Nada como uma história real (nothing like a real story) para nos mover por dentro. Porque Muita Água é sobre isso. É algo que a gente viveu e todos tem algo pra falar a respeito: as enchentes de maio de 2024 em Porto Alegre. Fato. Verdade. Todos tem histórias pra contar sobre isso e geralmente começa assim: “minha casa não foi afetada, mas eu fui”.
E é assim mesmo que começa. Ou antes, com três performers, ou três pessoas que, como nós, conversam sobre isso com a plateia. E nos contam suas histórias – e outras tantas que nelas se subentende – nos emprestando seus corpos, vozes e inteligência. Nas escolhas, no texto-música, no excesso minimalista de entulhos, um soco … sutil (!?)
A gente sabe que a maioria das pessoas viveram coisas e que algumas outras tantas viveram de uma forma muito pior. E, quando a gente conta uma história – ou essa história, a gente conta ela com o corpo…with the body. Parece às vezes que no meio de tanto caos quando move muito dentro, move fora, move tudo, move não só o nosso corpo, move também muitos corpos. E, enquanto a gente vive uma tragédia, o mundo vive a notícia. The world lives the news.
Essa performance ecosomatica que enfatiza as consequências da emergência climática é deslocada para o palco. Parte dessa conversa que conversa com a gente e nos incorpora, assim como a fala, a fala do corpo, o corpo que sempre fala. E, nesses momentos extremos, que movem muito, é ele que expressa o tanto, o tamanho “assim ó”, o quanto: quantas perdas, quanta dor, quanta angústia, quanta inoperância, quantas interpretações massivas equivocadas ou fakes, quantos pix, quantas orientações desorientadas, corre pra lá, corre pra cá… quanta coisa pra compostar…
Dá pra visualizar?
Em meio a tudo isso, a essa materialidade que o espetáculo traz, cada frase solta nos púlpitos que parece piada rende cena mesmo. Quanta lama!
E o corpo chove, nada, boia, se esvai pelo ralo, dança. Sempre dança. E aqui dança uma história contada por nós, por muitos e para nós. Vendo as “news” dançadas é como se pudéssemos sentir aquele lugar do “what?”. Eles não sabem do que eles estão falando.
Eles não sabem o que realmente significa. E Muita Água ilustra esse non sense dos nossos (?)… símbolos (?)… aquela velha visão televisionada do “ser gaúcho”, o despreparo, a confusão e o descontrole que está ali também no corpo.
Essa tragédia que parece pilhéria, “real joke” … faz contorcer por dentro e chorar as águas: “não era uma boneca, era um bebê”. Por outro lado, as soluções apresentadas pelo governo estão na linha do: “é pra rir”? E bora todo mundo pra praia! que nem preparada está! …a performer e o guarda chuva? sol? The sun…e logo ali o outro performer nada nas costas da colega buscando resgatar pessoas que …
A minha casa não foi afetada, mas eu fui. Fui porque me afetei pelos outros, fui porque me envolvi com a situação, fui porque simplesmente observei tudo isso e fiquei chocada. E era tudo tão surreal que a própria peça vem tratar materialmente desses signos. Esse texto dançado diz muito do que eu vivi e que talvez mais de nós tenham vivido. E também do que vimos pessoas muito próximas viverem, se não fomos nós. Simples, direto e sem excessos espetaculosos. Trabalhados na galocha e na capa de chuva, como realmente foi.
Assim e na performance a enchente é contada pelo corpo. Voz também é corpo. E a luz se foi e voltou (pra encerrar) sem sabermos se isso é mesmo algo que somente passou como se fosse ontem.


Qorpo Qrítico – vol. 7, n. 17 – dezembro de 2024 a março de 2025. ISSN 2675-4207.
