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O petróleo não é nosso? Entenda por que a Petrobras começou 2021 com tantos aumentos nos combustíveis

O Humanista foi atrás de explicações para o quinto reajuste na gasolina e quarto no diesel em apenas dois meses; como os aumentos afetam o bolso dos brasileiros?

Maria Luiza Rodrigues

#ExplicaçãoHumanista

Em menos de três meses, a Petrobras anunciou cinco reajustes no preço da gasolina e quatro no diesel. O mais recente, que entrou em vigor nesta terça-feira (2), eleva o índice de aumento acumulado somente desde o início de 2021 para 41% na gasolina e 34% no diesel. Mas por que a estatal não consegue controlar os preços? E quais os impactos desses aumentos constantes no bolso dos brasileiros? São perguntas que o Humanista tenta responder com a ajuda do economista e professor Fernando Lara, analista do Tesouro do Estado do Rio Grande do Sul e especialista no tema. 

Os postos de combustíveis do país já vem aplicando aumentos, fazendo com que o valor do litro da gasolina passe dos R$ 5,00 reais. O maior valor registrado até a semana passada foi de R$ 6,00 no estado do Acre. Antes do quinto aumento, essa semana, nas refinarias, no Rio Grande do Sul o litro da gasolina variava entre R$ 4,89 e R$ 5,19, e o diesel ficava na média de R$ 3,88. 

A política de preços, que está por trás do aumento expressivo nos valores, é ajustada a partir do mercado exterior. No dia 17 de fevereiro, o valor internacional do petróleo atingiu US$ 61,14, o que representava um aumento de 1,6% a 1,8% no preço do barril em relação ao preço anterior. Foi o maior aumento desde janeiro de 2020. Esses preços têm reflexo direto nas refinarias do Brasil. 


Quais os reflexos no Brasil da oscilação de preço do petróleo no exterior?  

Para entender a situação, é preciso voltar ao início de 2020, quando os preços do petróleo, no exterior, tiveram mudanças oscilantes. O valor do barril de WTI (petróleo negociado nos Estados Unidos) variou de US$ 61 até US$ 40,73 entre o primeiro e o segundo semestre do ano. Segundo Fernando Lara, essa mudança pode ser explicada pela contração da demanda internacional em função da pandemia e uma posterior recuperação. Essa queda do preço do petróleo em dólares e a desvalorização cambial (preço da moeda estrangeira com base na moeda nacional) no primeiro semestre e a estabilização no segundo tiveram repercussão no Brasil porque os reajustes aqui são reflexos diretos no valor do dólar em relação ao real. 

Assim, os últimos reajustes de combustíveis foram tão pronunciados no segundo semestre e agora no início de 2021 no país, por conta desta oscilação no mercado em 2020. O Brasil sofreu com esses novos valores, porque os preços estavam atrasados em relação a paridade internacional, ou seja, os valores das revendas aqui precisam estar equiparados com o mercado exterior. Infelizmente este cenário não tem perspectivas de mudanças a curto prazo, e é possível que novos reajustes sejam implementados nas próximas semanas. 


Por que isso afeta o bolso dos brasileiros?

O que você paga, no caso dos combustíveis, é fruto de impostos estaduais e federais, custos adicionais com biodiesel (no caso do diesel), margem da distribuição e o valor dos postos de combustíveis, ou seja, não é apenas o que é determinado pela Petrobras que entra nessa conta. De acordo com a estatal, em média 45% do preço do diesel é o que é vendido nas refinarias; o restante desse valor vem dos montantes que citamos acima. Logo, como o petróleo é uma  importante fonte de energia usada em combustível, os preços de seus derivados afetam, por exemplo, os custos no transporte e insumos industriais, o que inclui o custo de vida social. Que é o reflexo nas altas da gasolina, diesel e inclusive no gás de cozinha. 


Se a Petrobras é brasileira, por que os combustíveis tão caros? 

Como empresa estatal, a Petrobras opera os recursos do país e garante que a população tenha acesso a eles, mas também é gerida a partir de uma estratégia que visa prioritariamente entregar rentabilidade aos seus acionistas de forma independente de outros objetivos de política pública. Isso seria como um controle da inflação, e caso a Petrobras reduzisse os valores nas refinarias, independente da cota internacional, poderia gerar uma dívida no exterior e vir a quebrar a estatal.


Como as falas de Bolsonaro repercutem dentro e fora do Brasil? 

No dia 18 de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou que: “Alguma coisa vai acontecer na Petrobras nos próximos dias.Tem que mudar alguma coisa, vai acontecer”, em live nas redes sociais após anúncio de aumento pela estatal. Essa fala trouxe ao mercado financeiro temores de uma nova interferência política. No dia seguinte aos pronunciamentos, as ações da Petrobras registraram queda de 7,92%, aos R$27,10.

Surgiram também críticas à gestão do atual presidente da Petrobras Roberto Castello Branco, e Bolsonaro indicou o General Joaquim Silva e Luna (atual diretor da Itaipu Binacional) para assumir o cargo. O Conselho de Administração da Petrobras ainda precisa aprovar essa sugestão de troca.

Como as decisões tendem a ser interpretadas como precipitadas no exterior, de acordo com o Economista Fernando Lara, o Brasil perde com esses pronunciamentos, já que os agentes econômicos tendem a ter uma visão negativa sobre as ações da Petrobras no país, porque percebem esse movimento acelerado por parte do governo.

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