© Eduardo Vieira da Cunha
Notícia 10 outubro, 2017

Entrevista especial: Eduardo Vieira da Cunha

Fotógrafo, pintor e desenhista, Eduardo Vieira da Cunha é professor do Instituto de Artes da UFRGS desde 1985. Na exposição “Reflexos Partidos”, produzida pela Ponto UFRGS – Produtos Institucionais e pelo Departamento de Difusão Cultural, o artista traz obras que se referem ou refletem sua visão de mundo interior. Eduardo considera este um de seus momentos mais marcantes em sua trajetória na Universidade – um percurso de mais de 40 anos, incluindo os tempos de estudante. Nesta entrevista, concedida em seu atelier, ele conversa conosco sobre a exposição, seu trabalho, a situação atual da arte no contexto brasileiro e, claro, relembra também suas décadas de dedicação à UFRGS.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Qual o motivo de a exposição ter o nome “Reflexos Partidos”?
“Reflexo Partido” tem a ver com a questão de a obra ser uma espécie de um reflexo das coisas, do exterior à obra de arte. E também um reflexo do próprio artista, daquilo que ele sente. No caso específico dessa exposição, são obras que se referem ou refletem a minha visão do mundo interior e que ficam refletidas, como que projetadas na obra de arte. Por isso, por essa questão reflexiva, que eu escolhi esse título. O meu trabalho sempre teve a ver com isso, uma espécie de criação de um mundo particular, de determinadas coisas que para mim eram importantes ou caras, como o universo infantil, representado nesses brinquedos que aparecem no meu trabalho.

Essa exposição marca também um memorial das tuas atividades como professor, de 1985 até hoje. O que falar sobre esse percurso todo?
Há cerca de duas, três semanas, apresentei lá meu memorial descritivo desse período. Para mim, foi uma espécie de um retorno a tudo que eu fiz na Universidade nesse tempo, mais de 30 anos. A UFRGS representa muito pra mim nesse sentido, porque eu comecei aqui muito jovem, desde estudante, em 1974, quando ingressei no curso de Artes Visuais (Artes Plásticas naquela época). E depois como professor… então, já são mais de 40 anos convivendo no Instituto de Artes e na Universidade. Para mim, este é um momento muito importante, continua sendo, e é uma espécie de quase que um fechamento de uma carreira na Universidade. Eu prezo muito essas exposições na UFRGS por me deixarem mais perto da comunidade acadêmica, por poder mostrar meu trabalho para as pessoas que circulam aqui e também poder, de alguma maneira, reviver todos esses anos dedicados à Universidade. Já participei da comissão de graduação, de alguns outros cargos também, e atualmente sou coordenador da Comissão de Pesquisa do Instituto de Artes.

Nesses quarenta e poucos anos, tem algum momento que tu consideras mais marcante?
Acho que o mais marcante foi aquela exposição “Percurso do Artista” (promovida em 2012 pelo Departamento de Difusão Cultural). Ali foi algo muito importante… E também as possibilidades que a Universidade me deu de fazer o Mestrado e, mais tarde, o Doutorado fora do país. Poder ir lá estudar, ter uma outra vivência e trazer esse aprendizado, transmiti-lo para os alunos.

Nos dias de hoje, em tempos difíceis, às vezes parece que a arte fica em terceiro plano. Mas, na verdade, é nesses momentos que a gente precisa da arte, para poder ver as coisas de uma outra maneira, encontrar caminhos

Como é ver e poder participar do projeto Ponto UFRGS, com obras tuas estampando cadernos e outros produtos institucionais da Universidade?
Eu acho que é uma questão de colocar a obra noutra superfície, porque às vezes o próprio quadro, a pintura que eu faço, acaba indo para as casas de determinadas pessoas, ou para uma galeria, uma coisa assim. Muitas vezes não há esse acesso direto que existe em um produto, algo que vai para casa das pessoas também, mas de outra maneira. Acho legal isso, é bom ter essa experiência.

Estamos vivendo tempos muito turbulentos. Qual o papel da arte no tempo atual? Quais tu consideras os mais importantes?
A arte tem um papel político. Até mesmo esse deslocamento da arte pra outros tipos de superfície ou de lugar como, por exemplo, esses produtos, é uma questão política, pois a arte vai sair do espaço dela e ocupar outro tipo de espaço. Nos dias de hoje, a arte, serve como uma espécie de reflexão sobre o que está acontecendo. Como diz o título da exposição, a arte é uma espécie de um espelho daquilo que nos circula. Nos dias de hoje, em tempos difíceis, de turbulências, principalmente na economia e na política, no momento atual do Brasil, às vezes parece que a arte, por ser algo, digamos assim, “supérfluo”, parece que fica em terceiro plano. Mas, na verdade, é nesses momentos que a gente precisa da arte, para poder ver as coisas de uma outra maneira, encontrar caminhos. As pessoas consomem arte porque gostam e querem levar pras suas casas. Atualmente, se torna ainda mais difícil viver desse tipo de arte que eu faço, por exemplo, a pintura de cavalete, que é voltada para a pessoa ter em casa um quadro. No meu caso, como eu tenho outra ocupação, que é a Universidade e o ensino, isso não me atinge tanto, mas eu fico pensando em outros artistas, que vivem disso, e vejo que o mercado de arte fica muito encolhido, porque as pessoas não tem mais dinheiro pra comprar arte. Nesses momentos, eu acho que é importante a arte encontrar outros canais possíveis pra atingir um público. A gente vive hoje uma grande revolução na questão da comunicação, por exemplo, a comunicação digital, toda essa revolução…

