Historiadora – E o laboratório…
Margarete Mattevi – O laboratório! Foi muito interessante: o laboratório da Genética foi o Cordeiro quem fundou. O primeiro laboratório diz que ele fundou no porão da Faculdade de Direito. Tem até as fotografias que eu já dei para o Claiton da festa dos quarenta anos em que fiz um apanhado. Quis fazer uma coisa mais ilustrativa, coloquei o máximo de fotos possíveis e depois dei para ele, fotos que recolhi com vários professores e depois escaneei e tal. Eu não estava na faculdade nessa época (do laboratório no porão), eu entrei em 1960, praticamente cinquenta anos atrás, né? Ele já tinha formado um laboratório de Drosophila, as mosquinhas da fruta, nesse Instituto de História Natural, que era vinculado a Faculdade de Filosofia. Ele convidou três professores para trabalhar com ele: professor Tondo, Casemiro Tondo, que é biofísico, o professor Flavio Lewgoy que é químico – há muitos anos se desvincularam do Departamento, mas eu os conheci muito bem, ficamos dez ou mais anos trabalhando juntos – e o professor Salzano que era biólogo. O Cordeiro fez um convênio com a USP e o Salzano foi fazer Biologia de Drosophila e Genética de Drosophila vinculado com a USP, não me lembro muito bem, mas acho que ele desenvolveu parte da tese junto com o pessoal do Dr. Pavan, que morreu recentemente.
Depois disso, o Salzano foi para os Estados Unidos, fez especialização em Genética e fundou a Genética Humana aqui na antiga Faculdade de Filosofia. Era Secção de Genética, agora estou lembrando do termo – eu até tinha uns carimbos com aquilo.
Quando eu entrei na faculdade ele funcionava ali (prédio ao lado da Reitoria), mas estava muito apertado porque havia a Botânica, Zoologia, Embriologia, vários outros laboratórios. A Genética em seguida começou a crescer muito. O Cordeiro então, naquela época o Reitor era o Eliseu Paglioli – o meu primeiro contrato está assinado com o nome dele, a minha primeira carteira, porque já estou na segunda – conseguiu que ele nos desse dois andares inteiros ali na frente da Santa Casa, naquele edifício que parece um bolo. Ele tem um recorte muito interessante.
Historiadora – Um bolo?
Margarete Mattevi – É parece uma fatia de bolo, se olhar de cima é igualzinho!
Então ficou um andar para a Genética Humana que era o Salzano e seus associados e um andar para a Drosophila. Depois com o tempo, começou a crescer muito ainda e conseguiram que a Universidade alugasse um terceiro andar em que se fazia Genética Vegetal e tal. Essa mudança ocorreu exatamente quando eu era estudante, eu sei por causa da minha ideia de trabalhar lá.
Em certa ocasião – até hoje é assim – a gente se destacava como aluna em classe. A Genética não era das primeiras disciplinas, então se querias fazer Genética tu esperavas um pouco. Eu entrei na Genética, tinha sido aluna do professor Cordeiro – tinha a primeira disciplina que era Genética básica – que me convidou para trabalhar com ele. Eu disse para ele – lembro tão bem, uma atitude infantil, eu tinha vinte anos eu acho e tanto, me arrependi tanto que aquilo lembro até hoje – eu disse assim: “Ah! Não”! Porque assim: a tecnologia com a Drosophila tu tens que separar machos e fêmeas para poder realizar os cruzamentos. Até hoje a base é esta: cruzamentos experimentais para depois tu fazeres todos os… Então como eles faziam? Eles eterizavam, como chamavam. Botavam as Drosophilas dentro de uns vidros com um pouquinho de algodão com éter e elas ficavam meio anestesiadas. Colocavam as Drosophilas todas com a bundinha assim, virada, com a lupa, e ficavam separando com um pincel. Olhavam a genitália, se era macho ou fêmea. Eu achava aquele trabalho horrível! A coisa mais decepcionante! Eu não imaginava que ciência fosse aquilo… E toda a ciência é assim! Eu disse: “Ah! Não! Passar o resto da minha vida olhando bundinha de Drosophila? Não mesmo”! Ele ficou numa mágoa porque eu disse isso!
Passou-se todo aquele semestre, isso foi no primeiro semestre, e eu já estava para ir para a didática, terminar meu curso e nada! Eu queria ir para a Genética Humana, mas eu não me animava me oferecer para o Salzano, eu queria ser convidada e nada de convite! Até que, graças a Deus, no último mês do semestre… Eu disse: “Bom, se ele não me convidar vou ter que ir bater na porta dele”. Aí ele me convidou, mandou me chamar porque tinha surgido uma vaga com essa bolsa, aí fui fazer Genética Humana, que era o que eu queria.