Acervo de História Oral • PPGBM / UFRGS Drosophila & Evolução

Antonio Rodrigues Cordeiro

Fundador do Laboratório de Genética (1949)

Antonio Rodrigues Cordeiro
Drosophila & Evolução
“Iniciamos o laboratório com poucos recursos, mas com o entusiasmo de abrir caminhos para a ciência no Sul.”
Registro Histórico de Depoimento

Antonio Rodrigues Cordeiro

Pioneiro absoluto da genética gaúcha, fundador do primeiro laboratório na Faculdade de Filosofia em 1949 e colaborador histórico de Theodosius Dobzhansky em genética de populações.

Referência Bibliográfica (ABNT)
CORDEIRO, Antonio Rodrigues. Memórias. Depoimento concedido em sua residência à historiadora Naida Menezes.
Registro Sonoro Histórico Ouça a Entrevista em Áudio (Voz Original)
Áudio MP3
~51 min Tempo de Leitura
17 Perguntas Transcrição Completa
Porto Alegre, 23 de julho de 2009. Local & Realização
Transcrição Integral

Depoimento de Antonio Rodrigues Cordeiro

Registro fidedigno da entrevista oral gravada para a memória e história do PPGBM / UFRGS.

Questão 01

A Universidade de Brasília e o regime militar

Transcrição do Depoimento concedido à historiadora Naida Menezes.
[O professor Cordeiro pediu para falar um pouco antes que fosse iniciada a gravação. Em dado momento, disse que podia começar, por isso, não há pergunta inicial]

Antonio Cordeiro – Com a entrada dos militares eu, por exemplo, continuei na Universidade de Brasília por um tempo, até que eles resolveram que nós tínhamos que ir embora.

Historiadora – Por quê? O que alegavam?

Antonio Cordeiro – Eles achavam que nós poderíamos fazer alguma coisa contra eles. (risos)

Foi uma época interessante esta, porque os militares não fizeram uma ditadura com muita carnificina, vamos dizer assim. Foi uma coisa mais tranquila, né? Faziam pressão até que o professor desistisse. Então, por exemplo, eu fui pressionado para sair de Brasília.

Eu tinha levado uma porção de pessoas daqui e de outros departamentos de outros lugares do Brasil. Tinha feito esse Departamento de Genética lá que era bem bom! Tenho até as fotos aqui no Departamento de Genética e lá no Rio de Janeiro também. Quanto ao pessoal era um número bem considerável, um departamento bem instituído. Aí, quando eles fizeram pressão para a gente sair, a gente saiu e eles não tinham quem colocar lá! Alguns ficaram para ver se continuavam e depois de algum tempo, poucos anos depois, quando desistiram de influir nas universidades, os professores começaram a voltar, né? Então não foi uma destruição permanente, né? Foi só enquanto eles tinham desconfiança e não toleravam. Até, por exemplo, o professor Salmeron que é da Física e foi um dos mais visados, mas ele não era um cara muito político, compreende? Ele não se importava muito com política. Enquanto alguns professores do meu departamento mesmo não faziam parte de nenhum partido, mas tinham se manifestado, então esses eram visados. O Salmeron foi até convidado para ser Reitor da Universidade de Brasília, mas não aceitou voltar! (risos) Não foi uma coisa muito violenta, se bem que a violência foi o fato de que o pessoal todo que foi daqui e de outros lugares para fazer o Departamento de Genética da Universidade de Brasília acabou saindo de lá quando eu saí.

Em alguns outros departamentos também aconteceu isso. Eles tiravam o chefe ou coisa assim, porque era mais evidente e tal, e os outros saíam junto. Quando eu fui excluído, junto com o grupo lá do Departamento de Genética, outros departamentos saíram, voltaram para suas bases ou foram para o exterior em protesto contra aquilo.

Historiadora – Esvaziou a Universidade?

Antonio Cordeiro – Esvaziou. Os militares, em certo sentido, não foram muito violentos, compreende? Só porque tinha sido feito pelo governo anterior não significava que se era obrigado a sair.

Foi uma época interessante para pessoas como eu e outros que estavam “metidos no embrulho” esse, né? (risos)

Historiadora – Sim… Ter vivenciado essa época que marcou, né?

Antonio Cordeiro – Mas fui pressionado para sair de lá. Quando saí, eu tinha uma caminhonete, peguei a caminhonete botei todos que cabiam ali dentro e vim para cá. Um dos diretores era o Bernardo Geisel. Me encontrei com ele no Conselho Nacional de Pesquisa, porque antes de chegar aqui eu parei no Rio para ver se o CNPq nos apoiava para continuar trabalhando aqui. E ele: “Volta, Cordeiro, volta! Porque se não você vai perder o emprego”! (risos) E ele era do governo, né? Porque o irmão dele, o Geisel, fazia parte do governo militar.

Historiadora – Foi presidente!

Antonio Cordeiro – Foi, é. Aliás, eu trouxe, quando estive nos Estados Unidos, antes desse período, com uma bolsa de estudos, uma geladeira para o Bernardo Geisel através do irmão dele! (risos) Essas coisas que só brasileiro mesmo!

Questão 02

Infância, família e influência do pai

Historiadora – Seu Cordeiro, voltando no tempo, o senhor nasceu em Bagé e enquanto menino, como era a relação com as plantas…

Antonio Cordeiro – Ah sim! Em primeiro lugar eu tenho que reconhecer o seguinte: eu fui influenciado simplesmente pelo meu pai. Ele achava que biologia era formidável! Evolução… Ele era militar, mas tinha feito academia militar no tempo em que havia franceses ensinando para a pessoa passar de oficial tenente para capitão, que é considerado outro nível. Eles tinham que ter aula com esses franceses. Então primeiro tinham que aprender francês e seguir a orientação da academia militar francesa. Nessa academia havia estudos sobre história, ciência, umas coisas que eu não sei se ainda têm.

Meu pai era filho de um médico, meu avô era médico, então já tinha uma atitude, era militar só por conveniência financeira. Não podia começar a Medicina lá na Bahia sem ser alguma coisa que ganhasse dinheiro. Então ficou no exército como tenente médico, uma coisa assim. Mas ele foi atingido numa revolução que tinha aqui, que ele veio tratar como médico. Ele podia andar nas trincheiras com a ambulância. Mas a ambulância foi bombardeada e ele foi morto. O meu pai era filho de um oficial morto em campanha, tinha tudo gratuito, o ensino que ele escolhesse no exército.

Historiadora – Esse que veio para o Rio Grande do Sul era seu pai?

