Em um mundo que, diariamente, colide consigo mesmo e em uma realidade tão freneticamente instável, dois elementos sempre foram hábeis na arte de absorver a existência humana e suas nuances, extraindo dessa absorção alguma forma de reflexão: a música e a dança. A música com sua capacidade sem-par de levar o físico, o material, rumo ao invisível, transformando-o em notas de uma canção, em símbolos de uma partitura. A dança, por sua vez, com sua natureza móvel, instigadora, potente o suficiente para transformar a menor partícula vivente em puro e visceral movimento.
Não à toa os musicais se sobressaíram nas últimas décadas. Não à toa os teatros do mundo inteiro, os espaços de variados tipos, assistiram uma tomada de assalto por obras como The West Side Story, Hairspray, Rent, Six, ou, mais recentemente, Hamilton: An American Musical. É a elevação de potência na dose correta, a mistura promissora de artes extraordinárias. Se a interpretação, realizada em um teatro ou em um estúdio, bem feita e conduzida, tem como garantia o poder de chamar a humanidade para discutir o que lhe constitui e atravessa, uma boa interpretação, cercada por músicas e pelo movimento de corpos, ganha contornos sublimes. O modelo perfeito. Um Show de Rock y Horror, estágio de atuação de Renata Daneluz junto ao Departamento de Arte Dramática da UFRGS, sabia disso.

Ao ingressar na Sala Qorpo Santo, situada no Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, naquela quinta-feira de clima ameno e de conversas soltas, restou clara e evidente a consciência, pelo elenco da obra, acerca dessa verdade. Cada aspecto do ambiente fora confeccionado a partir da noção de que, ao menos por algumas horas, no campo diegético, o palco iria se converter em uma pista de dança e nós, transfigurados na persona dos espectadores desse mover quase comunal.
As luzes, vacilantes, escassas para um turno, no qual, segundo a liturgia da iluminação cênica, demanda-se volume e não economia. O figurino, uma ode ao passado e ao presente, costurado em honra às matinês de cinema, que, a partir do momento onde existiam, contavam sobre o que já fora, como uma espécie de túnel do tempo. Por fim, a banda. Uma banda inteira, ao vivo. O lembrete máximo de que o som rítmico e organizado dominaria o léxico ao longo da noite.
Era uma aposta. Uma grande aposta, nesses elementos e nos seus efeitos positivos. Uma aposta cujo resultado, tão desejado, já florescia ao término da primeira música: o arrebatamento do público. Quando a canção, uma versão modificada da celebrada Time Warp, despedia-se, o público respirava pesado, ansioso, em transe. O modelo perfeito mostrava a razão de sua perfeição.
Porém, modelos perfeitos são modelos. São arquétipos, tipos ideais, sistemas de atuação abertos, espaços desenhados de circulação livre. Sua perfeição decorre da presença e posição de certas características. No caso dos musicais, entende-se essas características como uma boa canção, uma boa voz, uma boa dança. Indo além, é preciso, também, de linearidade, de coerência, de organização, de semiótica. E tudo isso, em uma última análise, carece de seres humanos, atentos, dedicados, cuidadosos, comprometidos. Seres que fitem com olhos de quem vê o texto e seus meandros. Seres que compreendam o indizível por trás da dramaturgia, mesmo a dramaturgia estabelecida entre acordes e pliés.
Parece exagero, entretanto, como dito, modelos são apenas modelos, por mais perfeitos que sejam. O uso errado de um modelo desarticula sua essência e anula qualquer resultado positivo. E não falamos de verossimilhança, que é quando defende-se a predominância ipsis litteris de uma obra. Há covers, adaptações extraordinárias de muitos textos. O problema não está nesse ponto. Até um cover é capaz de cumprir a função-mor de uma dramaturgia ao mobilizar corretamente as características do modelo. A necessidade posta é a de sempre lembrar que é preciso mobilizar corretamente, de fazer um bom uso dos componentes do modelo. Do contrário, de nada adianta referenciar uma produção com recortes de um passado extasiante, pois, no final da noite, quando a última canção irradiar do sistema de som, o produzido apenas será mera cópia do que já não habita a realidade contemporânea.
Outra aposta certeira de um Show de Rock y Horror.
O grupo demonstrava uma consciência de que, para alcançar a proposta, precisavam tomar para si as características do sistema, apropriar-se do modelo. Cada cena traduzia esse clamor do elenco. Era como assistir uma batalha sendo desenvolvida diante dos nossos olhos. Cada palmo do chão sendo buscado ansiosamente, sem reservas. O compromisso pela vitória pairava no ar. E eles venceram.
Um Show de Rock y Horror tomou as rédeas, as regras, brincou com elas, brincou com tudo. Com um grande elenco e uma invejável organização, demonstrou capacidade de articular-se com o modelo e o rearticular, se fosse necessário.
Ao fim e ao cabo, todos nós fomos absorvidos pela obra. Quando atravessamos as portas da Sala Qorpo Santo rumo a noite, atravessamos em plena combustão, refletindo sobre nós, sobre o outro, sobre cada nota do repertório que, estranhamente, contava a nossa história.

Ficha técnica
Direção: Juliano Rabello
Dramaturgia: Juliano Rabello e Renata Daneluz, inspirada em “Rocky Horror Show” musical de Richard O’ Brian
Elenco: Aline Centeno, Ana Clara Lauffer, Anderson Likoski, Douglas Lunardi, Eduardo Cassimiro, Jennifer Franco, Júlio Carissini, Renata Daneluz, Teti Tedesco
Orientação: Gisela Habeyche
Iluminação: Henrique Strieder
Cenografia: Tony Franco
Indumentária: Aline Centeno, Jennifer Franco, Teti Tedesco e Renata Daneluz
Maquiagem e Identidade visual: Teti Tedesco
Trilha sonora: The Phantoms
Operação de luz: Henrique Strieder
Direção coreográfica: Aline Centeno
Direção musical, preparação vocal e versão brasileira: Jennifer Franco
Qorpo Qrítico – Vol. 05, n. 12, março a julho de 2023. ISSN 2675-4207.
