PERIGOSO É NÃO SE LEVANTAR

 

Foto: Giuliano Lucas.

 

Já era madrugada quando abri o arquivo no computador para continuar a escrita desse texto. Ao lado do arquivo aberto, uma nova aba pesquisava escritos de uma mulher que me era, até então, pouco conhecida. “Você pode me riscar da História, com mentiras riscadas no ar. Pode me jogar contra o chão de terra, mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar”. As palavras emergiam de um poema da doutora e multiartista norte-americana Maya Angelou (1928-2014), referência na luta pelos direitos civis da população negra. Nascida em Saint Louis, Missouri, Maya Angelou consagrou-se como uma artista polivalente, trabalhando com teatro, cinema, televisão e dança, além de ser autora de uma série de livros reconhecidos internacionalmente e ter trabalhado como professora de História na Wake Forest University. Usando a poesia como método de emancipação política, Angelou levou a voz dos oprimidos (e todas as suas belezas silenciadas pelo poder instituído) aos ouvidos dos mais diferentes países e grupos sociais, imprimindo complexidade aos debates raciais ao ultrapassar barreiras geográficas e possibilitar novas narrativas acerca das questões identitárias.

Cheguei até Maya Angelou por meio da menção de uma amiga, Silvana Rodrigues, atriz e diretora de Teatro, que a citou como uma de suas referências fundamentais na construção de sua peça de conclusão de curso, no ano passado. Perigoso, espetáculo apresentado na Mostra do Departamento de Arte Dramática da UFRGS, em novembro de 2019, é, de fato, um trabalho por onde perpassa muito a voz, a luta e a escritura poética de Maya Angelou. Mas não só. Trata-se de um trabalho intenso, apurado, por onde ecoam diferentes vozes, dores, essências e experiências de si e do outro, sempre pautadas pelo olhar sensível da equipe e de uma direção preocupada em estabelecer um movimento de troca entre o ator em cena e o público que o assiste, sem que esse público seja passivo ou indiferente ao que é discutido.

Perigoso, espetáculo resultante dos estágios em Direção e Interpretação Teatral de Silvana Rodrigues e Fabrício Zavareze, respectivamente, é um trabalho necessário. Mas, além disso, é um trabalho que sabe, por si mesmo, da importância de sua necessidade, de sua função e de sua existência. E, sabendo-se importante (e de fato sendo), ressignifica discursos e leva para a cena signos, imagens e situações que reverberam profundamente o sentido ilimitado de se produzir e se fazer Teatro. Digo isso, porque trabalhos como Perigoso redimensionam a lógica cênica ao levar para o palco questões que vão além da peça em si, sendo, contudo, Teatro em todos os seus sentidos. E Perigoso faz desse espaço, o do Teatro, uma construção inteligente de possibilidades muito bem articuladas para dar conta do tanto que precisa ser dito pelos artistas que o realizam – e o fazem de maneira profundamente singular nas questões plurais que abordam.

Já no início do espetáculo, quando o público está adentrando a sala, uma grande cruz pendurada na parede, ao fundo, impele o nosso olhar. E impele porque sabemos que uma imagem tão forte não estaria ali por acaso. E, diante daquela cruz que preenche o espaço, esperando o espetáculo acontecer (mesmo sabendo que ele já acontecia), o meu olhar se dirigiu para a imagem e o inevitável conteúdo simbólico nela contida. Lembrei-me de histórias, situações, polifonias discursivas e silêncios diversos. Estavam todos ali, dançando, ainda que não verbalizados. Lembrei-me que, durante a minha infância, abundaram histórias sobre a face benéfica do Cristo crucificado, mas também da natureza do mal a ele imposto e a funcionalidade da justiça eterna presente no inferno. “Deus fez homem e mulher, macho e fêmea”, “Deus ajuda quem cedo madruga”, “A recompensa virá no reino dos céus aos obedientes”, “Cada um tem o seu lugar na terra e é assim que deve ser”. As histórias que o ator contava em cena, inevitavelmente se misturavam com as minhas e com tantas outras ali presentes. Durante toda a peça.