Antonio Cordeiro – Meu avô é que veio para o Sul por causa da revolução que tinha aqui. E aí bombardearam a ambulância e meu pai ficou órfão. Os filhos tinham direito a educação gratuita. As esposas receberam soldo vitalício por toda a vida como compensação. Então meu pai, com a tendência que ele tinha de estudar, acabou estudando muito: ciências sociais, sociologia, filosofia. Depois de estar em Bagé como oficial de cavalaria, lá onde nasci, em Bagé, ele conseguiu, quando eu já tinha mais ou menos seis anos, se transferir para Porto Alegre, para o Colégio Militar, para ser professor no Colégio Militar. Foi professor de história geral e do Brasil. Ele tinha tendências filosóficas e gostava muito de história mesmo! Então ele se dedicou a ensinar história geral e do Brasil. Nesse âmbito, ele também se interessava por filosofia, filosofia da ciência e tal. Então ao invés de ele ser propriamente um militar ele foi professor, né?

A gente acabou vivendo aqui em Porto Alegre. Saímos de Bagé, eu tinha seis anos de idade, e eu acabei sendo colocado em um colégio de leigo, não era militar nem nada. Então fui instruído aqui em Porto Alegre, meu curso primário e secundário já foi feito aqui em Porto Alegre, em Bagé tive só o princípio. Eu lembro perfeitamente de lá e tal, mas…

O pai, então progrediu aqui, foi a general, foi promovido porque ele tinha participado em todas as revoluções! Eram revoluções anuais no Brasil. Era a de 1929, 30, 31, 32 (risos). Eu me acostumei com isso. Chegava para a mãe: “O pai já vai voltar? Quando que o pai vai voltar?”. Essa era a minha preocupação porque na verdade era uma coisa anual, era muita revolução! Quando não era revolução forte era um levante, então o exército tinha que se mexer. Aqui no Sul sempre teve o maior exército. A maior parte do exército do Brasil estava aqui no Sul porque aqui que nós temos fronteira com a Argentina. Então a preocupação do Brasil era a Argentina porque o resto era muito pequeno para atacar, mas a Argentina tinha um exército muito grande e tal. Então são essas circunstâncias engraçadas. O pai como oficial da cavalaria – mas usava cavalo só para parada e demonstrações – usavam mais os tanques. Mas ele teve que aprender a andar a cavalo. Ele era Baiano, mas teve que aprender a andar a cavalo!

Historiadora – Ele, como o senhor estava comentando, influenciou a sua…

Antonio Cordeiro – Ah! Ele influenciou porque era professor de história, mas era filósofo, gostava de sociologia. Ficou socialista, a favor do socialismo – às vezes tinha que se controlar porque já naquele tempo existia uma pressão contra o socialismo, ainda mais um militar! Não podia ser. Então os alunos dele o homenageavam e tal e faziam discursos perigosos. (risos)

Mas para mim foi bom que viemos para Porto Alegre porque aqui havia melhores colégios, e tudo.

Questão 03

Formação escolar e entrada na Universidade

Historiadora – Onde o senhor estudou?

Antonio Cordeiro – Estudei no Júlio de Castilhos – os mais importantes – e no Colégio Militar. No Colégio Militar tinha um vestibular para entrar. Entrei, fiquei uns dois anos, aí o Dutra terminou com o Colégio Militar e fez Escola de Guerra aqui. Depois do Colégio Militar vem a Escola de Guerra que é para oficiais. Colégio Militar é para estudantes jovens que vão adiante e que podem entrar na Escola de Guerra, que só tinha no Rio de Janeiro. Mas o Dutra por algum motivo resolveu transformar o Colégio Militar em Escola de Guerra e o Colégio Militar foi para o Rio de Janeiro. Muitos dos meus colegas foram, mas o pai não achou que tinha condições de me manter no Rio então eu fui para o Júlio de Castilhos. Do Júlio eu entrei para a Universidade.

Fiz exames e entrei na Universidade na História Natural. Isso por influência do pai porque ele estudava a evolução e tal. Ele tinha livros disso também, comprava bastante livros.

Historiadora – O senhor andava folhando os livros dele, então?

Antonio Cordeiro – É sim e também ele falava muito! Como ele não tinha pra quem dar aula em casa, porque a mãe não se interessava por isso, muitas vezes ele me dava uma aula de Botânica ou de Zoologia, principalmente evolução, sobre Darwin, coisa assim. Ele tinha com quem se expandir, né? As minhas irmãs, ele não conseguia fazer com que elas sentassem na cadeira para ouvir as aulas dele. Mas a minha iniciação foi assim, na verdade.

Questão 04

Faculdade de Filosofia, Botânica e o herbário

Historiadora – Como era a faculdade? De que vocês tinham aula, os laboratórios…

Antonio Cordeiro -A faculdade foi criada para mim, praticamente. Quando eu estava pronto para entrar na faculdade, que terminou o ginásio, fundaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, era o nome original. Aí você tinha um concurso, provas, para entrar na Universidade. Eu fiz o concurso e comecei na Botânica com o Professor Alarich Rudolf Holger Schultz. Era alemão mesmo, só que ele se naturalizou aqui. A mãe dele era brasileira. Eles viviam na Alemanha, ele é que veio para cá depois. Esse era um dos professores. O professor de Zoologia era muito bom também, mas ele não era formado como o Schultz. O Schultz era formado na Alemanha como botânico, fez Ciências Biológicas e Botânica. Então ele sabia muito de taxonomia e fisiologia vegetal. Nós tivemos também outros professores estrangeiros naquele tempo. O professor Hogetop, que era professor de Botânica também e era alemão, mas falava o português melhor que o Schultz! O Schultz acho que fazia de propósito falar arrastado, não sei! O professor Karl Hogetop era muito bom, modesto, muito amigo dos alunos, falava assim, fácil, no mesmo nível. Se a gente queria saber alguma coisa conseguia. Tinha muito pouca gente.

Historiadora – O senhor foi de uma das primeiras turmas?

Antonio Cordeiro -Fui da segunda, uma coisa assim, porque a primeira já tinha entrado com o Iraja Damiani Pinto. Ele está aí ainda, deve ter mais de cem anos! (risos) Ele está bem! Está perto dos cem anos! O Iraja Damiani Pinto era professor de Geologia, era até meu colega, mas já mais adiantado.

O Schultz me convidou, logo que me interessei muito pelo laboratório, começava a arrumar as plantas e daqui a pouco ele me convidou para ser assistente dele, secretário, coisa assim, para manter o herbário, arrumar o herbário. Então ele tinha muitas plantas já classificadas dentro de pastas – eles guardam dentro de pastas, amassadas assim, com o nome científico, onde coletou, etc. Porque teve um alemão que era freelancer, um botânico porque queria ser botânico, ele não era professor de uma faculdade, mas ele tinha o maior herbário do Sul – eu não lembro o nome dele. Esse herbário foi comprado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras daqui, onde estava o Schultz.

O Schultz mesmo organizou o herbário lá nos porões da Faculdade de Direito onde era o curso de História Natural. Nós tínhamos os porões lá embaixo, várias salas, e o Schultz tinha esse herbário e me encarregou de organizar uma parte daquilo. Aí que eu conheci como eles faziam aquela história de classificação pelo nome, local de coleta, etc. Nós então, de vez em quando, coletávamos e acrescentávamos no herbário.

