Historiadora – Como era a rotina de trabalho de campo?
Antonio Cordeiro – Isso nós herdamos do professor Dobzhansky que era um professor da Columbia University. Com ele é que eu iniciei meu doutoramento na Columbia University com uma bolsa da Fundação Rockefeller. Levei dois anos lá e voltei para terminar aqui. O Dobzhansky era russo.
Historiadora – Era russo?
Antonio Cordeiro – Era, Theodosius Dobzhansky. Ele influenciou a Genética no Brasil e em vários outros lugares, principalmente no Brasil. Ele vinha todos os anos e se metia conosco no campo coletando as Drosophilas e fazia de todo o serviço! Nós aprendemos a taxonomia, distinguir as espécies de Drosophilas – você sabe é a mosquinha pequeninha. Eu fiquei especialista nisso. Durante algum tempo eu descrevi espécie e tudo: Drosophila caxiensis e outras Drosophilas dessas. Havia muitas espécies de Drosophilas que ainda não estavam descritas. Tem muitas espécies, são muito semelhantes, mas você consegue ver as diferenças que são constantes e sistemáticas. Todas as Drosophilas descobertas até hoje são úteis para a Genética porque têm um ciclo vital curto de dez, doze dias e produz uma quantidade grande de óvulos de descendentes, então você pode fazer estatísticas e tudo. A Drosophila é um organismo ideal.
Atualmente tem um japonês, C. C. Lee, que tem uma lista enorme de Drosophilas novas, incluindo as nossas espécies, mas o fato é que praticamente tem mais de uma centena de espécies de Drosophilas que são extremamente interessantes para a Genética. Tem proximidade com as outras, você pode fazer filogenia, né? Então a Drosophila realmente ainda constitui um campo de estudo até da taxonomia – o simples fato de você coletar e descrever as espécies que ainda não foram descritas, porque é necessário descrever para que o outro possa identificar.
Esse japones C.C Lee… Qualquer um que esteja trabalhando com Drosophila sabe, é muito conhecido. Ele me mandou separatas, etc., eu tenho aí correspondências com ele.
Então a Drosophila continua sendo… A chamávamos de Cinderela da Genética, extremamente útil porque ela tem um ciclo vital curto e você pode fazer cruzamentos, inclusive alguns cruzamentos entre espécies próximas, o que também é útil. Não serve para descendência, mas serve para saber a proximidade genética delas. E os cromossomas também. Têm nas glândulas salivares das larvas cromossomas gigantes. Os cromossomas a cada vez que se dividem ao invés de se separarem em duas células eles ficam grudados, ficam os chamados politênicos, são cromossomas gigantes. Na verdade ele fica cem vezes ou mais vezes o tamanho do cromossoma quando ele se divide. Na mitose, na divisão celular comum ele é pequenininho, mas ele fica enorme! São os politênicos porque eles têm vários filamentos do cromossoma, na verdade, lado a lado. Então eles não se enrolam quando estão na célula, na mitose, eles estão enrolados, estão concentrados e ficam cem vezes menor que o cromossoma gigante. Você bota no microscópio não precisa botar a lente mais forte, a lente mais comum, 40 vezes, por exemplo, já fica todo ele. Quando ele tem uma inversão, ou seja, quando uma parte do cromossoma está invertido em relação ao outro, chama-se heterozigoto para inversão, a sequencia dos genes está invertida naquele pedaço. Então o que acontece? Eles têm que parear, quer dizer: juntar o cromossoma do macho e da fêmea. Eles se juntam e fazem uma alça, aí você pode ver onde tem inversão. Nos outros, como no cromossoma mitótico, como se diz, quando a célula está fazendo divisão celular comum, você não pode ver isso, eles não se grudam assim. Eles se aproximam e se separam. Aí então nesses cromossomas gigantes que toda a Drosophila tem, todas as espécies têm, você pode ver que uma cruzou com outra e tem uma sequencia diferente.
