Homenagem à Semana da Enfermagem, por Isabela Penteado
“Boa noite, pessoal. Meu nome é Isabela, sou enfermeira e residente do primeiro ano do programa de Saúde Coletiva da UFRGS.
Hoje vim aqui conversar um pouco com vocês sobre a enfermagem e a importância dela no Sistema de saúde, isso por causa da Semana da Enfermagem que iniciou agora segunda dia 10 e vai até o dia 20 de maio. Mas especialmente hoje é o dia da enfermeira, dia 12 de maio.
Vou iniciar com uma fala da diretora da OMS, Margareth Chan, que declarou que a enfermagem é como a espinha dorsal do sistema de saúde. Essa frase vem do fato de que mais de 50% dos profissionais da saúde são enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem. Então sem a enfermagem, o sistema de saúde não tem como manter seus atendimentos e a sua proposta. E por isso é considerada essencial. Não só pelo tipo de trabalho que desenvolve, mas também pelo quantitativo. No Brasil, existem mais de 2 milhões de profissionais de enfermagem. A organização divulgou o Relatório Estado da Enfermagem no Mundo 2020. O documento, elaborado em parceria com o Conselho Internacional de Enfermeiras, revela que hoje existem cerca de 28 milhões de enfermeiros no mundo e que o déficit global destes profissionais é de 6 milhões.
Outra coisa importante de se destacar é o fato pelo qual eu falei “dia da enfermeira” no início da minha fala, é que cerca de 90% desses profissionais são mulheres, mas poucas delas estão em cargos de liderança, mostrando a necessidade de investimentos e a luta que essa categoria tem contra as discriminações de gênero.
Uma pesquisa de 2015 “Perfil da Enfermagem no Brasil”, considerada o maior levantamento sobre a categoria profissional já realizado na América Latina, já revelava, por meio de um diagnóstico preciso e detalhado, o quanto os profissionais de Enfermagem lidam com situações de trabalho precarizado, submetidos a violências, discriminação, em especial por gênero como eu falei antes, a desvalorização no mercado de trabalho, baixos salários, sobrecarga profissional, estresse elevado, problemas de saúde relacionados ao trabalho e muitos deles relacionados a saúde mental. Esse panorama já revelava o quanto o campo da Enfermagem tem sido visto em detalhe, compreendido como vasto território a ser explorado e controlado pelo “mercado de poder”, o capitalismo, que imprime modos de produção degradantes e impede a manutenção dos processos vitais.
E óbvio que a característica principal dos profissionais em relação a isso é o descontentamento. Descontentamento com a falta de Leis que regulamentem a jornada de trabalho – condições essas que outras profissões já conquistaram.
É bem comum nós vermos alguns hospitais e entidades grandes que representam os interesses dessas instituições comemorarem o ganho de ações judiciais impedindo que os Conselhos definam melhores condições de trabalho para a categoria. E essa situação é uma verdadeira precarização da assistência, onde o investimento em equipamentos, ampliação da área física, entre outras ações, acaba sendo mais importante que o número adequado de profissionais e a qualificação destes.
Com o surgimento da pandemia, as problemáticas envolvidas nesses cenários só revelaram com maior força e expressividade os velhos problemas já existentes. Colocando em risco, pela falta de condições de trabalho adequadas, a vida dos profissionais.
O Brasil responde por um terço do total de mortes pela covid-19 entre os profissionais da categoria, um dado alarmante tendo em vista que sem eles, salvar vidas nos serviços de saúde todos os dias se torna uma tarefa impossível.
O dado global mais recente sobre letalidade da covid-19 entre profissionais da área foi divulgado em novembro de 2020 pelo Conselho Internacional da categoria, e falava de 1.500 óbitos em 44 países, atualmente o número deve ser muito maior. Podendo ser comparado com o número de enfermeiros e enfermeiras mortos na I Guerra Mundial, fazendo um paralelo entre a crise sanitária atual com um dos conflitos mais violentos da história humana.
E agora, depois de mais de 1 ano de duração da pandemia, as contaminações e mortes desses profissionais podem ser atribuídas a outros fatores. A exaustão é um deles. Não existe risco zero quando se lida com pacientes infectados, e quanto mais cansadas as equipes (muitas estão atuando desde março sem parar, sem férias) maior são as chances de um deslize.
E em meio a tudo isso a categoria luta por reconhecimento e uma das lutas que estão em mais evidência atualmente, é a luta pela definição do piso salarial nacional, que inclusive está para ser votado no senado federal. É o projeto número 2564 de 2020. E ele tem tido bastante apoio, em protestos e nas redes sociais. Mas infelizmente, segunda-feira agora dia 10 nós tivemos uma pequena derrota nessa luta. Ia acontecer uma reunião entre o presidente do Senado, outros senadores, representantes da enfermagem e o líder do governo, Senador Fernando Coelho, mas o líder do governo não compareceu e a reunião terminou sem acordo nenhum.
Mesmo com tudo isso seguimos com esperança de uma enfermagem reconhecida, com condições dignas de trabalho.
E para encerrar gostaria de pedir o apoio de todos os colegas, votando na consulta pública que está no ar no site do senado federal, o link está na descrição do vídeo, para nos darem uma força nessa luta, costumo dizer que palmas na janela é maravilhoso, mas condições dignas de trabalho é muito melhor. Então quero deixar meu parabéns para todos enfermeiros e enfermeiras que estão assistindo aqui hoje, uma boa noite e ótima aula.”
Isabela Penteado é Enfermeira e Residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Coletiva da UFRGS. Esta fala foi proferida na Aula aberta “Saúde é Democracia: Embates e desafios para a consolidação do SUS”, ocorrida no dia 12/05/2021.
Vote na Consulta Pública sobre a alteração da lei que instituir o piso salarial nacional do Enfermeiro, do Técnico de Enfermagem, do Auxiliar de Enfermagem e da Parteira: https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=141900