Acervo de História Oral • PPGBM / UFRGS Genética Humana

Fernando José da Rocha

3º Doutor Formado pelo PPGBM (1970)

Fernando José da Rocha
Genética Humana
“As expedições ao Brasil Central foram uma escola humana e científica inigualável.”
Registro Histórico de Depoimento

Fernando José da Rocha

Pesquisador de destaque em demografia genética, antropologia biológica e estudos de populações indígenas e miscigenadas do continente sul-americano.

Referência Bibliográfica (ABNT)
ROCHA, Fernando José da. Memórias – Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular. Depoimento concedido em sua residência à historiadora Naida Menezes.
Registro Sonoro Histórico Ouça a Entrevista em Áudio (Voz Original)
Áudio MP3
~61 min Tempo de Leitura
15 Perguntas Transcrição Completa
Porto Alegre, 14 de novembro de 2009. Local & Realização
Transcrição Integral

Depoimento de Fernando José da Rocha

Registro fidedigno da entrevista oral gravada para a memória e história do PPGBM / UFRGS.

Questão 01

Origens da Genética e formação do Departamento

F.Rocha – Quando eu entrei na Universidade ela era formada basicamente de órgãos de ensino. Então eram as faculdades tradicionais: Medicina, Odonto, Farmácia, Direito, Engenharia, Arquitetura. E havia os Institutos: Instituto de Matemática, de Ciências Naturais, de Geociência. Algumas áreas eram Instituto; outras áreas eram secções, por exemplo: o Departamento de Genética era uma secção do Instituto de Ciências Naturais.

Historiadora – Pronunciava-se Secção?

F.Rocha – Secção assim como estou te falando (risos). Então a Zoologia, a Botânica, a Paleontologia, a Geologia eram setores da então Secção de Genética do então Instituto de Ciências Naturais. As faculdades de Medicina tinham dentro as suas disciplinas intrínsecas: a Parasitologia, a Citologia, Bioquímica, Biofísica, como é hoje praticamente. Mas então a Genética era um setor dentro da Secção de Genética.

A Genética teve o privilégio de ter duas pessoas lotadas no chamado Instituto de Ciências Naturais, que são os professores Antonio Rodrigo Cordeiro, pela ordem, e Francisco Mauro Salzano, que foi aluno do Cordeiro no então Instituto de Ciências Naturais. O Instituto tinha outras pessoas ilustres também, mas essas são as mais próximas do Departamento. Esses dois pela ordem, é que fizeram todo o Departamento de Genética com a estrutura que ele é hoje. Ele não mudou de estrutura, ele só mudou para Departamento. Mudou para Departamento no momento em que as Universidades se departamentarizaram. Antigamente não era assim, era Setor de Química, setor de não sei do que, Setor de Genética, Secção de Genética.

Esses dois (Cordeiro e Salzano) tinham formação da antiga História Natural, como eu tive, e foram para os Estados Unidos, em tempos diferentes, e lá eles se aperfeiçoaram e tal. Voltaram e criaram a Secção de Genética, isso em 1949, 1950, 54… Por aí.

A minha participação nesse negócio começa em 1960 num grupo já iniciado pelo Salzano em Genética Humana. O Cordeiro criou um setor no andar de cima, na [Rua Professor] Annes Dias, de Genética Animal. Depois também ficou Genética Animal, e Vegetal e o Salzano na Genética Humana. Eu fui o segundo aluno doutorado pelo Salzano. O primeiro foi o Israel Roisenberg que trabalhava com Hemofilia, uma doença grave.

A Genética ali era muito mais uma Genética interessada em problemas de doenças clínicas. Então havia um intercâmbio muito grande nosso com a Santa Casa que era de fronte. Isso facilitou – lá na frente tu vais ver – as atividades entre o Departamento de Genética, já dentro do Instituto de Biociências na área de Genética Médica, no ensino e pesquisa de Genética Médica.

Questão 02

Especialização, hemoglobinas e primeiros congressos

A origem do meu trabalho, não do meu trabalho, mas da minha participação dentro da Genética começou lá atrás. Só que eu não fiz isso em seguida, houve um espaço de tempo em que eu trabalhei em Genética de Populações com o Salzano. Então o Salzano abriu uma gaveta e tinha um projeto lá, assim: “Olha, tu vais fazer um estudo de hemoglobinas anormais em Porto Alegre”. E lá o Fernando ia fazer exame de sangue nos dedos e o Israel também na parte de Hemofilia. Então, assim, ele logo traçou o plano dele: queria doenças, Genética de Populações e queria, em seguida, Citogenética e depois Genética Molecular, que vieram nos tempos modernos. Eu apareci ali em 1960. Então qual foi a minha atividade de 1960 para cá? A gente, ao entrar na Genética, a gente tinha que se instruir. Como assim se instruir? Tinha que pegar uma formação que não tivemos na faculdade. Por isso era importante fazer cursos de especialização junto a outras unidades. Por exemplo: primeira coisa que cada um de nós tinha que ter na época era, além de ser bacharel em História Natural, Licenciado pela Faculdade de Filosofia, ser especialista em Biologia que era um título que era fornecido pela Faculdade de Filosofia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Durante três anos tu fazias esse Curso de Biologia. Então era um curso onde eu tomava aula de Estatística, de Genética e Evolução, Genética Humana, Hematologia, conforme a área que eu ia, Matemática, enfim. Então se fazia três anos de formação complementar ao curso básico de História Natural.

Aí eu tinha o diploma de Especialista em Biologia que deve estar por aí em algum lugar… (procura em sua documentação). A hora que tu quiseres ver, aqui tem também os diplomas.

Historiadora – Depois podemos olhar tudo!

F.Rocha – Bom, aí então eu comecei a trabalhar com um projeto que o Salzano tinha, que era estudar a fertilidade… Porque as coisas em Ciência surgiam assim, não sei se agora também é assim: tinha um cara lá dos Estados Unidos, na África, mas ele era norte-americano, que descobriu que as mulheres africanas, os casais africanos oriundos da África, não pegavam Malaria. Numa área endêmica, eles não pegavam porque tinham uma hemoglobina, que é a proteína do sangue, chamada S, Anemia das Células Falciformes. Essa Anemia dava uma proteção à Malaria para eles, uma certa proteção à Malaria. Então os outros negros “morriam”, entre aspas, da Malaria e outros morriam normalmente e esses ficavam se mantendo. Além disso eles encontraram que esse pessoal protegido pela Hemoglobina S era mais fértil, tinha um número médio de filhos por casal maior. Então nós fomos fazer o contraponto aqui no Brasil. Esse trabalho eu fui encarregado de realizar e fiz esse trabalho durante quatro anos em Porto Alegre. Durante o tempo em que eu me formava aqui, fazia especialização em Biologia, eu fazia essa pesquisa. Essa pesquisa me rendeu alguns trabalhos publicados em revistas nacionais. Me proporcionou participar de vários congressos internacionais e nacionais, no Brasil e no exterior.

Historiadora – Qual o senhor lembra? Qual o primeiro que o senhor foi?

F.Rocha – A minha primeira participação em congresso (procura em sua documentação particular) foi em 1963 numa Reunião da SBG/SBPC (Sociedade Brasileira de Genética/Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) realizada no mês de junho na cidade de Campinas, apresentando trabalho. Daí seguiu e em todos os anos eu tinha uma participação em congresso: Campinas, Ribeirão Preto, Belo Horizonte, Piracicaba, enfim, teve um internacional também, no Chile. Eu tive uma participação em Salvador. Então eu participava todo o ano dos congressos, sempre com apresentação de trabalhos. Se não me engano aí também estão os resumos (refere-se a sua pasta com a documentação).

Historiadora – Congressos da Sociedade Brasileira de Genética?

F.Rocha – Sociedade Brasileira de Genética que é uma sociedade filha da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. A SBPC tinha a Sociedade de Física, a Sociedade de Química, de Genética, a SBG. Então a minha vida – desculpa, esqueço muito das coisas. Mas o meu primeiro período na Genética foi todo ele voltado para esse tipo de trabalho por meio da fertilidade. E aqui eu tenho as cópias dos trabalhos.

