AMALUCAR AS CONVENÇÕES

 

Foto: Renata Lorenzi e Vivian Azevedo

 

Este texto é escrito pelo fio da navalha (ou melhor, pelo tubo de ensaio) que me atravessa logo após assistir a um espetáculo infantil realizado nestes tempos pandêmicos que estamos vivendo. Quase sempre deixo as peças que assisto reverberando por uns dias em minha memória, dialogando com outras referências sobre os assuntos abordados em sua dramaturgia para, só então, sentar e escrever. Curiosamente, Invenção Amalucada, trabalho apresentado na Mostra DAD 2020, me fez querer escrever imediatamente após o seu término na tela – sim, na tela, pois estamos falando de um Teatro feito exclusivamente para o meio digital, como todos da Mostra, inclusive. Talvez porque, assim como a própria natureza da produção que acabo de assistir, estamos vivendo, escrevendo, atuando, dirigindo e nos relacionando com nossas criações de modos diferentes dos métodos que sempre fizemos; estamos abrindo fendas, ressignificando as trocas. E, como acredito que escrever a respeito do trabalho de colegas seja sempre uma troca, essa, em especial, me levou a sentar e refletir neste momento imediato pós-espetáculo. Existem coisas importantes a se dizer. Agora.  

Invenção Amalucada não tem grandes novidades em termos de uso do meio digital como dispositivo de criação, se levarmos em conta os trabalhos cênicos produzidos ao longo da pandemia. Alguns de seus recursos são o uso do YouTube para exibição da peça, a conversa com o público internauta conclamando-o a participar das ações e o híbrido entre a performance ao vivo das atrizes com o material previamente gravado. Porém, é um trabalho que me toca em outro ponto, talvez em um daqueles pontos que o próprio Teatro feito para a infância e juventude fora do ambiente virtual é capaz de me tocar com veemência: na importância de suas discussões com o público infantil (afinal, ainda que eu não tenha visto interação direta com crianças na apresentação, trata-se de um produto destinado a elas). 

A peça já começa com uma cena bastante emblemática, neste sentido: as três personagens, Mari, Lili e Aziza – muito diferentes entre si, mas cativantes ao seu modo em suas personalidades – questionam a voz narradora masculina que está falando por elas. Afinal, se elas estão ali e podem contar a própria história, porque um homem precisaria contá-la? Esse questionamento sobre o espaço de fala e a projeção da voz- individual e social- nos remete ao exercício de constante negação da potência criativa da criança pelo mundo adulto, mas também ao próprio silenciamento da voz feminina em diversas situações incursas em um mundo extremamente machista e desigual. O interessante, nesta direção, é que o desenrolar dessas questões na narrativa inserem-se em um contexto onde as três meninas protagonizam a sua aventura em busca das próprias respostas para uma pergunta bastante singular (e, infelizmente, ainda necessária): se existem tantas mulheres incríveis no mundo, sendo destaque em todas as áreas, porque os discursos e as práticas insistem em inferiorizá-las?

Tudo começa quando Mari encontra um livro chamado O Livro para Garotos, que traz afirmações enfáticas como o fato do masculino ser um gênero superior, que as mentes dos homens são naturalmente brilhantes e que, desde a antiguidade, os homens superam as mulheres em áreas importantes como a científica. Com o sonho de ser uma grande cientista, Mari fica decepcionada com as afirmações contidas na obra, e, junto com Lili e Aziza, decide buscar uma forma de entender o porquê das mulheres serem consideradas inferiores, a fim de ultrapassar as possíveis limitações dessa afirmativa. É aí que a menina cria a fabulosa fórmula encolhedora, levando o trio para dentro do corpo humano- o corpo de sua mãe, uma cientista- na busca por evidências que possam responder se meninos e meninas diferem tanto assim em suas potencialidades. 

Nessa jornada pelo interior do corpo humano – com direito a rap oferecendo balas para as papilas gustativas e disfarce de açúcar para furtar células-tronco – as personagens  transitam por diferentes questionamentos e situações que nos mostram o completo oposto do que o Livro para Garotos professa: não apenas as meninas são capazes de compor experimentos inteligentes para a resolução de problemas – característica indispensável para ser uma grande cientista – como também se colocam imersas em uma grande aventura, provando que não só aos meninos é reservado o aspecto da ação frente ao mundo, seja em qual for a história, lugar ou situação de adversidade. 

Sobre isso, uma das cenas mais bonitas é a chegada de Mari, Lili e Aziza ao cérebro (através da coraçoa, que seria o coração no feminino), com o uso de pisca-piscas para simbolizar os neurônios (em uma estética híbrida do teatro com o audiovisual belíssima) e de fotos para representar a memória da mãe. Lá, Mari tenta encontrar alguma evidência que prove a inferioridade do cérebro das mulheres em relação ao dos homens, para, futuramente, “corrigir” esse “erro” e ser uma grande cientista. Porém, sem obter sucesso, a menina fica em dúvida quanto aos caminhos que deve percorrer. Mas, ao escutar, posteriormente, Lili citar nomes de grandes cientistas mulheres que podem ser equiparadas aos cientistas homens, Mari emociona-se ao perceber que, não apenas ela pode tornar-se uma grande cientista sem qualquer restrição cognitiva, como várias mulheres já tornaram-se antes dela. 

Assim, ao saírem do corpo da mãe da menina através de um espirro (com direito a cosquinhas imaginárias acionadas pelas mãos do público), o trio compreende que, para além de apreender as evidências científicas – importantíssimas para solapar certezas limitantes – também é preciso “amalucar” todas as convenções que reduzem um gênero a uma construção que não condiz com a realidade dos fatos. Ou seja, por todas estas questões levantadas durante a sua exibição, Invenção Amalucada é um trabalho que reverbera na direção de questionar protagonismo e ação, como forma de alimentar nas crianças a visão de que suas vozes são muito mais do que os tratados do mundo adulto descrevem, estimulam ou orientam.  Meninas têm voz. Crianças têm voz. E é preciso escutá-las.  

 

 

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FICHA TÉCNICA

ELENCO: Lali Garrido, Renata Lorenzi e Vivian Azevedo

DIREÇÃO: Guadalupe Casal

DRAMATURGIA: Guadalupe Casal e Lali garrido

PRODUÇÃO: O grupo

CONTRA-REGRA: Mariana Fernandes

ORIENTAÇÃO: Ana Cecília Reckziegel 

Estágio de Atuação de Lali Garrido, apresentado na Mostra DAD 2020.

 

 

 

 

 

Qorpo Qrítico – Vol. 03, n. 06, fevereiro a maio de 2021. ISSN 2675-4207.