Acervo de História Oral • PPGBM / UFRGS Citogenética & Vegetal

Margarete Suñé Mattevi

Professora Titular & Pesquisadora

Margarete Suñé Mattevi
Citogenética & Vegetal
“A citogenética revelou a plasticidade e os mistérios da evolução cromossômica dos mamíferos neotropicais.”
Registro Histórico de Depoimento

Margarete Suñé Mattevi

Referência nacional em citogenética de mamíferos, evolução cromossômica e diagnóstico citogenético humano, formando gerações de pesquisadores de ponta.

Referência Bibliográfica (ABNT)
MATTEVI, Margarete Suñe. Memórias – Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular. Depoimento concedido em sua residência à historiadora Naida Menezes.
Registro Sonoro Histórico Ouça a Entrevista em Áudio (Voz Original)
Áudio MP3
~43 min Tempo de Leitura
18 Perguntas Transcrição Completa
Porto Alegre, 26 de agosto de 2009. Local & Realização
Transcrição Integral

Depoimento de Margarete Suñé Mattevi

Registro fidedigno da entrevista oral gravada para a memória e história do PPGBM / UFRGS.

Questão 01

Juventude, formação e escolha pela Biologia

Historiadora – Margarete nos conta sobre a tua juventude, os teus estudos, como te encaminhaste para a Genética?

Margarete Mattevi – Eu sou do interior, como te disse. Vim fazer a faculdade em Porto Alegre, aliás, fiz o último ano do segundo grau, que era o científico, aqui em Porto Alegre para me preparar para o vestibular. Achei que teria dificuldades saindo direto do interior para tentar entrar na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Fiz o último ano e entrei na UFRGS.

Eu sabia que eu queria ser bióloga… Essa noção eu tenho desde os 14 anos, na adolescência, eu lembro bem. Eu estava bem definida, meu pai queria que eu fosse odontóloga porque tinha outros médicos na família e ele queria um de cada ramo. Mas eu queria decididamente Biologia.

Quando eu entrei na Biologia, eu conheci a Genética, porque naquele tempo se estudava muito pouquinho no segundo grau. Logo eu senti que era aquilo que eu queria fazer, não queria ficar só dando aula, eu queria ir para a pesquisa. Foi um ramo muito forte dentro da Universidade, foi a Física e a Genética naquela época – eu entrei como estudante em 1963.

Questão 02

Bolsa de pesquisa e início da carreira docente

Eu estava no último ano da faculdade, corresponderia como se fosse uma bolsa de iniciação científica. Só que naquela época o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) nem tinha esse programa – acho que estava sendo fundado, não lembro bem, mas o CNPq é do início dos anos 60. Então o meu orientador, o Doutor Salzano, ele tinha um convênio com os Estados Unidos, com o NIH, aquele serviço de saúde pública americano, que seria o nosso Ministério da Saúde aqui. A sigla é NIH, National Institute of Health. Ele teve durante muitos anos um convênio com eles, com um professor de lá. Ele recebia verba para contratar estudantes aqui, então eu recebi uma bolsa através desse convênio, uma bolsa dos gringos, digamos assim! Recebia em reais… Naquela época eu não lembro em que moeda era, certamente não era real, não lembro mais, sinceramente, trocaram tanto! Eu só lembro perfeitamente do valor do meu primeiro salário, mas a bolsa não era muito diferente do meu primeiro salário.

Então eu fiquei como bolsista e quando eu me formei, logo no ano seguinte, eu tentei entrar na Universidade e tal. Mas havia vários outros bolsistas mais antigos que eu dentro do Departamento. Eu sabia que não tinha nem currículo para competir em concurso com eles, só que eu tinha aquela meta. Mas deu uma coincidência daquelas da vida, assim, que… A UnB (Universidade Federal de Brasília) tinha recém sido fundada e eles queriam fundar a Biologia e a Pós-Graduação e convidaram o Professor Cordeiro. Ele foi para lá com a mulher dele, naquela época ele era casado com a Professora Helga Winge, e levou uma série de bolsistas antigos – que depois até vieram a ser professores da Universidade – junto com ele para a UnB. Naquele meio tempo, deu aquele hiato praticamente, a UFRGS perdeu professores porque a professora Helga era contratada, professores que foram para lá e ao mesmo tempo bolsistas mais antigos. Então eu me candidatei e consegui entrar. Na verdade, eu tinha 22 anos quando comecei a lecionar na Universidade e logo em seguida eu fui contratada. Lembro perfeitamente, foi no dia primeiro de abril de 1964, dia dos bobos! Guardei essa data do meu contrato. Então em agosto eu já estava dando aula. Comecei naquele primeiro semestre dando as aulas práticas junto com o professor Edmundo Kanan Marques que depois foi pró-Reitor da UFRGS durante muito tempo e foi um dos fundadores da FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul). Atualmente ele está de pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação na ULBRA (Universidade Luterana do Brasil). Foi daí que ele levou um grupo de professores, por isso estou trabalhando lá, agora. Comecei então a trabalhar junto com ele e conservo esta amizade desde aquela época, faz mais de quarenta anos, quase cinquenta anos vai fazer!

Em seguida, já no ano seguinte, eu peguei uma disciplina, me lembro que foi Genética teórica – porque tinha a teórica e a prática. Aí comecei a lecionar.