Questão 03

Pesquisas com populações indígenas e trabalho de campo

Aí o Salzano trabalhava com índios, né? Então, faltava uma pessoa – eu gostava muito do Salzano, sou muito grato a ele, o prezo e somos amigos. Ele teve um valor incrível na minha vida! Aqui tem uma série de trabalhos, para teres uma ideia, esses trabalhos são sobre índios. O que eu fazia com os índios? Eu fazia… (mostra suas publicações) Mas aí o Salzano começou a me chamar para viajar com ele para coletar material dos índios. Por quê? Ele queria fazer um levantamento na estrutura local das populações indígenas e entre os índios Caingang, Guarani, Kayapó, Xavante. Ele fazia a parte de marcadores genéticos simples, de grupo sanguíneo, hemoglobina. Ele deve ter falado isso para ti! Eu fazia a parte morfológica do índio, que veio a ser depois o elemento da minha tese de doutorado.

Então o que eu fazia? Eu media os índios, tirava impressão digital, media tamanho do rosto, peso, pé… Através dessas medidas, dezesseis medidas, eu podia caracterizar uma pessoa daquela população, mas eu media todas as pessoas, os adultos. O Salzano coletava sangue de todos os adultos. A análise estatística dele dava um número e a minha análise dava um número também ______. Então eu tinha um número – 6,45… – que era compatível com o número dele. Aí eu podia ver quão próximos eram os Kaiapós dos Xavantes, pela possibilidade do número. Não só eu fazia parte do grupo, mas tinha um médico que ia junto, era um estudo enorme!

Historiadora – Era uma equipe?

F.Rocha – E tinha vários americanos inclusive e estrangeiros ingleses.

Historiadora – E como vocês faziam para ter acesso a esses grupos?

F.Rocha – A pois é! Então assim ó… Eles, Salzano e Cordeiro, tinham estudado fora do país e na época não existia dinheiro para pesquisa, a Universidade não tinha dinheiro para pesquisa e nem pagava o pesquisador, nós tínhamos bolsa de estudo. Os Institutos Rockefeller Fundation e Ford Fundation que sustentavam os projetos de pesquisa, não só da Genética, mas da Zoologia, lá da Veterinária também. O Salzano e o Cordeiro é que tinham os grandes dinheiros. Ao mesmo tempo havia uma base nos Estados Unidos, uma base na Inglaterra, e esses caras vinham ao Brasil, davam um seminário. O grupo do Salzano e o grupo do Cordeiro foram crescendo assim. As viagens: eles traziam dinheiro e pagavam, se fretava avião, nós andamos por aí de avião fretado, esses aviões de missionários, né?

Historiadora – Eram uns teco-tecos?

F.Rocha – Eram uns teco-tecos, monomotor. Cansei de andar na frente como o cara e: “Vou desligar aqui para tu veres…” (fez sinal do avião descendo). Nós descíamos em umas pistas assim, de 200, 300 metros. O avião descia, desligava o motor e pronto. Subia numa rampinha e pronto. Isso daí dava um livro e tanto sobre a minha convivência com os índios.

Aí tinha um missionário sempre que já estava lá sabendo que nós íamos. Teve um grupo em que fomos os primeiros brancos que estavam lá. Era perigoso, perigoso não, mas tinha um relativo risco. Mas a gente levava pacotes de presentes, malas com calção, roupa para as mulheres, facão, anzol, essas coisas e eles se deixavam medir, examinar e tudo. Na realidade era uma troca de coisas. Agora, isso com os índios, nós visitamos mais de seis, sete grupos diferentes de índios!

Historiadora – Em várias regiões do Brasil?

F.Rocha – Várias regiões do Brasil até o Norte, até a Venezuela, lá para a esquerda também, Pará, Belém do Pará, tudo! Deveria ter um mapa aqui também (refere-se ao seu material). E o Salzano junto!

Historiadora – Tem um mapa! (em um de seus artigos)

F.Rocha – Tem mas não está muito…

Historiadora – Sim, mas era dentro do Brasil?

F.Rocha – Sempre dentro do Brasil. E… Enfim foi um estudo de muito tempo. Aí eu fui construindo – fui adquirindo experiência é lógico – material para a minha tese de doutorado. Naquele tempo, não tinha computador, né? Isso era lá por 1960 e poucos. Os primeiros computadores estavam chegando à Universidade eram os Burroughs, enormes! Era uma sala assim (grande) com só dois aparelhos ali dentro, eram enormes!

Historiadora – Como era o nome do computador?

F.Rocha – Acho que era o Burroughs 360. Mas tinha uns caras na Engenharia que já estavam ciscando um pouco de computador, da linguagem Fortran 4. Isso tudo (refere-se aos dados de suas pesquisas) começou a ser posto em cartões perfurados à mão. Esses programas foram feitos por um grupo da Engenharia. Eu ia lá ver se o programa estava certo… Certo com o meu pensamento porque eu não sabia nada de programa, nada de computador! Até hoje eu não sei nada disso aí. Não é orgulho, mas eu não sei.

Questão 04

Doutorado, Ann Arbor e formação em Genética Médica

Enfim, esse tempo todo, esse tempo entre 1962, 3, 4, 5, 6… Bom aí eu fui para os Estados Unidos.

Historiadora – Foi fazer doutorado?

F.Rocha – Não eu fiz aqui, em 1970, e aí foi nascer a Cláudia (sua filha) lá, né? A minha cola está aqui! (risos – refere-se ao currículo). Eu voltei para o Brasil em 1973. Em 1966 eu comecei uma nova fase da minha carreira – isso é importante – uma vez que o negócio dos índios, dos negros, eu fazia simultaneamente. Baixava uma criança na Santa Casa eles iam lá e nos chamavam. A gente ia lá, via como era a doença e dava o laudo de aconselhamento genético, já naquela época. O responsável era o Salzano, mas o Salzano tinha muita coisa. Dizia: “Fernando vai lá. Vê o que é e como é”. Então eu comecei a pegar isso aí, comecei a trabalhar em aconselhamento genético também. Aí, vê bem: eu comecei com população de Porto Alegre, estudo da população, estudo das Anemias Ferroprivas, Talassemia, Siclemia, então nós é que dávamos o diagnóstico para os laboratórios. Assim: ia uma pessoa no laboratório do Renato Faillace, por exemplo, ele mandava a pessoa para nós coletarmos sangue, fazer exame a fim de diagnóstico. Naquela época (o Laboratório da Genética) era ali na Rua Annes Dias, no Edifício Godoy.

Então, naquela fase em 1963, 1964, 1965 eu estava tomando os cursos e além de fazer os cursos eu fazia esse trabalho na população de Porto Alegre. Nessa época, o Salzano começou com os índios. Acabou com uma fase com os índios e começou com varredura entre os índios por todo o Brasil, aí ele me levou junto – acho que agora ficou mais claro, antes estava muito fora de ordem né? Ele me levou, convidou-me para ir e me deu esse projeto para eu desenvolver no meio dos índios. Então veio gente aqui me treinar, veio gente de Ann Arbor, de Oxford, apresentar técnicas novas de… Tipos de medição de morfologia.

Bom, aí uma vez terminada essa parte de Genética na Santa Casa, vamos chamar assim, essa parte de formação, começamos a alinhavar a minha tese de doutorado. Foi aí que comecei com o Fortran 4 e tal. Foi aí que praticamente começou a minha tese, comecei a programar minha tese e escrever, isso foi em 1966, 1967 e em 1970 eu defendi a minha tese aqui em Porto Alegre. Aí me apliquei para uma viagem para Michigan, para Ann Arbor, Hospital de Ann Arbor – a Cláudia nasceu lá nesse hospital. Lá pesquisei com um cara chamado James Neel, morreu agora, faz cinco anos, um cara fantástico! Foi ótimo comigo como pessoa e como cidadão. O que eu fui fazer lá? O pós-doutorado. O que era naquela época o pós-doutorado? Era eu pegar os dados que eu tinha analisado aqui amadoristicamente e analisar em um programa de computador decente que eles já tinham lá. Então dessa minha visita aos Estados Unidos me rendeu umas quatro ou cinco publicações que estão aí. O Salzano sempre no meu lado, sempre junto (mostra os artigos a que se refere). Aqui tem sobre os índios. Teve uma época em que eu era o segundo com mais trabalho na Genética publicado.