A arte é um meio de comunicação, é a maneira como os artistas representam suas inquietudes. Com todas essas redes sociais e com todas as possibilidades que o meio digital permite, a arte pode ter um alcance muito maior

Isso influencia nas artes também?
Claro… A arte é um meio de comunicação, é a maneira como os artistas representam suas inquietudes. Com todas essas redes sociais e com todas as possibilidades que o meio digital permite, a arte pode ter um alcance muito maior. Uma maneira de, digamos assim, substituir esse antigo padrão da pintura tradicional de cavalete é a utilização desses novos canais, das redes sociais. Para mim, isso modificou muito a inserção e o conhecimento da obra. E mesmo o aspecto crítico, de como a obra de arte vai se comportar nesses momentos de forma mais crítica, mais sutil, não tão direta. Agora, tivemos toda essa polêmica recente envolvendo a exposição Queer Museum, que mostrou isso, o aspecto político da arte. A arte tem seu papel em determinados momentos, e esse é um reflexo disso. Mesmo uma discussão política envolvendo a arte, com as redes sociais e com a difusão disso, adquire outro sentido, que talvez não tivesse sem isso. Então é importante a gente pensar no papel da arte, hoje, nesses tempos de desmaterialização da imagem, de possibilidade de transporte dela de outra maneira, de um lugar pra ouro, de instantaneidade da imagem. Mas sempre tem essa questão da presença física da obra, a pintura tem essa coisa da matéria, do físico. E, nesse mundo digital, ela perde isso. Mas, enfim, acho que uma exposição como essa, tradicional, embora digam que a pintura tenha morrido (risos), é importante. As pessoas, quando estão na frente da obra, podem ver de perto, ter uma relação com ela que não teriam na rede social.

Como a tua atuação como professor nesses anos todos interferiu, se é que interferiu, na tua arte, na arte do Eduardo?
A atividade docente é uma atividade de troca: convivo com alunos por todo esse tempo, há quarenta anos. O trabalho que eu faço em atelier é mais de pesquisa, sobre os materiais, a própria pintura em si, o processo de pintura. E isso eu transmito pros alunos. Em contrapartida, recebo deles outro tipo de informação, outras questões… então, é um processo de retroalimentação. Transmitimos alguma coisa para os alunos, um projeto de pesquisa nosso particular, e eles nos transmitem algumas coisas que são as inquietações. Eles também são uma espécie de espelho do mundo. Essa questão de espelho também tem a ver com a atividade do artista e professor, do artista docente, que passa os conhecimentos que adquire na sua vida de pesquisador e recebe também muitas coisas dos alunos. Pode ser alguma coisa abstrata, que eu não vou saber dizer exatamente o que é, mas essa vivência do dia a dia com os alunos recebe muita coisa. Isso acaba se refletindo no processo da obra.

Transmitimos alguma coisa para os alunos, um projeto de pesquisa nosso particular, e eles nos transmitem algumas coisas que são as inquietações. Eles também são uma espécie de espelho do mundo

Passada essa exposição, que é teu presente, o que tu estás planejando para o futuro? Tem alguma coisa em mente?
Continuo sempre aqui na atividade de atelier, na pesquisa e no trabalho. Eu tenho, esse ano, ainda mais uma exposição além dessa na UFRGS, mas o meu projeto é esse: continuar fazendo o que eu sempre fiz aqui. Utilizar o atelier como uma espécie de laboratório, embora eu tenha, também, me interessado nos últimos tempos mais por essa questão das imagens numéricas, do digital, explorando também essas possibilidades. Porque pintura é uma coisa única, uma peça única, em princípio, e que demora pra ser feita. Às vezes demora um mês para fazer um quadro. No fim, esse quadro vai lá para a casa das pessoas, como alguém que me compra eventualmente um quadro, e vai pra uma galeria ou museu e acaba ficando restrito. Então, essas outras possibilidades, como esse projeto da Pró-Reitoria de Extensão, é uma possibilidade de expansão desses limites da arte, de sair um pouco desse assunto muito fechado, essa relação entre o artista e aquele que recebe, por assim dizer, o observador. Eu tenho entrado um pouco mais nisso, trabalhado no meio digital, difundindo meu trabalho por meio das redes sociais, e isso tem também me oferecido novas possibilidades. Tenho também participado bastante de encontros com alunos, não apenas da Universidade, mas de primeiro e segundo grau. Os que me chamam pelo meu trabalho tem certa empatia, um público mais puro. Eu acho que essa inserção na web ajuda muito nisso, a expandir, tornar mais conhecido o trabalho. É por aí mais ou menos.

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