Questão 03

Citogenética e a formação científica

Já havia os programas de doutorado e abriu o programa de mestrado, nesse meio tempo a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) foi fundada… Veja quantos anos faz! Aí eu estava fazendo o doutorado, naquela época eu trabalhava com Genética Humana, com orientação do Salzano, com cromossomos nessa parte mais citológica – a especialização mesmo se chama Citogenética que é a soma da Citologia, o conhecimento da Citologia, com a Genética. Em 1968, eu fazia esse meu projeto de doutorado com a colaboração de um pesquisador aqui de Porto Alegre, um médico. Ele fazia a parte clínica e eu estudava uma síndrome que causava uma série de más formações nas pessoas. Eu fazia a parte Genética. Essa síndrome tinha uma causa, as pessoas tinham um cromossomo a menos. Ao invés de ter 46 como todos nós temos, essas pessoas, eram mulheres que perdiam um dos cromossomos X. Então recém naquela época estavam descobrindo que havia doenças genéticas que não eram só de genes mas sim de cromossomos inteiros. A técnica havia sido desenvolvida recentemente e os primeiros casos foram descritos no mundo inteiro a partir de 1961, 1962. Era parte da tecnologia de ponta como se fosse a Biologia Molecular de hoje, digamos.

Então eu fui para São Paulo, para Buenos Aires, fazer estágio e aprender esta tecnologia. Montei aqui no Departamento e comecei a fazer o meu doutorado. Aí deu a coincidência de vir um inglês, um pesquisador inglês dar um curso aqui em Porto Alegre – o Departamento tinha convênio com vários centros estrangeiros – era de Oxford, com vários livros e muito importante na área. Ele apresentou várias aplicações da técnica que eu fazia para outros organismos. Eu fiz esse curso de três meses com ele que ficou muito entusiasmado para que eu trabalhasse nessa área e tal. Aí eu falei com meu orientador e disse que ia trocar de projeto. Como meu orientador não trabalhava com outros organismos a não ser Genética Humana, eu quis fazer ainda em Genética Humana para ficar com a orientação dele, uma pessoa que até hoje temos uma amizade enorme, Salzano e eu. Então eu fiz com envelhecimento sob o ponto de vista genômico celular, sobre o que o envelhecimento causava nas células, porque naquele tempo não se sabia, isso foi antes da década de 1970. Comecei um doutorado novo, mas os dados (da antiga pesquisa) ficaram lá parados.

Aí foi criado o mestrado da Capes. Eu estava com os dados (antigos) engavetados fazendo o doutorado. Aí eu cheguei para o meu orientador e pedi:

– Eu vou pegar aqueles dados e fazer um mestrado – o meu orientador, principalmente naquela época o Salzano era muito rotineiro.

– Ah! De jeito nenhum! Atrapalhar o doutorado!

– Tu me dás um mês, só um mês – eu já tinha os dados, tava tudo pronto.

– Um mês e nem mais um dia tu paras com o teu doutorado.

Eu lembro que era um mês de fevereiro, do ano 1970. E realmente aí eu toquei! Naquele tempo não tinha computador, eu lembro que juntei o meu salário e comprei uma Letter – era como se fosse, assim, o máximo de tecnologia! Eu sou canhota, tenho uma letra horrível, demorava para ele ler o que eu tinha escrito e tal.

Questão 04

Kenneth R. Lewis e a primeira dissertação de mestrado

Historiadora – Era uma máquina?

Margarete Mattevi – Uma máquina elétrica, primeira máquina elétrica portátil. Por enquanto ela está como velha, está no limiar entre o velho e o antigo.

Historiadora – Só um detalhe, quem era o professor que veio de Oxford?

Margarete Mattevi – Professor Kenneth R. Lewis. Eu sempre mantive contato com ele. Veio outras vezes a Porto Alegre e tal.

Questão 05

Doutorado, maternidade e conclusão da formação

Aí eu fiz. Naquele mês eu entreguei e foi o primeiro mestrado do Curso de Pós-Graduação em Genética. Inclusive nos trinta ou quarenta anos eu ganhei uma plaquinha. Eu nem lembrava que o meu era o primeiro. Ou quando fez o mestrado 100 ou 200, nem lembro mais.

Aí voltei para o doutorado, em 1974 terminei o doutorado. Aí eu casei e tive minha primeira filha. Lembro que quando ela estava por nascer, nasceu em janeiro de 1974, já em 1973 eu estava com a tese pronta. Mas naquele tempo os preconceitos eram muitos, né? Eu não quis defender porque achei que era uma apelação defender com aquela barriga, que iam ficar com pena – bobajada! Meu orientador ficou indignado e eu: “Não”!

Aí eu deixei a tese entregue na comissão de Pós-Graduação, a nenê nasceu, tive a licença maternidade e tal. Em agosto do ano seguinte eu defendi o doutorado.

Questão 06

Da Genética Humana à Genética Animal

Depois que eu fiz aquele curso e também tinha vindo um americano aqui, o Muller que era um pesquisador muito de ponta, trabalhava com anfíbios, queria que eu fosse para lá, para os Estados Unidos. Queria que eu largasse o doutorado aqui e fosse fazer lá com ele, mas eu disse: “Não, agora eu termino isso”.

Eu tomei a decisão de sair da Genética Humana e trabalhar com a Genética Animal. Ficou muito claro para mim, principalmente naquela época, que para nós do Terceiro Mundo é difícil fazer uma ciência reconhecida no Primeiro Mundo. Normalmente na área de Biologia ou ela é importante porque você está apresentando uma tecnologia inovadora, ou ela é importante porque você tem um modelo biológico original. Então eu comecei a ver muitas dificuldades em trabalhar com a Genética.

Tecnologia humana inovadora, no Terceiro Mundo, por melhor que você esteja, você está excelente quando consegue reproduzir as técnicas do Primeiro Mundo. Não é por capacidade nem por falta de informação é porque nunca teve dinheiro para ter o equipamento adequado, para você levantar um telefone, como é no exterior, pedir e no outro dia está no teu laboratório. Você pede uma importação espera dois três meses e tal. Muito complicada essa parte experimental.