Historiadora – Olha só!

F.Rocha – Essa é minha tese de doutorado, que foi o objeto das minhas viagens, né?

Historiadora – Sim.

F.Rocha – Aí eu fiquei lá e tomei lá uns Cursos também.

Historiadora – E como foi lá? O que havia de diferente daqui (do Brasil)?

F.Rocha – Já era outro mundo! Eu estava na Universidade, eu tinha uma salinha. Tinha minha vida em casa com meus filhos estudando lá, outros nascendo ainda, é o caso da Cláudia. Mas aí eu assistia sextas-feiras ao meio dia… Eu estava numa sala grande e tinha um anfiteatro onde tinha a Genética Médica. Eu entrei desde logo na Genética Médica, tanto que eu trabalhei com Siclemia, doenças do sangue, né? Fiz Curso de Hematologia na Faculdade, fiz Bioquímica orientada, Biofísica orientada – tive uma formação acadêmica paralela muito boa – Bioestatística, Genética e Evolução e Genética Humana em um nível mais alto, me preparando para a Genética Médica, mas eu não falava nada porque o Salzano era o coordenador do aconselhamento. Mas eu sempre pensei em… Até que chegou um dia em que ele chegou para mim e disse:

– Fernando, tu não queres pegar o aconselhamento genético?

– Quero Salzano, é uma coisa que eu já vinha há tempo pensando em trabalhar.

– Então tá.

Questão 05

Criação do Setor de Aconselhamento Genético

Aí eu criei no Departamento de Genética o Setor de Aconselhamento Genético. Criei como? Peguei dois alunos da Medicina – nós éramos obrigados a dar aula na Medicina, na Farmácia, na Odonto, na Enfermagem, na Agronomia, tinham uns sete ou oito cursos em que tu davas aula. Então eu pincei dois alunos da Medicina para mim, como estagiários, consegui bolsa para eles, o Eduardo Sprins e o Sérgio Hoitman que são dois grandes médicos hoje, não por minha causa, são grandes porque eram bons, né? Mais duas alunas da enfermagem para fazerem o atendimento do paciente, da família do paciente, encaminhar, para cá, para lá, preencher ficha dos familiares… E uma aluna da Biologia. Esse era o meu grupo. Nesse esquema novo, porque agora eu já tinha vindo dos Estados Unidos, né? Já tinha tomado posse na função de responsável pelo aconselhamento genético e criei o Setor de Aconselhamento Genético em 1980, 1981. Eu fiz uma equipe e começamos a trabalhar em cima disso aqui. Às vezes aparecia uma doença mais rara e a gente publicava, fazia uma pesquisa do que era e do que não era e publicava o trabalho.

Historiadora – Então além de vocês atenderem o público, vocês também continuaram as pesquisas e publicações?

F.Rocha – Sim! Olha. Isso aqui é o negócio dos negros portadores de Hepatocitose, Siclemia… Estudava também a estrutura das populações indignas. Não que fosse tudo junto, é que tinha uma época em que sabe como é: para uma coisa e vai para outra.

Esse aqui na verdade é um resumo do que essa guria escreveu. A Regina era aluna da Enfermagem. O que nós estudamos nesse período enquanto eu estava lá? “Entrevistados cinquenta pacientes…” (lendo a publicação de Regina). Quem que era a mãe, como é que era o filho, o que queriam, enfim, toda uma série de informações para saber quem era o nosso paciente que vinha se aconselhar e que doença tinha o nosso paciente.

Historiadora – Isso de qualquer classe social?

F.Rocha – Todas as classes. Nessa tabela está dividido em classe social. Lê aqui: indicado por imunologistas, por endocrinologistas, por pediatras… Tipo de pai e mãe, se eram crianças ou adultos. Coisa muito interessante que essa guria fez.

Historiadora – Além de vocês, que outros grupos faziam esse tipo de trabalho aqui em Porto Alegre?

F.Rocha – Pois é, naquela época nenhum. Os nossos alunos da Medicina sabedores de que estávamos fazendo isso começaram a se interessar, dentro do Curso de Medicina. Aí surgiram alguns grupos, que acho que tem até agora no Hospital de Clínicas e deve ter mais dois ou três grupos de médicos que trabalham com isso. Então eles sempre achavam que quem tinha que fazer isso era médico e devia fazer isso no hospital, o que não estava muito longe da verdade. Acho que eles tinham razão na época. Mas mesmo assim eu toquei, toquei, toquei, examinamos mais de mil famílias em Porto Alegre nesse período.

Historiadora – Sim, não era feito por ninguém, não é?

F.Rocha – Não era feito. E as pessoas que eram atendidas lá, quando vinham no nosso, nos elogiavam e não gostavam do deles, que era dentro da Faculdade de Medicina, dentro do Hospital de Clínicas.

Historiadora – Que começou depois de vocês?

F.Rocha – Começou depois, foram alunos nossos, inclusive. Vai ficar gravado? Mas não tem nada de ilegal nisso, simplesmente foi uma concorrência. Tinha um biólogo fazendo serviço que, entre aspas, era do médico. Claro que eu não fazia diagnóstico clínico, não fazia exame, eu simplesmente coordenava esse grupo grande. Publicamos vários trabalhos em congressos relativos à Aconselhamento Genético, devo ter por aqui também… É tanta coisa. Eu sei que é difícil para ti receber muita informação assim!

Eu quero te passar, na verdade, uma figura geral para tu saberes o que significava para a gente do Departamento e o que significou para a Universidade, né? Orientei gente, orientei tese de mestrado… Essa guria, a Anete Wolf, trabalhou com Distrofia Muscular. Essa aqui trabalhou em aconselhamento, ela tem um nome de casado, mas eu não lembro. Ah! Esse, o Raimundo Queiroz, é de Rio Grande e trabalhou com indivíduos talassêmicos que é uma doença do sangue. Tem uma Genetics em que ele fez um trabalho muito bom sobre Talassemia. A Maria Raquel também, ela trabalhou sobre heterozigotos em distrofia, detecção de heterozigotos em distrofias musculares, uma doença ligada ao cromossomo X. É uma degeneração que acontece da cintura para baixo das pessoas, criando incapacidade de caminhar muito cedo e morte por causa da musculatura torácica do coração.

Questão 06

Cromossomos, DNA e transformações tecnológicas

Historiadora – Tem uma doença que fiquei sabendo que existia no ano passado, a Síndrome do X Frágil…Também foi descoberta há pouco tempo, né?

F.Rocha – Pouco tempo. Quando eu estava lecionando ainda não tinha essa aí. Sabia-se que tinha, mas ainda não tinha sido identificada. Isso tudo é muito recente. Quando entrei na faculdade em 60, não se sabia qual o número de cromossomos do homem, vão supor:

– São trinta e dois.

– Não são 34.

– É quarenta e quatro.

– Mas não são 22?

– Não, são 23 pares.

– São 22 autossomos, o X e o Y.

Isso custou uns seis, oito anos para entrar aqui no nosso conhecimento no Brasil. As técnicas que existiam na época eram técnicas de cultura de pele, de tecido, então eles iam no núcleo de várias células. A partir do momento em que se começou a usar o sangue de material, com a célula nucleada e do núcleo, sim, pegar os cromossomos aí começou a ser mais precisos, aí diziam: “Não, são 22 autossomos e um par sexual XX, XY, mas os 22 são iguais, homem e mulher. Isso aí foi em 1961, 1962, que se sabia como é que era o gene. Hoje todo mundo fala em DNA: “Não, porque o meu DNA!” Antigamente não existia esse troço de DNA! (risos)

Historiadora – Então o senhor fez a faculdade em uma época em que não sabiam nem…

F.Rocha – Não!

Historiadora – E não faz tanto tempo, né?

F.Rocha -Não, quarenta anos.

Historiadora – Impressionante! Deu um salto!

F.Rocha – Foi! E em seguida deu outro salto que foi a Genética Molecular, né? Se descobriu quase que simultaneamente a parte molecular de tudo isso aí, ainda, a estrutura do DNA que já foi decodificado e já veio tudo em um prato feito, em um kit, em seguida, tudo! Não tem trinta anos isso.

