
Eu adoro um bom segredo.
É. É algo estranho de se dizer (nesse caso, escrever), eu sei.
Como alguém pode gostar de algo cuja existência está alicerçada na ocultação de uma informação? Tendo em vista nossa sociedade e o papel da verdade nela, não seria, pelo menos, equivocado?
Mas deixe eu explicar antes de qualquer coisa: eu gosto da mítica do segredo.
Lembro-me, com a vivacidade digna do hoje, dos tempos em que assistia desenhos sobre mistérios. Na mesma medida, recordo perfeitamente a textura das Revistas Recreio, da editora Abril, com temática de investigação mesclada à aventura.
Um segredo é um universo em si. É enorme. É potente. É um cosmo inteiro.
E decifrar ele é igualmente singular. É como vislumbrar uma máquina, desmontar ela e perceber, com mais certeza, o quanto a máquina é bela. É uma forma de reiterar o poderio revolucionário do segredo. De reforçar sua verdade e matéria.
Não à toa, quando soube da possibilidade de assistir à apresentação do estágio de direção de Savana Ferreira, decidi que tornaria ela real. Savana era e continua sendo um dos maiores segredos do Departamento de Arte Dramática. Uma força viva que transita entre os espaços do prédio, dirige com um talento único e pouco explica sobre si mesma.
Como discente do DAD, seu colega, e bolsista no Setor de Reservas do departamento, tive o privilégio de conhecer Savana e suas empreitadas. Com a distância que caminhos e ênfases distintas promoviam, é claro, mas próximo o suficiente para estabelecer seu talento para a direção como o mistério que queria desvendar.
As apresentações do estágio ocorreram entre os dias 03 a 05 deste mês, na Sala Qorpo Santo, no Campus Centro da UFRGS. Com um elenco composto por Elaine Patrícia, Fernanda Fiuza, Gabriel Lobato, Bianca Cruz, Lisiane Brandt (também atuante na Iluminação) e Lucas Galho, o musical, além da direção, contava com Savana Ferreira na dramaturgia e na iluminação – em co-atuação direta com Lisiane Brandt. Outros nomes compuseram a equipe da peça: Tito da Rosa (Cenografia), Maria Ferreira (Indumentária), Gabriela Fernandes e Sofia Sol (Criação musical), Pedro Dargen (Concepção Musical), Leonardo Mello (Operação de Luz), Roberta Eltz (Operação de Som) e Gabrielle Araújo (Arte Gráfica).

Orientada pela Profª Drª Celina Alcântara, a obra possuía um enredo até simples: uma avó (Zulmira) e uma neta (Dandara) dividiram uma relação afetiva próxima, doce e forte. Quando a avó desaparece, Dandara, com a ajuda de um misterioso e errático amigo, embarca em uma aventura para encontrá-la e trazê-la de volta.
É familiar. Eu sei. Não vou negar. O imaginário coletivo mundial está preenchido até as tampas de histórias assim: da busca por um ente desaparecido e o ingresso em uma aventura subsequente. E Savana sabia disso e sabia, também, o quanto essa questão lhe era necessária.
A história, porém, ganha um tecido a mais quando vislumbrada pela perspectiva da ancestralidade e da conexão com a natureza. Nesse prisma, tanto faz se antes escreveram histórias similares, Avó Zulmira e o Segredo Mágico ganha originalidade e relevância, movendo-se para longe dos clichês e adentrando o Panteão das obras teatrais sem-par.
Outro aspecto que realçava sua potência estava na construção diegética.
A atuação funcionava como uma máquina – bem azeitada e precisa – em consonância estrita com a cenografia e com a iluminação. Dandara e Lupi transitavam entre realidades com tamanha fluidez e velocidade que até Platão sentiria inveja, créditos que dedico à capacidade da direção em forjar a montagem e da iluminação em transportar todos para os espaços desejados. Os dois cenários (o mundo normal e a floresta mágica – a savana africana) pareciam conectados e distantes, qual dois vizinhos que habitam o mesmo quadrante. As músicas, por sua vez, tinham hora e momento certo. Eram suplementos a narrativas e não personagens autônomos – o que normalmente ocorre e configura um erro comum em musicais.

Por consequência, eu vibrava a cada passo de Dandara e de Lupi, seu amigo errático. Cada movimento. Cada novo local. Cada novo personagem. Cada nova música. Não houve espaço para tristeza, exceto quando o fim sobreveio – a única menção negativa que faço, pois a peça teatral tinha potencial para ir mais, por mais tempo.
Quando a peça terminou, como muitos, eu estava de pé, aplaudindo, desejoso em retornar a savana africana, ao lado de Dandara e de Lupi, abraçado pelo carinho de Zulmira.
Ah. E o segredo?
Bem lembrado.
Sobre o segredo, eu confesso uma gafe: esqueci de desvendar.
A aventura me tomou. Me desnorteou.
E, talvez, nem fosse necessário desvendar.
Pois o Segredo de Avó Zulmira está diante de nós e entre nós: chama-se Savana Ferreira.

Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 18 – abril a julho de 2025. ISSN 2675-4207