Modelos biológicos nós tínhamos todos eles estudados, praticamente. O pessoal do exterior vinha aqui coletar amostras e tal. Então eu fiz uma virada na minha carreira científica e passei a trabalhar com Genética Animal. Desde essa época, lá pelos finais da década de 1970, início dos anos 80, desde aí eu trabalho com pequenos mamíferos de nossa fauna. O Salzano ficou muito chateado porque eu deixei a Genética Humana, mas… E hoje eu tenho uma filha que faz Genética, muito engraçado, o mundo dá muitas voltas, né? Mas eu nunca me arrependi, sempre gostei muito dessa parte de biodiversidade. Na verdade eu vejo que era essa a Biologia que imaginava quando eu era adolescente! Aquela Genética que eu fazia, que sempre me especializei, era a Genética que eu não quis fazer, era a Genética Médica. Eu não queria esse lado da profissão. Foi realmente uma escolha que eu não me arrependi.

Questão 07

Aposentadoria, UFRGS e experiência na ULBRA

Eu fui me aposentar sete anos depois que eu já tinha direito. Quando entrei na UFRGS, eu tinha dezessete para dezoito anos e nunca mais saí de lá, né? Então foi uma instituição em que eu vesti a camiseta por toda a minha vida, mas quando chegou 1995, eu tive que me aposentar. Foi aquela época em que o governo do Fernando Henrique começou a retirar vários direitos que a gente tinha ao longo da carreira, nem me lembro direito o que era, mas fiquei muito indignada e disse: “Não é possível! Vou me aposentar”! Aí eu me aposentei, mas eu sempre fui bolsista do CNPq, então eu continuei trabalhando lá na UFRGS como orientadora e professora da Pós-Graduação até 2004 ou 2005.

Em 2001 o professor Edmundo Kanan Marques, que havia sido pró-Reitor da UFRGS, foi levado para a ULBRA, dois anos antes de eu ir para lá. A ULBRA se viu obrigada a fundar uma Pós-Graduação forte, porque tu sabes que para ser universidade os institutos e faculdades precisam ter graduação e pós-graduação. Essa foi uma lei que entrou pela Capes nessa época. Essas universidades particulares ou investiam em Pós-Graduação ou perdiam o título de universidades – com exceção da PUC que tem uma tradição antiga de pesquisa e Pós-Graduação. Nesse ponto a ULBRA foi bem inteligente e o Reitor também. Ele pode ter os defeitos que tem, mas sem dúvida, burro ele nunca foi. Ele era uma pessoa que tinha muita experiência nessa área e, principalmente, era uma pessoa de muita credibilidade. Então ele levou um grupo enorme de pesquisadores da UFRGS de vários campos, da Física e tal. O pessoal que tinha se aposentado relativamente jovem, digamos assim, que ainda estava com um potencial de trabalho… Mas lembro que quando eu recebi esse convite – e assim já termino esse perfil todo – eu estava orientando quatro doutorados na UFRGS. Então eu falei lá para o pessoal da Pós-Graduação que eu ia terminar aquele compromisso. Ficaria lá até entregar a última… Foi o que eu fiz. O pessoal até queria que eu continuasse, mas quando eu entreguei o último a minha família fez uma pressão, porque eu comecei a ficar muito cansada. Canoas e Viamão, essas estradas são… E as atividades na ULBRA de orientação começaram a aumentar muito, aí eu me desvinculei mesmo da UFRGS e fiquei só com a ULBRA.

Questão 08

Família, universidade e continuidade entre gerações

Eu tenho uma filha, a minha filha mais velha… Tenho duas filhas, uma é bioquímica e a outra é psiquiatra. Muitíssimas vezes eu as levei para trabalhar, entre aspas, comigo. Naquela época o sistema de escolinhas… Até que na creche da UFRGS elas foram frequentadoras, mas a gente não tinha muita estrutura. Eu trabalhava em horário integral, toda a vida trabalhei, e não tenho família aqui, então realmente elas foram muito criadas ali. Numa ocasião, ela tinha seis, sete anos e foi comigo de manhã para o meu trabalho. De tarde eu a deixei com a irmã em casa. Quando eu voltei para a minha mesa ela tinha feito um cartaz desse tamanho e tinha posto assim: “Ninguém sente aqui neste lugar da minha mãe porque será meu e da Vanessa”. Coisa mais engraçada, coisa de criança, que eu guardei durante muitos anos. Meus colegas brincaram: “Olha só”.

Todos os nossos filhos, naquela época em que éramos colegas, eram todos meio sobrinhos porque eu passava aperto e as outras mães também, né?

Passaram-se os anos, ela fez bioquímica e começou uma greve na Universidade – os professores faziam greve por meses! Ela tinha entrado na faculdade e começou em greve. Foi muito bem no vestibular, tirou o primeiro lugar e depois parou, não tinha o que fazer. Tiveram acho que quinze, vinte dias de aula e foram meses aquilo. Um dia eu disse para ela: “Não! Pelo amor de Deus! Tu vais lá para o meu laboratório – o meu técnico tinha saído – vais preparar soluções. Tu vais fazer bioquímica, já tens que ir tocando, aprendendo isso”. Ela entrou, foi para lá. Uma orientadora da Genética veio ver se ela não queria ter uma bolsa de iniciação científica com essa orientadora – a doutora Mara que é uma professora aposentada que está lá. Ela começou a carreira acadêmica ali. Em seguida se formou, foi direto para o mestrado e para o doutorado. Hoje ela é professora na Fundação de Biologia Molecular, mas ela faz Genética. Coisa mais engraçada, o mundo deu muita volta! Aí um dia uma outra colega minha disse: “Tu não te lembras daquele cartaz da tua filha, o que tu fizeste dele”? Aí que eu lembrei. Fui procurar e tinha guardado. Essa filha, nasceu a nenê dela, está em licença.