Sentado no Teatro diante daquela cruz, lembrei-me de inúmeros discursos, vozes, sujeitos e grupos sociais. Narrativas sobre a natureza pecaminosa da homossexualidade, por exemplo, eram recorrentes no meio em que eu vivia. Mas não só. Também eram abundantes os discursos sobre a cor da pele e o lugar social instituído por essa característica. Sobre a inferioridade física e intelectual da mulher. Sobre a necessidade do suplício. Sobre a inevitabilidade do fracasso de todo aquele que não seguisse os desígnios divinos de uma pretensa lógica onipresente no mundo. Era perigoso fraquejar diante da ordem instituída. Era perigoso se render às vontades exteriores ao que sempre nos disseram ser o correto, o legítimo, o bom e o aceitável. Havia um padrão de vida a ser seguido e, consequentemente, uma conduta a ser corrigida todos os dias. E isso, certamente, afetava a todos e todas, ainda que indiretamente. Negros, mulheres, gays, travestis, indígenas e os ciganos que todo ano acampavam em um campo aberto próximo da casa onde eu morava: todos esses sujeitos eram responsáveis por sua dor e pelo lugar que ocupavam no mundo. Era perigoso ressignificar. Era perigoso subverter. Sentado no Teatro, assistindo Perigoso, pude lembrar disso.

Volto para o espetáculo. Ali, diante da cruz, o ator entra em cena e é afogado em um balde d’água. Uma. Duas. Três vezes. Tenta falar algo, mas o fôlego lhe falta. Fabrício Zavareze interpreta a si mesmo? Estamos diante de um ator ou de um personagem sendo afogado, preso, violentado? Há uma permissividade dramática nessa ação constante? Em um primeiro momento, tentei realizar, como diretor e dramaturgo, uma leitura prática da cena e de como ela se ligaria ao que viria em seguida. Dei-me conta logo a seguir, no entanto, que essa certeza não importava tanto assim. O todo que logo nos seria apresentado era muito maior. E a não importância dessa certeza residia justamente no fato do simbólico ser tão forte e a situação tão expressiva que ali poderia estar o Fabrício ator ou o Fabrício personagem: o impacto seria praticamente o mesmo. Vivemos em uma sociedade que afoga sujeitos, diariamente. É preciso lembrar-se disso e levantar para respirar.

Personificados que somos a vida inteira pelos poderes, também nos moldam os discursos e as representações sociais que ditam o caráter da realidade concreta na qual estamos atrelados. Do meio circundante que afeta decisões, performances, olhares e recuos. Do preconceito, do medo, da visibilidade ou invisibilidade diária que nos ronda. Ser afogado, na cena inicial, torna-se, assim, um simulacro do racismo, da homofobia, da instabilidade política que não escolhemos viver, mas sob a qual somos esmagados historicamente. A força motriz propulsora da segregação é, em muitos casos, aquela que se esconde onde na maioria das vezes nega estar: na construção de um personagem negro pautada no estereótipo; na fala de um acadêmico que desqualifica certas produções de acordo com o seu entendimento de “relevância intelectual”; no Teatro branco e europeu que dizemos ser universal, mas não é, pois não agrega a todos e todas. Portanto, assistindo ao espetáculo e me encontrando diante de um público diverso, sabia estar assistindo a um solo, uma espécie de monólogo, mas que trazia muitas vozes e histórias em sua configuração cênica do início ao fim. Como a obra de Maya Angelou.

Ao longo da peça, a atuação de Fabrício Zavareze, somando-se com as escolhas precisas da direção de Silvana Rodrigues, nos fornece um apanhado de situações, histórias e ações que ramificam e discutem lugares socialmente demarcados a partir de diferentes possibilidades de linguagem. Ora com momentos cômicos e leves, ora expondo os fatos de maneira mais incisiva, Perigoso fala dos racismos e das violências diárias que permeiam um tecido social onde todos estão incluídos – mesmo os excluídos – embora de formas e em lugares diferentes. Com uma dramaturgia construída durante o seu processo de ensaio, a peça estabelece uma ligação direta com o espectador ao quebrar a quarta parede praticamente o tempo inteiro, falando diretamente com o público sobre os assuntos abordados através de uma atuação muito bem colocada e da presença enérgica e cativante do ator, que preenche cada especificidade que o texto pede. Desse modo, tanto a plateia racializada como a não racializada, percebe onde o espetáculo quer chegar – e, principalmente, onde ele de fato chega. Ninguém sai passando mal do Teatro, mas certamente todos saem refletindo sobre o que assistiram.