Esse herbário é o maior que tem aqui no Sul. As plantas que estão ali estão todas classificadas por especialistas, etc. Então é uma referência. Para quem quer conhecer as plantas a primeira coisa é visitar esse herbário. Ali tem a maioria das plantas que tem aqui no Sul e até mais adiante, Santa Catarina, Paraná, são classificadas, estão ali herborizadas, eles colocam dentro de pastas, né? Então essa foi a minha entrada na Faculdade de Filosofia.

Historiadora – O senhor chegou a fazer coleta?

Antonio Cordeiro -Sim. Nós coletávamos, trazíamos para ali e o Schultz classificava e botava naquele negócio, tal e tal. Nós aumentamos o herbário e, principalmente, salvamos as que já estavam lá. Precisavam ser conservadas, as que criavam fungos e coisa assim tínhamos que limpar.

Historiadora – Isso tudo nos porões?

Antonio Cordeiro – Nos porões da Faculdade. Havia uma sala de aula, uma espécie de sala de aula prática em que nós estendemos aqueles negócios e encheu tudo! Eu estive classificando aquilo, havia muita coisa que estava incompleta, então tinha que completar. Então esse foi o começo do herbário, ele está grande agora, não tenho visitado… Eu não lembro o nome, tinham dado o nome de quem iniciou o herbário. É uma coisa importante porque você pode identificar as plantas ali no herbário mesmo.

Questão 05

Da Botânica à Genética

Historiadora – E aí o senhor formou-se nessa faculdade?

Antonio Cordeiro – Sim. Aí eu comecei a me interessar por Genética durante o curso e aí eu consegui um laboratório, quando eu já estava mais grandinho, no fim do curso, quase. Deram-me uma salinha e eu me interessei por Drosophila. Escrevi para São Paulo e o Pavan que, aliás, faleceu há poucos dias, Crodowaldo Pavan, professor de lá, respondeu a minha carta com uma carta ilustrada com as coisas para fazer um laboratório de Genética de Drosophila! Então eu fiz esse laboratório e começamos a lecionar Genética para os estudantes que chegavam, né?

Aí, naturalmente eu tive de fazer a minha tese de doutorado e fui defender a tese em São Paulo. Para fazer esta tese eu estive nos Estados Unidos, estive aqui, bastante tempo estudando e fiz vários exames: de fisiologia, de bioquímica e não sei o que mais que exigiam em função da tese de doutorado. A tese de doutorado foi sobre Genética Animal.

Bom, aí ocorreu o fenômeno Theodosius Dobzhansky autor desses livros… Ele era um professor da Columbia University e se interessava muito pelo Brasil por causa da natureza tropical que é mais interessante do que lá. Então ele fez tudo para vir para o Brasil e acabou vindo mesmo, não só uma vez, mas vinha anualmente para o Brasil por um mês ou dois. Foi aí que eu encontrei com ele e todos os estudantes, o Pavan, o pessoal da Genética, todos foram alunos do Dobzhansky, porque ele vinha para cá e dava aula sobre evolução junto com o André Dreyfus, que era de Pelotas, mas ele trabalhava em São Paulo há muito tempo já, como professor da Universidade de São Paulo. André Dreyfus criou um ambiente muito bom.

O Dobzhansky aprendeu português, ele tinha facilidade em línguas, sabia não só português como inglês, o russo, o alemão, entendia tudo isso. Se viesse um alemão ele entendia e falava com o cara, lá. Uma vez eu cheguei para ele, porque eu fiquei na Columbia um ano inteiro, e sugeri:

– Será que não seria interessante eu aprender alemão?

– Não, não! É muito complicado para você e não vale a pena porque todo o alemão sabe inglês.

Eu gostei muito da Columbia University, um ambiente muito agradável. De vez em quando eu ia lá por minha conta, eu fui porque era um ambiente muito bom.

Questão 06

Doutorado, Columbia University e Dobzhansky

Historiadora – Lá o senhor continuou fazendo pesquisa?

Antonio Cordeiro -Para fazer meu doutoramento tinha que fazer muita pesquisa. Quando eu voltei para cá já estava pronto todo o trabalho. Eu tinha começado aqui. A gente tem que fazer muita contagem porque na Genética tem o cruzamento e a segregação da separação para identificar os genes, em que cromossomas estão etc. Então lá na Columbia University é que eu fiz meu doutorado, praticamente. Vim para cá defender a tese. Eu poderia ter defendido lá, mas aí teria que fazer o reconhecimento da tese aqui. Era mais simples fazer aqui. Eu fiz então uma parte na Universidade de São Paulo, defendi a tese na Universidade de São Paulo.

Historiadora – Até então o senhor era professor…

Antonio Cordeiro -Professor assistente e depois que fiz doutorado passei para professor adjunto.

Historiadora – Como eram as aulas? O que tem de diferente hoje?

Antonio Cordeiro -As aulas eram praticamente a mesma coisa. A única coisa é que eu, por exemplo, era um professor jovem, naquele tempo, que ia para o campo coletar junto com os alunos, coisa e tal. Levava microscópio e fazia coisas assim que os professores já mais antigos não fazem. Ir para o campo trabalhar, estudar, coletar as Drosophilas. Coletava também plantas onde as Drosophilas estavam, essas coisas assim. Era o contato com a natureza que é importante para os alunos, não é? Surgiam muitas coisas interessantes no caminho. Foi muito agradável.

Historiadora – Aí o senhor terminou o doutorado e voltou para cá?

Antonio Cordeiro – É eu defendi o doutorado em São Paulo e… Mas nunca me desliguei daqui. Eu era professor daqui com licença para ficar um ano para defender o doutorado e voltar. E foi isso. Aí, naturalmente, quando eu voltei, continuei a fazer publicações e eu tinha alunos que faziam doutorado comigo. O Celso Jaeger e o Salzano faziam doutorado, ou totalmente comigo, ou faziam uma parte comigo e defendiam a tese em São Paulo. Acho que o Salzano fez isso. Inclusive o seguinte: o Salzano queria fazer Genética de Microrganismos e eu achei que ele não era bom para isso. Porque ele em laboratório para manipular, não me parecia ideal para ele. Aí sugeri Genética Humana e ele gostou muito, se deu muito bem. Eu estou satisfeito que ele se deu bem! Genética Humana exige muito estudo, matemática e tal, mas não exige muita manipulação, a não ser a determinação do grupo sanguíneo que ele fazia, né?

Questão 07

A formação do grupo de Genética na UFRGS

Historiadora – Como que, nesse meio tempo, ficou o laboratório de vocês, quando o senhor voltou?

Antonio Cordeiro -Aqui em Porto Alegre?

Historiadora – É. Aqui.