Historiadora – Como foi para vocês essa mudança tecnológica, para acompanhar financeiramente?

F.Rocha – Ah! Sim. Eu não trabalhava com isso, eu trabalhava com outra coisa, trabalhava com sangue, no início aqui, com eritrócitos, com glóbulos vermelhos. Então eu queria saber se os pacientes tinham ou não tinham Anemia Falciforme: o eritrócito ao invés de ficar redondinho ficava tipo uma foice. Então era muito fácil, tu coletavas sangue, colocava em uma lâmina, olhava no microscópio: “Está aqui a foice, então ele é portador”. Essa doença causava uma Anemia muito séria que causava a morte no homozigoto. Um pai heterozigoto, mãe heterozigoto: “A chance de vocês terem um filho é assim, assim, assim”. Eles tinham vários filhos e tinha gente doente já. Então na verdade, eu não trabalhava com Citogenética, portanto, essa parte molecular não me afetou nessa transição, mas para ensinar sim porque eu tinha que aprender o que era um DNA, um RNA mensageiro, não sei o que, as bases púricas e pirimídicas, adenina… Isso eu aprendi como eles. Em um semestre eu não dei aula e fiquei estudando para poder no semestre seguinte chegar na frente deles e desempenhar alguma coisa.

Questão 07

Carreira acadêmica, gestão e mudança para o Campus do Vale

Historiadora – Na frente deles quem? De que o senhor dava aula? Esse processo de entrada do senhor como professor, foi por concurso, como foi?

F.Rocha – Ah não. Eu só fiz concurso para doutor. Na época não tinha vaga, o serviço público não apresentava vaga, tanto é que… Consegues ler isso aqui?

Historiadora – Sim: “Inscrição Concurso para professor Titular do Departamento de Genética”. (título de uma pasta em que ficaram guardados vários documentos)

F.Rocha – Então esse foi o grande concurso que eu ia fazer, mas acabei não fazendo, porque eu já estava dentro da Faculdade. A grande maioria dessa gente toda que tu falaste, o Salzano, a Margarete, não fizeram concurso. O Salzano fez, parece, mas se fazia lá atrás em 1930, 1940. Mas se tu não fosses bom, tu não aguentavas o ritmo, né? Então a seleção era a posteriori, porque não tinha outro jeito, porque a Universidade não abria vaga, não tinha como entrar.

Olha aqui, só para teres uma ideia, os cursos que conclui: da graduação, cursos avulsos concluídos…

Historiadora – Bastante cursos!

F.Rocha – Formação, cargos e posições, e aí fui acabar sendo chefe do Departamento de Genética… (lendo seu currículo). Fui vice-diretor nomeado do Biociência que substituiu o antigo ICN (Instituto de Ciências Naturais) porque a Biociência surgiu com a reforma universitária…

Historiadora – Quando surgiram os Departamentos, ali?

F.Rocha – É! Aí pegou o Departamento da Medicina, pegou os Departamentos do ICN, Instituto de Ciências Naturais, por exemplo: Parasitologia, Embriologia, Bioquímica, Biofísica , Genética, isso tudo foi para o Instituto de Biociências. Eu acabei sendo vice-diretor e depois acabei sendo diretor também. Como vice-diretor acabei tendo a chance de escolher no Campus do Vale o prédio onde está a Genética. Porque eu via que a grande dificuldade que nós tínhamos lá no Centro era física. Era uma situação, assim, terrível, não tinha onde botar gente, empilhava-se aluno nas salas! Aí eu fiz uma visita ao Campus, o Reitor estava junto na época e ele disse: “Olha, escolhe um prédio aqui”. Tinha já uns dez, doze prédios já elevados. Aí eu comecei: quero perto disso, quero perto da cidade universitária… Aí a Genética mudou para o Campus… Não, aí começamos a nos planejar, demorou cinco ou seis anos. Aí fomos para o Campus com muita resistência de pessoas da Genética. Claro porque eles paravam o carro ali embaixo, agora tinha que ir até a Agronomia, né?

Enfim, não sei se consegui te dar a ideia… Do pouco que eu fiz, fiz tudo o que eu poderia fazer, nesse tempo.

Historiadora – E é um monte, nossa! Vários projetos…

F.Rocha – É, mas tem gente que faz mais. Eu não tinha muita… Eu trabalhava tudo junto, trabalhei cor da pele…

Historiadora – Como assim cor da pele?

F.Rocha – Herança da cor da pele. Esse inglês que esteve aqui tinha um espectrofotômetro, ele te pedia sítios da pele das pessoas para poder classificar como negro ou branco. Aí nós publicamos um trabalho sobre isso aqui.

Aqui um outro trabalho com um Bioquímico, porque os caras tratavam a Talassemia e a Hemoglobina S como uma Anemia comum, com tratamento à base de ferro e o ferro não corrigia a Anemia porque eles não tinham capacidade de absorção, de metabolizar com a mesma facilidade, então era inócuo o tratamento. Nós descobrimos não, foi descoberto lá fora que essas doenças, essas Anemias não tinham nada a ver com o ferro, eles não tinham capacidade de fixação com o ferro então não corrigia.

Historiadora – Foi encontrada cura para esse outro tipo de Anemia?

F.Rocha – Não, não, porque é um defeito metabólico. Em um setor tal lá de um DNA está faltando um enzima que não permite a… A Siclemia, essa doença, existe até hoje, é uma doença relativamente comum entre os negros. A Talassemia é gente italiana, portuguesa de origem lá do Mediterrâneo, eles trazem o gene e são brancos, a Siclemia são pretos.

Historiadora – O senhor estava falando do prédio, eu ouvi algo sobre ele ter sido construído virado…

F.Rocha – Foi meio confuso na época. Existia um organismo chamado Instituto de Ciências Naturais, dentro da Universidade. Era um Instituto autônomo com diretor, com secretaria, que não tinha sala de aula, era só pesquisa. A carga docente desses professores era dada na Faculdade de Filosofia, do lado do antigo prédio da Filosofia e os cursos de Genética, História Natural e tal. Esses três professores lá do tempo do Julinho, a história conta isso, foram na verdade o embrião do Departamento da Genética. O Departamento funcionava ali na Faculdade de Filosofia, depois foi funcionar no porão da Faculdade de Direito. Aí o Cordeiro, conta a história, que era mais dinâmico nessa parte que o Salzano, foi falar com o Reitor, que era o Paglioli, e exigiu do Paglioli que mudasse a Genética, então Secção de Genética, do porão do prédio que ocupava, sugerindo ao Paglioli que comprasse um andar inteiro no Edifício Godoy, na Rua Annes Dias, e alugasse o 15º andar. O Paglioli comprou o décimo terceiro andar e alugou o décimo quarto. Nisso o Cordeiro já estava com o Flávio Lewgoy que era Químico, veio para a Genética, se integrou fisicamente e o Tondo. Então o núcleo disso aí era realmente, pela ordem, era o Cordeiro, que tinha o Salzano junto com ele, o Flávio que foi muito importante para o Departamento e o Tondo. Tem foto deles lá no Departamento. Quando fomos lá para fora, para a Agronomia, esses dois não quiseram ir (Tondo e Flávio). Foi a maior resistência que eu tive, mas eu entendia a situação deles, estavam mais velhos, morando no centro da cidade, pegar carro…

Historiadora – Ainda lembrando essa parte do Instituto, como foi a sua opção pela Biologia, pelas Ciências Naturais?

Questão 08

Escolha pela História Natural e trajetória pessoal

F.Rocha – Pois é… Olha eu sempre tive – por causa da minha mãe – um lado médico na minha personalidade. Minha mãe queria porque queria que eu fosse médico; meu pai não fazia nada. Um dia eu era guri de uns 15, 16 anos, era época de vestibular para Medicina e meu pai tinha me inscrito. O pai era professor na PUC de Direito do Trabalho, foi fundador do Direito da PUC, foi Diretor também. O pai disse:

– Meu filho, e o vestibular?

– Não pai, eu vou fazer – aí ele conseguiu o programa do vestibular.