Assim, mesmo com o uso de alguns recursos clichês em sua composição e elementos amplamente utilizados em peças solo, tais como o uso do microfone, a configuração de um programa de auditório, o ato de pergunta do artista e de uma subsequente resposta do público, bem como a busca por um espectador para ir até o palco “ajudar o apresentador”, Perigoso consegue transpassar sua essência reflexiva para quem assiste, sem cair no marasmo comum a esse tipo de “encenação show”. Trazendo as vivências dos artistas envolvidos na montagem, sem ancorar-se apenas em suas dores (mas falando inevitavelmente nelas), a peça consegue ser leve, engraçada, e, ainda assim, adentrar profundamente naquilo que quer discutir. Como na cena onde o ator utiliza uma repetição de linguagem, dizendo chegar à sua “afrocasa” para tomar o seu “afrobanho”, pegar o seu “afrocaderno”, etc., como meio de ironizar o fato de que, em um país racista como o nosso, a cor da pele parece estar sempre à frente dos elementos artísticos que compõem o seu trabalho. Ele percebe isso o tempo inteiro. Nós que perguntamos percebemos?

Perigoso é daquelas peças onde não é possível destacar uma cena, pois todas são inevitavelmente importantes. É como um álbum musical contemporâneo de um artista negro ou lgbt, onde se diz tanto sobre tudo o que se calou durante muito tempo, que destacar uma faixa representativa do todo é tarefa das mais difíceis. Como em uma cena da peça, onde o artista negro, pobre e filho de trabalhador, não consegue escapar do que precisa dizer e, ainda assim, não obtém compreensão efetiva de uma sociedade discriminatória e de racismo velado, onde brancos ainda detém grande parte da fala, dos espaços de poder e dos meios de produção artísticos. É “arte negra” porque a cultura brasileira historicamente legitimada demarcou a diferença na classe, no discurso e na criação artística pautando-se na cor da pele. É “arte negra” porque ainda lhes falta espaço e representatividade. É “arte negra” porque precisa ser.

Assistir um trabalho tão contundente como essa peça, nos faz questionar sobre o quão perigoso é atentar contra tudo o que está estabelecido. Maya Angelou sabia disso e os artistas de Perigoso, ao falar sobre o que os alimenta e os move, sabem também. É perigoso se colocar, transgredir, imaginar outras formas de cantar, se relacionar, fazer Teatro. É perigoso estabelecer novas narrativas, possibilitar novas visões em um mundo tão acostumado a agarrar-se em velhos padrões de conhecimento, discurso e comportamento. A plateia racializada entende de imediato o espetáculo, porque é sua pele que transpira em cada uma das cenas. Minorias políticas talvez se identifiquem com algumas ações e falas do ator porque sabem identificar o ruído do preconceito e da exclusão. Porém, é sempre perigoso falar e lidar com o outro lado: aquele que bate e esconde a mão. Mais perigoso que isso, no entanto, é não se levantar para dizer tudo o que precisa ser dito.

E Perigoso diz muito, ressignificando o que precisa dizer da melhor forma possível.

 

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Ficha Técnica

Direção: Silvana Rodrigues

Elenco: Fabrício Zavareze

Dramaturgia: Fabrício Zavareze e Silvana Rodrigues

Figurino: Fabrício Zavareze

Criação e Operação de Luz: Kevin Brezolin

Trilha Pesquisada: Silvana Rodrigues

Operação de Som: Eslly Ramão

Contrarregragens Cênicas: Thainan Rocha

Produção: Silvana Rodrigues

Orientação: Henrique Saidel e Ana Cecília Reckziegel

 

 

 

Qorpo Qrítico – Vol. 02, n. 03, fevereiro a maio de 2020. ISSN 2675-4207.