Acho que é isso aí, Naida. Não sei se tens alguma coisa do Curso ou do departamento…

Questão 09

A Faculdade de Filosofia e a Reforma Universitária

Historiadora – Pois é… Quando tu entraste na Biologia, como aluna, ele fazia parte do Instituto de Filosofia?

Margarete Mattevi – Fazia parte da Faculdade de Filosofia.

Historiadora – Onde eram as aulas?

Margarete Mattevi – Eram ali num prédio que é pegado à Reitoria, que tem um prédio transversal, assim, em direção à rua, e tem um prédio da década de 50 pegado à Reitoria – nem sei o que é lá hoje. Esse prédio em forma de L era a faculdade de Filosofia, com todos os cursos, a própria Filosofia, a parte de educação e as ciências básicas. Naquela época eram cursos da Filosofia como se fosse um PhD mesmo. Era Física, Matemática, Química e Biologia. Eram as ciências Hard. Tanto que no último ano a gente não tinha disciplina da área de concentração, só tinha didática, era muito engraçado!

Essa estrutura foi até a década de 1970 quando teve uma ampla reforma universitária. A Faculdade de Filosofia até hoje existe, mas foram criados institutos básicos com vários cursos de graduação vinculados. Então existia o Instituto de Biologia com vários cursos. Ah! O curso de graduação naquela época era História Natural, que aí trocou o nome. Nós tínhamos cadeiras da Geologia, era ainda misturada alguma coisa. Aí se criou o Instituto de Geologia, o Instituto de Biociência, com seu curso básico vinculado que era o curso de Biologia e com vários departamentos. Foi quando surgiram os departamentos que estavam vinculados a essa reforma universitária. Foi uma revolução extremamente grande.

Eu lembro que, por exemplo, eu era uma professora da Biologia quando comecei a lecionar e com esta reforma universitária – não sei como está hoje na UFRGS, eu estou afastada da graduação desde 1995, faz mais de dez anos – as disciplinas que estavam dentro daquele Instituto eram atendidas pelos professores do Instituto para todos os alunos da Universidade. Então, por exemplo, eu passei anos com Genética na Medicina, Genética na Agronomia. A gente ia fazendo rodízios… Na Odonto, na Enfermagem, na Veterinária, na própria Biologia. Eu lecionei quarenta anos praticamente, né? Então eu fui passando por vários… Principalmente porque eu era uma professora mais antiga, experiente. Quando iam fazer uma disciplina nova, me colocavam. Aí eu dava dois, três anos e entrava uma pessoa mais nova. Então houve essa desvinculação. Foi uma reforma bem interessante que permitiu uma integração muito grande dentro da Universidade, né?

Questão 10

Os primeiros laboratórios e a formação do Departamento

Historiadora – E o laboratório…

Margarete Mattevi – O laboratório! Foi muito interessante: o laboratório da Genética foi o Cordeiro quem fundou. O primeiro laboratório diz que ele fundou no porão da Faculdade de Direito. Tem até as fotografias que eu já dei para o Claiton da festa dos quarenta anos em que fiz um apanhado. Quis fazer uma coisa mais ilustrativa, coloquei o máximo de fotos possíveis e depois dei para ele, fotos que recolhi com vários professores e depois escaneei e tal. Eu não estava na faculdade nessa época (do laboratório no porão), eu entrei em 1960, praticamente cinquenta anos atrás, né? Ele já tinha formado um laboratório de Drosophila, as mosquinhas da fruta, nesse Instituto de História Natural, que era vinculado a Faculdade de Filosofia. Ele convidou três professores para trabalhar com ele: professor Tondo, Casemiro Tondo, que é biofísico, o professor Flavio Lewgoy que é químico – há muitos anos se desvincularam do Departamento, mas eu os conheci muito bem, ficamos dez ou mais anos trabalhando juntos – e o professor Salzano que era biólogo. O Cordeiro fez um convênio com a USP e o Salzano foi fazer Biologia de Drosophila e Genética de Drosophila vinculado com a USP, não me lembro muito bem, mas acho que ele desenvolveu parte da tese junto com o pessoal do Dr. Pavan, que morreu recentemente.

Depois disso, o Salzano foi para os Estados Unidos, fez especialização em Genética e fundou a Genética Humana aqui na antiga Faculdade de Filosofia. Era Secção de Genética, agora estou lembrando do termo – eu até tinha uns carimbos com aquilo.

Quando eu entrei na faculdade ele funcionava ali (prédio ao lado da Reitoria), mas estava muito apertado porque havia a Botânica, Zoologia, Embriologia, vários outros laboratórios. A Genética em seguida começou a crescer muito. O Cordeiro então, naquela época o Reitor era o Eliseu Paglioli – o meu primeiro contrato está assinado com o nome dele, a minha primeira carteira, porque já estou na segunda – conseguiu que ele nos desse dois andares inteiros ali na frente da Santa Casa, naquele edifício que parece um bolo. Ele tem um recorte muito interessante.

Historiadora – Um bolo?

Margarete Mattevi – É parece uma fatia de bolo, se olhar de cima é igualzinho!

Então ficou um andar para a Genética Humana que era o Salzano e seus associados e um andar para a Drosophila. Depois com o tempo, começou a crescer muito ainda e conseguiram que a Universidade alugasse um terceiro andar em que se fazia Genética Vegetal e tal. Essa mudança ocorreu exatamente quando eu era estudante, eu sei por causa da minha ideia de trabalhar lá.