– Meu filho, aqui ó, as matérias – o pai tinha tudo arrumadinho, assim – para o vestibular: é Biologia, que tu és bom aluno que eu sei, é português que tu és bom, que eu sei, uma língua viva, acho que tu sabes mais francês que Inglês.

– É pai – eu tinha uma prima que falava francês em casa.

– Esse é o vestibular. Tu vai fazer e vai passar – ah não, tinha Física – só Física que tu não sabes, não sabes não, nunca aprendeste.

Bom, mas aí dessa conversa com o pai, ele queria que eu fizesse, aí eu rodei, não tinha estudado nada. Aí no ano seguinte eu estava estudando e fazendo o CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) também. No ano seguinte eu disse:

– E agora?

– Não, eu tenho um panfleto aqui da Medicina. As disciplinas básicas tu sabes. E o Curso de História Natural? Porque tu não fazes vestibular para História Natural? Tu gostas de Biologia?

– Gosto.

– Gosta de Português?

– Gosto.

– Gosta de Francês?

– Gosto.

– Então tu fazes e passa para essa Faculdade – ele tinha medo sabe do que? Que eu virasse vagal, porque eu era vira-lata velho! (risos)

– Então tá, pai.

– Mas faz Medicina também!

Chegou o vestibular, eu me inscrevi e ele me inscreveu também na PUC, uma prova era 15 de janeiro e a outra era 20 de fevereiro. Aí ele disse:

– Meu filho eu tenho que viajar, mas tem vestibular agora.

– Não, eu sei, eu sei!

Aí eu fui lá na Faculdade de Medicina, onde eu fui diretor, depois, da Biociências. Ele me inscreveu e tal e eu fui lá. No primeiro dia era Física, depois tinha Química, Biologia e Português. Aí me deram a prova de Física, umas dez páginas, pergunta e espaço para ti resolver. Eu olhei a prova assim, não sabia nada de Física, aí esperei um pouquinho e entreguei a prova e não apareci mais lá. O pai voltou da viagem:

– E aí meu filho, como foi lá?

– Pai, eu vou ter que te contar uma coisa: eu não fiz a prova, eu peguei a prova e entreguei em branco.

– Mas que barbaridade – O professor que estava na sala era muito amigo nosso, o Francisco Marcos Pereira, médico.

– E o Dr. Francisco Pereira era chefe da mesa.

– Bah! Que vergonha!

– Eu não sabia nada, o que eu ia fazer?

Isso foi numa terça-feira e na quinta feira começava o outro vestibular de História Natural na PUC que era aqui no Colégio Rosário. Aí ele disse:

– Tu vais fazer?

– Vou fazer pai, claro!

Eu passei. Eram 18 candidatos e tinha cinco vagas, passei em terceiro lugar. Aí eu cursei a História Natural, mas ele não ficou satisfeito. Quando chegou em março ele me matriculou em um cursinho. Então eu tinha cursinho de manhã, faculdade de tarde e de noite. Quando chegou junho eu disse:

– Pai eu não tô aguentando, até porque eu estou gostando da Biologia.

– Tu gostas? Essa é a tua opção?

– É.

Aí eu fiquei, fiz a faculdade, terminei o CPOR, conheci a Iara, casei no final do ano seguinte com a Iara, quando eu estava no segundo ano da Faculdade. Foi muito feliz a minha vida, acho que até mais do que eu mereço!

Aí eu tive sorte porque o pai disse:

– Tu estás casado, tens que trabalhar – eu estava bem, eu trabalhava num colégio, dava aula.

– É professor que tu queres ser?

– Não é professor que eu quero ser.

– Então espera aí – naquele tempo era tudo diferente, ele foi lá falar com o Paglioli.

Historiadora – Quem?

F.Rocha – Eliseu Paglioli.

Historiadora – Ah! Paglioli o Reitor?

F.Rocha – É isso! Ele chegou para o Paglioli e disse:

– Meu filho está casado precisa de um emprego – o Paglioli teria dito:

– O que tu queres que teu filho seja.

– Quero que comece do começo, é guri, tem dezenove anos, tem que começar do começo!

– Tu conheces o Pery?

– É claro – era o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas, o Pery Pinto Diniz.

– O Pery está precisando de um cara que trabalhe com ele de noite na Faculdade de Economia.

– Pode botar ele, pode botar – depois eles me contaram, tanto o Pery quanto o pai (risos).

– E quanto queres que ele ganhe?

– O mínimo, o mínimo!

Aí eu entrei na Faculdade como tarefeiro no Gabinete do Pery Pinto Diniz. Eu sempre fui aplicado, cuidadoso, trabalhador… Aí eu comecei o primeiro dia com o Pery, não sabia bater à máquina. Aí o Pery me chamava:

– E aí, Fernando, está tudo bem?

– Não, está tudo bem, estou atendendo no balcão dando atestado para aluno – “Atesto para os devidos fins que o fulano de tal cursou a disciplina…”. Comecei a fazer isso, né? Foi um período muito bom.

Historiadora – Seu Pery foi bem importante para a História da Universidade né?

F.Rocha – Foi, foi.

Historiadora – Trabalhou ali e depois?

F.Rocha – Meu dia era assim: eu trabalhava de noite, das sete horas às onze e meia e estudava de manhã e de tarde.

Historiadora – Em que prédio o senhor estudava?

F.Rocha – Na PUC, no Colégio Rosário. A Economia era onde é ainda, do lado da Faculdade de Direito. Era perto de casa, eu passava pela Iara no caminho. Eu dizia:

– Eu estou aqui transitório, seu Pery, o senhor sabe disso, né?

– Não, mas está tudo bem.

Questão 09

Ingresso na Genética e aprendizagem no laboratório

Então ele sabia que um dia eu ia sair. Dois anos depois, mais ou menos, eu estava numa rota, num colégio, não sei porque eu estava em um colégio público, tinha ido com um amigo. Lá encontrei uma pessoa que depois ficou minha amiga, o Arno Schwantes e aí conversamos, conversamos, conversamos! Aí ele disse assim:

– Pois é, eu estou lá no Departamento de Genética, mas agora eu vou sair… Tem um tal de Professor Salzano que está precisando de gente para trabalhar com ele.

– Não é Cordeiro?

-Não, é Salzano.

Aí no outro dia eu fui ao Departamento de Genética que era aqui na Annes Dias, no Edifício Godoy. Fui direto com o Cordeiro, o Cordeiro era o chefe do setor lá. Foi bem estúpido comigo, custou a alinhar comigo, o Cordeiro. Eu disse:

– Estou aqui porque assim, assim, assim.

– O que tu és?

– Sou aluno da UFRGS, sou tarefeiro.

– Tarefeiro? O que é isso?

– Faz tarefas, e coisa… Tô no segundo ano da Faculdade e quero trabalhar na Genética.

– Que Genética? Aqui é a Genética Animal.

– Eu quero Genética Humana.

– Então não é comigo, desce mais um andar e fala com o Salzano. Não é comigo!

Aí desci mais um andar. Cheguei lá e falei com o Salzano. Ele perguntou de onde eu vinha, por que eu estava na sala dele, quem tinha me mandado, quem tinha indicado. Eu contei a história. Ele disse:

– É um jeito diferente de entrar aqui. (risos)

– Por que professor?

– Porque aqui eu escolho! Fulano que está ali era meu aluno – a Margarete não estava lá ainda, mas entrou três meses depois. O Arno Schwantes esse estava saindo. O Israel estava lá. Agora está numa cama, tu sabes, né? Inerte. O Israel estava lá.

Historiadora – Quem?

F.Rocha – O Israel Roisenberg. Tu já ouviste falar dele?

Historiadora – Sim, já ouvi.

F.Rocha – Tu não vais entrevistá-lo porque ele está em coma há dois anos.

Aí eu cheguei e disse:

– Salzano eu… tudo bem!

– Não, não! Tu precisas trabalhar, né?

– Preciso.

– E eu preciso de gente também – então ele puxou uma gaveta do lado dele assim, numa mesa de ferro com tampa verde, uma pasta, puxou um envelope desses assim e disse:

– Eu tenho um projeto aqui sobre hemoglobinas anormais. Tu já ouviste falar em Hemoglobinas?

– Não.