Antonio Cordeiro -Não, o laboratório aí já tinha várias pessoas: a Helga (Winge), a Fanny Wolff. Ela não ficou sempre aqui, foi embora depois. Mas tinha a Helga, a Marli Napp, além do Salzano, eram vários! Tínhamos uns dez!

Historiadora – Depois do Direito para onde foi o laboratório?

Antonio Cordeiro – A Universidade construiu lá na Agronomia.

Historiadora – E na Rua Professor Annes Dias?

Antonio Cordeiro – Na Annes Dias tinha também. Nós tivemos algum tempo… Sabe onde é a Reitoria agora?

Historiadora – Sim.

Antonio Cordeiro -Pois nessa rua aí tem uns edifícios que correm por essa avenida e nesse local era a História Natural.

Historiadora – Na Rua Osvaldo Aranha?

Antonio Cordeiro – É. Ali tinha as Ciências Biológicas. Física e química era do outro lado da Redenção, porque era da Faculdade de Filosofia também e ocupava todo aquele espaço. Esse foi o mais durável, até hoje tem uma parte ali, não sei quem ocupa agora, mas passaram uma parte para a Agronomia.

Aqui nós desenvolvemos… Inicialmente tínhamos que ter um grupo, formar um grupo, uma equipe. Então o pessoal se inscrevia para o mestrado e doutorado. Quando eu comecei, logo em seguida convidei o Salzano, junto com ele a Fanny Wolff. Ela ficou vários anos aqui, mas aí, ela é uma moça muito bonita, esbelta e tal e naturalmente ______ foi casar e parou. Acho que ela não fez doutorado, deve ter feito mestrado. Era muito inteligente também.

O Salzano se dedicou muito, foi muito bom. Ele queria fazer Genética de Microrganismo, mas como eu via que ele tinha mais jeito para a parte mais pesada da matemática eu sugeri Genética Humana, mesmo porque ele era filho de médico e ia ser médico, ia para a Medicina. Então eu sugeri e ele aceitou a ideia de se dedicar à Genética Humana que era uma falta aqui, não tinha ninguém, mesmo na Medicina não tinha. Aí então ele concordou com isso e foi para os Estados Unidos com o Neel (James V. Neel) e outros professores e fez Genética Humana. Primeiro fez um doutorado aqui em São Paulo ainda na área de Drosophila, o material, mas depois se dedicou à Genética Humana e muito bem! Ele formou um grupo de Genética Humana e desenvolveu aí.

Questão 08

Drosophila, citogenética e genética de populações

Historiadora – Então havia dois grupos: o de vocês estudando as Drosophilas e o do Professor Salzano? Eram os dois que havia ou tinha mais algum naquela época?

Antonio Cordeiro – Acho que já tinha alguém na Genética Vegetal. Minha memória….

Historiadora – O senhor vai lembrando aos poucos! E nisso a estrutura da faculdade foi se modificando? As cadeiras…

Cordeiro – Bom, a faculdade era antiga _____. Nós só podíamos fazer uma coisa mais limitada à pesquisa, não podíamos influir muito no tipo de ensino, porque só podíamos ensinar Genética. A faculdade tem muitas disciplinas diferentes, muitos cursos. Nós lecionávamos Genética, vários aspectos da Genética.

Historiadora – Quem fazia Genética era o pessoal da Biologia ou também da Medicina?

Antonio Cordeiro -Ah não! No começo éramos só nós. Nem na Medicina tinha Genética. Custou um pouco na Medicina porque os médicos querem que tenham médicos também, né? O Salzano sabe melhor porque ele é que esteve junto. Depois surgiram vários na Medicina. Mas o que nós tínhamos mais, mesmo, era Genética Vegetal e Genética Animal.

Na Genética Animal era praticamente a Drosophila… Não, espera aí um pouquinho: na Genética Animal tinha o professor Grossman, era professor na Agronomia. Era estrangeiro, tinha um laboratorista muito bom e eles faziam então lâminas e essas coisas para ensinar aos alunos.

E eu vim de Genética de Drosophila, né? O que nós fazíamos? Fazíamos caixas de população nesses vidros em que a gente cultiva as Drosophilas e faz os cruzamentos. Eu fiz umas caixas de madeira e embaixo tinha uns buracos com roscas e tinha uns potezinhos com a comida, em cima tinha um vidro. Você tinha então uma população imensa de Drosophilas e você podia fazer um estudo com a frequência de genes ali dentro. Aí você podia botar alimentos diferentes ou temperaturas diferentes e estudar o efeito disso na frequência dos genes. Essencialmente era Genética de Populações em caixas. Isso foi uma invenção americana. Do contrário você teria que coletar na natureza e tal. Ali dentro da caixa nós tínhamos a possibilidade de colocar em temperaturas diferentes e dar alimentos diferentes e estudar a frequência dos genes. Em geral na Genética de População você estuda a frequência de um gene ou dois, ou um cromossoma mesmo. Vai tirando amostras e vai examinando a cromatografia ou a eletroforese que a gente faz.

Eletroforese você sabe como é que é?

Historiadora – Não.

Antonio Cordeiro -Você faz um extrato e põe uma amostra na borda de um papel filtro, depois você pega esse papel e coloca essas amostras num suporte e o solvente que está embaixo sobe, naturalmente. Ou você põe numa caixa cromatográfica – nós fizemos várias, não sei se ainda existem – que aqui em cima tem um tubo em geral de metal, aberto em cima onde você bota o solvente conforme o objetivo, álcool etílico ou outra substância. Aí você esmaga a mosca, faz spots de diferentes moscas, indivíduos de um cruzamento. Aí esse solvente desce e vai dissolvendo e vai deixando spots, manchas, de diversas substâncias, aminoácidos, etc., que foram dissolvidos pelo solvente. Isso é uma cromatografia. Você colore aquilo e tem manchas de aminoácidos ____. Se for para a espécie humana coloca sangue ou saliva e você faz uma análise de cromatografia numa caixa, se faz a análise da composição química que vai depender dos genes. Em última análise, você pode fazer levantamento da frequência de genes da população dessa maneira também. Outra maneira é você esmagar os cromossomas das glândulas salivares das Drosophilas e você bota em um microscópio e estuda, então, inversões e anomalias que tem nos cromossomas. Isso é análise citogenética que você pode fazer de populações.

Historiadora – Esse material essas caixas, vocês fabricavam aqui ou vinha…

Antonio Cordeiro – Não a gente fabricava aqui. São caixas feitas por marceneiros – em cima com uma tampa de vidro e lugar para o papel de filtro que pode ser grande, assim, depende do tipo de trabalho a ser feito.

Historiadora – Bom. Aí foram progredindo nas pesquisas, né?

Antonio Cordeiro – É. Os laboratórios foram melhorando também. Aqui em Porto Alegre nós logo tínhamos todas essas condições. Depois quando eu fui para o Rio de Janeiro eu passei para lá as condições que nós tínhamos aqui.