Aí o Dobzhansky descobriu que quando há um heterozigoto para uma sequencia dessas há um aumento do vigor da variedade ou da linhagem aquela, chama-se heterose. Eles não estão na mesma ordem, são cromossomas originalmente de um indivíduo diferente que sofreu uma mudança da ordem. Você pode ver porque ele faz uma alça para poder ficar pareado. Então ela tem várias vantagens, a Drosophila, ainda hoje é usada no mundo inteiro. Agora se sabe que existem muitas espécies de Drosophilas que podem ser utilizadas, mas na verdade a Drosophila melanogaster e simulans, que são as primeiras e depois as do grupo willistoni, são mais úteis também, a Drosophila pauli-storum, etc., que foram descobertas aqui no Brasil e são as mais usadas. Praticamente tudo que se consegue com a Drosophila melanogaster… No mundo inteiro serviu de padrão porque os cromossomas delas foram examinados detalhadamente e serviram de padrão, as Drosophilas melanogaster e as simulans, para as outras as Drosophilas.
Além dessas que existem na África e em outros lugares existem as do Brasil são do grupo willistoni…
Historiadora – São só do Brasil?
Antonio Cordeiro – São encontradas só no Brasil a willistoni, pauli-storum, equinoxalis, tropicalis, insularis – descobertas em ilhas. Então essas espécies são todas muito estudadas no Brasil. Em todo departamento de Genética mais ou menos desenvolvido tem um laboratório só para a Drosophila porque ela é mais fácil de estudar, já tem a base estabelecida.
Historiadora – Voltando a questão do campo, em quais lugares vocês iam para coletar?
Antonio Cordeiro -Ah! Nós temos que coletar em matos, né? Ou nas proximidades de matos porque em campo aberto tem muito poucas Drosophilas. Inclusive nós descobrimos que de manhã cedo elas se aventuram fora do mato e depois quando vai aquecendo o tempo elas voltam para o mato porque não podem viver num lugar muito seco. Elas não têm capacidade de manter a umidade delas.
Historiadora – No mato elas ficam onde? Nas árvores?
Antonio Cordeiro – Não, ficam ao rés do chão, no chão, comendo frutas que caem. A larva até pode se aproveitar de levedos, que são fermentos como o saccharomyce cerevisiae. Elas comem esses levedos, na verdade elas não comem tanto o fruto, a massa do fruto, para elas interessa os levedos que são altamente proteicos como o champignon que é pura proteína, né? Então elas se nutrem disso e ali mesmo se desenvolvem. Depois de algum tempo, elas param e desenvolvem uma pupa que é uma casaca por cima. Lá dentro elas fazem uma metamorfose, passam do estado larval para o estado adulto e sai lá de dentro uma mosquinha completa com asa e tudo. Aí ela voa e continua o ciclo.
Historiadora – Como se fazia para pegá-las?
Antonio Cordeiro -Nós as pegávamos com redes. Fizemos umas redes, aperfeiçoamos… É uma rede com um funil, lá em baixo nós botamos um tubinho para facilitar, porque quando passamos a rede elas vão cair no fundo da rede nesse tubinho. Aí nós pegamos e passamos para um tubo de alimento. Um tubo onde tem aquele alimento delas. Na verdade com várias farinhas. Pode-se por bananas também, mas é mais usado uma mistura de farinhas que é muito mais fácil de manter, uma banana estraga, né?
Historiadora – Oxida…
Antonio Cordeiro – É. Então são mantidas assim no mundo inteiro, em tubos ou garrafas que embaixo tem aquele meio de cultura que tem agar-agar. Você sabe o que é agar-agar?
Historiadora – Sim.
Antonio Cordeiro -É agar e esses outros componentes com açúcar farinhas ou bananas. É o mais usado.
Historiadora – Essa metodologia foi com o professor Dobzhansky que vocês aprenderam?
Antonio Cordeiro – É ele é que trouxe par cá. Quem o convidou foi o professor André Dreyfus, que é fundador do Departamento de Genética da Universidade de São Paulo. O André Dreyfus que convidou o Pavan para ser assistente deles e outros. Ele sabia escolher, escolheu uns caras que iam funcionar mesmo!
Historiadora – O Pavan era daqui?
Antonio Cordeiro -O Pavan era de São Paulo, Crodowaldo Pavan.