– Então tu vais ouvir muito falar daqui para frente. A primeira coisa…

– Não, mas amanhã não dá porque eu tenho que sair da Economia ainda. Eu estou lá e tenho que vir para cá.

– É verdade, então depois de amanhã.

No dia seguinte eu fui lá na Economia e pedi para o Pery:

– Doutor, eu vim lhe ajudar por um ano e meio, agora eu preciso sair daqui, eu preciso ir para a Genética. O senhor tem que mandar um bilhete para o Dr. Cordeiro me transferindo para lá.

Aí ele me deu, entreguei para o Cordeiro. E fui falar com o Salzano que disse: “Tu vais ter que ir lá no Partenon onde tem o Instituto de Pesquisas Biológicas do Estado, na Rua Domingos Crescêncio – tinha um órgão do Estado ali que fazia exames de sangue para egressos do Estado, para professores do Estado – tu vais aprender a coletar sangue, tu vais aprender a fazer hemograma. Amanhã lá tu falas com o Dr. Cláudio Siqueira, que é muito meu amigo”.

Aí eu fui lá, peguei o bonde na Avenida João Pessoa, eu já era casado com a Iara. Desci na parada e fui ao Instituto. Entrei na sala dele, sala grande, com aquelas mesas com sangue, cheio de sangue do outro lado, microscópio e coisa:

– Dr. Cláudio, eu sou o Fernando Rocha, assim, assim, assim…

– Ah! Senta aí doutor. Eu ouvi falar que o senhor estava chegando.

– Mas eu não sou funcionário seu, não vou trabalhar aqui, vou estagiar aqui o tempo necessário para eu aprender a fazer exame de laboratório e treinar coleta de sangue,é isso que eu vim fazer aqui.

– Está bem, não tem problema, tu que mandas – era aqueles caras bem falastrão, assim.

Aí ele me apresentou: “Esse aqui é o Dr. Fernando que está chegando para coletar sangue conosco e tal, para trabalhar conosco. Dá um avental para ele porque vai começar agora a coletar sangue e tal”. Assim eu comecei a coletar sangue, comecei a preencher ficha, foi assim que aconteceu na minha vida. Pegava o bonde todos os dias ia e voltava. Botava os tubinhos de sangue no bolso da camisa, pegava o bonde, ia até a Annes Dias, parava com o bonde ali e aí chegava ao laboratório e ia preparar o sangue para fazer o exame da Anemia Falciforme.

Historiadora – Levava no bolso da camisa?

F.Rocha – É. Claro que depois eu aprendia as técnicas para preparar o material para fazer os exames. Fiquei muito tempo fazendo esse trabalho, acho que uns dois, três anos. Terminei e ai começaram outros trabalhos.

Historiadora – Então começou como funcionário?

F.Rocha – Comecei como funcionário da UFRGS. Fiquei como funcionário da UFRGS por mais uns dois anos. Aí surgiram vagas.

Historiadora – Não foi na época em que o seu Cordeiro foi para Brasília?

F.Rocha – O Cordeiro estava em Brasília, provavelmente por isso que eu entrei.

Historiadora – A professora Margarete comentou que era difícil ter vaga, mas como foi um bando para lá, né?

F.Rocha – É.

Questão 10

Trabalho coletivo, café e rotina do Departamento

Historiadora – Ouvi falar que vocês trabalhavam fim de semana…

F.Rocha – As pessoas, dependendo do tipo de trabalho, iam sábado de tarde. O Salzano ia todo o sábado, normal, e até domingo de manhã. Eu às vezes também tinha trabalho no sábado de manhã, tirar sangue daqui, botar para lá, descongelar, botar na lâmina… A Margarete também tinha. Eu ajudei muito a Margarete, porque eu sabia coletar sangue. Ela entrou lá para trabalhar com grupos sanguíneos – ela deve ter te falado isso.

Nesse meio tempo, nesse espaço de tempo, o negócio dos cromossomos – 32 , 34, 44… – quando descobriram o código do núcleo, o código dos genes, ela foi lá para São Paulo, para o Butantã para aprender a técnica, para aprender a identificar os cromossomos, de coleta dos cromossomos. Ficou lá uns três meses e voltou e aí foi construída até uma câmara asséptica para ela lá em cima, e tal. Às vezes ela não tinha quem coletasse sangue do paciente, de criança era complicado. Então, às vezes, quando eu estava saindo, se não tinha nada eu ia lá na Faculdade de Medicina coletar sangue junto com ela, vários pacientes dela.

Historiadora – Isso era uma parceria de vocês, né? Não era o seu trabalho, mas ia…

F.Rocha – Não, não era meu trabalho, mas a gente tinha um bom nível de companheirismo.

Historiadora – O pessoal comenta também dos intervalos para o café…

F.Rocha – É, tinha uma parada para o café às dez horas da manhã – estilo americano, os americanos é que fazem isso – e as quatro da tarde. Sábado de manhã também. Era muito divertido o café, falávamos dos seminários, contávamos piadas, se comentava de tudo: filme, futebol, se programava congresso, os trabalhos que ia apresentar. Era uma família. No final do ano tinha festa de Natal, presentes… Eram dois grupos, na verdade, tinha o grupo do Cordeiro, que era no andar de cima, no décimo quarto. Era o Cordeiro, a Helga – que foi a segunda mulher dele, agora não é mais, se separaram –, o Edmundo Kanan Marques a Maria Luiza Reguly. Tudo isso é Genética Animal.

Historiadora – Como é o sobrenome?

F.Rocha – Reguly, acho que ela não está mais lá, a Marli Napp que já morreu. Depois tinha uma turma de Brasília, o Fernando Kratz, o Eduardo Centeno. Veio uma turma de Passo Fundo com a Maria Irene Baggio de Moraes Fernandes, a Maria Helena Zanettini, Ana Maria Sacchet. Essa turma toda fui eu que contratei quando era chefe de Departamento, a Ana Sacchet, a Zanettini, a Vera Valente, que depois foi orientadora do mestrado da Cláudia.

Historiadora – Da Cláudia sua filha?

F.Rocha – Da Cláudia, minha filha, estou achando que tu sabes, porque tu conheces todo mundo!

Então, embaixo tinha o Salzano. O Salzano tinha uma secretária, tinha o Girley, um técnico que entrou junto comigo, só que ele foi ser técnico do Salzano…

Historiadora – Ele é que acompanhava o Salzano?

F.Rocha – O Salzano e eu somos muito amigos, durante aqueles três primeiros anos eu viajei bastante, era eu, o Girley e o Salzano.

Historiadora – Além dele, quem o senhor lembra de funcionários que acompanhavam vocês?

F.Rocha – Tinha o Girley e ninguém mais…

Historiadora – Mas e por exemplo aqui?

F.Rocha – Em Porto Alegre?

Historiadora – É. Vocês tinham funcionários também, né?

F.Rocha – Tinha uma secretária, a Nilda, que o Salzano pagava, através desses grandes auxílios de pesquisas, né? Depois ela foi contratada. Tinha a Nilda, o Girley, lá embaixo era pouca gente.

Historiadora – Sim, e as pesquisas eram com estagiários?

F.Rocha – É. Lá em cima tinha uma secretaria grande, no décimo quarto, onde tinha a Dona Diná, datilógrafa. Aí já se formou uma indústria de teses. Um cara lá pegou uma máquina de escrever dessas boas, modernas, elétricas e batia as teses, era tudo rodado lá em cima. Funcionários mesmo tinham poucos, a não ser a faxina, né?

O ambiente era muito bom! Nós tínhamos que cumprir mais de 40 horas semanais. Ele somava, o Salzano somava! Tinha uma mesinha, assim, na entrada, com nome de todo mundo. Tu assinavas o nome e colocavas a hora que entravas e a hora que saías. Esse quadro ia para a parede na semana seguinte: Fernando da Rocha, 38 horas, Salzano, 49, Israel, 39, 40, Margarete… Sabe? Ele fazia um ranking de quantas horas tu trabalhavas por dia, por semana. Era motivo de gozação, é lógico. Também era motivo de gozação, mas ele levava a sério! Ele tinha uma cadernetinha, isso é uma coisa interessante do Salzano: a gente entrava sentava junto à mesa dele e o Salzano pegava uma cadernetinha, desse tamanho assim, de espiral, e ali tu tinhas que anotar tudo o que tu fazias: chegada 8:40, 10:00 café, retomada do trabalho 10:30, saída 11:58, de tarde, a chegada… Tudo! Na minha mesa tinha que preparar o sangue para trazer: de manhã, cinco amostras, preparação do material, hemolizar o material, lavagem e colocação do material na geladeira, intervalo.