Questão 09

Fundação Rockefeller e apoio à pesquisa

Historiadora – E a Fundação Rockefeller?

Antonio Cordeiro – Ah sim! Desde o começo, praticamente no segundo dia chegou o professor Harry Miller Júnior. Muito simpático! Ele gostava de se esforçar e falar em português. (risos) Ele falava! Mas era um cara que tinha uma escola, andou anos na Europa pela Fundação Rockefeller, tinha uma experiência grande. Tinha muito prestígio na Fundação. Ele é que mandava para a Fundação os nomes das pessoas, tinham as bolsas né?

Questão 10

Segunda etapa: fundação da Universidade de Brasília

Segunda Etapa da Entrevista (11 de agosto de 2009)

Historiadora – Ainda sobre a Universidade de Brasília…

Antonio Cordeiro -Darci Ribeiro que me convidou, foi na data da fundação.

Historiadora – Na data da fundação da Universidade?

Antonio Cordeiro -De Brasília. Então nós participamos sugerindo o texto do regulamento interno da Universidade, com várias sessões, vários professores de São Paulo, Rio de Janeiro e também do Norte alguns. A gente discutia as propostas do Darci Ribeiro e do pessoal da Universidade que já havia lá. Foi um período muito bom.

Historiadora – Depois, devido à entrada dos militares… Até lá vocês ficaram em Brasília?

Antonio Cordeiro -É. Até lá ficamos em Brasília. Depois que terminamos os trabalhos dessa comissão, foi uma turma que incluía a Helga e vários outros. Eu tenho até as fotografias, tem lá no Departamento de Genética.

Historiadora – Estão expostas em um corredor…

Antonio Cordeiro – É. Aquela onde está a turma numa bancada todos de guarda-pó. Então ali levamos vários anos até que veio de novo… A Universidade foi fechada durante algum tempo, trocaram tudo. Depois que passou isso o pessoal começou a voltar. Foi um período tumultuado!

Questão 11

A trajetória dos laboratórios do Departamento

Historiadora – Imagino! Quando o senhor começou a trabalhar com Genética aqui em Porto Alegre era lá no porão do Direito?

Antonio Cordeiro -Exato! É, da Faculdade de Direito.

Historiadora – Mas pertencia a qual faculdade?

Antonio Cordeiro – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Eu era aluno de História Natural. Depois eu terminei o curso aí me convidaram para ser assistente, então eu fui assistente ainda lá no porão. Tinha o professor Alarich Rudolf Holger Schultz da Botânica e outros. Tinha um da Zoologia e alguns deles eram agrônomos.

Historiadora – Logo depois a Filosofia foi para o prédio do lado da Reitoria, né?

Antonio Cordeiro -Da Reitoria? Ah! Lá o novo! Levou algum tempo, alguns anos. Aí saímos desse porão e fomos para esse prédio. Depois de ficar nesse prédio___ a gente subia chegava aqui nesse grande hospital que tem…

Historiadora – Na Santa Casa?

Antonio Cordeiro -Na Santa Casa. Ali de fronte tinha um edifício na Rua Professor Annes Dias. Lá no décimo quinto andar, nós achamos um andar que podia ser alugado. O Reitor alugou para nós e colocamos a Genética lá. Eles acabaram comprando aquilo. Nós estivemos então, durante um período, a Genética se organizou ali, ficou nesse décimo quinto andar da Annes Dias. Depois tinha até dois andares e foi aumentando o pessoal, o número. Havia facilidade em contratar porque uma vez que não tinha ninguém quase tudo estava vago, né? Ali que nós crescemos.

Historiadora – Então o laboratório foi do Porão do Direito para a Rua Professor Annes dias?

Antonio Cordeiro -Não ele foi para… Ali onde tem a Reitoria. Embaixo, naquele prédio. Ficamos vários anos ali.

Os Reitores eram muito acessíveis naquele tempo.

Historiadora – Era o Eliseu Paglioli, né?

Antonio Cordeiro -Era. O Paglioli foi uma grande ajuda. Era muito democrático, inteligente, tinha visão da coisa. Subimos os morros com ele escolhendo um lugar para fazer a Universidade em um morro desses! (risos) Só que o pessoal achou que ia ser muito dispendioso porque ainda tinha que fazer estradas e coisas assim. Mas foi cogitado isso. Aí acabaram fazendo a Universidade lá na Agronomia.

Questão 12

Trabalho de campo e pesquisa com Drosophila

Historiadora – Como era a rotina de trabalho de campo?

Antonio Cordeiro – Isso nós herdamos do professor Dobzhansky que era um professor da Columbia University. Com ele é que eu iniciei meu doutoramento na Columbia University com uma bolsa da Fundação Rockefeller. Levei dois anos lá e voltei para terminar aqui. O Dobzhansky era russo.

Historiadora – Era russo?

Antonio Cordeiro – Era, Theodosius Dobzhansky. Ele influenciou a Genética no Brasil e em vários outros lugares, principalmente no Brasil. Ele vinha todos os anos e se metia conosco no campo coletando as Drosophilas e fazia de todo o serviço! Nós aprendemos a taxonomia, distinguir as espécies de Drosophilas – você sabe é a mosquinha pequeninha. Eu fiquei especialista nisso. Durante algum tempo eu descrevi espécie e tudo: Drosophila caxiensis e outras Drosophilas dessas. Havia muitas espécies de Drosophilas que ainda não estavam descritas. Tem muitas espécies, são muito semelhantes, mas você consegue ver as diferenças que são constantes e sistemáticas. Todas as Drosophilas descobertas até hoje são úteis para a Genética porque têm um ciclo vital curto de dez, doze dias e produz uma quantidade grande de óvulos de descendentes, então você pode fazer estatísticas e tudo. A Drosophila é um organismo ideal.

Atualmente tem um japonês, C. C. Lee, que tem uma lista enorme de Drosophilas novas, incluindo as nossas espécies, mas o fato é que praticamente tem mais de uma centena de espécies de Drosophilas que são extremamente interessantes para a Genética. Tem proximidade com as outras, você pode fazer filogenia, né? Então a Drosophila realmente ainda constitui um campo de estudo até da taxonomia – o simples fato de você coletar e descrever as espécies que ainda não foram descritas, porque é necessário descrever para que o outro possa identificar.

Esse japones C.C Lee… Qualquer um que esteja trabalhando com Drosophila sabe, é muito conhecido. Ele me mandou separatas, etc., eu tenho aí correspondências com ele.

