Há duas semanas, o Brasil acompanhou um novo capítulo do caso do Banco Master: a negociação para financiar a produção de “Dark Horse” (azarão, em português), o longa-metragem biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro. A tratativa, que ocorreu entre o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro e dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, expôs, além das incongruências apontadas entre o valor para a realização do filme (U$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na época), o papel fundamental do jornalismo independente no Brasil.
Faltando menos de cinco meses para o primeiro turno das eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro “perdeu” seu sobrenome das manchetes dos principais jornais do Brasil. O movimento não é coincidência, muito menos aleatório. A imagem que está sendo construída tenta desvencilhar do imaginário brasileiro a figura do pré-candidato ao desgaste político associado ao seu pai, Jair Bolsonaro.
Isso porque Flávio (que temporariamente não tem sobrenome, diga-se de passagem) “tem altíssimo índice de rejeição”, como aponta o Intercept Brasil, o veículo responsável por trazer à tona a estreita relação entre Flávio e Vorcaro, investigado pela Polícia Federal (PF) por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Após a investigação do financiamento para a produção do filme “Azarão” ter sido exposta pelo Intercept, um levantamento feito pelo Datafolha, publicado em 22 de maio, aponta que o presidente Lula (PT), seu maior rival político, ampliou de três para nove pontos a vantagem sobre o senador do PL na simulação de primeiro turno, marcando 40% e 31%, respectivamente.
Isso evidencia o impacto que o jornalismo independente, se bem feito e comprometido com a verdade, gera em diversos âmbitos da sociedade, sobretudo na fiscalização do poder e no fortalecimento da democracia – uma das finalidades do jornalismo.
Seguindo por um caminho oposto, mas conhecido do grupo Globo, com lembranças da operação Lava Jato e do Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff , a GloboNews exibiu em um de seus programas, no dia 20 de março, um powerpoint que relacionava o presidente Lula e seu partido, o PT, com o esquema de fraudes bilionárias do Banco Master. Esse movimento, um tanto quanto arbitrário, foi o suficiente para causar uma distorção no caso, e não deve ser interpretado apenas como uma falha pontual de edição.
Após pressão popular, a jornalista e apresentadora Andréia Sadi se retratou dias depois com o público. Porém, erros assim fortalecem a propagação de desinformação e fragilizam a confiança do telespectador, o qual crê que um jornalismo consolidado como este se sustentará na verdade.
A título de exemplo, 10 milhões de pessoas foram alcançadas pela GloboNews no 1º semestre de 2025 e mais de 679 mil telespectadores acompanham o jornal Estúdio i (onde foi mostrado o powerpoint) todos os dias.
Mesmo se apoiando no discurso da imparcialidade, o jornalismo da Globo nunca o será. Aliás, nenhuma empresa que se propõe a fazer jornalismo alcançará este valor, pois não há como dissociar as éticas do sujeito como indivíduo e como jornalista.
O que não deve ser, também, é enviesado politicamente, pois prejudica a qualidade da informação transmitida ao público. Um bom jornalista deve ser objetivo. Ou seja, trabalhar com o rigor dos fatos, checar a informação em fontes confiáveis e plurais e sempre falar a verdade.
Mas afinal, o que faz o jornalismo independente?
O jornalismo independente opõe-se às fontes de informação tradicionais e hegemônicas ao propor novas pautas e enquadramentos para os distintos acontecimentos que permeiam a sociedade. A jornalista Elisangela Colodeti afirma que o jornalismo independente busca também “evidenciar a liberdade da produção jornalística em relação aos condicionamentos econômicos das empresas, de seus anunciantes ou de outros grupos que sustentam o jornalismo” (2016, apud Loose, 2021).
Sem essas amarras econômicas que direcionam os vieses da linha editorial dos jornais, os jornalistas possuem uma maior autonomia para desenvolver suas próprias matérias.
É o caso da publicação realizada pelo Humanista em abril, que mostra como o colapso do Banco Master expõe falhas no sistema financeiro do país. A matéria aponta que mesmo com tantos agentes responsáveis por regular e fiscalizar as relações financeiras, as fraudes do banco passaram aparentemente despercebidas.
No mesmo período, o Portal publicou os acúmulos das irregularidades do empreendimento gastronômico Refúgio do Lago. Construído em 2018 no Parque da Redenção, em Porto Alegre, o local está fechado desde dezembro do ano passado. A repercussão da publicação, sem sombra de dúvidas, agiu como “uma mosca na sopa” dos empresários e gerou ameaça de processo judicial ao Humanista.
No entanto, atitudes assim não nos intimidam, pois esse é o papel fundamental do jornalismo – e nós o seguiremos. Nadar contra a corrente em meio a um período conturbado para nós, jornalistas comprometidos com a verdade, é um ato de coragem e ousadia.




