Historiadora – Ouvi falar que vocês trabalhavam fim de semana…
F.Rocha – As pessoas, dependendo do tipo de trabalho, iam sábado de tarde. O Salzano ia todo o sábado, normal, e até domingo de manhã. Eu às vezes também tinha trabalho no sábado de manhã, tirar sangue daqui, botar para lá, descongelar, botar na lâmina… A Margarete também tinha. Eu ajudei muito a Margarete, porque eu sabia coletar sangue. Ela entrou lá para trabalhar com grupos sanguíneos – ela deve ter te falado isso.
Nesse meio tempo, nesse espaço de tempo, o negócio dos cromossomos – 32 , 34, 44… – quando descobriram o código do núcleo, o código dos genes, ela foi lá para São Paulo, para o Butantã para aprender a técnica, para aprender a identificar os cromossomos, de coleta dos cromossomos. Ficou lá uns três meses e voltou e aí foi construída até uma câmara asséptica para ela lá em cima, e tal. Às vezes ela não tinha quem coletasse sangue do paciente, de criança era complicado. Então, às vezes, quando eu estava saindo, se não tinha nada eu ia lá na Faculdade de Medicina coletar sangue junto com ela, vários pacientes dela.
Historiadora – Isso era uma parceria de vocês, né? Não era o seu trabalho, mas ia…
F.Rocha – Não, não era meu trabalho, mas a gente tinha um bom nível de companheirismo.
Historiadora – O pessoal comenta também dos intervalos para o café…
F.Rocha – É, tinha uma parada para o café às dez horas da manhã – estilo americano, os americanos é que fazem isso – e as quatro da tarde. Sábado de manhã também. Era muito divertido o café, falávamos dos seminários, contávamos piadas, se comentava de tudo: filme, futebol, se programava congresso, os trabalhos que ia apresentar. Era uma família. No final do ano tinha festa de Natal, presentes… Eram dois grupos, na verdade, tinha o grupo do Cordeiro, que era no andar de cima, no décimo quarto. Era o Cordeiro, a Helga – que foi a segunda mulher dele, agora não é mais, se separaram –, o Edmundo Kanan Marques a Maria Luiza Reguly. Tudo isso é Genética Animal.
Historiadora – Como é o sobrenome?
F.Rocha – Reguly, acho que ela não está mais lá, a Marli Napp que já morreu. Depois tinha uma turma de Brasília, o Fernando Kratz, o Eduardo Centeno. Veio uma turma de Passo Fundo com a Maria Irene Baggio de Moraes Fernandes, a Maria Helena Zanettini, Ana Maria Sacchet. Essa turma toda fui eu que contratei quando era chefe de Departamento, a Ana Sacchet, a Zanettini, a Vera Valente, que depois foi orientadora do mestrado da Cláudia.
Historiadora – Da Cláudia sua filha?
F.Rocha – Da Cláudia, minha filha, estou achando que tu sabes, porque tu conheces todo mundo!
Então, embaixo tinha o Salzano. O Salzano tinha uma secretária, tinha o Girley, um técnico que entrou junto comigo, só que ele foi ser técnico do Salzano…
Historiadora – Ele é que acompanhava o Salzano?
F.Rocha – O Salzano e eu somos muito amigos, durante aqueles três primeiros anos eu viajei bastante, era eu, o Girley e o Salzano.
Historiadora – Além dele, quem o senhor lembra de funcionários que acompanhavam vocês?
F.Rocha – Tinha o Girley e ninguém mais…
Historiadora – Mas e por exemplo aqui?
F.Rocha – Em Porto Alegre?
Historiadora – É. Vocês tinham funcionários também, né?
F.Rocha – Tinha uma secretária, a Nilda, que o Salzano pagava, através desses grandes auxílios de pesquisas, né? Depois ela foi contratada. Tinha a Nilda, o Girley, lá embaixo era pouca gente.
Historiadora – Sim, e as pesquisas eram com estagiários?
F.Rocha – É. Lá em cima tinha uma secretaria grande, no décimo quarto, onde tinha a Dona Diná, datilógrafa. Aí já se formou uma indústria de teses. Um cara lá pegou uma máquina de escrever dessas boas, modernas, elétricas e batia as teses, era tudo rodado lá em cima. Funcionários mesmo tinham poucos, a não ser a faxina, né?
O ambiente era muito bom! Nós tínhamos que cumprir mais de 40 horas semanais. Ele somava, o Salzano somava! Tinha uma mesinha, assim, na entrada, com nome de todo mundo. Tu assinavas o nome e colocavas a hora que entravas e a hora que saías. Esse quadro ia para a parede na semana seguinte: Fernando da Rocha, 38 horas, Salzano, 49, Israel, 39, 40, Margarete… Sabe? Ele fazia um ranking de quantas horas tu trabalhavas por dia, por semana. Era motivo de gozação, é lógico. Também era motivo de gozação, mas ele levava a sério! Ele tinha uma cadernetinha, isso é uma coisa interessante do Salzano: a gente entrava sentava junto à mesa dele e o Salzano pegava uma cadernetinha, desse tamanho assim, de espiral, e ali tu tinhas que anotar tudo o que tu fazias: chegada 8:40, 10:00 café, retomada do trabalho 10:30, saída 11:58, de tarde, a chegada… Tudo! Na minha mesa tinha que preparar o sangue para trazer: de manhã, cinco amostras, preparação do material, hemolizar o material, lavagem e colocação do material na geladeira, intervalo.
Historiadora – Tinha que registrar tudo o que fez durante o dia?
F.Rocha – Tudo, tudo! Depois tu subias para o café e na volta do café: colocação do material na geladeira, feitura de lâminas… A saída, fui ao banco, tudo, tudo. Tu chegavas à mesa dele assim, sentava, ele estava de pés descalços, não usava sapato no verão, era sandália e largava a sandália. Ele:
– Cadernetinha.
– Está aqui professor.
– Leitura.
– Ah! Eu li… Três separatas da Genetics.
– Onde está a revista?
– Ah! Estava lá na estante, não sei se está ainda – às vezes estava às vezes não e quando estava ele…
– Traz aqui!
– Qual artigo que tu leste?
– Esse aqui sobre Siclemia.
– O que tu entendeste deste artigo, desse trabalho?
– Ah! Professor, assim… (risos)
Historiadora – Ele pegava de surpresa?
F.Rocha – Pegava! Eu tinha muita coisa para fazer e não lia muito, também. Eu sempre fui meio avesso, não lia muito. Ele disse: “A Margarete leu doze artigos e tu leste três”.
Mas os assuntos da Margarete são mais interessante que os meus. (risos) Ele era muito meu amigo, eu brincava muito com ele, então, não me levava muito a sério. Tenho muita saudade dele, mas ele exigia: “Tu tens que ler mais, tens que ler mais”!