Em certa ocasião – até hoje é assim – a gente se destacava como aluna em classe. A Genética não era das primeiras disciplinas, então se querias fazer Genética tu esperavas um pouco. Eu entrei na Genética, tinha sido aluna do professor Cordeiro – tinha a primeira disciplina que era Genética básica – que me convidou para trabalhar com ele. Eu disse para ele – lembro tão bem, uma atitude infantil, eu tinha vinte anos eu acho e tanto, me arrependi tanto que aquilo lembro até hoje – eu disse assim: “Ah! Não”! Porque assim: a tecnologia com a Drosophila tu tens que separar machos e fêmeas para poder realizar os cruzamentos. Até hoje a base é esta: cruzamentos experimentais para depois tu fazeres todos os… Então como eles faziam? Eles eterizavam, como chamavam. Botavam as Drosophilas dentro de uns vidros com um pouquinho de algodão com éter e elas ficavam meio anestesiadas. Colocavam as Drosophilas todas com a bundinha assim, virada, com a lupa, e ficavam separando com um pincel. Olhavam a genitália, se era macho ou fêmea. Eu achava aquele trabalho horrível! A coisa mais decepcionante! Eu não imaginava que ciência fosse aquilo… E toda a ciência é assim! Eu disse: “Ah! Não! Passar o resto da minha vida olhando bundinha de Drosophila? Não mesmo”! Ele ficou numa mágoa porque eu disse isso!

Passou-se todo aquele semestre, isso foi no primeiro semestre, e eu já estava para ir para a didática, terminar meu curso e nada! Eu queria ir para a Genética Humana, mas eu não me animava me oferecer para o Salzano, eu queria ser convidada e nada de convite! Até que, graças a Deus, no último mês do semestre… Eu disse: “Bom, se ele não me convidar vou ter que ir bater na porta dele”. Aí ele me convidou, mandou me chamar porque tinha surgido uma vaga com essa bolsa, aí fui fazer Genética Humana, que era o que eu queria.

Questão 11

Expansão da Genética e mudança para o Campus do Vale

Nesse meio tempo, nesse ano – entrei lá no final do ano – o laboratório mudou-se para frente da Santa Casa e ali as instalações eram muito melhores! Eu tenho até fotos, um dia, depois eu até posso olhar. Recentemente nos mudamos e muita coisa eu me desfiz porque vim para um apartamento muito menor, mas eu posso olhar.

Ali o Salzano expandiu loucamente! Logo em seguida o Cordeiro e seu grupo foram para Brasília. Quem ficou de chefe do Laboratório de Drosophila foi o professor Edmundo Kanan Marques – está na ULBRA agora – que era um estudante, recém tinha sido o doutorado dele, mas que já era professor da UFRGS e não quis ir para Brasília porque ele já tinha emprego aqui e tinha casado com uma bióloga também e tal. Então passamos muitíssimos anos lá. Só que depois ficou tão grande! Eu me doutorei, aí já tinha os meus orientados e ficou uma coisa meio geométrica o crescimento. Aí nós conseguimos uma verba com a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), já tinha o Instituto, o Departamento já era um departamento hors concours no Brasil… Porque a FINEP não fazia isso, não financiava obras, mas ela abriu uma exceção e construiu aquele prédio do Campus do Vale especialmente para o Departamento.

Eu fiz toda aquela planta! Ia passando depois os esboços para os arquitetos do Campus: “Esse laboratório vem aqui, o outro vai ali”. Fizemos tudo, conseguimos. Acho que eu era coordenadora do Curso de Pós-Graduação naquela época e o chefe de departamento acho que era a professora Mara… Bom, em resumo: a FINEP financiou e em dois ou três anos aquela… Isso deve fazer, a mudança para lá, uns quinze, vinte anos, lembro bem, lá para o Campus do Vale. E agora, mais recentemente, eu já estava praticamente saindo da UFRGS quando se conseguiu mais um prédio, aquele prédio de trás. O Departamento diminuiu muito de tamanho, houve muito pouca reposição – por políticas universitárias. Ficou um terço menor do que ele já foi, até está sobrando espaço.

O meu laboratório que eu fundei lá, que deixei totalmente funcionando, enorme, um ex-aluno meu que fez doutorado comigo, o professor Thales (Freitas), trabalha nele agora e gerencia lá essa parte de Genética de Animais e Vertebrados.

Questão 12

Planejamento do prédio e atendimento em Genética Humana

Historiadora – Deve ter sido interessante poder pensar na estrutura do prédio…

Margarete Mattevi – Aconteceu uma coisa engraçadíssima com esse projeto! Foi muito pensado, tivemos várias reuniões. Tínhamos por meta, por exemplo, fazer os laboratórios que atendiam a Genética Humana no andar de baixo porque atendia muito público.

Durante muitos anos vários diagnósticos genéticos eram feitos lá no departamento. Eu mesmo fiz quantidades! Isso foi um motivo para eu querer deixar, porque eu só atendia crianças sindrômicas, crianças doentes, crianças com Down, e realmente eu não queria fazer essa parte de genética, eu não quis fazer Medicina. Eu queria mais era fazer uma Biologia de biólogo caçador de borboletas! Então foi um dos motivos que me fez trocar depois quando eu fiz meu doutorado. Durante o meu doutorado nós tínhamos um serviço de extensão enorme!

Então fizemos um projeto… Qual era o laboratório que atendia mais pessoas, mais demanda de público, para deixar tudo o que precisava: um gabinete fotográfico associado, precisa de uma câmara fria associada e assim foi. Montamos o projeto todo e demos para eles. Sabe o que aconteceu? Os arquitetos interpretaram as plantas com um giro de 180 graus, então onde a gente imaginou que seria a entrada do departamento ficou os fundos. Foi muito engraçado! Ficou tudo igualzinho, mas só que ao contrário, exatamente ao contrário.

