Redução de 9,7% registrada no segundo trimestre de 2020, em meio à pandemia, é a maior desde o início das medições do PIB no Brasil, em 1947.
Fernanda Peron / #ExplicaçãoHumanista
O mês de setembro começou com uma notícia pouco animadora para a retomada da economia depois que a pandemia de Covid-19 for controlada: o IBGE (Instituto Brasileiro de Economia e Estatística) anunciou no dia 1º a queda de 9,7% do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre de 2020 (abril, maio e junho), comparado ao primeiro trimestre do ano – que, por sua vez, tinha caído 2,5% em relação ao trimestre anterior.
Quando a comparação é com o mesmo período de 2019, a queda no segundo trimestre desse ano, que coincide com o auge dos efeitos econômicos da chegada do novo coronavírus, é de 11,4%. Apesar de já ter enfrentado outros períodos de recessão — que é quando os indicadores apresentam pelo menos dois números negativos seguidos —, o que preocupa agora é o grau de profundidade da queda.
Mas, afinal de contas, o que é o PIB e que impactos ele tem para a economia brasileira?
De acordo com o site do IBGE, “os bens e serviços finais que compõem o PIB são medidos no preço em que chegam ao consumidor”, incluindo no cálculo os impostos sobre os produtos e, portanto, “se um país não produzir nada em um ano, o seu PIB será nulo.”
Para entender um pouco melhor os efeitos da queda histórica o Humanista conversou com o professor titular da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Adalmir Antônio Marquetti, doutor em Economia, que alerta para a informação mais impactante: trata-se da maior queda do PIB desde 1947, ano em que o indicador começou a ser medido no Brasil.
Expansão do gasto público é alternativa

Mesmo com a crise do novo coronavírus, a pandemia não é a única responsável pela queda. No primeiro trimestre de 2020, o PIB apresentou contração de 2,5%, sinalizando que a economia brasileira já vinha em uma situação de crescimento reduzido e a Covid-19 intensificou essa condição.
A estimativa de queda do PIB ao final do ano é de aproximadamente 6%, o que deixaria o indicador parecido com os valores medidos em 2010 e levando o Brasil a perder uma década de crescimento econômico. Adalmir Marquetti aponta que “se levar em consideração o crescimento populacional, o PIB per capita em 2020 vai ser similar ao que tínhamos em 2007, mostrando a dimensão dessa crise, que é muito grave e impacta no consumo das famílias e na vida das pessoas”.
Os R$ 600,00 do Auxílio Emergencial implementados no final de abril – reduzidos a R$ 300,00 quando prorrogado – impactam positivamente na crise da economia. Marquetti explica que o dinheiro é a ponta de um ciclo que se inicia quando a família, por exemplo, vai ao supermercado comprar alimentos e itens de higiene. Para atender os compradores, o supermercado contrata funcionários e paga fornecedores. Por sua vez, as indústrias também empregam pessoas e compram insumos para a fabricação de seus produtos. Ou seja, existe todo um circuito econômico que se inicia com essa renda que além de ajudar os brasileiros a enfrentar o desemprego e a pandemia, contribui para que a crise não seja ainda maior do que é.
Com a queda da atividade econômica no país, a expectativa é que se observe uma melhora nos indicadores dos próximos trimestres em relação ao trimestre anterior. Por exemplo, a previsão é que o terceiro trimestre apresente uma melhora nos números em relação ao segundo trimestre. Contudo, para retornar ao nível de produção de 2019 vai demorar mais.
Além da má recuperação que o Brasil apresenta e o fato de ainda haver uma pandemia assolando o planeta, a retomada dos níveis anteriores também depende da política econômica que o governo adota. “É importante nesse momento que o governo brasileiro aumente seus gastos, com uma política fiscal expansionista. Se faz necessário gastar mais para gerar retorno na economia e aumentar a taxa de emprego e de produção das empresas”, avalia Marquetti.
A política fiscal expansionista a que se refere o economista esbarra formalmente no “teto de gastos” imposto pela Emenda Constitucional 95, aprovada no governo de Michel Temer e que impõe que a expansão do gasto público seja vinculada à inflação do ano anterior. O tema voltou ao debate em meio à pandemia, com economistas de orientação progressista alertando para a contradição, de um lado, e o Governo Bolsonaro, de outro, reiterando sua posição política favorável ao teto.
| Principais resultados do PIB a preços de mercado do 2º Trimestre/2019 ao 2º Trimestre/2020 (%) | |||||
|---|---|---|---|---|---|
| Taxas (%) | 2019.II | 2019.III | 2019.IV | 2020.I | 2020.II |
| Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior | 0,8 | 1,0 | 1,1 | -0,3 | -5,9 |
| Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores | 1,1 | 1,0 | 1,1 | 0,9 | -2,2 |
| Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior | 1,1 | 1,2 | 1,7 | -0,3 | -11,4 |
| Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal) | 0,5 | 0,1 | 0,5 | -2,5 | -9,7 |
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais |
|||||
FOTO DE CAPA: 3844328/pixabay




