Bruno Marques Schaefer (UFRGS)*

Na reta final da campanha eleitoral presidencial de 2018, todas as pesquisas apontam para a vitória no primeiro turno do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL). Este resultado, se confirmado ou não, já marca o pleito atual como o mais polarizado e violento desde a redemocratização do país. O avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo tem sido objeto de estudos dos mais diversos autores e sob os mais distintos aportes teóricos e metodológicos. O crescimento de think tanks neoliberais na América Latina (ROCHA, 2015), partidos e candidatos xenófobos e racistas (MOUFFE, 2015), bem como a normalização de discursos autoritários, são fenômenos detectados e analisados por já extensa bibliografia científica (HARVEY, 2008; KALTWASSER, 2014). Neste artigo dialogo com esta literatura, mas não intento explorar relações diretas de causalidade sobre o crescimento do representante da extrema-direita brasileira. Busco, em outra frente, explorar a relação entre a intenção de voto para o candidato e posições de classe social, propondo uma questão que deve, futuramente, ser melhor investigada, qual seja: é possível dizer, em termos de classe, que se forma no momento atual um partido bolsonarista?

Trabalho, nesse sentido, com os resultados das pesquisas de intenção de voto realizadas nos últimos meses. Estes são apresentados, geralmente, de modo agregado: candidato X possui Y por cento da preferência dos eleitores, o candidato A possui B por cento e assim por diante. Os telejornais normalmente tratam a informação desta forma, que é explorada pelos atores políticos das mais distintas formas. Este olhar ao todo encobre, no entanto, informações possivelmente ricas sobre os eleitores que pretendem votar nos diferentes candidatos, em geral, e em Bolsonaro, particularmente, no pleito deste ano. Observações sobre a localização destas pessoas no espaço social, para usar o termo de Bourdieu, podem ser úteis no sentido de apresentar uma topografia do campo eleitoral da extrema-direita brasileira, e com quais extratos socioeconômicos da sociedade esta mais se comunica.

Como exposto no gráfico 1, o avanço das pesquisas de intenção de voto do DataFolha ao longo do ano de 2018 demonstram que a candidatura de Jair Bolsonaro se consolidou nos extratos de renda mais elevados do Brasil. Em termos de classificação estatística, entre as classes que recebem (1) entre cinco e dez salários mínimos e (2) mais de dez salários mínimos. Se em janeiro deste ano as candidaturas do Partido dos Trabalhadores (PT) (à época o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) e de Bolsonaro empatavam entre estes extratos de renda, a sequência da campanha eleitoral demonstrou a consolidação do voto de alta renda no candidato da extrema-direita.

Gráfico 1: Intenção de voto em 2018

Fonte: DataFolha

Em termos históricos, a literatura sobre eleições em Brasil aponta que a partir de 2006 há um realinhamento das preferências eleitorais em termos de classe social e arranjo geográfico. Daquele ano em diante o PT, na disputa presidencial, passa a ter melhor desempenho entre as classes sociais mais baixas e em regiões economicamente mais desfavorecidas, principalmente no Nordeste. Autores como Glaucio Ary Dillon Soares consideraram que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, seriam determinantes para que o partido aumentasse sua aderência entre os mais pobres, enquanto escândalos de corrupção, como o dito Mensalão, seriam determinantes para que o partido diminuísse sua aderência entre os menos pobres (SOARES & TERRON, 2008). O debate em torno da questão é amplo e existem divergências empíricas e metodológicas (LIMONGI & GUARNIERI, 2014). No entanto, como demonstrado no gráfico 2, existe uma tendência de diminuição de intenção de voto ao PT em quem ganha mais ao longo do tempo. Esta, no entanto, não é tão abrupta quanto a existente no pleito atual. Bolsonaro consolidou-se como candidato dos menos pobres, em um pleito extremamente fragmentado. Como demonstrado no gráfico 1, 40% dos dois extratos mais elevados de renda familiar elegeram Bolsonaro como seu representante.