Então a Drosophila continua sendo… A chamávamos de Cinderela da Genética, extremamente útil porque ela tem um ciclo vital curto e você pode fazer cruzamentos, inclusive alguns cruzamentos entre espécies próximas, o que também é útil. Não serve para descendência, mas serve para saber a proximidade genética delas. E os cromossomas também. Têm nas glândulas salivares das larvas cromossomas gigantes. Os cromossomas a cada vez que se dividem ao invés de se separarem em duas células eles ficam grudados, ficam os chamados politênicos, são cromossomas gigantes. Na verdade ele fica cem vezes ou mais vezes o tamanho do cromossoma quando ele se divide. Na mitose, na divisão celular comum ele é pequenininho, mas ele fica enorme! São os politênicos porque eles têm vários filamentos do cromossoma, na verdade, lado a lado. Então eles não se enrolam quando estão na célula, na mitose, eles estão enrolados, estão concentrados e ficam cem vezes menor que o cromossoma gigante. Você bota no microscópio não precisa botar a lente mais forte, a lente mais comum, 40 vezes, por exemplo, já fica todo ele. Quando ele tem uma inversão, ou seja, quando uma parte do cromossoma está invertido em relação ao outro, chama-se heterozigoto para inversão, a sequencia dos genes está invertida naquele pedaço. Então o que acontece? Eles têm que parear, quer dizer: juntar o cromossoma do macho e da fêmea. Eles se juntam e fazem uma alça, aí você pode ver onde tem inversão. Nos outros, como no cromossoma mitótico, como se diz, quando a célula está fazendo divisão celular comum, você não pode ver isso, eles não se grudam assim. Eles se aproximam e se separam. Aí então nesses cromossomas gigantes que toda a Drosophila tem, todas as espécies têm, você pode ver que uma cruzou com outra e tem uma sequencia diferente.

Aí o Dobzhansky descobriu que quando há um heterozigoto para uma sequencia dessas há um aumento do vigor da variedade ou da linhagem aquela, chama-se heterose. Eles não estão na mesma ordem, são cromossomas originalmente de um indivíduo diferente que sofreu uma mudança da ordem. Você pode ver porque ele faz uma alça para poder ficar pareado. Então ela tem várias vantagens, a Drosophila, ainda hoje é usada no mundo inteiro. Agora se sabe que existem muitas espécies de Drosophilas que podem ser utilizadas, mas na verdade a Drosophila melanogaster e simulans, que são as primeiras e depois as do grupo willistoni, são mais úteis também, a Drosophila pauli-storum, etc., que foram descobertas aqui no Brasil e são as mais usadas. Praticamente tudo que se consegue com a Drosophila melanogaster… No mundo inteiro serviu de padrão porque os cromossomas delas foram examinados detalhadamente e serviram de padrão, as Drosophilas melanogaster e as simulans, para as outras as Drosophilas.

Além dessas que existem na África e em outros lugares existem as do Brasil são do grupo willistoni…

Historiadora – São só do Brasil?

Antonio Cordeiro – São encontradas só no Brasil a willistoni, pauli-storum, equinoxalis, tropicalis, insularis – descobertas em ilhas. Então essas espécies são todas muito estudadas no Brasil. Em todo departamento de Genética mais ou menos desenvolvido tem um laboratório só para a Drosophila porque ela é mais fácil de estudar, já tem a base estabelecida.

Historiadora – Voltando a questão do campo, em quais lugares vocês iam para coletar?

Antonio Cordeiro -Ah! Nós temos que coletar em matos, né? Ou nas proximidades de matos porque em campo aberto tem muito poucas Drosophilas. Inclusive nós descobrimos que de manhã cedo elas se aventuram fora do mato e depois quando vai aquecendo o tempo elas voltam para o mato porque não podem viver num lugar muito seco. Elas não têm capacidade de manter a umidade delas.

Historiadora – No mato elas ficam onde? Nas árvores?

Antonio Cordeiro – Não, ficam ao rés do chão, no chão, comendo frutas que caem. A larva até pode se aproveitar de levedos, que são fermentos como o saccharomyce cerevisiae. Elas comem esses levedos, na verdade elas não comem tanto o fruto, a massa do fruto, para elas interessa os levedos que são altamente proteicos como o champignon que é pura proteína, né? Então elas se nutrem disso e ali mesmo se desenvolvem. Depois de algum tempo, elas param e desenvolvem uma pupa que é uma casaca por cima. Lá dentro elas fazem uma metamorfose, passam do estado larval para o estado adulto e sai lá de dentro uma mosquinha completa com asa e tudo. Aí ela voa e continua o ciclo.

Historiadora – Como se fazia para pegá-las?

Antonio Cordeiro -Nós as pegávamos com redes. Fizemos umas redes, aperfeiçoamos… É uma rede com um funil, lá em baixo nós botamos um tubinho para facilitar, porque quando passamos a rede elas vão cair no fundo da rede nesse tubinho. Aí nós pegamos e passamos para um tubo de alimento. Um tubo onde tem aquele alimento delas. Na verdade com várias farinhas. Pode-se por bananas também, mas é mais usado uma mistura de farinhas que é muito mais fácil de manter, uma banana estraga, né?

Historiadora – Oxida…

Antonio Cordeiro – É. Então são mantidas assim no mundo inteiro, em tubos ou garrafas que embaixo tem aquele meio de cultura que tem agar-agar. Você sabe o que é agar-agar?

Historiadora – Sim.

Antonio Cordeiro -É agar e esses outros componentes com açúcar farinhas ou bananas. É o mais usado.

Historiadora – Essa metodologia foi com o professor Dobzhansky que vocês aprenderam?

Antonio Cordeiro – É ele é que trouxe par cá. Quem o convidou foi o professor André Dreyfus, que é fundador do Departamento de Genética da Universidade de São Paulo. O André Dreyfus que convidou o Pavan para ser assistente deles e outros. Ele sabia escolher, escolheu uns caras que iam funcionar mesmo!

Historiadora – O Pavan era daqui?

Antonio Cordeiro -O Pavan era de São Paulo, Crodowaldo Pavan.

Questão 13

Formação da Genética no Brasil

Historiadora – Quando o senhor começou a trabalhar com Genética quem no Brasil já era referência? Era o Dreyfus…

Antonio Cordeiro -Era o Pavan e o Dreyfus, claro. Então eu escrevi para o Pavan pedindo sugestões e ele me convidou para ir a São Paulo. A Fundação Rockefeller me deu uma bolsa e eu aprendi tudo lá: como cultivar, como cruzar, etc. O Dreyfus estava sempre junto ali para estimular e ensinar. Ele não era drosophilista, ele não entendia de Drosophila, mas entendia de Genética, especialmente Genética Humana. Ele tinha vários assistentes, um deles era o Pavan que criou esse departamento de Drosophila, em última análise. Era um Departamento de Genética, mas só trabalhava com Drosophila praticamente.

Todo mundo foi lá. Todos os geneticistas mais antigos tiveram um período lá, porque foi o Departamento que fundou essa parte de Genética no Brasil.

Historiadora – Mas esse Departamento era de qual universidade?

Antonio Cordeiro – De São Paulo.

Historiadora – Universidade de São Paulo? Pública?

