Dialética do protagonismo

O estágio de atuação de Júlia Terra, sob orientação da prof Cris Werlang, traz uma livre adaptação de “A ópera dos três Vinténs” de Bertold Brecht. “Novelinha dos três cruzados” é uma obra escrita por Ayra Oak, nela Mariana Anaconda (Júlia Terra) é uma líder sindicalista que ajuda duas costureiras (Alycia Cavalli e Valentina Reis) a lutar por condições dignas de trabalho na Fábrica “Nunes, Nunes & Nunes”, que é comandada por ninguém menos que: Sr. Nunes (Damiel Brocker). Uma figura interessante é a de Fulano (Laura Mallmann), uma personagem dicotômica e apaziguadora que se sensibiliza com os empregados mas precisa ser bem quista pelo chefe. Mesmo percebendo que Nunes a desumaniza, vide nem saber seu nome, Fulano está como uma secretária/assistente/braço direito, fazendo a mediação entre as reivindicações dos funcionários e as negativas do patrão. Já quem media a relação da trama com o público é a radialista (Pâmela Walter), sua energia e bom humor contrastam com a dura realidade narrada. 

 

Tudo acompanhado por uma banda afiada formada por Francisco Cezimbra, Kelvin Machado e Rafael Giacomazzi. Além da trilha original, síncrona e precisa, muita coisa chama a atenção. O senhor Nunes que é irônico e irritante com sua nítida alusão às repetições e privilégios em cargos de liderança. Já a jornada das costureiras personifica a mecanicidade e, posteriormente, a retomada ânimo e identidade com a chegada da revolução.

 

Fulano se destaca, é a única personagem que passa por dilemas e fortes transformações. Gera empatia no público com sua jornada do heroi, pois abre mão de pequenos privilégios individuais em prol do coletivo e conta em detalhes seu dilema quando quebra a quarta parede. Inicialmente fico com a sensação de que Fulano tem um protagonismo por emocionar a plateia. 

 

Mas questiono, como seria o protagonista de uma peça como essa? Fulano tem a sua trajetória comovente, mas não provoca tantas surpresas. Já Mariana Anaconda, a ativista, entra em cena lançando um olhar sobre os impactos que as decisões do Sr. Nunes geram no coletivo. O ativismo me soa como uma sugestão para organizar nossos sentimentos em prol de uma ação. Mariana traz mudanças na linguagem, ritmo, perspectiva, e é o elemento que faz dessa peça uma batalha de ideias, causa um outro tipo de comoção.

 

De qualquer forma, a montagem usa de diferentes meios para divertir, cativar, informar e questionar. O protagonismo está no conflito de ideias, tanto na “revolução versus conciliação”, quanto em refletir sobre os elementos da peça em si.

 

 

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 18 – abril a julho de 2025. ISSN 2675-4207