Historiadora – Ficou assim?

Margarete Mattevi – Não tinha o que fazer. Eu não sei se a chefe do Departamento não se apercebeu quando começou a levantar os tijolos, porque era difícil a gente ver, eram tantas salas. Quando vimos já estava assim, mas funcionou depois.

Questão 13

Saídas de campo, biodiversidade e formação de pesquisadores

Historiadora – E as saídas de campo? E as primeiras pesquisas?

Margarete Mattevi – No meu tempo de estudante – isso eu lembro com prazer – havia como sistemática todos os sábados nós sairmos para campo com grandes professores. Naquela época o professor Schultz da Botânica, que foi uma figura científica – eu fui aluna dele – nacional e internacional. Com professores de Zoologia, Paleontologia, o professor Iraja Damiani Pinto, protótipos da Universidade. Era muito agradável! A Universidade oferecia ônibus, ela tinha ônibus próprio em que nós íamos. No final do ano fazíamos uma excursão de quinze dias. Era nos últimos quinze dias de novembro ou os primeiros quinze dias de dezembro. Então nós íamos para as praias, Torres, Morros dos Conventos, depois entrávamos para a zona de fósseis. Era de um proveito extremo, porque tinha o professor de Botânica junto. Uma pena que não existe mais esse esquema. Imagina uma juventude toda acampando por quinze dias! Os professores conseguiam aquele Hotel Farol em Torres. Era um hotel grã-fino – quando eu era jovenzinha era chique veranear em Torres e tal. Atlântida, essas coisas, nem existiam! E aí, Naida, havia o anexo desse hotel que emprestavam para os professores da UFRGS e nós tomávamos café da manhã lá no refeitório do hotel e depois íamos dormir todos no anexo que era a quase duas quadras ali do centro de Torres. Era muito agradável! Na volta fazíamos uma festa, um churrasco para comemorar, então era muito bom! Eu acho que hoje ainda tem. Tenho um sobrinho-neto que está no primeiro ano da Biologia da UFRGS, então eu estou revivendo, acompanhando com ele. Então eu vejo que, por exemplo, acampamento de fins de semana eles fazem ainda.

Eu comecei a fazer obtenção do material de campo para minhas análises de Genética quando fui orientadora de um professor que hoje é chefe do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Era aluno do Departamento de Zoologia, ele tinha paixão por Zoologia de mamíferos, o Dr. Flamarion Barbosa de Oliveira. Esse é o legítimo estereotipo do naturalista. Onde ele andava, andava coletando, então vivia com a mesa dele cheia de ossinhos e materiais empalhadinhos, taxidermizados, crânios de pequenos mamíferos, e tal. Uma vez ele trouxe para o Departamento de Zoologia um zurrilho. Nem sei se foi empalhado, mas teve uns caras que ficaram indignados e colocaram o guri para a rua! E ele era muito amigo de um outro bolsista meu, saíam para fazer coleta juntos, estavam fazendo tese comigo, e ele disse: “Tu não imaginas o que aconteceu! Tu acreditas que o Flamarion perdeu a bolsa dele? Botaram ele para a rua”!

Deu uma coincidência eu tinha recebido uma cota de bolsas pelo CNPq de iniciação científica. Pensei assim que não interessava se ele não era geneticista, pois aquele guri tinha uma cabeça, tem até hoje, fez uma carreira brilhantíssima. Então ele foi para o meu departamento e ficou lá. Depois foi criada a ecologia – o professor Tuickson Dick criou a ecologia – e ele se encaminhou para essa área. Eu me dava muito com o professor Dick e fui lá conversar com ele porque eu sabia que ele não ia ser geneticista. O que ele queria era estar no campo, ele era um coletor! Mas durante esse período que ele ficou comigo, e depois quando ele fez o mestrado, com um convênio que a Ecologia tinha com a Alemanha… Depois ele foi fazer doutorado na Alemanha.

A estrutura de coleta eu financiava – a OEA (Organização dos Estados Americanos) me financiou muita coisa. Várias saídas nós fizemos com ele, era o cara do campo. Temos uma amizade profunda até hoje. Publicamos juntos até agora. Eu estava na banca de doutorado dele. Ele esteve na Alemanha, terminou o doutorado lá e abriu uma vaga para chefe da seção de mamíferos do Museu Nacional. Mandei avisar para ele que veio, fez o concurso e passou em primeiro lugar. Desde aí nós trabalhamos associados porque ele coleta no Museu Nacional e a parte Genética eu faço, agora já com técnicas de Biologia Molecular. Então eu tenho um acervo enorme de DNA coletados com ele, publicamos juntos e tal.

Então dessa parte eu pessoalmente pouco participei (saídas a campo), até porque eu tinha que trabalhar na bancada e tinha dificuldade para sair com criança pequena, mas ele ia sempre e meus alunos iam muito com ele. Fizemos coleta desde Amapá! Tenho um material coletado muito rico. Numa ocasião a OEA quis financiar, isso há uns vinte anos atrás, na década de 1980, quis financiar projetos de biodiversidade aqui no Brasil e o CNPq escolheu alguns pesquisadores e me convidou para fazer parte. Então durante uns cinco ou seis anos a OEA especificamente me deu muito equipamento, mas principalmente me financiou estas coletas. Aí nesse meio tempo eu fiquei conhecendo, não me lembro como, um professor uruguaio, um grande mastozoologista que tinha feito doutorado na Alemanha porque o Uruguai não tinha Pós-Graduação naquela época – ele era mais ou menos da minha idade. Com a revolução muita gente saiu do Uruguai e da Argentina. Ele veio para o Brasil e fez um concurso para o Rio de Janeiro. Ele estava trabalhando lá no Museu e depois fez novo concurso e se transferiu para João Pessoa. O sonho dos uruguaios é viver no calor, ele queria viver na beira do mar. Enquanto ele não achou uma universidade brasileira na beira da praia ele não descansou. Transferiu-se. Nós também trabalhamos associados, trabalho até hoje. Ele fez muitas coletas para a OEA comigo, lembro que nós coletamos no sul da Bahia, aquela região do cacau, temos muitos dados de lá. Até hoje temos esse material preservado e estamos publicando ainda esse material. Depois fizemos uma coleta no cerrado, que foi Goiás, Minas Gerais… Trabalhei bastante com ele e trabalho até.

