trabalho para toda a sociedade. Nesse ponto, a minha avaliação é de que as matérias ainda pecam ao dar pouca ênfase às consequências. No caso da reportagem da Vitória, por exemplo, talvez se pudesse ter ido um pouco mais fundo nessa questão. Um dos casos é Sarah Wehle Gehres, que pesquisa a doença de Alzheimer. Em que pé estão os estudos dela? Quanto eles irão retroceder se forem interrompidos? Mais do que os medos e anseios dela, que também são importantes, claro, essas respostas ajudam parte do leitor a entender a dimensão, para toda a população, nos cortes na educação e na ciência.

Da ciência à (in)segurança pública, o #ConversaHumanista conversou com o jornalista e sociólogo especialista em segurança pública Marcos Rolim para avaliar dados relativos a taxas de homicídio no Brasil, políticas para essa área e cobertura da mídia em casos como a morte da menina Ágatha Félix, 8 anos, ferida com um tiro nas costas. Ágatha foi morta, segundo testemunhas, por um policial militar que mirava uma moto supostamente suspeita no Rio de Janeiro.

A conversa demorou a entrar na análise da cobertura da mídia. Nos primeiros 12 minutos, foi abordada a segurança pública como um todo e índices oficiais de violência. Nem por isso, o bate-papo foi menos interessante. Com um entrevistado que domina o assunto e repórteres bem amparadas por dados, o diálogo flui e leva o ouvinte a refletir sobre as diferenças de tratamento dados conforme a cor da pele e a conta bancária das vítimas. A morte de pobres e negros, frisa Rolim, entram na conta do “dano colateral”, o que não ocorre com vítimas brancas de classe média ou alta.

Sobre a cobertura jornalística, ele frisa a necessidade de os profissionais da imprensa participarem de algum tipo de curso, dentro da própria faculdade, que dê a eles um pouco mais de embasamento sobre termos jurídicos. Hoje em dia, com redações cada vez mais enxutas e todos tendo que fazer tudo (ou seja, poucos especialistas e muitos generalistas), talvez não seja má ideia que as formações incluam segurança pública e outras áreas em seus currículos (a matemática e a estatística, por exemplo, também fazem muita falta aos jornalistas das redações).

O Humanista está repleto de bons conteúdos. Eu poderia avaliar a reportagem de Gabriela Plentz sobre o trabalho dos agentes comunitários de saúde de Porto Alegre e a importância do serviço prestado por eles ou as iniciativas para enfrentar o adoecimento mental nas universidades, de Júlia Costa dos Santos. Mas, desta vez, prefiro me ater aos dois temas citados acima. Na minha avaliação, eles são suficientemente fortes e merecem acompanhamento constante de todos os veículos mas, especialmente, de meios como o Humanista, que volta seus olhos aos direitos humanos.


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*Carla Dutra é jornalista formada pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) e tem mais de 15 anos de atuação, com passagens em redações de veículos como jornal A Razão, Jornal NH e Zero Hora; experiência também em assessoria de imprensa. Ombudsman do portal Humanista em 2019. Contato: carladutrasilveira@gmail.com.

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