Sala de aula, alunos assistindo a uma apresentação de slides, uma professora falando sobre empreendedorismo. Nada disso seria novo na vida da universidade, não fosse o perfil da turma presente na sala 104 do prédio Centanário da Engenharia: todos são ex-catadores e ex-carrinheiros.
O projeto Semeia Sonho é uma iniciativa da Cooperativa Mãos Verdes em conjunto com a UFRGS e o projeto Todos Somos Porto Alegre, da prefeitura, surgido após a proibição da circulação de carrocinhas nas ruas da capital gaúcha, que começou a ser implantada em 2013. Ainda nas primeiras fases do Todos Somos Porto Alegre foi percebido um desejo entre os ex-catadores de desenvolver atividades empreendedoras. Por conta desse desejo aconteceu uma aproximação com os conhecimentos da universidade para a montagem de um projeto piloto três anos depois, dando origem a uma atividade de extensão da UFRGS. Para incentivar a participação no curso, os alunos recebem uma bolsa, paga em três parcelas, além de vale transporte para o deslocamento até os locais do curso.
A turma é composta por nove alunos e as aulas são ministradas por professores voluntários da EPR (empresa júnior da engenharia de produção) e da UFRGS. Os conteúdos são lúdicos e muitas vezes as experiências pessoais vão ao encontro da teoria estudada, fazendo com que a distância entre academia e sociedade seja cada vez menor. A ponte entre todos os órgãos envolvidos é feita pela professora Istefani Carísio de Paula, coordenadora geral do projeto, que já desenvolveu outras atividades de extensão que visam diminuir a desigualdade social através do conhecimento. Sobre os impactos do projeto na vida das pessoas a professora diz acreditar na “modificação das realidades destas pessoas e do seu entorno, especialmente familiares. E também sobre a vida dos alunos que estão contribuindo com o projeto, já que é uma experiência viva, real e impactante, em termos de modelos mentais e visão de mundo”.
A realidade de quem participa

Uma das colegas de Patrícia, Lisandra de Oliveira Vargas, 35, cuida de seus três filhos e da mãe doente. Ela participa de programas sociais do governo federal e já começou sua atividade empreendedora, investindo na compra de roupas para revenda. No curso ela busca a base teórica e novos aprendizados para o seu negócio, “uma oportunidade de ouro”, disse ela, que também acha necessária a expansão da atividade “eu espero que essa oportunidade não seja só pra mim, que seja pra mais gente”.
Próximos passos

Ao fim do curso cada aluno deverá apresentar um plano de negócios, que será viabilizado via crowdfunding (uma forma de financiamento coletivo online). O dinheiro arrecadado será dividido igualmente entre os participantes para que todos tenham chance de dar o pontapé inicial e aplicar os conhecimentos aprendidos ao longo dos 18 encontros.
Sobre o futuro do projeto, Alceu diz que “a ideia é, passado esse ciclo todo, consolidarmos esse aprendizado, e aí sim formatar um projeto que possa ter uma escala maior e se replicar até mesmo para outras universidades, outros cursos. Essa é a nossa visão para o projeto Semeia Sonho”.