Antonio Cordeiro -É. Ele se instalava na Alameda Glete. Por muitos anos era lá, depois é que se mudou em definitivo para o campus da Universidade.

Essa foi a primeira saída para treinamento. A minha sorte se originou de eu ter escrito uma carta para o Pavan pedindo informações sobre a Drosophila.

Para nós era desconhecida, nós não sabíamos nem o que era isso! Um mosca pequenininha que a gente via que vinha nas frutas, na mesa!

Aí ele me convidou para ir lá. O apoio da Fundação Fundação Rockefeller foi essencial!

Historiadora – Esse apoio se deu em que outros sentidos além dessa bolsa?

Antonio Cordeiro -Deram essa bolsa, deram dinheiro para o Departamento para comprar microscópio e tudo. O governo também dava dinheiro, pagava os nossos salários, etc. Nós achávamos que não deveríamos receber da Fundação o salário, deveria ser do governo. Então ficou assim: o governo dava nosso salário, nós fazíamos uma carreira normal, mestrado, doutorado.

Historiadora – Vocês davam aulas, aí?

Antonio Cordeiro – Dávamos aulas! Com a Drosophila facilitava muito porque você podia mostrar para os alunos a segregação da cor dos olhos, das asas, do tamanho das asas – umas tinham encurtadas, que são as mutantes das Drosophilas – e era fácil mostrar isso para os alunos.

Questão 14

Ensino de Citologia, Genética e Evolução

Historiadora – O senhor, ao mesmo tempo em que fazia as pesquisas enquanto estava aqui no Rio Grande do Sul, já dava aula? Quais as cadeiras que o senhor ministrava?

Antonio Cordeiro -Essencialmente era Citologia, inclusive chamavam de Citogenética porque relacionava os cromossomas com a herança. Também nas estruturas dos cromossomas, etc., é a Citologia básica, né? Então era Citologia, Genética e Evolução.

Em evolução nós dávamos Hardy-Weinbert, a relação de sequencia da segregação mendeliana – quando você que cruza e tem a diferença de um gene ou dois genes você tem uma segregação. Uns descendentes herdam um gene, outros herdam outros, etc., e você tem as proporções mendelianas que é 1-2-1 em relação aos pais. Tudo pode ser demonstrado com a Drosophila, é muito fácil.

Essencialmente é isso, quer dizer: a Drosophila facilitou barbaramente! Você não tendo uma coisa para demonstrar fica difícil! Você demonstrar no milho leva um ano inteiro! (risos) Cruza, tem que esperar que desenvolva, aí faz a fecundação, vai para outra… E às vezes não dá porque não tem verão, chegou o inverno, então não dá para ter a flor, a não ser que tenha estufas.

A Drosophila foi a grande descoberta! Foi descoberta lá na Europa, ainda na Alemanha, na França. O Dobzhansky estava recém se educando, ele ainda não tinha tirado o curso básico quando a Drosophila estava sendo utilizada na Alemanha, na Europa. Aí ele, extremamente ativo e curioso, na Rússia mesmo, conseguiu contato com alguns professores que deram para ele a Drosophila e ele foi para… Stalingrado, que deixou de ser Stalingrado porque quando o Stalin saiu o pessoal que era contra ele [mudou o nome], porque ali era ditadura, né? Dobzhansky estava ali nesse período e teve que sair de lá, porque Stalingrado foi substituída por outra.

Historiadora – Então ele começou a estudar Drosophila lá?

Antonio Cordeiro -Na Rússia! Ele que trouxe essa pesquisa para os Estados Unidos, este tipo de pesquisa, porque já existia conhecimento nos Estados Unidos dos trabalhos com a Drosophila – ela ficou logo conhecida – mas tecnicamente falando eles não sabiam o suficiente para lidar com ela.

O Dobzhansky era um cara super interessado, super ativo! Trabalhava ele mesmo no microscópio, fazia os cruzamentos.

Na Citologia, você tem que tirar as glândulas salivares, fazer o squash que é o esmagamento apropriado com a lamínula em cima e um mata-borrão para pegar o excesso. Você rompe as células e os cromossomas ficam espalhados. Aí você pode conhecer, porque se não está tudo colado, né? Essa técnica ele aprendeu lá ainda na Europa e trouxe para os Estados Unidos quando ele conseguiu uma bolsa de estudos da Fundação Rockefeller, só a Fundação Rockefeller é que tinha isso.

Historiadora – Ele foi para a Columbia?

Antonio Cordeiro -É. Foi para a Columbia.

Historiadora – O senhor falou em participação em congressos, como o do Instituto Butantã, como foi essa ligação da Genética com outras ciências?

Antonio Cordeiro – A Genética é uma ciência bem central porque todos os conhecimentos biológicos dependem da reprodução e da herança. Então tem o fisiologista do rim, do fígado, disso, daquilo, tem o bioquímico, e tal. Mas a Genética tem essa atração: é necessária para todos eles. Porque é a herança daqueles caracteres que eles estão estudando e não sabem se é um gene, dois genes, quantos genes, como é a herança. Então como a Genética trata disso ela acabou sendo a base para todas as outras. É uma coisa básica saber como foi herdado aquilo.

E a Drosophila foi uma descoberta… Uma sorte terem descoberto um organismo no qual você pode ver um cromossoma no estádio gigante! Onde você vê uma inversão, sabe onde foi aquela inversão e tal. Quando tem uma mutação, se faltou um pedacinho, está faltando uma banda lá, quando é letal não nasce certo tipo de segregante, não nasce nos descendentes todos os tipos… Um letal, não nasceu. Então, vai lá e de repente encontra onde está faltando o gene. Não é comum mas pode conseguir.

Questão 15

Intercâmbio científico e revistas especializadas

Historiadora – Havia trabalhos em rede. Vocês descobriam e compartilhavam com os outros?

Antonio Cordeiro -Ah! Sim, constantemente através das publicações. Naquele tempo as revistas Genetics e Heredity recebiam nossos trabalhos e publicavam logo. Não podiam demorar porque na Genética é muito rápido! Porque a Drosophila de dez em dez dias tinha uma geração então em um mês você tinha três resultados ou quatro e podia dizer como era herdado algo novo que foi descoberto. Então a revista tinha que ser rápida também.

Historiadora – E também o intercâmbio de professores, né?

Antonio Cordeiro – É, isto também estimulava o intercâmbio porque também chegou uma época em que começou a haver mais intercâmbio. Antes havia restrições de guerras e de disputas políticas também. Quando diminuiu isso começou a haver mais intercâmbio, mais facilidades.

A Fundação Rockefeller foi uma coisa importante, né? Ela se dedicou praticamente a impulsionar a Genética. Ela impulsionou várias ciências, mas a Genética foi positivo porque ela é necessária para qualquer biologista, fisiologista, anatomista, a explicação de como é herdado aquilo que ele está estudando é importante. Então logo em seguida começou a ser uma ciência central para todos os biologistas. Eles estão fazendo fisiologia do rim, disso, daquilo, mas estão de olho nas descobertas da Genética, na herança de alguma coisa que ele está vendo ali.

