Ou sobre o quanto as árvores podem
Então você entra e o cenário são móbiles gigantes formados por cabides, cordas, bambu e muitos brinquedos.
Nossa que lindo!
Digo eu, uma das primeiras a entrar. Então ouço minhas palavras ecoarem conforme os demais vão entrando, e as repetindo sem tê-las ouvido…
Fui pesquisar: Aptá é uma árvore utilizada para produzir cordas.
árvore de móbiles
Uma e também
uma árvore genealógica
contada somente
nos agradecimentos
depois
da peça: o filho (que inspirou),
o pai
(que perfoma)
e o avô
(que colaborou
com o processo).
A técnica do performer-bailarino se dilui… leve, acelerado e preciso – às vezes direto. às vezes indireto- ele se desloca com destreza enquanto desenha padrões com carrinhos… leve, lento e fluido ele conduz os carrinhos no ar com destreza…com peso forte, tempo acelerado e movimentos indiretos os joga pra cima e pelo espaço…. em pausas ele faz ver o desenho que se forma no espaço…como quando a luz encolhe, e você vê o rastro porque os carrinhos tem no teto aquelas estrelas de colar no teto do quarto e brilhar no escuro…. os carrinhos desenham o espaço.
Desenham e redesenham.
O
bailarino
desenha o espaço.
Desenha e redesenha,
e se desloca.
Com aqueles pés de dedos longos e abertos, com os braços de carrinhos enfileirados para os quais pede ajuda, olhos nos olhos ou curiosos no espaço, braços que lançam magia, explosões! Braços que viram árvore…. carrinhos que viram óculos, lunetas, foguetes, algo pra compartilhar: o Thomas!
Que ele entrega pro público e depois lembra de pedir de volta pra amontoar com os outros…
Dança com os gestos de uma criança irretocável desenhando o espaço em luzes, ou pilhas, fileiras e círculos de carrinhos, ou exploração dos brinquedos ali pendurados, sensações da pele e do sol, euforias, choros e risadas inocentes inerentes daqueles seres cujas emoções mudam num estalo. No corpo, na voz que também é corpo, no espaço…
Luzes que desenham o dia, a noite, as formas penduradas no móbile, ora luz , ora sombra, ora a projeção do menino que inspirou a obra com suas divergências, convergências e delicadezas selecionadas de forma a te fazer sentir a atenção e o amor no reconhecimento da beleza desses gestos.
Ao mesmo tempo em que você observa o movimento criativo de um pensamento que é movimento, uma dança que se monta no existir da atenção. De um lado a atenção de perceber, escutar e reconhecer essa potência. Do outro, desse lado que é a gente que vê, atenção aos desejos, medos, métodos… ao presente…e você se sente nesse lugar de novo. Um lugar por onde todos passaram (ou deveriam pode passar). Uma nostálgica exploração e reconhecimento das coisas e de você. Um lugar de curiosidade, de descoberta e de aconchego que também tem seus momentos de insegurança e dúvida.
Um lugar de verdade e sutileza com escolhas muito bem feitas por toda uma equipe que dança junto e assim o próprio bailarino reconhece (o que certamente faria minha colega Liana muito feliz.)


Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 18 – abril a julho de 2025. ISSN 2675-4207