Questão 14

Museu Nacional, redes de pesquisa e bancos de DNA

Historiadora – Interessante essas redes, né? Aqui com o pessoal lá do Rio…

Margarete Mattevi – É uma coisa muito importante. O Museu se vinculou à Universidade Federal, UFRJ, já faz tempo, desde a época da Reforma Universitária. O Museu começou a absorver muitos professores da Universidade e a Genética, que lá era muito fraca… Começou com o Professor Cordeiro que foi para o Rio de Janeiro e lá ele fundou uma Genética forte, porque ele sempre foi um líder, fundou esses três polos no Brasil. O pessoal mais jovem foi absorvido pelo Museu. Então o Museu agora está fazendo como todos os museus do mundo, está fazendo análise de DNA, usa técnicas de Biologia Molecular para classificar os animais, que é uma coisa que eu faço aqui. Tanto que eu já combinei com o Flamarion que, quando eu me aposentar, vou mandar esse material que eu tenho, um banco enorme, para o Museu. Acho que é o melhor lugar do Brasil. Fiz muitos estudos, mas ainda sobra quantidade de informações preciosíssimas. Tenho, tu podes imaginar, quase cinco mil DNA da fauna de mamíferos. Então eu pensei muito se mando para a UFRGS, mas depois resolvi que não. O museu de biologia está cada vez mais… E esses bancos estão cada vez mais… chamam-se frozen banks, assim está sendo chamado no mundo inteiro. São bancos de dados congelados, então tu conservas em freezer porque quando é abatido um animal, que ele vai para a taxidermia, para a classificação, você pega cinco ou seis centímetros quadrados de tecido e pronto, você tem DNA, para as técnicas de PCR, para estudar o resto da vida, né?

Então desses bancos de tecidos congelados tem vários importantes: na Califórnia, na Espanha, na África do Sul, nos grandes museus de biologia, na Pensilvânia, na Inglaterra e assim vai! Então a ideia é deixar forte esse banco do Museu Nacional que é de todos os brasileiros, né? Existe uma curadoria, tu tens que apresentar um projeto, esse projeto, tem que mostrar que ele é viável, que está sendo financiado por uma instituição, porque não adianta ter um belo projeto e não ter dinheiro para executar. Assinas uma série de compromissos e passa pelo foro científico do museu. Essa é uma ideia que tenho, mais ou menos já conversei, porque tem que mandar e o transporte que é muito complicado porque tem que ser refrigerado e tal.

Questão 15

Coordenação da Pós-Graduação e atuação institucional

Historiadora – Em relação ao Pós-Graduação, fizeste parte da direção em algum momento…

Margarete Mattevi – Sim. Eu fui coordenador duas vezes do curso. Na verdade eu me eximi o que pude de atividades administrativas porque eu nunca gostei. Para chefe de departamento várias vezes fui consultada e nunca quis ser. Mas a Pós-Graduação era impossível tu não seres, nós tínhamos que fazer um rodízio. Os períodos são de dois anos renováveis e naquele período muito pouca pesquisa tu fazias. É um curso muito importante, muito grande e demanda muito do coordenador. Então tu ficas realmente muito ocupada com aquela atividade administrativa. Eu fiz meu doutorado em 1974 e no ano seguinte eu já ingressei como orientadora do curso. Já como mestre eu vinha ajudando em algumas teses, e tal. Ajudava o Salzano que tinha vários orientados, a parte toda de Citologia. O Salzano nunca foi a bancada, não era perfil dele, ele é um teórico, então toda a parte experimental era eu que treinava naquela tecnologia. Aí em seguida eu já fiquei como orientadora e depois… Não me lembro quando foi a primeira fez em que fui orientadora do curso.

Exerci muitas funções de consultoria de pesquisa. Fui durante oito anos representante da Genética nacional no CNPq, depois na FAPERGS fui duas ou três vezes, que é a nossa fundação, né? Até, inclusive, na última vez eu estava aqui na ULBRA. Mas agora não quero mais. Cheguei a um ponto da minha vida que… Até estou gostando desse sentimento porque eu imaginei que eu nunca ia conseguir parar, que eu ia me ressentir muito.