Historiadora – Está tudo interligado, né?

Antonio Cordeiro – É.

Questão 16

Academia Brasileira de Ciências e pós-graduação

Historiadora – O senhor disse que foi eleito membro da Academia Brasileira de Ciência. Qual o papel dessa Academia?

Antonio Cordeiro -É como a Academia de Ciência dos Estados Unidos, da França, etc. O modelo veio da França, eu acho. Essencialmente são pessoas que já publicaram alguns trabalhos e que se associaram há anos atrás para fundar essas academias. Porque tem as academias que são mais honoríficas, já as academias de ciência que tem Genética, etc., essas são mais modernas e incluem somente pessoas que estão fazendo pesquisas originais e publicam em revistas. Só aceitam artigos que são originais, que são decorrentes de pesquisa, com provas e contra-provas. Então dessas revistas tem o Genetics, o Heredity e uma revista que se chama Evolution. Para publicar nessas revistas. o artigo passa por uma série de pesquisadores que são os críticos que criticam, às vezes mandam sugestões para melhorar o arquivo, outras vezes recusam e outras vezes aceitam sem sugestão. Quando é publicado nessas revistas já passou pela equipe de críticos. Então quer dizer que os pesquisadores que analisaram concluíram que a técnica foi boa, o problema é interessante e os métodos usados para pesquisar também foram bem aplicados, etc. Então aprovam a publicação do artigo. Quando é publicado os pesquisadores que assinam aquela revista já sabem que aqueles artigos foram selecionados, não tem defeitos graves, visíveis. Assim que, estas revistas representam uma coleção de achados comprovados. Naturalmente tiveram vários outros artigos que antecederam a ele até chegar naquele ponto. Essas revistas são creditadas nesse ambiente. No Brasil uma revista muito boa que alcançou alto nível foi a da Academia Brasileira de Ciência e também… Eu não estou lembrando o título…

Historiadora – Quando começou no Brasil os mestrados, a pós-graduação em si?

Antonio Cordeiro -Eu fui um dos primeiros a fazer mestrado no Brasil. Fiz o curso no exterior, mas quando fui fazer a tese fiz aqui no Brasil. Ela foi submetida à opinião de algumas pessoas de fora, nós mesmos mandávamos para colegas de renome para eles mandarem sugestões e depois mandávamos para o editor.

Historiadora – O senhor morava aqui ainda?

Antonio Cordeiro – Aqui em Porto Alegre. Agora estou de volta a Porto Alegre!

Historiadora – A pós-graduação surge junto com a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)?

Antonio Cordeiro -A Capes estimulou, mas o Conselho Nacional de Pesquisa já existia antes.

Historiadora – Conselho Nacional de Pesquisa?

Antonio Cordeiro -É o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Existia a Academia Brasileira de Ciência. Só que a Academia Brasileira de Ciência não se dedicou muito a Genética, é mais antiga, né? Física, Química, Matemática, é mais comum lá na Academia de Ciência, mas tinha de vez em quando algum artigo da Genética porque quando a Academia não tinha no seu elenco geneticistas era difícil de analisar para aceitar ou não o artigo. Então é preferível mandar para uma outra em que tenha geneticistas, etc. Logo que fundaram a Academia Brasileira de Genética veio a ideia de termos revistas de Genética, mas não foi fácil porque é preciso ter bastante gente e recursos. E o pessoal por tradição preferia mandar para a Genetics ou para a Heredity, etc., que já estavam conceituadas.

Questão 17

Sociedade Brasileira de Genética e legado regional

Historiadora – As pesquisas de Genética no Rio Grande do Sul, elas acontecem na Universidade Federal? Teve alguma outra faculdade, universidade do estado?

Antonio Cordeiro -Custou bastante para sair desse círculo ali, porque realmente não tinha muita gente. Então a Genética ficou muito restrita. Há o Departamento de Genética e há os afilhados do Departamento que eram alguns pesquisadores que trabalhavam na PUC, Pontifícia Universidade Católica, e que faziam bons trabalhos. Em geral nós recebíamos artigos para seleção ou já tínhamos participado em discussões, etc. Porque nós fazíamos reuniões aqui, congressos locais da Sociedade Brasileira de Genética e aí se discutia os trabalhos antes da publicação. Quando o autor achava na hora de publicar ele escrevia e ainda discutia-se de novo internamente antes de mandar para a revista.

Historiadora – Quando o senhor entrou na Genética a Sociedade Brasileira de Genética já existia?

Antonio Cordeiro – Praticamente não existia. Em grande parte foi fundada justamente pelo Pavan, esse pessoal todo, o Frota-Pessoa que é da Genética Humana. O Pavan é quem adotou as Drosophilas, então foi mais fácil para ele, Pavan.

Historiadora – O senhor que esteve em outros estados, como podemos qualificar, falar da Genética no Rio Grande do Sul. Tem um diferencial em relação aos outros estados?

Antonio Cordeiro -Bom, aqui no Rio Grande do Sul – o principal – foi muito bem acolhida a Sociedade Brasileira de Genética, SBG, e havia mais congressos aqui do que mais lá para o Norte. Talvez também porque o Rio Grande do Sul se interessava muito… O pessoal que criava gado, por exemplo, se interessou muito por Genética. Eles sabiam que a qualidade do gado dependia da Genética. Então vários trabalhos foram feitos e foram publicados na Revista Brasileira de Genética, não só de Drosophila, mas de gado também, era Genética de Animais de Corte.

Historiadora – Havia alguma espécie de contato com os fazendeiros, inclusive em termos de patrocínio?

Antonio Cordeiro – Não, o contato era que eles se interessavam por herança, esse tipo de coisa. Viam as publicações de Genética e eles mesmos se aproximavam. É que o animal que não seja Drosophila é muito mais difícil de lidar. A Drosophila facilitou pela facilidade de reprodução e tal. O gado além dos característicos serem muito mais complexos você não tem um estudo detalhado dos cromossomas, são muito mais cromossomas que as Drosophilas e não é fácil passar de um para o outro, mesmo porque a pessoa tem que conhecer aquele animal. Pra conhecer a Genética tem que conhecer a fisiologia também, né? Tem que saber se um característico é simples ou não… Característicos muito complexos dependem de muitos genes para aparecer. Então a Drosophila se tornou mais fácil.

Historiadora – Eu ouvi falar que tem estudos de pastagens.

Antonio Cordeiro -Ah sim, é Genética de Pastagens, teve vários professores interessados em pastagens. É, isso foi importante. Não lembro quem foram os principais, mas eu devo ter tido contato com eles.

1 Segunda etapa da entrevista dia 11 de agosto de 2009.

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