Gráfico 2: Intenção de voto 2002-2018 (mês de referência junho)

Fonte: DataFolha

A renda média do brasileiro, per capta[1], no último trimestre de 2017, foi, segundo dados do IBGE, de R$ 2.100,00[2]. Considerando que o salário mínimo, no mesmo período, foi de cerca de R$ 937,00[3], as pessoas que residem nos extratos de renda analisados neste artigo estão em uma faixa minoritária e favorecida da população brasileira. Possuem rendimentos familiares maiores do que a média per capta do restante dos brasileiros. Uma classe média elevada, ou mesmo a classe alta. Esta definição, em termos teóricos, é pobre, como bem atestado por trabalhos precedentes (CARDOSO & PRETECEILLE, 2017; SOUSA, 2017). Aqui não é possível esgotar este debate, tão abrangente e heterogêneo, como o que se trava sobre a classe média[4]. A questão que parece essencial é que não é possível, a partir de somente um indicador (renda média familiar), ter boa definição de classe social. No entanto, limitações no acesso e produção de dados impõem restrições e forçam decisões metodológicas. Uso estes dados como esforço exploratório.

A questão é, sem mais rodeios, de que os mais favorecidos estão com Bolsonaro. Este dado, por sua vez, nos possibilita afirmar que há um partido bolsonarista na sociedade brasileira?

Primeiramente, uma questão conceitual. Não falo, neste artigo, em partido bolsonarista tendo em vista um partido no sentido jurídico-legal, como organização com estatuto próprio, cores e legenda. Retomo, neste ponto, a visão societal de partido político, tal como formulada por autores tão diversos quanto Gramsci e Lipset e Rokkan (1992)[5]: o partido enquanto vínculo entre Estado e sociedade, como “organização” que politiza determinadas clivagens sociais. Neste sentido, o partido bolsonarista é o partido dos mais privilegiados, em termos de renda, classe média (média) e classe média alta, ou simplesmente alta. É possível sim falar em um partido bolsonarista tendo em conta estes dados.

Os partidos no Brasil, afinal de contas, e em vários outros países com democracias mais longevas, não são organizações historicamente capazes de estruturar a opinião pública. Cumprem diversas outras funções que são importantes para o funcionamento do regime democrático de forma: recrutamento das elites políticas, sustentação parlamentar de governos, ocupação de burocracias estatais, etc. No entanto, como já demonstrado em diversas pesquisas da Ciência Política e em pesquisas de opinião, não cumprem um papel decisivo para o voto no que concerne a maioria do eleitorado. Estruturas partidárias possibilitam maior permeabilidade no território nacional, mas não são rótulos, como na perspectiva institucionalista (ALDRICH, 1995), que diminuem os “custos de decisão” do eleitor. Esta ausência de vínculos centrais, mensurada pela falta de confiança nas organizações partidárias e baixa identificação do eleitor para com os partidos, torna menos custosa a entrada eleitoral de “personalidades”, com capitais políticos próprios e alheios a lealdades organizacionais.

O crescimento de Bolsonaro, neste sentido, demonstra que as teses sobre o sistema partidário brasileiro devem, ao menos, ser revistas em muitos de seus pressupostos. A adoção de uma perspectiva “societal” da política brasileira pode ser frutífera tanto para a análise da conjuntura específica de 2018, com o esvaziamento do partido da burguesia externa (PSDB), e realinhamento das clivagens políticas (BOITO JR. & SAAD-FILHO, 2017), quanto para os efeitos estruturais da possível eleição de um candidato de extrema-direita, sem estrutura organizacional, e sem vínculos de lealdade com partidos específicos. Não é sem propósito retomar a análise de Marx no 18 Brumário. Quando o autor fala sobre o “Partido da Ordem”, ressalta que este fora constituído como agrupamento de diferentes facções, separadas pelo “fundamento material e a partir das relações sociais correspondentes” (MARX, 2011, p. 60), que não impedem, em momentos de ruptura, ou contra um inimigo maior (na França o comunismo, o anarquismo, ou qualquer nome que se vinculasse aos trabalhadores[6]), uma junção estratégica: no nível das elites políticas, e de suas correspondentes bases sociais. No caso brasileiro atual, com a materialização de apoios ao nível da elite ao candidato Bolsonaro, e sua normalização enquanto democrata, a comparação com o 18 Brumário é quase que irresistível –e necessária, com o devido e posterior aprofundamento empírico (CODATO & PERISSINOTTO, 2011).