Historiadora – Tinha que registrar tudo o que fez durante o dia?

F.Rocha – Tudo, tudo! Depois tu subias para o café e na volta do café: colocação do material na geladeira, feitura de lâminas… A saída, fui ao banco, tudo, tudo. Tu chegavas à mesa dele assim, sentava, ele estava de pés descalços, não usava sapato no verão, era sandália e largava a sandália. Ele:

– Cadernetinha.

– Está aqui professor.

– Leitura.

– Ah! Eu li… Três separatas da Genetics.

– Onde está a revista?

– Ah! Estava lá na estante, não sei se está ainda – às vezes estava às vezes não e quando estava ele…

– Traz aqui!

– Qual artigo que tu leste?

– Esse aqui sobre Siclemia.

– O que tu entendeste deste artigo, desse trabalho?

– Ah! Professor, assim… (risos)

Historiadora – Ele pegava de surpresa?

F.Rocha – Pegava! Eu tinha muita coisa para fazer e não lia muito, também. Eu sempre fui meio avesso, não lia muito. Ele disse: “A Margarete leu doze artigos e tu leste três”.

Mas os assuntos da Margarete são mais interessante que os meus. (risos) Ele era muito meu amigo, eu brincava muito com ele, então, não me levava muito a sério. Tenho muita saudade dele, mas ele exigia: “Tu tens que ler mais, tens que ler mais”!

Questão 11

Ann Arbor, futebol e amizade com Salzano

Aí quando fomos para os Estados Unidos, a Iara grávida da Cláudia e os outros três filhos pequenininhos, em 1973, a mais velha tinha nove anos, a Katia. Era inverno, cheguei no inverno, com neve dessa altura, tinha que sair com pá para poder sair de carro! Eu jogava futebol, eu era bom no futebol, e lá com os gringos, eu era melhor ainda! Eles tinham um campeonato entre Universidades: Ohayo, Michigan, umas cidades pequenas dali próximas de Ann Arbor. Eu tive a chance de disputar o campeonato. Eu cheguei lá e um brasileiro ficou sabendo que eu estava lá e me convidou para jogar no time. Acabei goleador do time, ganhando medalha e troféu.

Aí, um dia o Salzano apareceu lá em Ann Arbor:

– E aí como é que está?

– Vamos almoçar? Estou indo para casa almoçar.

– Como é Fernando? Estou sabendo que és o às aqui do futebol! O Neel me falou que se tu tivesses esse empenho para trabalhar na Genética tu serias Prêmio Nobel!

– Vamos combinar uma coisa Salzano. Somos amigos, não somos? – nunca vou esquecer daquilo.

– Vamos fazer o seguinte: eu deixo o Prêmio Nobel, deixo todos os prêmios para ti, abro mão de todos eles. Mas a minha vida é essa.

Ele gostava de mim, me entendia assim, me respeitava assim, tenho certeza. Muitas coisas a gente se confidenciava lá, porque ficava sozinho, né? Aí ele chegava assim, de noite e dizia: “Vamos caminhar na pista?” Pista não, um mato dessa altura! A gente jantava as comidas que se fazia lá, aquelas porcarias, e depois a gente caminhava e conversava bastante sobre a vida. Ele é um cara muito interessante. Tudo o que ele está ganhando, ele merece. Tudo o que se diz dele é pouco, tudo! Tem uma cultura científica fantástica, uma memória científica fantástica, uma capacidade de entender e explicar… O discernimento dele… Tu estavas numa sala com ele para ouvir uma palestra de outro assunto, outra área, fisiologia não sei de que e ele sentava ali, ficava perguntado e conversando com o cara que estava lá na frente. Eu não estava entendendo nada. Ele é fantástico! Certamente ele é o cara mais importante nessa área de Genética de Populações e de Genética em geral!

Historiadora – Marcou, né?

F.Rocha – É.

Questão 12

Pioneirismo da pós-graduação e disputa por recursos

Historiadora – Como foi o começo do Pós-Graduação? Vocês tinham que fazer seminários? Como era a estrutura do Pós-Graduação?

F.Rocha – Na verdade, a Genética foi sempre precursora em termos de Pós-Graduação. O próprio ingresso nosso na Genética, nosso eu digo de todo mundo, né? Tu vês como era meu caso, por exemplo, já me botaram no trabalho direto, então era levado muito a sério. Quando começou essa história de Pós-Graduação, que o Governo Federal começou a dar dinheiro, angariar recursos, a pagar melhor professores mais qualificados, criou um clima de competição sim! Mas mais de apuração das pessoas: “Eu quero ser doutor, eu quero ser aquilo, eu quero…” Ao mesmo tempo a Genética se lançou. A Genética é uma ciência antiga, mas ela é moderna hoje, junto com a Física e outras ciências ela está sempre… Olha a Genética Molecular! Então como ela está em constante renovação, está sempre se motivando a formação de pessoal. Antigamente se dizia assim: “Só recebe recurso quem tem tantos doutores”. O Departamento de Genética estava sempre no topo da lista junto com a Física! E: “Ah! O cara tem que ser mestre”! A Genética tinha mais mestre que todo mundo. A divisão de bolsa para Iniciação Científica, bolsa para mestrado, os caras de outros departamentos torpedeavam a Genética – quando eu era chefe – porque o Instituto tinha 18 bolsas de trabalho. Como eram sete departamentos diziam:

– São sete departamentos, são dezoito bolsas, dá duas bolsas para cada departamento. Mas a Genética tem oito!

– Qual vai ser o critério, numérico? A Genética conquistou esse direito. Tu olhas a contribuição da Genética para ver… Não qual é o mais importante, mas qual o que contribuiu mais. Ela tem que ter mais aluno, tem que ter mais dinheiro.

Isso cresceu dentro da Universidade, sabe? Tinha gente importante que se dedicou, o Salzano se dedicou muito a esse tipo de coisa, a Margarete se dedicou muito, o Israel, o Cordeiro, gente que vestiu essa camiseta da Pós-Graduação.

Questão 13

Seleção de alunos para mestrado e doutorado

Historiadora – E como é que começa a Pós-Graduação?

F.Rocha – Começava com um exame de seleção. O Departamento de Genética tem o chefe de departamento e tem o coordenador, que é coisa moderna (risos), vinte anos para cá. Tem o coordenador da Pós-Graduação que é um chefe da pesquisa, digamos assim. Chefe administrativo é o chefe de departamento. Eu fui chefe administrativo, não fui coordenador. Então esse coordenador, por essa época do ano, ele faz um edital, tem um conselho de professores da Pós-Graduação que estabelece quesitos: que perfil tem o aluno que nós queremos? Nós queremos aluno com mais ênfase na Genética Animal, melhoramento… trigo, milho ou milho pipoca. Não tinha ninguém com trigo lá, há uns vinte anos, depois queriam fazer pesquisa com milho pipoca. Um menino lá de Pelotas, e outro não sei que, arroz e milho. Este conselho elabora um plano para funcionar dentro desse Departamento e a partir daí são selecionados os alunos. Como é que são selecionados? Manda uma correspondência para a Universidade do Pará, Maceió, Salvador, Laguna, não sei o que, Piracicaba, anunciando que no dia 28 de dezembro serão realizadas as provas para ingresso no Mestrado em Porto Alegre, e manda todo o material, qual a matéria para prova. No meu tempo se inscrevia…. As bolsas, o CNPq dava algumas, as outras… Eram dez bolsas, se calculava umas dez doze vagas todo o ano. Aí vinha gente de todo o Brasil, todo o Brasil! Começou a vir gente de Natal, Recife, Piracicaba, Curitiba, do interior do Estado – veio o pessoal de Rio Grande, de Pelotas, Santa Maria, Bagé, então ficavam quarenta, trinta pessoas lutando por oito, dez, doze vagas. Aí começou a ficar mais maleável:

– E se não tiver vaga?