Questão 16

Estrutura administrativa e trabalho da secretaria

Historiadora – No início da Pós-Graduação como era a estrutura, vocês tinham algum funcionário…

Margarete Mattevi – Sempre teve apenas um secretário. Isso é uma das coisas que faz um coordenador se ocupar muito porque é uma estrutura grande. Tu imaginas algo em que corre, correu agora não sei quanto, mas eram de 100 a 200 teses. Cada tese é o projeto do aluno, plano de pesquisa, os créditos que ele vai tirar e tudo isso passa por comissões, tudo isso é julgado, tudo isso é arquivado. Então realmente só um secretário é muito pouco, ele tem muito trabalho. No geral o que a gente fazia? No geral o Coordenador da Pós-Graduação era um líder em pesquisa, então ele tinha bolsista de iniciação científica que a gente desviava dos projetos de pesquisa e contratava um aluno lá da administração para ajudar na secretaria, até fui eu que inaugurei essa prática. A Pós-Graduação, uma estrutura posterior à graduação – ela veio naturalmente quase cem anos depois –, administrativamente era sempre muito pouco reconhecida. Então a Universidade não fornecia funcionária. Então o coordenador tinha que colaborar muito e tem até hoje. Várias vezes aconteceu de eu estar no Campus do Vale e pegar meu carro para ir buscar folha de impressora. Porque tu ficavas esperando que mandassem e aquela coisa… Tinha que entregar uma tese, então nesse sentido a Pós-Graduação sempre foi bastante prejudicada. Ela tinha uma secretaria sempre só com esse secretário. Era ou na mesma sala da secretaria do Departamento ou, depois que nos mudamos para o Campus do Vale, conseguimos duas secretarias independentes. Durante muitos anos teve um secretário, o Eschillete, que depois se aposentou. Sabe que o primeiro nome eu não lembro mais? A gente só dizia “Seu Eschillete”.

Tem outra coisa, a pós-graduação não é vinculada aos institutos, ela é vinculada diretamente à Reitoria. Então a distribuição de verbas é diferente. Se a secretaria do Departamento precisa de papel-higiênico vai pedir para o Instituto de Biociências. Cabe ao Instituto fornecer esta infra-estrutura, ou tu precisas de mais uma faxineira… A pós-graduação não, tu vais direto a uma pró-Reitoria. Então é mais difícil o acesso, né? Todos os cursos estão ali. Ela cresceu loucamente no Brasil inteiro, aqui também na UFRGS. Vários cursos que não tinham nome, de saída, funcionavam sem secretário. Então era realmente bastante complicado.

Voltando a parte do secretário do curso, depois passou a ser o seu Elmo. Ele é uma figura central naquele curso. Realmente toda a preocupação de uma pessoa que ia assumir a coordenação, pelo menos no tempo em que eu trabalhava lá na Genética, era perguntar para ele se ia ficar lá, porque já estava com tempo de aposentadoria e tal, né?

Questão 17

Biotecnologia e transformação do Programa

Há uns vinte anos atrás, mais por iniciativa do professor Edmundo Kanan Marques, fundou-se o Centro de Biotecnologia da UFRGS, é ali perto da Genética, no Campus do Vale. Foi quando começaram a surgir as técnicas de Biologia Molecular. Foi uma ciência nova que surgiu há uns quinze anos atrás. Assim como foi criado um centro de informática que é um ramo novo das ciências, dentro da Física e tal, foi criado esse centro de tecnologia a partir, principalmente de vários professores de Biologia Molecular que foram contratados de vários locais do país e que vieram para o nosso departamento. Aí que o nosso curso mudou o nome. Ele era Pós-Graduação em Genética e ficou Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular. De repente cresceu tanto essa parte de Biologia Molecular! Porque é a ciência do século XXI, assim como a foi a Física a ciência do século XX. Sem dúvida a Biologia Molecular é a mola desse século. A Universidade teve que criar um centro só para isso, porque eles têm desde convênio universidade-empresa, tudo! Depois de passados os recursos os professores continuavam vinculados ao nosso departamento, a nossa pós-graduação, mas depois eles começaram a fundar a sua própria Pós-Graduação, mas nós já estávamos com esse nome de Biologia Molecular e por essas alturas vários de nós se identificaram com essa tecnologia. Eu fui uma delas, trabalhava primeiro com Citogenética. Eu passei a usar as técnicas porque são realmente de uma tecnologia de ponta que veio a resolver um monte de problemas de pesquisa científica que a gente tinha e não resolvia antes.

Então… Um pouco assim da história do curso, nesse sentido administrativo. Primeiro só teve doutorado, depois teve mestrado e doutorado.

Questão 18

A origem do mestrado e do doutorado

Historiadora – Primeiro o doutorado?

Margarete Mattevi – É! Porque na verdade o mestrado foi uma figura criada na Pós-Graduação em todo o mundo muito posteriormente. O doutorado… Desde a Idade média! É um título centenário que tinha outros nomes, era o catedrático, ou qualquer coisa assim, mas era uma tese de cátedra que vem desde esse tempo das universidades milenares e se espalhou pelo mundo. Provavelmente elas é que implantaram o modelo aqui, né?

O mestrado veio de um modelo americano, muito mais para atender uma demanda tecnológica, uma demanda de mercado. Aqui na América do Sul se instalou muito como acadêmico, com um perfil acadêmico, um título mais rápido. Há anos atrás ele tinha muito valor porque era um título que poucas pessoas tinham naquela época, então você concorria muito bem com um mestrado. No mínimo você tinha que ter mestrado para ser professor universitário. Só que depois a Pós-Graduação cresceu tanto no Brasil e o doutorado se popularizou de tal forma que hoje em dia praticamente não adianta ter o mestrado, tens que ter o doutorado mesmo.

Mas anteriormente as pessoas… O Salzano não tem mestrado, só é doutor, o Cordeiro só é doutor, porque nem existia no tempo deles. Eu te disse que o meu foi o primeiro da Genética, né? Eu fui a primeira a ser Mestre e Doutora. Tanto que houve um acordo, digamos de cavalheiros na ciência brasileira para a pessoa não usar o título. Se tu eras doutor tu não colocavas “MSc PhD” porque várias pessoas tinham só Phd porque não haviam tido oportunidade temporal de fazer o mestrado e tal. Então para não haver aquela competição nos habituamos… Tu só botas MSc se não és PhD mesmo.

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