Tenho em conta, para finalizar, que não devemos partir de dados agregados das intenções de votos para realizar conclusões longevas. Serão necessárias pesquisas mais aprofundadas em termos metodológicos e teóricos para que o mapa do voto bolsonarista seja traçado, em termos geográfico e de classe. No entanto, isto não invalida o questionamento inicial, com uma adição importante: existe um partido bolsonarista? E, em caso afirmativo, ele vem para ficar?

*Bruno Marques Schaefer é doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. brunomschaefer@gmail.com  

 

[1] Para uma crítica do uso da renda per capita como indicador, ver Sousa (2017).

[2] Ver Época (2018).

[3] Ver O Globo (2017).

[4] Uma interpretação marxista pode ser encontrada em Saes (1984).

[5] Mesmo Marx, no 18 Brumário, parte de uma ideia coalizacional de partido: “Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada o partido da anarquia, do socialismo, do comunismo” (MARX, 2010, p. 36). Fica clara, assim, a ideia do autor acerca do partido enquanto coalizão social de classes sociais.

[6] Qualquer semelhança com o Brasil, ver Folha de São Paulo (2018).

 

Referências

BOITO Jr., Armando; SAAD-FILHO, Alfredo. Estado, instituições estatais e poder político no Brasil. In: KATZ, Claudio et al. Latin American Perspectives en español y português 1: Buscando alternativas políticas y económicas. Buenos Aires; Riverside: CLACSO; Latin American Perspectives, 2017, p. 191-212.

CARDOSO, Adalberto; PRETECEILLE, Edmond. Classes Médias no Brasil: Do que se Trata? Qual seu Tamanho? Como Vem Mudando? Dados, Rio de Janeiro, vol. 60, n. 4, p. 977-1023, 2017.

CODATO, Adriano; PERISSINOTTO, Renato. Marxismo como ciência social. Curitiba: Editora UFPR, 2011.

ÉPOCA (Rio de Janeiro). Renda média do trabalhador brasileiro sobe para R$ 2,1 mil, diz IBGE. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/salario-minimo-em-2017-veja-o-valor.ghtml>. Acesso em: 29 set. 2018.

FOLHA DE SÃO PAULO (São Paulo). Brasil sairá da ‘ONU comunista’ se eu for eleito, diz Bolsonaro. 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/brasil-saira-da-onu-comunista-se-for-eleito-diz-bolsonaro.shtml>. Acesso em: 02 out. 2018.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

KALTWASSER, Cristóbal R. La derecha en America Latina y su lucha contra la adversidad. Nueva Sociedad, n. 254, p. 34-45, 2014.

LIMONGI, Fernando; GUARNIERI, Fernando. A base e os partidos: As eleições presidenciais no Brasil pós-redemocratização. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 99, p. 5-24, 2014.

LIPSET, Seymour Martin; ROKKAN, Stein. Estruturas de clivagem, sistemas partidários e alinhamentos de eleitores. In: LIPSET, Seymour Martin. Consenso e Conflito. Lisboa: Gradiva, 1992, p. 161-259.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luis Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2010.

MELO, Carlos R.; CÂMARA, Rafael. Estrutura da competição pela presidência e consolidação do sistema partidário no Brasil. Dados, vol. 55, n. 1, p. 71-117, 2012.

MOUFFE, Chantal. Sobre o Político. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

O GLOBO (Rio de Janeiro). Salário mínimo em 2017: veja o valor. 2017. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/salario-minimo-em-2017-veja-o-valor.ghtml>. Acesso em: 29 set. 2018.

ROCHA, Camila. Direitas em Rede: think tanks de direita na América Latina. In: CRUZ, Sebastião V.; KAYSEL, André; CODAS, Gustavo (Org.) Direita, volver! O retorno da direita e o ciclo político brasileiro. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2015, p. 261-278.

SAES, Decio. Classe Média e Sistema Político no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz Editora, 1984.

SOARES, Gláucio Ary Dillon; TERRON, Sonia Luiza. Dois Lulas: a geografia eleitoral da reeleição (explorando conceitos, métodos e técnicas de análise geoespacial). Opinião Pública, Campinas, vol. 14, n. 2, p. 269-301, 2008.

SOUSA, Jessé de. A Elite do Atraso: da escravidão a lava-jato. São Paulo: Leya, 2017.