– Bota no aperfeiçoamento. Fica aqui, faz os cursos, o ano que vem presta a prova.

Enfim, dentro desse espírito de competição intelectual. Teoricamente, eram passos mais rápidos, era teste escrito, de conhecimentos gerais de Genética, Genética Geral. Era a entrevista com professores do Curso, eu fui professor do Curso durante dez anos. Margarete, Salzano, Israel, todos esses foram. Então cada um de nós pegava três ou quatro alunos para entrevistar: o que tu queres, o que pretendes, qual a tua formação, é casado, solteiro, tem dinheiro, não tem dinheiro? Pegava o perfil da pessoa. Aí pegava-se a prova da pessoa, a prova escrita, pegava-se o laudo psicotécnico da pessoa e ia-se para a reunião com dez, doze professores da Pós-Graduação para eleger dez, doze novos alunos. Então o que acontecia? O Salzano dizia: “Eu já tenho uma candidata, a Fulana de Tal…. (risos) – eu estou imitando ele – que esteve falando comigo e quer ser orientada por mim, se ninguém tiver… Eu aceito a Fulana de Tal”. Na realidade a gente nunca dizia não, então ele aceitava a Fulana de Tal, e assim alguns outros precisavam fazer também. Mas na prática eram sorteio e:

– Que nota ela tirou?

– Ela tirou – tinha que ter nota dez – mas ela mostra bom drive para…

– Eu quero a Fulana.

– Eu quero o Fulano.

– Não, mas esse cara é casado e não vai poder morar em Porto Alegre, vai ter que pegar ônibus… Esse é problema!

A gente fazia uma análise bem certa e séria, aí o cara ia passando e ficando entre aquelas vagas possíveis e então era comunicado: “Vossa Senhoria obteve, tal, tal, tal, classificação tal, no momento não tem orientador, ou tem orientador, você foi escolhido por Israel Roisenberg porque ele trabalhou assim, tal, tal, tal”. Era tudo público, tudo “na cara” de todo mundo. Aí terminava a seleção, se fazia reunião e se distribua as vagas. Isso para mestrado. Para Doutorado era um pouco diferente. Tu já tinhas que ter mestrado e os exames eram muito mais complicados. A seleção era mais complicada, o psicotécnico era mais complicado e o orientador também exigia mais coisa da pessoa, isso para Doutorado. Basicamente é isso, era isso, só se mudou muito. Eu não acredito que tenha mudado muito.

Historiadora – Isso era na época em que o senhor era professor do pós, né?

F.Rocha – Eu era também.

Questão 14

Formação doutoral e o “Efeito Fundador” da Genética

Historiadora – E quando o senhor era estudante do doutorado, como era?

F.Rocha – Pois é, eu tive uma situação especial quando eu entrei. Cursei algumas disciplinas que eu te falei, Estatística…

Historiadora – No Curso de Especialização?

F.Rocha – É, Especialização em Biologia. Esse Curso serviu para mim como mestrado, entre aspas, embora eu não tenha feito nenhum trabalho, embora estivesse fazendo o trabalho relativo aos negros, né? Mas não tive esse problema. Quer dizer: eu fiz as disciplinas, já tinha feito antes, cursei essas disciplinas, já tinha o meu trabalho de pesquisa realizada dentro do Departamento, dois trabalhos publicados – doutorado exigia um e eu tinha dois do mestrado… Não era mestrado, era Especialização em Biologia, era o título do curso que eu fiz preliminarmente e era isso. Os outros tinham que fazer cursos como eu fiz, só que já mais ligado a área que ele está fazendo. Eu, por exemplo, fiz Hematologia, só eu e o Israel fizemos Hematologia na Faculdade de Medicina. Tem gente que fez curso na Agronomia, por exemplo, de melhoramento animal… Então cada um já procurava o setor que iria trabalhar, né? Então era muito organizado, muito sério. A Genética era muito séria e continua sendo, tenho certeza! Lá tem o que se chama em Genética de Efeito Fundador. Quando tu vais analisar uma população que se formou a 300 km daqui isolados, com 300 ou 40 casais, essa população fica restrita pela área. Quando tu fores comparar os hábitos daquela população separado, vamos dizer: há 500 quilômetros de Pelotas, tu vais ver que os hábitos daquela população é diferente dos daquela outra, porque essa população de 500 indivíduos, como são poucos indivíduos, geneticamente falando, eles apresentam à flor da pele o Efeito Fundador. São aquelas coisas que as pessoas que fundaram, que criaram esse grupo, as maneiras, os hábitos que afloram. O Efeito Fundador deve ter em Porto Alegre, por exemplo, ou Nova Iorque, seja onde for. Então o Efeito Fundador só tem efeito mesmo em populações pequenas. Isso vale para qualquer coisa e vale para o Departamento de Genética, que é pequeno. Não posso criar um Efeito Fundador na Universidade, como política geral sim, mas dentro do Departamento de Genética é muito forte este Efeito Fundador: é idolatrar a pesquisa, pesquisa em primeiro lugar, respeito ao próximo, tudo isso, mas o respeito a pesquisa, à Ciência em geral, toda ela, mas esse “espírito”, vamos dizer assim, pela pesquisa, a busca pelo resultado sério, honesto… Nisso a Genética é imbatível. Isso fica na minha cabeça e tenho certeza de que todo mundo que vai falar contigo vai dizer a mesma coisa.

Historiadora – Sim, embora sempre tivesse esse contato com outros grupos, né?

F.Rocha – Sim. Eu me considero lá de dentro, mas eu não era como eles, era um pouco diferente, porque eu tinha a minha família, então tinha os feriados e, às vezes, eu não ia aos seminários. Tenho certeza de que poderia ter me dedicado mais, mas eu achava a vida lá fora… Eu também achava bom!

Questão 15

Reconhecimento, expansão nacional e encerramento

Historiadora – A pós graduação da Genética foi uma das primeiras, não é?

F.Rocha – Acho que foi. Reconhecida, eu acho que foi a segunda.

Historiadora – Qual teria sido a primeira?

F.Rocha – Acho que foi a Física. Essa pergunta o Salzano deve saber porque eu não estava aqui no Brasil, acho que eu estava nos Estados Unidos.

Começou a haver um padrão de reconhecimento, um ranking de reconhecimento e a Genética ficou lá em cima! A Genética sempre esteve no Ranking da Universidade – agora não mais – ela tinha não sei quantos doutores, dez, doze e os outros tinham um ou dois doutores.

Por isso eu falo no “espírito” (risos) da Genética. O cara que entra lá pode vir do lugar que ele vier, tivemos alguns que vieram de lugares horríveis, quanto à base como Pernambucanos, Baianos, com pouca bagagem cultural/científica, com costumes diferentes. O cara se adapta ou cai fora! Ah! Ele não aguenta e vai embora! Interessante observar depois, ao longo do tempo… Qual é a clientela da Genética? Quem veio de fora do estado, para onde foram esses caras? Isso é um trabalho que eu acho que nunca foi feito. O que está fazendo aquele cara que veio para a Genética lá do Piauí? O que esta pessoa que fez mestrado aqui está fazendo agora? Ela está trabalhando em um banco, não serviu para nada (o curso de Pós-Graduação)?

Historiadora – Muitos acabam formando Cursos de Pós-Graduação em outros lugares, não é?

F.Rocha – Essa era a ideia, né? Por exemplo: nós temos gente que se formou aqui e está em Maceió, Recife, Belém do Pará. Com Manoel Ayres, veio um grupo grande para cá. Curitiba já era grande. São Paulo tem (a Universidade) São Paulo perto, Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba. Porto Alegre: Rio Grande, Santa Maria, Pelotas, Bagé, tem gente que veio aqui, voltou e formou um grupo.

Historiadora – Na época da ditadura vocês tiveram algum confronto aqui?

F.Rocha – Não, foi normal. Futebol e política não era assuntos que…

Historiadora – Só no intervalo?

F.Rocha – Só no intervalo. Porque tu não ouvia gente conversando assim nos laboratórios, era muito raro, muito raro!

Historiadora – Então está!

F.Rocha – Espero ter te ajudado em alguma coisa!

Historiadora – Ajudou muito!

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